sábado, 10 de agosto de 2013

COMO O PEREGRINO DEVE ENFRENTAR O SOFRIMENTO


Silas Roberto Nogueira

1 Pedro 4:12-19

Chegamos ao vigésimo terceiro sermão em nossa exposição na Primeira Epístola de Pedro. Neste trecho Pedro volta a tratar da questão do sofrimento cristão. O sofrimento é o tema chave da Epístola, e é mencionado 16 vezes. No primeiro capítulo Pedro lembra aos seus leitores que o sofrimento é transitório (“breve tempo”), v.6, e que tem fins pedagógicos, v.7. No segundo capítulo ele fala da natureza do sofrimento, isto é, se o cristão tiver que sofrer que seja injustamente e se isso vier a acontecer, está seguindo as pegadas do Mestre, v.19-21. No terceiro capítulo, Pedro fala que o cristão não deve temer o sofrimento, mas experimentar a bem aventurança por sofrer, v.14, e, além disso, devemos também nos entregar à soberania divina e ver as oportunidades que o sofrimento nos franqueia, v.15-17. Aqui, no quarto capítulo, logo de início ele fala que aqueles que lançam blasfêmias contra os cristãos, haverão de responder quanto a isso no dia do juízo que está próximo, v.5,6. Depois, no trecho que vamos estudar agora, o apóstolo oferece algumas instruções de como o cristão deve enfrentar o sofrimento encorajando-o não somente a perseverar, mas a de fato se alegrar nos seus sofrimentos. Podemos destacar os seguintes princípios, vejamos:

O primeiro princípio é que não devemos estranhar o sofrimento, v.12. A perseguição deveria ser uma experiência muito mais desalentadora aos gentios do que aos judeus. Os judeus sempre foram mais acostumados às perseguições, já os gentios raramente experimentavam perseguição. Pedro está escrevendo a uma comunidade provavelmente mista na tentativa de encorajá-los a suportar o sofrimento praticando o bem. Ao sofrer o cristão segue as pegadas de seu Mestre. Há dois pontos importantes aqui:

·         O sofrimento não é algo incompatível com a fé cristã. É muito difícil sustentar a teologia da prosperidade que afirma que o cristão não deve sofrer ao se deparar com uma ordem como a que Pedro dá aqui. O sofrimento não é algo estranho na vida cristã. Na verdade o cristão deve até mesmo esperar sofrimento. Ora, se o mundo perseguiu a Cristo, perseguirá os seus discípulos também. Sofrimento pode ser a porção de Deus para nós.
·         O sofrimento não é sem propósito, mas pedagógico. O sofrimento vem para provar, não para destruir. O fogo ardente tem por objetivo purificar a nossa fé, queimando a escória e tornando-a mais preciosa, 1:6,7. Os cristãos devem entender que Deus deseja separar a verdadeira fé daquela que é mera imitação, e usa o instrumento do sofrimento para alcançar esse propósito. A fé momentânea não resiste às provações do sofrimento, Mt 13:20-21.

Richard Sibbes diz “as fraquezas exteriores são frequentemente uma forma de livrar o homem dos males interiores. Geralmente Deus santifica as dores e sofrimentos de seus servos, para torná-los melhores”. Devemos nos lembrar de que a pérola é formada a partir do sofrimento da ostra. Nossos sofrimentos visam produzir uma fé valiosa.

O segundo princípio exposto pelo apóstolo Pedro é o de que devemos nos alegrar em meio ao sofrimento, v.13.  A alegria é a força do povo do Senhor, Ne 8.10. É a alegria do Senhor que nos concede forças para suportar as adversidades. Uma coisa é suportar a adversidade, outra bem diferente é alegrar-se com ela. Há três pontos importantes aqui:

·         Essa alegria é interior. Como essa alegria independe de fatores externos (Sl 4.7), mas é interna e produzida pelo Espírito Santo, ela surge e permanece conosco mesmo em meio aos sofrimentos. Paulo estava preso quando escreveu “alegrai-vos sempre no Senhor” (Fp 4.4). Paulo se alegrava no sofrimento porque entendia que as coisas espirituais estavam acima das materiais; e que o futuro tem mais valor que o presente e o eterno vale mais que o temporal (2 Co 4:16-18). Precisamos cultivar esse entendimento. 
·         Essa alegria surge dos sofrimentos. Pedro ordena aos seus leitores que se alegrem por causa do sofrimento advindos das perseguições. (cf. Mt 5.12). Nós não devemos simplesmente alegrar-nos em meio aos sofrimentos, mas por causa deles, At 5.41; Tg 1.2-4. Os nossos sofrimentos nos unem a Cristo – “sois coparticipantes dos sofrimentos de Cristo”. O significado dessa frase é que o cristão que sofre de modo participa do mesmo tipo de sofrimento que Jesus padeceu, pois ele sofreu injustamente.
·         Essa alegria é tanto presente quanto futura. A alegria que experimentamos em meio e por causa dos sofrimentos são indicativos de que nos alegraremos de modo indizível quando do retorno de Cristo.

John Blanchard afirma: “a verdadeira alegria resplandece no escuro”. Paulo e Silas cantavam alegremente mesmo sofrendo no cárcere, At 16. É possível sentir alegria em meio aos sofrimentos porque a alegria é fruto do Espírito, não das circunstâncias.

O terceiro e último princípio é que há bem-aventurança no sofrimento, v.14. A palavra de consolo de Pedro aqui é que se o cristão está sofrendo de modo injusto, isto é, por ser cristão e tão somente por isso, ele é bem aventurado. A bem-aventurança aqui se refere ao conforto e fortalecimento espiritual advindo do Espírito Santo. É a atuação do Espírito Santo em momentos de crise que faz com que o cristão possa superar as adversidades.

Sinceramente acho que esse era o entendimento do poeta cristão William Cowper quando escreveu “por trás de toda providência carrancuda esconde-se uma face sorridente”. É somente com a ajuda do Espírito Santo que podemos ver a face sorridente de Deus em meio aos sofrimentos.

O quarto princípio é que não devemos nos envergonhar dos nossos sofrimentos, v.15-18. Há três ordens aqui, uma negativa e duas positivas. Na primeira, Pedro nos ordena a não sofrermos como pecadores, v.15, na segunda, ordena que não nos envergonhemos de sofrer como cristãos e, finalmente na terceira, ordena que glorifiquemos a Deus com o nome de cristãos. Há alguns princípios importantes aqui:

·         Nem todo sofrimento glorifica a Deus, v.15. Pedro afirmou pouco antes que o sofrimento por causa do pecado não glorifica a Deus, muito pelo contrário, é uma desonra ao Seu santo nome, 2:20. Quando um cristão vem a sofrer como malfeitor ou criminoso provoca grande escândalo ao evangelho.
·         Sofrer como cristão não é vergonha, mas uma honra, v.16ª. É possível que os cristãos fossem envergonhados publicamente por serem cristãos. Em momentos como esses é muito difícil dar testemunho de nossa fé, por isso Pedro os exorta a que superem o escárnio. O cristão deve louvar a Deus por levar tal nome. O nome cristão surgiu como um apelido carregado de preconceito e escárnio em Antioquia, At 11:26; 26:28. Contudo, devemos louvar e glorificar a Deus por sermos cristãos, pois não há desonra nisso.
·         Sofrimento pode ser juízo de Deus, v.17,18. Não se trata de condenação, mas purificação. E Pedro finaliza dizendo que se Deus julga de maneira tão severa a sua Igreja a qual ama como não será sua fúria sobre os ímpios?
John Bunyan dizia “o sofrimento não sobrevém por acaso nem pela vontade do homem, mas pela vontade e determinação de Deus”.  O sofrimento é muitas vezes o instrumento de Deus para a disciplina nossa, Hb 12:3-11.

O último princípio estabelecido por Pedro é que os cristãos que estão sofrendo devem entregar suas almas a Deus, v.19. A palavra usada para “encomendem” tem o sentido de algo que é depositado em confiança, entregar algo a alguém de confiança para guardar e proteger. Essa é a injunção de Pedro, que os cristãos que estão sofrendo se entreguem aos cuidados do Pai.

B. B. Warfield (1851-1921) casou-se aos 25 anos com Annie Kinkead e viajaram para a Alemanha em lua de mel. Um dia enquanto passeavam no bosque uma tempestade subidamente os surpreendeu. Um raio atingiu Annie que em consequência disso tornou-se permanentemente paralisada. A vida de Warfield nunca mais seria a mesma. Por causa das necessidades de sua esposa jamais pôde ausentar-se mais que duas horas de sua casa, limitando consideravelmente seu ministério e funções acadêmicas. Warfield esteve casado por 39 anos, até a morte de Annie. Warfield se entregou à soberana vontade de Deus acreditando que “Ele dirigirá todas as coisas a fim de que recebamos somente o bem, de tudo o que nos acontece”. 

Para concluir, em meio aos sofrimentos devemos prosseguir praticando o bem, isso é, evitar o pecado.  Precisamos crer que o sofrimento é uma prova de um Pai amoroso que quer nos aperfeiçoar, não destruir. O sofrimento não é uma anormalidade, nem mesmo uma coisa estranha. O sofrimento é uma oportunidade para experimentarmos alegria e bem aventurança. O sofrimento é uma oportunidade para glorificarmos a Deus e uma oportunidade para nos entregarmos a Ele confiantes de que no fim Ele nos está conduzindo em triunfo.