terça-feira, 16 de julho de 2013

UM CHAMADO À GLORIOSA LIBERDADE


Silas Roberto Nogueira
(Anotações da Série de Sermões em Gálatas)

Gálatas 5.1-15

Nos dois estudos anteriores afirmei que havíamos chegado ao coração da Epístola, os capítulos 3 e 4. Neles Paulo argumenta vigorosamente em favor da justificação mediante a graça pela fé. Agora, no entanto chegamos a uma nova secção na Epístola, os capítulos 5,6. Percebe-se o início de uma nova secção pelo fato de o apóstolo deixar o tom argumentativo e passar para um tom hortativo, isto é, exortativo. Estes 44 versículos são aplicativos, o que Paulo nos apresenta aqui, como em todas as suas Epístolas, é como a doutrina deve ser aplicada à vida. Isso nos ensina que na mente de Paulo não há um dicotomia entre doutrina e vida, mas que a doutrina deve permear a vida, conduzir ou dirigir a vida. O cristianismo não é uma filosofia destinada somente a encher nossas cabeças, algo que satisfaça somente o intelecto, mas é algo prático, para a vida. E a vida é o ornamento da doutrina. No cristianismo deve haver coerência entre doutrina e vida. Nesta secção final Paulo trata da maneira de viver do cristão. E, segundo Paulo, o modo de viver do cristão é em liberdade, é disso que trata este capítulo. Na primeira parte deste capítulo Paulo se ocupa em definir o cristão como uma pessoa que foi libertada por Cristo e que tem como responsabilidade permanecer neste estado, mas não é só isso, ele apresenta também o legalismo como um dos perigos a liberdade cristã, v.1-12. Na segunda parte, v.13-15, Paulo apresenta o segundo perigo, o mau uso da liberdade, o libertinismo. Passemos ao estudo do texto:

O primeiro ponto a destacar é que nós éramos escravos iludidos, v.1. O texto diz “para a liberdade foi que Cristo nos libertou”. Logo, nós não éramos livres como pensávamos que éramos, mas sim escravos. Mas não é só isso, éramos escravos iludidos, pois pensávamos em nossas mentes que éramos livres. A Bíblia afirma que todo aquele que não conhece a Cristo como Seu salvador pessoal é escravo:

(a)   Escravo do pecado, 1.4 (Jo 8.34; Rm 6.7,18). O pecado é o cativeiro da vontade, das afeições e da mente. Nenhum homem que tenha pecado pode se dizer livre, pois o pecado é escravizador.

(b)  Escravo do mundo, 1.4b; 4.3. (Cl 2.8,20) O mundo jaz no maligno, 1 Jo 5.19. Ninguém consegue escapar do cativeiro que é o mundo, com suas múltiplas tentações e seduções, sem ajuda divina. O mundo dita o comportamento e o pensamento dos homens, Ef 2.2.

(c)   Escravo da lei, 4.4. Os judeus estavam sob a lei, e como já vimos o sistema mosaico era um sistema escravizador, pois a lei apenas evidenciava o pecado, mas não tinha poder para livrar do pecado. A lei sujeita todos os transgressores à condenação.  

(d)  Escravo do diabo, 4.8. (Ef 2.2; Cl 1.13) A Bíblia deixa claro que o pecado nos sujeita a uma relação de escravidão para com as hostes malignas. Essa escravidão espiritual faz com que nosso entendimento espiritual seja entorpecido (2 Co 4.4) e com que nosso desejo seja cumprir a vontade do diabo (Jo 8.44) e que nos afeições sejam más (Jo 3.19).

A implicação desta realidade espiritual é aquilo que chamamos de inabilidade humana para a busca do bem espiritual sem ajuda divina. Essa inabilidade humana para busca da salvação diz respeito tanto ao “querer” (Jo 5.40) quanto ao “poder” (Jo 6.44). O homem precisa de auxílio externo para sair desta condição. Por isso o texto que lemos diz que “Cristo nos libertou”.

Como afirmou Thomas D. Bernard “nosso senso de pecado é diretamente proporcional à nossa proximidade de Deus”. Somente quando nos aproximamos de Deus podemos perceber que saímos de um dos mais terríveis sistemas prisionais da história humana.

Meus amados, vocês perceberam de onde vieram? Notaram os grilhões, as algemas? Cristo nos libertou, não éramos livres, mas escravos iludidos.

O segundo ponto a destacar é que fomos libertados por Cristo, v.1b. Chegamos à controversa questão da liberdade em Cristo. Há muito mal entendido aqui apesar das Escrituras serem absolutamente claras quanto à questão. Parte do problema reside no fato de que nosso conceito sobre a liberdade é mais mundano do que bíblico. Vamos examinar o que diz o nosso texto, quero chamar a sua atenção para alguns pontos aqui:

(1) Liberdade é obra de Deus: a libertação de uma pessoa da escravidão espiritual é obra de Deus. O Novo Testamento não contempla a ideia de que o homem possa por si mesmo obter a sua libertação. Liberdade não é uma conquista humana, mas algo que Deus conquistou para nós. Embora Paulo aqui deixe evidente que Cristo é o agente da libertação, a Bíblia ensina que é a libertação é uma obra da Trindade Santa:

(a)   Deus o Pai nos libertou, Cl. 1.13. Foi o poder onipotente de Deus o Pai que nos libertou do império das trevas.

(b)   Deus o Filho nos libertou, Gl 5.1 (Is 61.1,2) Foi pelo Seu sangue que Cristo nos resgatou (Gl 4.5), nos redimiu (Cl 1.13), nos adquiriu (1 Co 6.20; 7.23; Ap 5.9). 

(c) Deus o Espírito nos libertou, Rm 8.15 com 2 Co 3.17. Foi pela presença libertadora do Espírito Santo em nós que nos tornamos livres para poder chamar Deus de Pai.

(2) Em que consiste essa liberdade. Definir a natureza dessa liberdade é um ponto de suma importância:

(a)   Não é liberdade como autonomia: liberdade no sentido de fazer e dispor de si como bem entender não é liberdade real, pois é escravidão a si mesmo. Ele, embora livre, não pode desobedecer à verdade do evangelho, v. 2,3,7. Note que o texto diz – “para a liberdade foi que Cristo nos libertou” – logo, liberdade nesse sentido não é liberdade. François Fenelon declarou: “A liberdade verdadeira só pode ser encontrada quando escapamos de nós mesmos e entramos na liberdade dos filhos de Deus”.

(b)   Não é liberdade como antinomia: liberdade no sentido de não estar sob nenhuma lei, liberdade no sentido amplo e irrestrito para satisfazer os desejos da carne é libertinagem, que não é liberdade, mas clausura, v.13. O texto diz – “para a liberdade foi que Cristo nos libertou” – logo, o uso da liberdade para ocasião à carne não é liberdade.  Thomas Hall dizia: “A liberdade evangélica é a liberdade do pecado, não para pecar”.

(c) É liberdade “em” Cristo, 2.4. Cristo é a esfera onde essa liberdade é experimentada. Em outras palavras, é preciso um relacionamento com Cristo para desfrutar dessa liberdade e fora dele ela inexiste. Sair dessa esfera é perder a liberdade.

(d)  É liberdade para servir a Deus. v.16-18. A liberdade em Cristo é a liberdade para servir a Deus. O conflito descrito aqui é o conflito de alguém que foi liberto, pois o Espírito só atua antagonizando os desejos carnais naqueles que foram libertos por Cristo e se tornaram filhos de Deus, 4.6,7. Antes nós não podíamos e nem queríamos servir a Deus, mas agora nós o amamos e queremos nos submeter a Ele, sentindo prazer na lei de Deus, Rm 7.22.  Como disse William Hendriksen “a pessoa que é realmente livre já não age mais por coação, e, sim, serve a Deus voluntariamente, com alegria de coração.” Agostinho dizia: “O homem é mais livre quando controlado apenas por Deus”.

(3) Como opera em nós essa liberdade. Nosso texto diz “para a liberdade foi que Cristo nos libertou”. Há aqui duas observações importantes:

(a)   A liberdade é algo sobre nós. Observe o tempo verbal passado “libertou”. Esse tempo verbal nos remente a um momento específico na nossa história, o momento quando somos justificados por Deus. Aquele que é declarado justo por Deus é declarado igualmente livre, pois nenhuma condenação pesa sobre ele. Num certo sentido a liberdade é algo que acontece fora de nós, pois nós somos postos em liberdade. É algo que acontece a nós. Mas o que acontece a um cristão não é apenas o abrir das portas da cela ou das algemas. Como declara Hendriksen – “é liberdade com algo mais”.

(b)   A liberdade é algo em nós. Observe o que Paulo diz –“para a liberdade” – isto é, nós fomos libertos para permanecermos livres e a única maneira de permanecermos assim é sermos adotados na família de Deus. Deus não somente nos liberta, mas garante que permaneçamos livres. Só os filhos de Deus são verdadeiramente livres. E como somos filhos, Deus envia aos nossos corações o seu Espírito, 4.6,7. E, o Espírito nos preserva livres, 2 Co 3.17. A liberdade consiste em nos mantermos sob o controle do Espírito, sendo guiados pelo Espírito de Cristo, produzindo o caráter de Cristo, fazendo a vontade de Cristo.

(c)   A liberdade nos capacita ao serviço na comunidade: Paulo afirma que a liberdade não deve servir de ocasião para servirmos a nós mesmos, antes servimos uns aos outros, v.13,14. Não servimos uns aos outros por qualquer outra razão senão pelo amor. 

O puritano Richard Sibbes afirmou que “o cristão é o homem mais livre do mundo... contudo, em relação ao amor, ele é o maior servo”.

Caros irmãos, que sinais damos da nossa liberdade em Cristo? Servimos a Deus voluntariamente e com alegria? Servimos ao próximo, aos nossos irmãos com o que somos, sabemos ou e temos?

O terceiro ponto é que devemos manter a nossa liberdade, v.1c. Nesse texto estão ladeados dois princípios, o primeiro a ação soberana de Deus, o segundo a responsabilidade humana. Cristo nos libertou soberanamente, mas cabe a nós permanecermos livres. A primeira parte deste versículo bem poderia ser um versículo isolado, pois no grego há um ponto final depois de “libertou”. Pois bem, tudo o que está inserido na primeira parte deste versículo refere-se a soberania de Deus, ao ato soberano de Deus em nos libertar. Contudo, a segunda parte refere-se à nossa responsabilidade, aquilo que nós devemos fazer em relação a essa liberdade. Observemos o seguinte:

(a) A liberdade implica disciplina. Não se pode dissociar liberdade e disciplina. O pensamento que diz que a liberdade é indulgência não faz parte das Escrituras. O verbo “permanecei” está no imperativo, é uma ordem, e está no presente, indicando uma ação habitual e contínua – ou seja, eles deviam perseveram na liberdade que Cristo lhes concedeu. A liberdade se mantém com vigilância para que deliberadamente não nos submetamos a qualquer tipo de “jugo”. Observe que Paulo deixa claro que são eles que se submetem a tais jugos deliberadamente e isso implica em sua responsabilidade.

Paulo passa então e mencionar três jugos que ameaçam a liberdade do cristão:

(b) Legalismo é uma ameaça à liberdade, v.2-6. Os legalistas insistiam na circuncisão para a salvação e Paulo argumentou extensamente contra essa tese nos capítulos 2,3 e 4, aqui ele resume dizendo que a sujeição à lei seria abrir mão da liberdade em Cristo. Submeter-se à circuncisão seria tornar o sacrifício de Cristo inútil – “Cristo de nada vos aproveitará”, v.2. Aquele que se submete ao rito da circuncisão está se obrigando a cumprir os ditames da velha aliança, v.3. Tal atitude tem consequências desastrosas e irremediáveis as quais Paulo ilustra de duas maneiras, a primeira é um desligamento de Cristo e a segunda, o cair da graça, v.4. Esse texto não contradiz a doutrina da perseverança dos santos, como alguns pensam. Daremos atenção a este texto em particular mais tarde. No momento, podemos dizer que Paulo aqui trata a questão sob o ponto de vista da responsabilidade humana. Depois, observe que há uma clara distinção entre “vós” e “nós”, v.1,4,5. Isto é, entre os que buscam a justificação pela lei e os que a obtém mediante a graça pela fé, v.5,6.

(c)  Desobediência é uma ameça à liberdade, v. 7-12. A carreira cristã é metaforicamente considerada a uma corrida. O ensino herético é um obstáculo que impede a concentração do corredor na corrida, tirando-lhe a atenção do alvo. Havia alguém entre os gálatas que os estava tentado distrair em sua corrida na fé, Paulo o considera com potencial destrutivo, como o fermento que faz crescer a massa, v.9. Esse ensino estava impedindo dos crentes da Galácia de obedecerem “à verdade”, 7. Oscilar na obediência é prejudicial à vida cristã, provoca distrações, ameaça à liberdade. Paulo confiava que os crentes não dariam atenção ao ensino que obstaculizaria a sua fé, v.10. Nem mesmo daria atenção às acusações falsas que os seus inimigos faziam sobre ele, v.11. Nas Olimpíadas de 2004, Vanderlei Cordeiro de Lima liderava a maratona e tinha chances de conquistar o ouro para o Brasil, uma vitória inédita. Contudo, no 36° km da prova um padre irlandês invadiu a pista de provas e atrapalhou o corredor brasileiro que perdeu posições e a chance do ouro, ficando com a medalha de bronze. O corredor declarou: “Não fiquei lesionado, nem nada, mas aquilo cortou meu ritmo".  Ele se desconcentrou e perdeu a chance da medalha de ouro. Na vida cristã as heresias são como obstáculos ao nosso crescimento espiritual.

(d) A libertinagem ameaça a liberdade , v. 13-15. No lado oposto dos judaizantes que insistiam no legalismo, havia os antinomistas. Esses estavam fazendo afirmando que o ensino de Paulo servia como uma licença para a carne. Paulo chama a atenção ao fato de que a liberdade quando degenera em libertinagem é clausura, não liberdade. Paulo insiste em que a liberdade em Cristo não é ficar sem lei, mas submeter-se voluntariamente à lei do amor, v.14. A libertinagem é tão escravizadora quanto a lei. Um liberto não deve usar da sua liberdade para ocasião à libertinagem. John Blanchard “Liberdade não é o mesmo que licenciosidade; ser livre não é ser livre e indolente; o cristão não é livre para agradar a si mesmo, mas para agradar a Deus”.


Caros irmãos, a nossa liberdade é obra da graça soberana de Deus. A nossa liberdade custou o sacrifício de Cristo. A manutenção dessa liberdade não pode ser mantida sem vigilância contínua. 
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Sermão entregue na Comunidade Batista da Graça. 
Rua Tókio, 842, Cidade Edson, Suzano/SP

segunda-feira, 1 de julho de 2013

QUE É UM CRISTÃO?


João 17:1-24

Silas Roberto Nogueira

(Notas da série de Sermões em João 17)


O assunto que trataremos hoje é a soberania divina na salvação. Isso não é difícil de entender, mas como afirmou Steven Lawson, “é uma verdade difícil de engolir”.[1] Muitos se opõem as chamadas “doutrinas da graça”, mas elas podem ser encontradas nas Escrituras, sobretudo o Evangelho de João. Este Evangelho é considerado o Monte Everest das doutrinas da graça. A tônica de João é a soberania divina na salvação. A humanidade incrédula ama as trevas e não deseja vir a Cristo para ter vida, os que vêm foram enviados pelo Pai, são as ovelhas pelas quais Ele dá sua vida e aqueles que atrai irresistivelmente a Si e esses mesmos são guardados pelo Pai até o dia final. Surpreendente, no entanto, é o fato de que esse mesmo ensino esteja concentrado numa única e singular passagem, o capítulo 17.   Devo lembra-lo do momento solene em que tais palavras foram pronunciadas! Não somente isso, chamo sua atenção a quem tais palavras são dirigidas. Devo lembra-lo de que tais palavras não são palavras de grandes teólogos, de vultos do passado, de homens piedosos, mas do próprio Cristo. Nesta sublime oração, Cristo apresenta três fatos sumamente importantes acerca dos cristãos, são eles:

A primeira declaração acerca do cristão é a de que ele foi escolhido por Deus. O que faz de alguém um cristão não é uma decisão pessoal por Cristo, como hoje alguns pensam. Homens mortos não tomam decisões! E a Bíblia diz que os incrédulos estão mortos em seus delitos e pecados, Ef 2:1-3. É importante dizer que não nego que os homens venham a Cristo voluntariamente. Eles vêm, mas não antes de serem vivificados. O fato de homens virem à Cristo não é a causa de se tornarem cristãos, é, por assim dizer, um efeito. A causa é outra, quer saibam disso ou não. A causa de uma pessoa vir a Cristo é a escolha soberana da parte de Deus, Jo 6.37. Sobre esta escolha divina podemos afirmar:

1.    É escolha é eterna, vv.1,2. O v.2 Jesus diz que Deus o Pai concedeu autoridade a Ele sobre toda carne com o objetivo de dar vida eterna aos que o Pai lhe dera. A palavra “autoridade” (gr exousia) ou “poder” e refere-se ao fato de Cristo tornar os eleitos filhos de Deus, 1:12,13. Essa autoridade foi recebida na eternidade, bem como a escolha do Pai daqueles que viriam a ser seus filhos também ocorre na eternidade, Ef 1:4,5; 2Tm 1:9; 2 Ts 2:13.

2.    É escolha é soberana, vv.1,2. Essa escolha não se baseia em nada além da vontade de Deus. O texto apenas afirma que os eleitos pertencem a Deus, nada mais. Isso indica inequivocamente que a escolha é soberana. Pouco antes, no discurso que antecede essa oração, Cristo afirmou: “não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros...” (15:16). Essa escolha é baseada unicamente na vontade de Deus, segundo afirma Paulo, Ef. 1:4-5.

3.   É escolha é possessiva, vv.1,2. Diversas vezes Cristo afirma que os escolhidos pertencem a Deus (v.2,6,7,9,11,12,22,24). O significado disso é que mesmo antes da conversão os eleitos pertenciam a Deus. Essa mesma verdade é expressa no capítulo 10:27-29.  Paulo diz que fomos “escolhidos antes da fundação do mundo” (Ef. 1:4), o sentido da raiz da palavra usada no original é “selecionar para si próprio.[2] Aqueles que Deus escolhe Ele achega a si, Sl. 65:4. Os eleitos são propriedade de Deus, Tt 2:14

Essa escolha graciosa, chamada de eleição da graça por Paulo (Rm 11:5), ocorreu na eternidade, mas é efetuada no tempo. É a escolha da parte de Deus que garante:

1.    Que os eleitos serão chamados do mundo, v.6 . Cristo diz que os que vêm à Cristo só o fazem por causa de Deus os ter trazido, Jo 6:37. Steven Lawson diz acertadamente que “a escolha soberana de Deus tanto precede como produz a escolha que o homem faz de Cristo”.[3]

2.   Que os eleitos crerão em Cristo, v.6-8. Os homens não são eleitos porque creram em Cristo, como alguns pensam. A fé é dom de Deus, Ef. 2:8-10. Os homens creem em Cristo porque foram eleitos por Deus. A fé é o resultado da eleição, não a sua causa. 

3.  Que os eleitos serão sustentados no mundo, v. 9-12. No mundo sofremos muitas tentações, experimentamos provações e perseguições. Não somos salvos por nossa perseverança, mas nossa perseverança é resultado da nossa eleição. Aqueles que sucumbem, como Judas, nunca foram eleitos, 1 Jo 2:19.

4.   Que os eleitos serão guardados do Maligno, v.15.Os eleitos de Deus são guardados contra Satanás e suas hostes malignas, 1 Jo 5:18,19. Satanás procura destruir os crentes (1 Pe 5:8),mas Deus  é nosso poderoso protetor, Jo 12:31; 16:11; 2 Co 4:4; Jd v.24,25.

5.     Que os eleitos serão santos, v.17.Ninguém é salvo por causa de sua santidade e alta moral. Toda nossa justiça é como trapos imundos, Is 64:6, mas aqueles a quem Deus elegeu serão santos e santificados.

6.   Que os eleitos terão o amor do Pai e o próprio Cristo nEle, v.26.Os eleitos de Deus terão o amor de Deus derramado em seus corações e Cristo mesmo morando neles. Aqui reside a diferença entre o cristianismo e todos os sistemas religiosos, Cristo em nós, Cl 1:27

C. H. Spurgeon afirmou certa vez: “creio na doutrina da eleição porque estou certo que, se Deus não me tivesse escolhido, eu nunca o teria escolhido”.

A segunda declaração acerca dos crentes é que eles são particularmente redimidos. O que ela afirma é que Cristo deu a sua vida somente pelos eleitos de Deus. Essa é a parte mais delicada das doutrinas da graça. Muitos creem que Cristo deu a sua vida por todos do mundo, mas a doutrina que temos aqui exposta pelo próprio Cristo difere disso. Aqui Cristo afirma que sua morte, que seu sacrifício tinha em perspectiva somente os eleitos pelo Pai, não o mundo. O uso que João faz do termo mundo é variado, às vezes refere-se ao universo (1:10), terra física (16:33), sistema mundano (12:31), pessoas em geral (7:4), incrédulos (17.9,14) e finalmente, os crentes, os eleitos (3.16,17;6:33;12:47). A interpretação correta é crucial para uma doutrina correta. Há uma clara distinção entre os do mundo e os eleitos neste texto que deixa claro que a morte de Cristo diz respeito somente aos eleitos:

1.   Cristo dá vida somente aos que pertencem ao Pai, v.2. As palavras de Cristo são claras, Ele dá vida eterna aos eleitos. Se Cristo tivesse morrido por todos indistintamente, segue-se que todos deveriam ter vida eterna! Isso é heresia universalista.

2.     Cristo torna filhos de Deus somente os que pertencem ao Pai, v. 6. Cristo manifesta o nome de Deus somente aos eleitos. Que nome é esse? O nome é “Pai” – esse nome somente os discípulos de Cristo tem o privilégio de usar (Mt 6:9). Essa autoridade é conferida no novo nascimento que é operado pelo Espírito (3:5,6,8), pela vontade de Deus (1:12,13). Se Cristo tivesse morrido por todos os homens, todos seriam filhos de Deus.

3.      Cristo intercede apenas pelos que pertencem ao Pai, v.9. Cristo intercede somente pelos eleitos, não pelo mundo. Observe que ele intercede pelos discípulos imediatos e depois por aqueles que viriam a crer em seu nome, v.20. Contudo, não ora pelo mundo. O autor da Epístola aos Hebreus afirma a mesma verdade, 7:25.

4.    Cristo se santifica somente em favor dos que pertencem ao Pai, v.19. Cristo é santo, sem pecado algum e não depende de melhoramento moral (Hb 7:26,27), portanto a frase “me santifico” quer dizer que Ele se consagra a tarefa de Sumo-sacerdote (Êx 28:41) para o oferecimento de Si mesmo como sacrifício expiatório. A frase “em favor deles” (gr hyper auton) indica que seu sacrifício é substitutivo, vicário. Sabemos que seu sacrifício foi cabal, assim sendo, ao dar-se em nosso lugar, obteve a nossa redenção. Se tivesse morrido pelo mundo, o mundo seria redimido.

5.  Cristo habita somente naqueles que pertencem ao Pai, v.26. Finalmente, Cristo habita somente os eleitos. Não somente Cristo, mas somos habitados pelo Deus Triúno (14:14,23) e isso porque Cristo deu a sua vida por nós. Se Cristo  tivesse morrido por todos, todos seriam templo do Espírito Santo.

Quando alguém diz que creio em uma expiação limitada, lembro-me das palavras de A. W. Pink “ a única limitação da expiação é a que decorre unicamente da soberania de Deus; não é uma limitação de valor e de virtude, mas somente de desígnio e de aplicação”.

A terceira declaração acerca do cristão é que eles são poderosamente guardados por Deus. A implicação disso é que o eleito não perde a salvação. Há pessoas que dizem que o cristão pode perder a salvação, contudo isso não corresponde à verdade bíblica. Se fosse possível a um crente perder a salvação Cristo seria desonrado.

1.    O cristão não perde a salvação porque já tem a vida eterna, v.3. O cristão não perde a salvação porque a salvação não é algo que se refere ao futuro apenas, a salvação implica em uma vida eterna que começamos a experimentar aqui e agora. Jesus afirma que a posse da vida eterna é no presente, 5:24; 3:36; 6:40,47.

2.   O cristão não perde a salvação porque Cristo intercede por eles, v.9,20. O cristão não perde a salvação porque Cristo intercede por ele. Se ele perdesse a salvação o sacrifício de Cristo seria ineficaz e sua oração intercessória teria falhado!

3.     O Cristão não perde a salvação porque quem o guarda é Deus, v. 11. O cristão não perde a salvação porque se isso acontecesse significaria que Deus falhou em guarda-lo. Pedro diz que somos guardados pelo poder de Deus não somente por um momento, mas até a consumação de todas as coisas (1 Pe 1:5). Devemos lembrar-nos de que Deus não nos guarda em qualquer lugar, mas em Suas mãos, Jo 10:29. Nossos nomes Ele gravou nas palmas de Suas mãos, Is 49:16.

É claro que uma doutrina como essa pode levar a conclusões equivocadas. Uma delas é pensar que somente pelo fato de você não perder a salvação significa que você pode viver como quiser. Não é isso que estamos advogando, muito pelo contrário. O nome correto da doutrina é Perseverança dos Santos:

1.    A segurança da salvação diz respeito aos que guardam a Palavra, v. 6. O tempo perfeito usado aqui para “guardar” (gr. teréô) é melhor traduzido na ARA/NVI “eles têm guardado”, pois refere-se a uma ação no passado cujo reflexo é sentido até o momento presente.

2.     A segurança da salvação diz respeito aos que não são do mundo, v. 14. A intercessão de Cristo refere-se aos que se distinguem do mundo justamente por não viverem segundo os seus padrões. O eleito persevera em sua distinção do mundo.

3.      A segurança da salvação diz respeito aos santificados pela Palavra da verdade, v. 17. A santificação é uma das marcas dos eleitos, nós somos eleitos “mediante a santificação do Espírito”, 2 Ts 2:13;1 Pe 1:1,2.  O eleito persevera na santidade.

4.   A segurança da salvação diz respeito aos que vivem em unidade com o corpo, v. 21-23. Os eleitos são incorporados à Igreja, por isso ninguém pode se dizer cristão se não está unido à ela. Calvino dizia que Deus é nosso Pai, a Igreja nossa mãe. O eleito persevera na igreja. 

5.   A segurança da salvação diz respeito aos que tem o amor do Pai, v.26. Os eleitos são distintamente marcados pelo amor. Paulo diz aos crentes de Roma que o amor de Deus é derramado em nossos corações pelo Espírito que nos foi dado, Rm 5:5. O eleito persevera em amor.

6.  A segurança da salvação diz respeito aos que tem Cristo habitando em si,v.26b. Os eleitos são habitação da santa Trindade e isso é o que distingue o cristão verdadeiro. O eleito persevera em glorificar a Deus por meio do corpo, 1 Co 6:19,20.

Quais são as implicações desses três fatos em nossas vidas?

1.       O fato de sermos escolhidos
(a)     Deve conduzir-nos à humildade. 
(b)     Deve conduzir-nos à ação de graças.
(c)     Deve consolar-nos.  

2.       O fato de Cristo ter morrido por nós:
(a)     Deve fazer-nos odiar o pecado.
(b)     Deve fazer-nos dedicados

3.       O fato de saber que somos guardados por Deus:
(a)     Deve fazer-nos diligentes
(b)     Deve fazer-nos ousados



[1] LAWSON, sermão na Conferencia Fiel em 2012
[2] VAUGHAN, Curtis, Efésios, comentário bíblico, Vida, p. 22
[3] Lamson, p. 394