sexta-feira, 1 de março de 2013

A ORAÇÃO DE CRISTO




Silas Roberto Nogueira
(notas do 1° sermão) 

João 17:1 a 26


Este capítulo que agora vamos examinar contém a oração que o nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo ofereceu a Deus nas últimas horas que precederam a sua crucificação. Essa oração é chamada de “oração sacerdotal”, pelo seu caráter puramente intercessório. Essa oração foi entregue na presença dos seus discípulos, após a instituição e celebração da Ceia do Senhor e imediatamente depois do seu sermão pascal, registrado nos capítulos 14 a 16. Por isso, o puritano Mathew Henry declarou apropriadamente que essa é a oração é a maior oração já oferecida na terra, em seguida ao maior e mais consolador sermão já pregado na terra.
Precisamos reconhecer de imediato que estamos em terreno excepcionalmente sagrado. Warren Wiersbe declara que este capítulo “é, sem dúvida alguma, o “santo dos santos” do registro dos Evangelhos e, devemos abordar este capítulo espírito de humildade e de adoração”.[1] Como disse Lloyd-Jones, cujas pregações sobre este texto publicadas somam 4 volumes, “há um sentido em que pregamos sobre ela com temor e tremor, receando detrair da sua grandeza e do seu valor. No passado havia aqueles que achavam que aqui tratamos de um coisa tão sagrada, porque significa abrir o próprio coração do nosso Senhor, que a única coisa que podemos fazer com esta oração é lê-la”.[2] De fato alguns irmãos do passado nem mesmo ousavam pregar sobre este capítulo, senão lê-lo.
Essa oração é consoladora. Melanchthon, auxiliar e sucessor de Lutero, ao dar sua última palestra antes de sua morte, disse sobre essa oração "não há nenhuma voz que já foi ouvida, quer no céu quer na terra, mais exaltada, mais santa, mais fecunda, mais sublime , do que a oração feita pelo Filho de Deus". John Knox, o reformados da Escócia, em seus últimos instantes de vida solicitou à sua esposa que lesse este capítulo e nele encontrou grande alento para a hora final.
Esta oração sacerdotal de nosso Senhor nos ensina sobre a oração em si, sobre o nosso grande Redentor, e sobre os múltiplos aspectos da nossa salvação. Hoje vamos tratar de alguns aspectos gerais dessa oração e nas próximas semanas vamos explorá-la reverentemente, extraindo lições espirituais para nossas vidas.

1.       É UMA ORAÇÃO SINGULAR
O que temos aqui é uma oração, contudo não é apenas mais uma oração, a oração. Essa oração é absolutamente singular, única. Essa oração é simplesmente inigualável, incomparável. J. C. Ryle assinala que este capítulo das Escrituras “é o mais notável da Bíblia; ele está sozinho e não há nada como ele”. A razão da singularidade desta oração reside em três pontos:

1.1.  Por causa do Seu Autor
A quem encontramos orando aqui? Não mero homem, mas Jesus, o Filho de Deus. Cristo, o Deus encarnado! O Logos eterno, Aquele por meio de quem todas as coisas foram feitas e sem o qual nada poderia existir (Jo 1.1,2). Aquele em quem há a plenitude da divindade (Cl 2.9), a representação exata do Ser de Deus, Aquele que sustenta todas as coisas pela palavra do seu poder (Hb 1.3). Aquele a quem os anjos contemplam e adoram eternamente (1 Tm 3.16; Hb 1.6). Agora focalizemos o modo como Ele se refere a Deus, Ele o chama Pai. Nesta oração o Senhor Jesus se refere a Deus como Pai seis vezes (1,5,11,21,24,25). Isto revela o relacionamento de Cristo com Deus. O Senhor Jesus é o Filho eterno de Deus, igual e participante da mesma natureza e substância do Pai.

 1.2.  Por causa da sua Natureza
Qual é a natureza desta oração? Bem, esta oração é sacerdotal. O primeiro a dar este título a esta oração foi o luterano David Chytraeus (1530-1600).[3] Em outras palavras Cristo está agindo aqui como mediador entre Deus e os homens. É uma oração intercessória enquanto Cristo caminha para a cruz. O ato de dar a sua vida no lugar de pecadores é um ato de mediação. Por isso Paulo afirma que só existe um Mediador entre Deus e o homem, Jesus Cristo, 1 Tm 2.5.  Os capítulos 7 a 10 de Hebreus desenvolvem este tema da mediação de Cristo Jesus em favor dos homens. (Hb 7.25).

1.3.  Por causa do seu propósito
Esta oração precede a volta de Cristo ao Pai. Ele diz “chegou a hora” (v. 1) referindo-se à sua paixão, morte e ressurreição. Tendo isso como líquido e certo diz “eu não estou mais no mundo” (v.11). Ele ora com o propósito de que o Pai seja glorificado nEle e através dEle e também por meio daqueles que o Pai escolheu. A Igreja prossegue através dos tempos porque Cristo orou por ela. A Igreja tem enfrentado ao longo dos tempos as mais cruéis perseguições, contudo marcha triunfante porque Cristo orou por ela.

2.       É UMA ORAÇÃO ESPECÍFICA
O segundo ponto que podemos destacar acerca dessa oração é que ela é uma oração específica. Cristo não se perde numa multidão de palavras, nem perde tempo com generalidades.  Podemos notar uma divisão natural nesta oração, qual seja:

2.1.  Cristo intercede por Si mesmo, 1-5
Os Evangelhos Sinóticos registram diversas vezes que Jesus se retirava para orar, contudo aqui se registra ele orando por Si mesmo. Mas porque orava o Mestre? “Sem dúvida, se preparava para os sofrimentos que se encontravam diante dele. Ao contemplar a glória que o Pai lhe prometeu, deve ter recebido forças para seu sacrifício (Hb 12:13)”.[4]

2.2.  Cristo intercede pelos discípulos, 6-19
“No entanto, Jesus também pensava em seus discípulos imediatos (Jo 17:13). Essa oração deveria ter sido um grande estímulo para eles. Jesus orou pela segurança, pela alegria, pela união e pela glória futura de seus discípulos”

2.3.  Cristo intercede pela Igreja,20-26
Na última seção Cristo concentra suas petições por aqueles que se seguiriam aos apóstolos ao longo dos anos, portanto, isto significa que Cristo orou por nós!  Sua petição é para que haja unidade. O objetivo da unidade é para refletir a unidade entre as pessoas da Trindade, o Pai e o Filho, e por isso mesmo glorificar a Deus e, em segundo lugar, fornecer um testemunho inequívoco da realidade da obra salvadora de Cristo nos pecadores, em outras palavras, levar os pecadores à Cristo. Note bem que a unidade começa com Cristo, pois sem Ele não há unidade.

3.       É UMA ORAÇÃO QUE GARANTE OS RESULTADOS
O terceiro aspecto desta oração é que ela garante seus resultados. Eis aqui novamente o aspecto em que esta oração é singular. Nenhuma oração se iguala a essa, pois nela o Senhor Jesus está garantindo os seguintes resultados:

3.1.  Do trabalho do Redentor, v.1-4
A obra de Cristo Jesus é absoluta, cabal.  A petição de Jesus quanto á Sua glorificação indica isso (v.1). A declaração acerca do que estava para acontecer foi “eu te glorifiquei na terra, completando a obra da qual me encarregaste” (v.4). O termo usado aí implica em que tudo o que precisava ser feito foi feito, repetiu isso na cruz quando diz “está consumado”, 19:30.  Esta expressão era usada: 1) quando um pai dava uma missão ao filho e este a cumpria, dizia para o pai: “Tetélestai”; 2) quando se pagava uma nota promissória: batia-se o carimbo: “Tetélestai”; 3) quando se recebia a escritura de um terreno, escrevia-se na escritura: “Tetélestai”. Em outras palavras, Cristo diz que pagou o preço da nossa redenção e isso de modo completo, cabal e absoluto. O autor de Hebreus explica a suficiência do sacrifício de Cristo dizendo que ele ofereceu de uma vez por todas “para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo, oferecendo-se uma só vez, Hb 9:10-28.

3.2.  Da aplicação de Sua obra a nós, v. 5-10
A salvação não é uma teoria, não é uma filosofia. A salvação foi aplicada a nós e por meio da intercessão de Cristo. Cristo diz que manifestou o Nome de Deus aos eleitos e o resultado disso é que eles guardaram a Palavra de Cristo (v.6), eles a receberam e creram em Cristo (v.8) e pertencem a Cristo e neles ele é glorificado (v.9,10). Observe que a intercessão de Cristo se refere somente aos eleitos, pois a eles e somente a eles, os benéficos da obra de Cristo são aplicados. 

3.3.  Do caráter dos remidos,13-26
Todos aqueles a quem Cristo deu vida, manifestarão os frutos dessa nova vida. Para isso ele nos designou (15:16). Ele intercedeu em prol da nossa santificação pela Palavra da verdade (v.17).  Sua oração aqui não garantiu apenas que os eleitos fossem revividos espiritualmente, mas que também manifestassem certas características:

(a)     Alegria, v.13
(b)     Santificação, v.14-17
(c)     Verdade, v.17,19
(d)     Propósito (missão), v.18
(e)     Unidade, v.20,21
(f)       Esperança, v.24
(g)     Amor, v.26

Quais são as aplicações desta poderosa oração por nós?
1.     O valor da oração. Se Cristo, no momento mais crucial de sua vida orou, não podemos jamais negligenciar o papel da oração em nossas vidas. Uma das verdades mais tristes em relação à igreja de modo geral é a ausência de oração na vida dos seus membros. Lloyd-Jones observou que “quanto mais santificada é a pessoa, quanto mais piedosa, mais tempo passa em oração”.
2.    Quanto ao como e sobre o que orar.  Dois pontos podem ser destacados aqui que enriquecem a nossa teologia da oração:
  •      Primeiramente essa oração é um modelo de como se deve orar. Note a reverência de Cristo na oração. Seis vezes se refere a Deus como Pai, contudo em nenhum momento o trata com familiaridade desrespeitosa. Note que não há exigência, não há barganhas, mas há temor e devoção filial.
  •        Em segundo lugar observe suas petições. Cristo pediu primeiramente por si mesmo. O que pediu? Algo que raramente nós pedimos, para que Deus fosse glorificado! Depois, orou pelos discípulos, os futuros líderes da Igreja, para que fossem plenos de alegria, pois sabia as lutas que enfrentariam no pastoreio do rebanho e, por último, pela Igreja, para que fosse santa, verdadeira e unida.

3. Quanto aos resultados práticos dessa oração de Cristo por nós.  A beleza da passagem é fora de qualquer cogitação.
  •      Consolo: a questão é: quantas vezes recorremos a este texto para nosso consolo em momentos de crise? Certamente é um grande consolo saber que irmãos oram por nós, especialmente nos momentos mais críticos das nossas vidas. Mas, o que é tão maravilhoso aqui é que temos o próprio Filho de Deus intercedendo por nós! John Knox, como já mencionei, achou  grande consolo nesta passagem nas suas últimas horas de vida! Knox revelou que nesse texto era o lugar “onde lançou primeiramente a sua âncora”.
  •      Estimulo: note que Cristo orou por nós antes mesmo que nós tivéssemos nascido e se hoje nós somos cristãos é porque Deus respondeu à intercessão de Cristo por nós! Se chegamos até aqui é por causa da intercessão de Cristo em nosso favor! Mas, há mais um elemento. Quantas lutas enfrentamos, quantas dores suportamos, quantos dissabores? Porque resistimos? A resposta é porque Ele intercedeu por nós! Nossas vitórias não são nossas, são dEle!







[1] WIERSBE, W. W., Comentário Bíblicos Expositivo, Novo Testamento, Vol.1, Central Gospel, p.474
[2] LLOYD-JONES, D.M., Salvos desde a eternidade, Ed. PES, p.10
[3] BRUCE, F.F., João, introdução e comentário, Vida Nova, p. 279; igualmente Carson, O Comentários de João, Vida Nova, p. 553
[4] WIERSBE, Op Cit