sexta-feira, 6 de setembro de 2013

A JOIA PERDIDA DO CRISTIANISMO - O CONTENTAMENTO

Aprendendo com Jeremiah Burroughs

Anotações do Sermão da Série 
Aprendendo com os Gigantes de Deus

Silas Roberto Nogueira

Filipenses 4.11-13


Jeremiah Burroughs nasceu na região conhecida como East Anglia , Inglaterra, entre 1599  ou 1600 .  Em 1617 foi admitido como pensionista no Emmanuel College, Cambridge, recebendo os graus de Bacharel em Artes, em 1621, e Mestre em Artes, em 1624. O fato de ser um não conformista não o impediu de ser ordenado ao ministério em 1622. A princípio era auxiliar de Edmund Calamy, em Bury St Edmunds, Sulffolk. Mas esse início promissor mostrou-se logo uma decepção, escreveu Burroughs: “foram quase três anos e meio com eles, com pouco sucesso”. Ele enfrentou forte oposição na congregação depois de denunciar os pecados de alguns cidadãos e logo seu ministério ali findou. 


A partir de 1631 Burroughs tornou-se ministro em Tivestshall, Norfolk. Seu ministério ali foi interrompido quando ele foi suspenso do púlpito em 1636 e despojado em 1637 pelo bispo Wren por não conformar-se com a leitura do Livro dos Esportes no púlpito, inclinar-se ao nome de Jesus e a recitação de orações, em vez de fazê-las extemporaneamente, etc. Para Burroughs nada deveria ser acrescentado ao culto a Deus sem direta prescrição da Palavra. Para piorar tudo, ele foi difamado por outro ministro como apoiador da causa dos escoceses. Sem sustento, Burroughs passou por muitas dificuldades sendo socorrido pelo Conde Warwick. Mas quando a perseguição aos puritanos aumentou, Burroughs teve que deixar a Inglaterra, indo para a Holanda. De 1638 a 1640, Burroughs viveu na Holanda, em Rotterdã, e ministrou a uma congregação de ingleses independentes (Congregacional) a convite de William Bridge. Ele desenvolveu um brilhante trabalho na Holanda tendo adquirido uma alta reputação. Quando em 1642, por causa da Guerra Civil, o poder das perseguições diminuiu consideravelmente, Burroughs voltou à Inglaterra. De novo em sua pátria ministrou a duas congregações, a de Cripplegate e Stepney, que tinham fama de serem as mais frequentadas da Inglaterra. Burroughs pregava no culto das 7:00 horas em Stpeney e William Greenhill pregava às 15:00 horas. Daí espalhou-se o ditado que Burroughs era a estrela da manhã e Greenhill a estrela da tarde em Stpeney.  Tomas Brooks se referia a ele como “príncipe dos pregadores”. 


Burroughs era um homem de firmes convicções, mas de espírito irênico. Ele participou da Assembleia de Westminster e esteve ao lado dos independentes, mas seu tom era moderado. Ele faleceu em 1646, depois de sofrer uma queda de um cavalo. Ele enfrentou duras provações durante boa parte do seu ministério por suas convicções. Mas o que fez dele um homem persistente em meio às perseguições e injustiças sofridas? O que fez dele um gigante com o qual podemos aprender hoje? Certamente foi o seu entendimento da Palavra de Deus acerca do contentamento cristão. Ele pregou uma série de sermões em Filipenses 4.11 que foram transformados em um livro A Joia Rara do Contentamento Cristão  publicado dois anos após a sua morte, em 1648, e que tem sido usado por Deus para instruir seu povo até hoje. 


EXPOSIÇÃO
Quando Dr Lloyd-Jones chegou a este texto em suas exposições de Filipenses afirmou “temos [aqui] uma das poções das Escrituras que sempre me fazem pensar que há um sentido em que a única coisa certa e própria que de se deve fazer depois de as lermos num culto na igreja é impetrar a bênção!”   Qual a razão de tais palavras? Ora, o fato de estarmos diante de um dos momentos mais sublimes em que Paulo revela o segredo, por assim dizer, da vida cristã mais elevada. Vejamos o que nos ensina o apóstolo:


CONTENTAMENTO É ALGO QUE APRENDEMOS

Quando Burroughs abordou este texto observou com perspicácia que contentamento é uma coisa que se aprende – diz Paulo “pois aprendi”, v.11. E, no v.12, ele diz “tenho experiência” (AS21 e ARA) ou “estou instruído” (ARC) ou “aprendi” (NVI). A primeira palavra (gr emathon) refere-se ao aprendizado pelo ouvir tanto quanto pelo praticar. O sentido é “vim a aprender”, portanto isso não é algo automático na vida cristã. Lloyd-Jones comenta “dou graças a Deus por Paulo ter dito isso. Nem sempre Paulo estava no mesmo nível, como acontece com qualquer um de nós. Ele tinha “vindo a aprender” . Observemos por um instante a segunda palavra usada por Paulo no v.12. Onde se lê “tenho experiência” (AS21 ou ARA) e “instruído” (ARC) a palavra usada pelo apóstolo era usada em conexão com os cultos de mistério. É como se Paulo dissesse que havia sido “iniciado” no aprendizado do contentamento. Burroughs afirma que aqui é como se Paulo dissesse “eu aprendi o mistério ou o segredo disso”, por isso a NVI aqui foi melhor – “aprendi o segredo de viver...”. no entanto, o aprendizado do contentamento cristão não se dá por meio de um ritual místico, mas pelo exercício da confiança na providência divina. 

Certa vez um homem de Wall Strett encontrou um sábio e perguntou: “como faço para ser feliz?” E o sábio respondeu: “contente-se com o que você tem” E o homem partiu triste. Diz o ditado: “uma mente satisfeita é uma festa contínua”. 

Thomas Watson, outro gigante puritano, diz “o apóstolo não diz, eu ouvi que em cada situação eu deveria ser contente, mas eu aprendi. Daí nossa primeira doutrina, que não é suficiente para os cristãos ouvirem seus deveres, mas eles devem aprendê-los. Uma coisa é ouvir e outra aprender, como é uma coisa comer e outra coisa misturar ingredientes. Paulo era um praticante. Cristãos ouvem muito, mas infelizmente, aprendem pouco” . Você é um dos que aprendem? 


O QUE É CONTENTAMENTO

Quando dizemos que Paulo aprendeu a estar contente, o que queremos dizer com isso? Vamos começar a dizendo o que esse contentamento não é, isto é, vamos defini-la primeiro de modo negativo. 

(a) Em primeiro lugar o contentamento não é o mesmo que resignação. Resignação é a aceitação de uma circunstância simplesmente porque não se pode muda-la. O budismo ensina que a vida é sofrimento, portanto o budista é obrigado a aceitar isso simplesmente pelo fato de não poder mudá-lo, é um carma. 

(b) Em segundo lugar o contentamento não é o mesmo que conformismo. Muitas vezes o cristianismo é acusado de implantar nas pessoas um espírito conformista. O conformista é aquele tipo que se contenta com o que tem ou não tem e não busca adquirir, avançar ou melhorar. 

(c) Em terceiro lugar o contentamento nada tem a ver com o temperamento de uma pessoa. Há pessoas que tem uma disposição natural que parece torna-las aparentemente contentes o tempo todo. O tipo de pessoa que parece nunca estar preocupado. 

(d) Em quarto lugar o contentamento não é a indiferença estoica face às circunstâncias. Os estoicos pensavam em que o segredo de uma vida feliz consistia não em possuir muitas coisas, mas em desejar menos. 


Que significa então? Voltemos nossa atenção ao termo usado por Paulo e que foi traduzido por “contente” (ARA) ou “satisfeito” (AS21). Seu sentido básico é o de “autossuficiência” e na ética dos estoicos significava a independência de tudo e de todos. Para os estoicos essa autossuficiência se obtinha eliminando todo o desejo e era uma conquista humana. Mas Paulo não é ume estoico, para ele essa autossuficiência era um dom divino. Burroughs afirma que o sentido das palavras de Paulo aqui é que ele achou suficiente satisfação em seu próprio coração através da graça de Cristo que estava nele e por isso, apesar de não possuir nenhuma espécie de conforto exterior para suprir as suas necessidades ele tinha de Cristo o suficiente para satisfazer a sua alma em todas as situações. 


Burroughs chama a atenção que a palavra “toda e qualquer situação” (ARA) ou “circunstância” (AS21 e NVI) não consta do original e que uma tradução literal seria – “eu sou contente como estou”. Por isso Burroughs afirma que o contentamento aqui “não é o resultado daquilo que temos, mas sim o tipo de pessoa que somos”  O contentamento de Paulo provinha de uma fonte interior, não das coisas exteriores. O contentamento de Paulo não era dirigido pelas circunstâncias, mas pelo que ele era em Cristo. 


Warren Wiersbe narra uma história interessante: “O problema com ele é que é um termómetro e não um termostato!” Esta afirmação feita por um diácono despertou a curiosidade do pastor. Eles estavam falando sobre possíveis membros para a liderança, quando surgiu o nome de Jim. Quando indagado, explicou o diácono: “o caso é este, pastor um termómetro não muda nada à sua volta — limita-se a registar a temperatura. Está sempre oscilando. Mas o termostato regula a zona em que se encontra e muda-a sempre que precisa ser mudada. Jim é um termômetro — não tem poder para mudar as coisas. Em vez disso, são elas que o mudam!”.  O apóstolo Paulo era um termostato, não um termômetro. Em vez de ter altos e baixos espirituais conforme a situação ia mudando, ele aprendeu a viver contente apesar das situações.  Ele não era uma vítima das circunstâncias, mas um vitorioso sobre elas. Paulo não precisava estar empanturrado para se sentir contente; encontrava a sua satisfação nos recursos espirituais abundantemente providenciados por Cristo.  Você é um termômetro ou um termostato? 

COMO SE APRENDE A ESTAR CONTENTE EM TODA SITUAÇÃO

Paulo diz que aprendeu a estar contente em toda situação. O termo usado para aprender tem o sentido de aprender pela experiência, justamente o que ele diz no v.12. Em outras palavras, as situações ou circunstâncias que Paulo enfrentara o treinaram, foram-lhe uma escola, Rm 5.3-5; 2 Co 12.10,11;4.16,17.

Então ele cita dois extremos opostos que representam os dois maiores perigos para a alma humana, de um lado a escassez e de outro a abundância, v.12. Ninguém pode dizer o que é mais difícil, contentar-se com pouco ou com muito? Ambas as situações escondem perigos contra o contentamento. As palavras de Agur exemplificam o que estou dizendo, Pv 30.7-9.  

Lloyd-Jones sugere alguns passos no aprendizado de estar contente em toda e qualquer situação: 

1) As condições estão sempre mudando, logo, é óbvio que eu não devo depender das condições;

2) O que importa suprema e vitalmente é a minha alma e minha relação com Deus – este é o aspecto principal.

3) Como meu Pai, Deus preocupa-se comigo, e nada me acontece independentemente de Deus. 

4) A vontade de Deus e os seus caminhos são um grande mistério, mas eu seu que, seja o que for que ele queira ou permita, é necessariamente para o meu bem.

5) Toda situação na vida é um desdobramento de alguma manifestação do amor e da bondade de Deus. Logo, é meu dever buscar descobrir cada manifestação da bondade e da benignidade de Deus e estar pronto para surpresas e bênçãos, Is 55.8. 

6) Não devo considerar as situações em si mesmas, mas como parte dos procedimentos de Deus para comigo na obra pela qual ele me aperfeiçoa...

7) Sejam quais forem as minhas condições no presente, são temporárias, são passageiras, e jamais poderão privar-me do gozo e da glória que final e supremamente me esperam em Cristo. 

Acredito que o que ajudou Paulo a aprender a estar contente em toda e qualquer situação acima de qualquer outra coisa foi manter os olhos em Cristo, Hb 12.2. Paulo pôs os olhos em Cristo e o seguiu como seu exemplo, 2 Co 4.18. Façamos o mesmo! 

PORQUE DEVO EXERCITAR-ME NO CONTENTAMENTO

Para Burroughs o contentamento faz bem para os crentes pelas seguintes razões:

1) Os cristãos exercitados no contentamento adoram a Deus como Ele deve ser adorado. Dizia Burroughs “a verdadeira adoração não é simplesmente frequentar cultos ou fazer orações. Pelo contrário, é possível participarmos de um culto com o coração tão insatisfeito que afinal Deus não tenha sido adorado de forma alguma. (...) Fazer o que Deus quer, isso é adoração: estar satisfeito com o que Deus dá, isso também é adoração” . Contentamento e adoração andam juntos

2) Os cristãos exercitados no contentamento “fazem o melhor uso dos dons espirituais que Deus lhes concedeu”. O que Burroughs chama dons espirituais são “fé, humildade, amor, paciência, sabedoria e esperança” e diz ele “Deus almeja ver essas coisas se desenvolvendo em seu povo, pois as vidas dos cristãos felizes sempre tem uma influencia positiva sobre os incrédulos”. Segundo ele, os cristãos que sofrem sem murmurar dão um ótimo testemunho, no qual Deus é glorificado. 

3) Os cristãos exercitados no contentamento “são mais úteis”. No entendimento de Burroughs “pessoas inquietas e instáveis não servem para o serviço de Deus....A única coisa que as torna aptas para o trabalho de Deus é um contentamento espiritual interior”

4) Os cristãos exercitados no contentamento “são pessoas mais bem equipadas para resistir a tentações”. Para Burroughs aqueles que murmuram se desviam facilmente. O diabo faz tudo para convencê-los de que Deus é injusto para com eles. 

5) Os cristãos exercitados no contentamento “são aqueles que se deleitam plenamente na vida aqui e agora”. Segundo Burroughs quem está contente o que Deus lhe deus são mais felizes do que aqueles que possuem muito. 

Lloyd-Jones dizia que um cristão descontente era um mau testemunho.

Finalmente, para Burroughs o que impede o contentamento é o pecado, especialmente o da rebelião contra a vontade de Deus. Essa rebelião é manifesta de modo claro numa atitude comum a muitos, a murmuração. Para Burroughs “cristão que reclamam são cristãos orgulhosos, que se recusam a se submeter à vontade de Deus para suas vidas. Eles são semelhantes aos marinheiros que reclamam da tempestade ao invés de prepararem o navio para enfrenta-la, marinheiros sensatos reconhecem a superioridade da tempestade e arriam as velas”.  Ele ainda nos lembra de que a murmuração provoca a ira de Deus. Os israelitas que murmuraram no deserto nunca entraram na Terra Santa, diz ele. 

Para Burroughs o contentamento será alcançado seguindo-se alguns passos básicos: 

1) Devemos tomar cuidado em nos envolvermos demasiadamente com assuntos dessa vida. 

2) Devemos buscar obedecer sempre à Palavra de Deus

3) Devemos viver por fé

4) Devemos trabalhar com afinco para sermos orientados espiritualmente

5) Devemos jamais ficar obcecados com nossos problemas

6) Devemos não colocar demasiadamente confiança nas opiniões dos outros

Para adquirir o contentamento que Paulo explica aqui é preciso não achar contentamento neste mundo, mas em Cristo.