quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

SÍNTESE HISTÓRICA DA HERMENÊUTICA

(parte III)

Notas de Aula

Silas Roberto Nogueira



A Idade Média
Para alguns a Idade Média foi um deserto sem proporções no campo da interpretação bíblica, para outros, no entanto, havia intensa atividade hermenêutica.
Atribui-se a João Cassiano (370-435) a famosa distinção entre os quatro usos das Escrituras chamada “quadriga” que de certo modo deu o tom da interpretação da Idade Média:
·         -- Histórico (literal) – o sentido óbvio do texto

·         -- Alegórico (cristológico) – o sentido mais profundo, que apontava para Cristo

·    -- Tropológico (moral) – sentido que determinava as obrigações dos cristãos e sua conduta

·         -- Anagógico (escatológico) – sentido que apontava para as coisas vindouras

Gregório, o Grande (540-604) – o primeiro papa da Igreja Católica Romana. Gregório fundamentava a sua interpretação da Bíblia nos pais da Igreja, especialmente Orígenes. Gregório se preocupava com o sentido moral das Escrituras. Suas palestras em Jó são caracterizadas por três níveis de interpretação, a literal, a alegórica e a moral. Jó 1:1-5 é o homem histórico, um homem de grande fé, mas seus sete filhos são os 12 apóstolos (chega-se a isso multiplicando-se 4 e 3), seus três amigos são hereges, as 7 mil ovelhas são os pensamentos inocentes, os 3 mil camelos as concepções vãs, 500 juntas de bois são as virtudes e os 500 jumentos, as tendências lascivas.

Bernando de Claraval (1090-1153)– escritor prolífico do séc. 11 era adepto da quadriga. Em sua obra “Sobre o Amor a Deus”, ele expõe o amor da Igreja a Cristo interpretando Cantares no uso alegórico da quadriga. Um exemplo do exagero de Bernando é a interpretação de Cantares 1:3 onde as “donzelas” (hb ‘almah – virgens) são considerados anjos e a espada em Lucas 22:38 representava o aspecto espiritual (o clero) e material (o imperador).

Tomas de Aquino ( 1225-1274) – alegorizava constantemente, mas também, pelo menos em teoria, considerava o sentido literal o fundamento necessário de toda as exposição das Escrituras.

Nicolau de Lira (1279-1340) – também usava a quadriga, contudo, enfatizava o aspecto literal das Escrituras. Insistia na necessidade de referências ao original, queixando-se do sentido místico “permitido para sufocar o literal”, e exigiu que o último só fosse usado para demonstrar a doutrina. Seu trabalho influenciou profundamente Lutero e consequentemente afetou a Reforma.

Uma das preocupações dos intérpretes medievais era justificar as inovações litúrgicas da Igreja.  O ponto interpretativo central era o lugar da Lei de Moisés nas cerimônias litúrgicas da Igreja. Para justificar seu uso, era preciso alegorizar o texto do VT de forma a permitir que as cerimônias do culto do VT pudessem ser aplicadas ao contexto cristão. Por exemplo, Salmo 74:13 “esmagaste sobre as águas a cabeça dos monstros marinhos” era usado para justificar o exorcismo  através do batismo!

Outra preocupação dos interpretes medievais era o de justificar os dogmas eclesiásticos. Por exemplo, a ressurreição da filha de Jairo diante de poucas testemunhas era usado para justificar a confissão auricular privada  a um sacerdote! De acordo com alguns a passagem “do Senhor são as colunas da terra” (1 Sm 2.8) defendia a existência de cardeais. O Salmo 7.8,8 foi usado por Antônio, bispo de Florença, para provar que Deus havia posto todas as coisas debaixo dos pés do papa.

Ainda outro objetivo da interpretação medieval era justificar o surgimento de ordens monásticas. Por exemplo, as duas varas mencionadas em Zacarias 11.7 eram interpretadas como se referindo aos franciscanos e aos dominicanos.


Com objetivo de proteger a usurpação hierárquica, os monges, bispos e padres exageravam o fato de que existem passagens obscuras na Bíblia e assim a mantiveram longe do povo. A Bíblia foi transformada em um livro fechado, cujo sentido somente os bispos, monges e padres podiam desvendar.  

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