sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

GUARDA O TEU CORAÇÃO


Silas Roberto Nogueira

(Notas da Série de Sermões:Aprendendo com os Gigantes de Deus)

Aprendendo com John Flavel

Provérbios 4.23
                  

Vamos começar a nossa série de estudos com John Flavel. Ele nasceu em 1628 em Bromsgrove, Worcestershire, Inglaterra. Seu pai, Richard Flavel, era um ministro piedoso que morreu na prisão por não conformidade em 1665. John recebeu sua educação cristã de seu pai e depois conseguiu estudar em Oxford onde suplantou seus contemporâneos, obtendo o bacharelado em Artes. Em 1650, aos 22 anos foi ordenado ao ministério. Durante 41 anos Flavel exerceu seu ministério com fidelidade ao Senhor. Em 6 de junho de 1691 teve um derrame cerebral e veio a falecer. Há muitas coisas que chamam a atenção na vida de John Flavel, mas pelo menos quatro delas eu quero destacar:

1.       John Flavel era um homem sábio e poderoso na pregação

Flavel era descrito como um homem humilde, piedoso e culto. Ele tinha era bastante versado sobre temas eclesiásticos e teológicos e dominava vários idiomas orientais. Um membro de sua igreja falou sobre ele nos seguintes termos “eu poderia falar muito, mas não o suficiente sobre a excelência de sua pregação... em resumo, quem pudesse ficar sob o seu ministério sem ser fortemente influenciado, ou tinha miolo mole ou coração duro, ou ambos”.[1] Quando foi expulso do púlpito em 1662 ele passou a pregar em residências e em florestas. Algumas dessas reuniões nas florestas ocorriam à meia noite. Em certa ocasião os guardas chegaram e muitos fugiram, mas alguns protegeram Flavel e se embrenharam na mata até que fosse seguro ouvir a sua pregação. Robert Murray M’Cheyne relata a conversão de um homem que ouviu Flavel pregar quando tinha 15 anos e que depois de 85 anos foi convertido por Deus ao meditar nesse sermão! O poder da pregação de Flavel vinha de sua profunda experiência espiritual, suas meditações e autoexame. Middleton assinala que “ele alcançou bem fundada certeza da fé, cujas arrebatadoras consolações muitas vezes se derramavam em sua alma; isso fazia dele um pregador muito poderoso e de muito sucesso, como alguém que falava do seu coração ao coração dos outros. Ele pregava o que sentia, e o que ele tinha experimentado, o que tinha visto e provado da Palavra da Vida, e eles sentiam isso também”[2].

2.       John Flavel era um homem perseverante

Flavel foi deposto do púlpito e era procurado pela guarda real. A partir daí ministrava às suas ovelhas em reuniões secretas. Em algumas oportunidades ele ministrava nas florestas ou em lugares distantes. Certa vez disfarçou-se de mulher para não ser preso e para poder chegar a um lugar secreto de reuniões onde ia pregar e administrar o batismo. Numa outra oportunidade, sendo perseguido pelas autoridades, ele atirou-se com o cavalo no mar e nadou através das rochas para chegar em Slapton Sands (praia). Em 1665, por causa do Ato das Cinco Milhas (que obrigava os ministros não conformistas a ficarem distantes 8 km da igreja de onde tinham sido expulsos) Flavel mudou-se para Slapton onde ministrou a diversas pessoas e ocasionalmente em reuniões secretas noite a fora. Em 1672 Charles II emitiu um ato de Indulgência e Flavel pode voltar à Dartmouth, mas agora como congregacional. No ano seguinte a indulgência foi cancelada e Flavel voltou a pregar secretamente em casas e nas florestas. Mesmo em meio às perseguições Flavel dedicou-se a escrever entre o fim da década de 1670 e 1680 e conseguiu publicar ao menos nove livros. Todos os livros eram fruto dos seus sermões. Um deles The Fountain of Life é fruto de 42 sermões sobre a pessoa de Cristo e pelo menos 15 deles sobre os sofrimentos de Cristo. Flavel mesmo diz que esse livro veio em meio às perseguições. Mas mesmo em meio a perseguições, Flavel seguiu incansável em sua paixão pela glória de Deus.

3.       John Flavel era um homem de dores

Uma das coisas que podemos facilmente notar na vida de Flavel é que ele era um homem experimentado no sofrimento. Boa parte do seu ministério foi desenvolvido em meio às perseguições, a não ser os seus últimos anos de vida. Mas não foram somente as perseguições, havia também outros sofrimentos. Flavel casou-se quatro vezes. Sua primeira esposa Joan Randall, uma mulher muito piedosa, faleceu ao dar a luz, em 1655. O bebe também morreu logo em seguida. Um ano mais tarde Flavel casou-se com Elizabeth Stapell com quem teve filhos. Elizabeth faleceu sete anos mais tarde, em 1673. Ele contraiu novas núpcias com Ann Downe, que lhe deu dois filhos e com quem viveu por onze anos. Eka faleceu quando ele, em meio as perseguições havia ido para Londres. Sua quarta esposa era filha de um ministro chamado George Jeffreries, e chamava-se Dorothy; ela sobreviveu ao marido. Flavel tinha 37 anos quando seu pai Richard Flavel, um ministro piedoso faleceu vítima do contágio da peste numa cela. Apesar de todas as dores, Flavel sempre via a boa mão de Deus conduzindo todas as coisas. Ele mesmo dizia ser um “dever dos santos, principalmente em tempos penosos, refletir nas realizações da providência por eles em todos os estados e através de todos os estágios das suas vidas”.  

4.       John Flavel era um homem de oração e de profunda experiência com Deus

Flavel era um homem de oração. Ele considerava o melhor teólogo aquele que estudava de joelhos. Para Flavel a oração não consistia no muito falar (Mt 6.7), mas em um espírito fervoroso (Sl 143.7) e na escolha prudente de argumentos prevalecentes (Jó 23.4) e além disso, uma perseverança em oração até que os pedidos sejam alcançados (Is 61.7). Ele tinha uma excepcional unção na oração. Certa vez alguns homens de Dartmouth saíram para uma batalha naval e Flavel orou em público e suplicou pela vida dos homens e o Senhor o ouviu de modo que nenhum deles tombou na batalha. Numa outra ocasião, o navio em que estava enfrentou uma severa tempestade no mar. O capitão e os marinheiros chegaram à conclusão que se Deus não interferisse todos pereceriam. Flavel se pôs a orar e a tormenta cessou imediatamente e todos chegaram seguros a Londres. Flavel sabia do valor e poder da oração. Para ele a falta de oração indicava um coração sem a graça divina.[3] Flavel tinha profunda experiência com Deus. Certa vez, enquanto cavalgava, foi tomado de profundos pensamentos celestiais e ficou tão arrebatado pela alegria do céu que perdeu completamente o senso de onde estava, quando chegou a uma fonte, exausto, lavou-se em pensou que se esse fosse o seu último dia, a morte não teria um semblante inimigo, mas agradável ante a doçura de Cristo[4]. Segundo ele, nesse dia aprendera mais do céu do que em qualquer outro livro que já lera.

Flavel foi descrito como um homem humilde, piedoso e culto. Quase todo o seu ministério foi desenvolvido em meio às perseguições e lutas. Seu caráter firme e sua perseverança foram forjados no fogo da aflição. Qual o segredo espiritual de Flavel? O que fez de Flavel um gigante de Deus sobre os ombros de quem podemos ver mais longe? Certamente muitos aspectos poderiam ser destacados, contudo focalizarei apenas um. Flavel sabia o valor de guardar o seu coração e se dedicou a isso durante toda a sua vida. Segundo ele mesmo, guardar o coração é a maior obra da vida de um crente. Flavel pregou onze vezes sobre o texto de Provérbios 4.23. Esses sermões foram publicados em forma de livro em 1671 e durante anos têm sido usados por Deus para instruir Seu povo e até mesmo levar alguns homens à conversão. É justamente esse o tema que estudaremos juntos a partir de agora, vejamos o que podemos aprender desse gigante de Deus.

EXPOSIÇÃO
Flavel afirmava que “o coração do homem é a pior parte dele antes da regeneração, e a melhor depois: é a sede dos princípios, a fonte das ações. Os olhos de Deus estão sobre ele e os do cristão devem estar postos sobre ele também”. Nosso coração revela quem somos. Guardar o coração é tarefa da vida e o cristão é marcado justamente por se aplicar nessa tarefa. Há uma grande ajuda para nós provenientes deste texto:
GUARDAR O CORAÇÃO É UM DEVER PESSOAL

Há diversas coisas a notarmos no texto e todas de suma importância para a nossa vida espiritual. A primeira coisa a ser observada é a ênfase que há no texto acerca de guardar o coração pela repetição do termo “guardar” e pelo verbo no imperativo. Isso nos ensina as seguintes coisas...
a)       Guardar o nosso coração é tarefa nossa; nossa responsabilidade pessoal e intransferível (“teu”)
b)       Guardar o nosso coração implica em certa uma dificuldade, não é algo fácil.  
c)       Guardar o nosso coração é uma tarefa contínua. Diz Flavel “guardar o coração é uma trabalho que nunca estará concluído até que a vida tenha acabado”.

O segundo ponto a destacar aqui é o sentido do termo “coração”. O hb “leb” é um termo que tanto pode ter um sentido literal, isto é, órgão humano, quanto um sentido figurativo. O sentido aqui é obviamente figurativo ou metafórico, portanto tem o sentido de mente (3.3;6.21,32; 7.3,7b), emoções (15.15,30), vontade (11.20; 14.14) e ser interior (3.5 com 1 Sm 16.7; Sl 51.17). O nosso coração comanda o que falamos (Pv 16.23; Mt 12.34; Lc 6.45), o que desejamos (2 Cr 12.14; Jz 9.3; Nm 16.28 – “não procedem de mim mesmo” – lit “não procedem do meu coração” isto é, “minha vontade”) e como agimos (Pv 27.19; 5.12). Somos ordenados a guardar o nosso coração e a razão disso é que dele provém o que falamos, pensamos, sentimos e o modo que agimos. Não é, portanto, coisa de somenos importância. A Bíblia não perde tempo com coisas sem importância.

Conta-se que numa cidade turística de montanha havia uma fonte de águas minerais que jorrava da encosta. Essa água era famosa por sua leveza e frescor. Um velho que morava na cabana da montanha tomava conta da fonte. Todos os dias ele a limpava. A fonte era limpa, e a água, pura. Entretanto um novo prefeito assumiu o governo da cidade e, para fazer as obras que queria, teve de fazer alguns cortes. Entre eles, o salário do guarda das fontes. “Afinal”, dizia, “nossa água é pura e cristalina. Vem direto da montanha. Não precisamos de ninguém para guardar o que já é limpo por natureza.” Passou-se algum tempo, e houve uma epidemia na cidade. De uma só vez, crianças e adultos apresentavam febre alta e outros sintomas que acometeram grande parte da população. Foi decretado estado de calamidade pública. O Ministério da Saúde foi convocado, e exames foram feitos na população doente. Constatou-se que o problema estava na água. “Não pode ser! Nossa água é pura e limpa; todos podem ver”, dizia o prefeito. E foram em equipe até à fonte na montanha. Quase não a encontraram.
Toda aquela beleza de antigamente desaparecera debaixo de milhares de folhas apodrecidas, centenas de galhos secos e podres e vários animais mortos, em decomposição. O prefeito então compreendeu, um pouco tarde, o valioso serviço do guarda da fonte. Assim também a Bíblia nos ensina a guardar o nosso coração. Ele é a fonte de onde procedem todas as coisas que contaminam o homem.

Se nos concentrássemos em guardar o nosso coração, certamente muitos males poderiam ser evitados.

  
O MODO COMO DEVEMOS FAZÊ-LO É INDICADO

As traduções em português não alcançam o sentido do hebraico, por melhores que sejam. No original só há uma palavra aqui e que foi traduzida por “guardar” (hb mishmar; LXX phylake), mas o seu sentido é o de “confinar” e até mesmo “aprisionar” (Gn 41.10). Flavel destaca que a palavra ilustra uma fortificação sitiada por muitos inimigos do lado de fora e correndo perigo de ser traído por cidadãos do lado de dentro quando os soldados são ordenados à vigilância sob pena de morte. Segundo Flavel o enfático que o original transparece implica em que a vigilância montada deve incluir todos os guardas, em fileiras duplas dificultando qualquer ação do inimigo. Portanto, o sentido é o de vigilância constante e diligente sob pena de queda. Flavel faz questão de lembrar duas coisas:
(a)     A ordem não implica em que sejamos capazes de fazer isso por força própria, em outras palavras não implica em nossa suficiência para a realização da tarefa. Em outras palavras, a dificuldade deve nos levar a perceber que não somos capazes e que precisamos de ajuda para isso. Flavel diz com sabedoria quanto a isso que o “dever é nosso, mas o poder é de Deus”. Paulo afirma que é Deus quem guarda o nosso coração, Fp 4.7.
(b)     Uma ordem tão enfática deixa subentendido o perigo da desobediência. A cidade sitiada cai sob o poder do inimigo quando os guardas vacilam, assim como o coração humano cai quando nós vacilamos em guarda-lo, Pv 25.28.

Salomão nos apresenta uma verdadeira prioridade. São poucas as verdadeiras prioridades na vida, mas aqui o sábio nos apresenta uma delas – “acima de tudo” ou “sobre tudo” devemos guardar o nosso coração. Não nos ordena guardar dinheiro ou qualquer outro bem, mas o coração e isso de modo absolutamente diligente. Certo comentarista diz que o que se espera aqui é que se guarde o coração como o mais precioso dos bens.

A RAZÃO PELA QUAL DEVEMOS FAZÊ-LO É INDICADA

A razão da tarefa é indicada –“porque dele procedem as fontes da vida”. O que Salomão quer dizer é o seguinte: nosso coração é como um reservatório e o que sai dele é o que determina a qualidade e o caráter de sua vida espiritual. Se o seu coração estiver contaminado isso terá consequências sobre o seu comportamento, seu discurso, suas atitudes e afetará cada área da sua vida. O seu coração é a fonte da sua vida e se você poluir essa fonte toda a sua vida será contaminada. É vital entender isso.  Assim sendo, nós devemos guardar o nosso coração livre da contaminação. Devemos guardar nosso coração da contaminação de fora e da contaminação de dentro. Somos responsáveis pelo que sentimos, pensamos, falamos e pelo que fazemos e isso tudo flui do nosso coração. O que guardamos em nosso coração determina o nosso relacionamento com Deus (Sl 66.18) e com o próximo.

Mathew Henry disse sabiamente: “Nossa vida será regular ou irregular, confortável ou desconfortável, de acordo com os nossos corações são mantidos ou negligenciada”.

Flavel afirmava que o desenvolvimento dessa tarefa indicava a sinceridade da nossa profissão de fé.

COMO DEVEMOS FAZÊ-LO?

A questão crucial é - como você pode guardar o seu coração? Como pode mantê-lo puro?  Definitivamente essa não é uma obra para o homem realizar sozinho, Pv 20.9. Flavel destacava que o homem precisava da ajuda graciosa de Cristo, Jo 15.5. Portanto, guardar o coração é uma obra para aquele que já entregou seu coração ao Senhor, Pv 3.5. Há um paralelo interessante entre o texto que temos aqui e as palavras de Jesus sobre o Espírito fluindo de dentro de nós como uma fonte eterna, Jo 7.37-39. Para Flavel os passos básicos para guardar o coração consistiam de:
(a)     Autoexame – Flavel diz que um coração não pode ser guardado se não for examinado, Sl 77.6.
(b)    Humildade – Flavel diz que um coração orgulhoso não pode ser guardado se não for humilhado, 1 Rs 8.38.  (2 Cr 36.26).
(c)  Súplica – Flavel fala que devemos clamar por purificação de pecados ocultos, Sl 19.12; 86.11; Sl 51.17,19.
(d)   Percepção constante da presença divina – Flavel nos lembra de que Jó manteve a sua integridade mesmo sofrendo ardente provação por ter os olhos postos na onipresença divina, Jó 31.4 (Sl 44.20,21; Jr 20.12; 1 Cr 28.9; Hb 4.13).

No contexto do texto que estamos estudando, Salomão apresenta-nos o caminho para guardar o nosso coração:
·        Para guardar o coração é preciso proteger os ouvidos, 4.20. Ao que temos dado ouvidos?
·        Para guardar o coração é preciso proteger os olhos, 4.21,25 (Sl 119.37). No que temos posto os nossos olhos?
·        Para guardar o coração é preciso proteger os lábios, 4.24 (Pv 17.20 com Tg 3.2). O que nossos lábios têm falado?
·         Para guardar o coração é preciso proteger os pés, 4.26,27.(Pv 4.14,15) Onde temos andado?

Controle as suas emoções – não deixe as suas emoções controlarem a sua vida. O que sentimos é uma decisão nossa. A Bíblia condena aqueles que se deixam levar pela emoções , Tg 3.14,15 – isso é definido como sabedoria sensual, impulsionada pelos sentidos, não vem de cima, é carnal e diabólica. Ela produz conflitos e dor. Richard Baxter dizia “mantenha fora todas as paixões desordenadas, sentimentos que arrebatam os pensamentos e os conduz para longe, se a raiva ou prazer for permitido ela vai comandar o seu pensamento”. (Filipenses 4.8,9)



[1] BEEKE, p.330,331
[2] BEEKE, p. 333
[3] An Exposition of the Assembly's Shorter Catechism by John Flavel (pergunta 98)
[4] LLOYD-JONES, Os puritanos, suas origens e sucessores, p. 51

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

OS PERIGOS QUE CERCAM O CULTO


Silas Roberto Nogueira

(Algumas Notas da Série de Sermões em Malaquias) 

Texto: Malaquias 1:6 -14

Você já parou para pensar nos perigos que corre ao cultuar a Deus?  Poucos se dão conta disso, mas há perigos que cercam o culto a Deus. Uma das coisas que muitos ignoram é que Deus não recebe qualquer tipo de culto. Ele não é um Deus do tipo carente que se satisfaz com qualquer tipo de adoração. Em outras palavras, o culto a Deus tem que ser aceitável a Ele. John Frame assinala que “culto é serviço de reconhecimento e honra a grandeza do nosso Senhor da Aliança”. Se nosso ajuntamento for menos que isso, não é aceitável a Deus. É importante que saibamos que Deus nem sempre se agrada do culto que Lhe prestamos. A Bíblia narra vários exemplos de cultos que desagradaram a Deus, Caim (Gn 4), Nadabe e Biú (Lv 10:1-13), Saul (1 Sm 13:7-14), Uzá (2 Sm 6:6,7 com 1 Cr 15;13-15), Uzias (2 Cr 26:16-23). Observe que em cada um dos casos Deus executou juízo contra aqueles que não o cultuaram de modo devido. John Frame diz que cultuar a Deus de modo certo é uma questão de vida e morte. A Confissão de Fé Batista de 1689 declara:

A luz da natureza mostra que existe um Deus, que tem senhorio e soberania sobre todos, que é justo, bom, e faz o bem a todos; e que, portanto, deve ser temido, amado, louvado, invocado, crido e servido, de todo o coração, de toda alma, e com todas as forças. Mas a maneira aceitável de se cultuar o Deus verdadeiro é aquela instituída por Ele mesmo, e que está bem delimitada por sua própria vontade revelada, para que Deus não seja adorado de acordo com as imaginações e invenções humanas, nem com as sugestões de Satanás, nem por meio de qualquer representação visível ou qualquer outro modo não descrito nas Sagradas Escrituras. (CFB 1689, XXII.I)

Deus estabeleceu regras para o culto e corremos sérios riscos quando transgredimos tais regras, por isso o autor de Hebreus diz “sirvamos a Deus de modo agradável...” (Hb 12.28).

O PERIGO DO CULTO IRREVERENTE, v.6,7
O primeiro perigo que corremos na adoração é prestar a Deus um culto irreverente. Os sacerdotes “desprezavam” (hb bazaz - menosprezo) a Deus. Eles desprezavam ou menosprezavam ao Senhor com duas atitudes:
a)      Não O honravam (kabod = glória) como pai – isso quer dizer que não Lhe demonstravam afeição, amor como Ele requereu em Suas ordenanças.
b)     Não O temiam (mowrá = temor, medo) como Senhor – isso quer dizer que não Lhe demonstravam respeito.
O culto que prestavam não procedia de um coração cheio de profundas afeições por Deus, como Deus requer, Dt 10:12. Piper diz que afeições fortes por Deus são os ossos e a medula do culto bíblico. O desprezo manifesta-se na desobediência, quando desobedecemos a Deus nós O desprezamos (1 Sm 2:17; 2 Sm 12:10). Malaquias denuncia o culto irreverente dos sacerdotes em que se apresentavam diante de Deus com motivações torpes (v.7 – “pensais”) em flagrante desobediência às prescrições bíblicas quanto ao culto. Além do mais, não se davam conta do seu pecado e arrogante e cinicamente perguntavam– “em que te havemos profanado?” (v.7), não viam aquela atitude como pecado.

Peter Green certa vez declarou “onde não há reverência, certamente está faltando a espécie mais elevada de amor”.

Como isso se aplica a nós? Os reformadores defendiam o sacerdócio universal de todos os crentes e isso torna essa mensagem com uma aplicação direta para nós. Como afirmou Frank Gabelein “a reverência é essencial para a adoração”. Aproximar-se de Deus sem reverência é brincar com fogo, ou seja, é estupidamente perigoso, Hebreus 12:28.

O PERIGO DO CULTO INCOERENTE, v. 8-10
O segundo perigo que corremos é a falta de coerência no culto. Isso pode ocorrer em três instâncias:
a)      Incoerência com a prescrição divina, Dt 15:21. A Lei mosaica prescrevia que nenhum animal dilacerado, doente ou defeituoso poderia ser oferecido a Deus. Era exatamente esse tipo de animal que os judeus estavam oferecendo ao Senhor (1:8,9). Deve haver coerência entre o nossa atitude com as prescrições bíblicas, do contrário estamos pecando.
b)     Incoerência com a dignidade de Deus, v.8,9. O povo não ousaria oferecer um animal dilacerado ou enfermo a uma autoridade humana, pois entendiam o perigo de fazê-lo. Mas não temiam ofertá-lo a Deus. Temiam homens, mas não Deus! Deve haver coerência entre as nossas ofertas e a dignidade dAquele a quem estamos ofertando. Como buscar o favor de Deus com tais ofertas?
c)      Incoerência com a vida do adorador, v.9b. A vida do adorador antecede a oferta, contudo a oferta corresponde à vida do adorador.

A advertência do Senhor é que um culto hipócrita, sem coerência é um culto inútil, v.10 (“não tenho prazer”) com Is. 29:13. Quando há um divórcio entre a vida e a teologia a adoração é vã.

Caim não teve seu culto recusado pelo fato de ter oferecido a Deus os fruto do campo, mas porque sua vida era incoerente com o Deus que pretendia cultuar, Gênesis capítulo 4.

Deus quer um culto coerente – “vivo, santo e agradável” (Rm 12:1,2). Uma vida piedosa é um culto contínuo!

O PERIGO DO CULTO NEGLIGENTE, v. 8,9,13,14
O terceiro perigo que corremos é o de prestar culto a Deus de modo negligente. A negligência se manifestava em dois sentidos – em ambos os casos as primícias são negligenciadas, mas as bênçãos são requeridas:
a)      Qualquer coisa serve: havia aqueles que ofereciam qualquer animal a Deus. O termo “dilacerado” (v.13) implica em que muitos estavam oferecendo animais que haviam sido atacados por outros animais, quem sabe até mesmo animais mortos. Pensavam no culto como uma obrigação, uma necessidade para Deus. Até hoje tem quem pensa que Deus precisa da nossa adoração e por isso se satisfaz com qualquer adoração – mas isso está longe da verdade.
b)     Aparência de piedade (v.14): havia alguns que queriam passar a imagem de espirituais. Faziam votos públicos (Lv 22:17-25) e quando era para oferecer um animal sem defeito, trocavam-no por outro doente sem que ninguém percebesse. A hipocrisia é um mal terrível. O embuste é amaldiçoado.

O que fizeram Ananias e Safira?  (At  5.1-11) O que lhes sobreveio? A hipocrisia é fatal.

Deus requer a nossa diligência nos atos de culto, tudo deve ser feito da melhor maneira possível. Um culto negligente não conta com a bênção de Deus, mas sua maldição.

O PERIGO DO CULTO ENTEDIANTE, v. 13
Um quarto perigo é o do culto entediante. Os sacerdotes estavam insatisfeitos com os serviços do culto e o povo os seguia mostrando-se cada vez mais mesquinho. O termo usado para “canseira” aqui é uma metáfora extraída do gado que quando não quer uma determinada forragem bufa sobre ela e a enjeitam. Os sacerdotes viam o serviço religioso como um fardo (Mq 6:3), não havia alegria nenhuma, como houve no passado, Sl 122:1; Sl 32.11; Sl 84.

Alguém já disse com propriedade que se não há alegria na adoração não há adoração. Não há tédio em estar na presença de Deus, pois Ele é manancial de alegria, de felicidade!
Quando não encontramos prazer em Deus, nada poderá nos satisfazer. Um cristão verdadeiro não precisa ser arrastado ao culto, isso lhe é um prazer. Um verdadeiro cristão não troca o culto por outra programação mais interessante, pois nada pode ser mais prazeroso do que estar na Casa de Deus.

Devemos ter em mente que o culto é uma questão de vida ou morte. Não podemos cultuar a Deus de qualquer modo, de qualquer maneira. Nosso culto deve ser reverente. Devemos cultuar a Deus de modo coerente. Uma vida piedosa é um culto contínuo! Devemos cultuar a Deus de modo diligente. Devemos cultuar ao Senhor com alegria!