sábado, 13 de outubro de 2012

Jesus Alegria dos Homens



Gióia Junior


Nesta hora de incerteza. de cansaço e de agonia,
nesta hora em que, de novo, a guerra se prenuncia,
neste momento em que o povo não tem rumo, nem tem guia;
Ó Jesus, agora e sempre Tu és a nossa alegria!

Nesta hora seca e torpe, de vergonha e hipocrisia,
quando os homens apodrecem nos banquetes e na orgia,
nesta hora em que a criança atravessa a noite fria;
Tu és a nossa esperança, Tu és a nossa alegria!

Alegria manifesta, que brotou e se irradia
de uma simples e modesta e sublime estrebaria,
alegria nunca ausente,
alegria onipotente
que palpita para o crente
e faz dele um novo ser;
alegria cristalina,
doce, mística, divina,
que nos toma e nos domina
e nos enche de poder.

Tu és a nossa alegria! Santa alegria, Senhor,
que nos une e nos separa e nos fecunda de amor!
Por isso cantamos hinos, temos prazer no louvor,
até nas horas escuras do afastamento e da dor.


Cantai, ó povos da terra!
Trazei harpas e violinos,
oboés, cítaras, guitarras,
harmônios, címbalos, sinos,
clavicórdios e fanfarras,
coros de virgens e mártires, de meninas e meninos!

Cantai, ó povos da terra!
Trazei avenas e tubas, flautas, flautins,
clarinetas, celos, clarins
e tambores
e metálicas trombetas e puríssimos cantores!

Cantai, ó povos da terra!
Trazei pássaros e fontes, bulícios, rios e ventos,
rochas, árvores enormes, alvos lírios orvalhados, palmas viçosas luzindo,
sons da noite, vozes múltiplas dos animais e das águas,
das pedras e dos abismos, das florestas intocáveis
e dos mundos subterrâneos, sons da madrugada clara:
estalos de galhos verdes. Doces ruídos domésticos: talheres e louças brancas.
Sons de fábricas, ruídos de teares e bigornas, de madeiras e metais,
passos pesados de botas de militares eretos,
passos macios e quentes de rosadas colegiais.

Cantai, ó povos da terra!
Cantai de noite e de dia,
na tarde pesada e morna,
na manhã ágil e fria,
na aflição, ou na ventura,
ao nascer, ou na agonia:
Jesus - Senhor dos senhores,
Tu és a nossa alegria! Tu és a nossa alegria! Tu és a nossa alegria!

terça-feira, 9 de outubro de 2012

A JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ - Defendida



Notas do sétimo sermão da série em Gálatas

Silas Roberto Nogueira 


Gálatas 3.1-14

INTRODUÇÃO
Em nosso estudo anterior vimos como Paulo apresenta o pensamento central desta Epístola, a justificação pela fé. Chegamos agora à secção doutrinária da Epístola, os capítulos 3 e 4. Estes dois capítulos, segundo Merrill C. Tenney constituem-se no “coração da epístola”. Nesses 60 versículos Paulo apresenta uma argumentação teológica vigorosa em favor da tese afirmada anteriormente de que a justificação é pela graça mediante a fé. São seis os argumentos apresentados aqui, abordaremos hoje apernas três deles, os contidos no capítulo 3, a saber: (a) um argumento a partir da experiência pessoal dos gálatas, vv.1-5; (b) argumento escriturístico, isto é, o ensino do Velho Testamento, vv. 6-14; (c) argumento lógico, a partir da aliança, vv. 15-29.  Antes de começarmos a exposição do nosso texto, considerando os argumentos de Paulo acerca da justificação pela fé, quero destacar alguns pontos acerca do perigo que representa afastar-se desta doutrina.
O QUE REPRESENTA ABANDONAR A JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ, v. 1
A reprimenda apostólica aos gálatas deixa evidente a importância do artigo para o apóstolo. Não era uma questão periférica, de somenos importância. Qualquer movimento para longe do ensino apostólico deve ser visto como um ato de manifesta loucura.
a)       Consumada insensatez
O afastamento dos gálatas da verdade do evangelho não era somente um ato de traição (1.6), mas um ato de manifesta insensatez. O termo “insensatos” (gr anoetos) usado aqui por Paulo descreve uma ação que é tomada sem sabedoria. Hendriksen lembra que a palavra indica uma atitude do coração e não somente da mente. Diz ele “refere-se não apropriadamente à obtusidade, mas à negligência pecaminosa de uma pessoa em usar o seu poder mental para tirar o melhor proveito mental”. “Os gálatas ao darem ouvidos aos argumentos dos legalistas, não foram propriamente lerdos, e, sim, irrefletidos; não foram ignorantes, e, sim, insensatos; não foram estultos, e, sim, néscios.”
b)      Estar fascinado pelo erro
A tolice dos gálatas em se afastar da verdade do evangelho seguindo os argumentos dos judaizantes é tamanha que Paulo os descreve como pessoas que estão agindo como se estivessem hipnotizadas. O termo “fascinou” referia-se a encantamentos mágicos, algo que se lançava sobre outra pessoa através do olhar. O termo foi tomado por empréstimo das artes mágicas que eram bem conhecidas na região, descrevendo aqueles que ficavam como que hipnotizados, agindo de modo estranho. Paulo compara a situação dos gálatas em impensada aceitação dos argumentos judaizantes de buscar a justificação pelas obras à mesma atitude daqueles que estavam sob o poder dos encantamentos. Algumas versões seguindo o Textus Receptus acrescentam aqui a frase “para não obedecerdes à verdade?”. E esse parece ser mesmo o caso aqui, pois o que eles estão fazendo é uma flagrante desobediência ao ensino apostólico, ao evangelho que lhes havia sido apresentado.
c)       Repudiar o único sacrifício eficaz pelo qual se obtém justificação
Stott declara que a nova atitude dos gálatas representa uma negação do evangelho. O evangelho paulino consistia de Cristo e este crucificado (1 Co.2.2) e foi justamente esta mensagem que lhes foi “exposta”. Em outras palavras, que a morte de Cristo na cruz obteve para nós a justificação diante de Deus, Rm 3.21-25. Rejeitar isso significa desprezar o único sacrifício, a única obra que Deus aceita para a justificação, Cristo crucificado. Paulo apresentou Cristo diante dos olhos dos gálatas e os ensinou a olhar para a cruz de Cristo para a sua justificação, contudo seus olhos foram como que desviados da cruz por um fascínio maligno. Tirar os olhos da cruz constitui-se o maior de todos os erros, não só dos gálatas, mas de todos os que querem ser salvos.
Dito isso, vamos agora considerar o nosso texto, extraindo daí alguns princípios e depois algumas aplicações:
Como mencionei pouco antes a tese do apóstolo Paulo é apresentada nos v.14-16 do capítulo 2. Neste trecho Paulo afirma que a justificação é pela fé, não pelas obras da lei. Agora ele consubstancia a sua tese com três argumentos:
1.       ARGUMENTO DA EXPERIÊNCIA PESSOAL DOS GÁLATAS, v.2-5
Paulo começa a sua argumentação apelando para a experiência dos crentes gálatas. Ele faz algumas perguntas retóricas, perguntas cujas repostas ele já possui e que somente auxiliarão os seus leitores originais a entender melhor a sua argumentação na defesa da justificação pela fé:
a)       A recepção do Espírito pela fé, v.2. Paulo pergunta aos gálatas se eles receberam o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé. O verbo “recebestes” (gr elabete, de lambano) está no aoristo e refere-se a um momento no passado quando da recepção do Espírito Santo, certamente ao início da vida cristã. Calvino entendia o termo Espírito aqui como se referindo à regeneração. De fato o contexto parece mesmo referir-se ao início da vida cristã, pois pouco antes ele fala acerca de sua exposição do evangelho entre eles. O Espírito é quem produz a regeneração (Jo 3) mas isso ocorre em conexão com a pregação da Palavra (1Pe 1.23). A presença do Espírito na vida de uma pessoa é, certamente a prova de que ele é um verdadeiro cristão (Rm 8.9) e igualmente a prova de que ele foi justificado por Deus, Rm 5.1-5. Ora, ninguém recebe o Espírito por obras da Lei, mas pela fé, Ef 1.13. Argumentar contra um fato é perda de tempo – aqui, Paulo demole toda a alegação judaizante da justificação pelas obras. A justificação é pela fé, pois a vida cristã é iniciada mediante a fé.
b)      O aperfeiçoamento no Espírito pela fé, v.3. O argumento de Paulo aqui é que os gálatas começaram a vida cristã pelo Espírito, mas estavam querendo lavá-la a efeito pela força e determinação humana. Há uma forte antítese aqui entre Espírito e carne (presente também em 5.16). Em outras palavras está claro que aquilo que começou pelo Espírito não pode ser levado a efeito pela carne (Rm 8.6,7,8). A vida cristã, dizia Walter Thomas Conner, é vida no Espírito. O aperfeiçoamento do cristão se dá através da energia do Espírito Santo, não da potência da carne, que na verdade é fraca. A justificação pela fé é a fonte da santificação, como já mencionamos anteriormente, abdicar disso é uma loucura.

c)       O sofrer pela fé, v.4. A palavra usada por Paulo aqui dá margem a duas interpretações. Alguns estudiosos pensam que a palavra aqui se refere às experiências que eles tiveram não ao sofrimento, pois a palavra pode ter esse sentido. Hendriksem traduz: “tendes experimentado tantas coisas em vão?” Mas, um segundo grupo de estudiosos entende a palavra com referência ao sofrimento, especialmente aqueles sofrimentos que poderiam acarretar ser cristão nos primeiros dias da igreja. Em Atos 14 alguns sofrimentos são mencionados em conexão com a recepção ao evangelho na Galácia do Norte, certamente o mesmo aconteceu com a Galácia do Sul. Eles sofreram pela fé, contudo se aceitassem os argumentos dos judaizantes, esse sofrimento seria em vão, sem sentido algum. O cristão vive pela fé e sofre pela fé. 
d)      Operações do Espírito pela fé, v.5. Observe que o tempo verbal aqui muda – antes estava no aoristo, agora no presente – “concede”, indicando uma ação contínua. O termo “Espírito” aqui tem sido entendido por muitos estudiosos como se referindo aos dons espirituais. O contexto realmente indica ações extraordinárias por parte do Espírito. A pergunta de Paulo indica de modo inequívoco que essas ações extraordinárias por parte do Espírito ocorrem por causa da pregação da fé. As ações de Deus não ocorreram em decorrência da obediência deles à lei, mas porque creram no evangelho. Isso estabelece que a justificação é pela fé, não por obras.
Os fatos são esses, Paulo apela aquilo que eles experimentaram. Paulo lhes apresentou o evangelho, eles creram, receberam o Espírito, estavam amadurecendo espiritualmente, sofreram pela fé e viram ações sobrenaturais da parte de Deus – tudo isso pela fé, sem as obras da lei. Sendo esses os fatos é ridículo se submeterem às alegações legalistas dos judaizantes.
A nossa própria experiência deveria nos afastar do legalismo que alguns querem impor sobre nós nos dias de hoje.
2.       ARGUMENTO DO ENSINO DO VELHO TESTAMENTO, v.6-14
O segundo argumento de Paulo volta-se para Velho Testamento. Paulo cita neste trecho seis versículos do Velho Testamento e desmantela a argumentação dos judaizantes. Há dois blocos nesta argumentação, o primeiro refere-se a Abraão, v.6-9; o segundo, v.10-14, refere-se à Cristo, a sua obra como base da justificação. O argumento de Paulo pode ser resumido nos seguintes pontos:
(a)     Abraão foi justificado pela fé, v.6,7. O que Paulo afirma aqui, tomando por base o que a Torá afirma sobre Abraão (Gn 15.6), é que tendo sido ele justificado pela fé sem obras constituiu-se o paradigma para todo o cristão. Abraão não foi justificado pela guarda da Lei, pois a lei não existia, nem pela guarda da circuncisão, pois a circuncisão veio anos mais tarde (Gn 17.9 ss) depois que havia crido e isso lhe havia sido imputado como justiça. A verdade é que o ensino de Paulo não é uma novidade, a justificação pela fé tem raízes profundas as quais os judaizantes ignoram. Ora, se Abraão foi justificado pela fé segue-se que buscar a justificação pelas obras da lei é um erro.
(b)    Os crentes serão justificados pela fé, v.8,9. Notemos que Paulo personifica a Palavra de Deus e isso indica sua firme crença de que Deus fala através dela. Observe o termo “previsto” (gr proidousa), ele indica algo mais que prioridade quanto ao tempo. Na verdade indica que assim como Abraão foi justificado pela fé no passado, os crentes o seriam no futuro.  A promessa feita por Deus em Gênesis 12.3 de que todas as nações seriam abençoadas em Abraão refere-se à justificação pela fé. Ser abençoado em Abraão é ser justificado tal qual ele, pela fé somente, v.9. Se os crentes da Galácia entendessem isso, descartariam os argumentos falaciosos dos judaizantes.
(c)     Ninguém será justificado pela Lei, mas somente pela fé, v.10-12.  O ponto que Paulo destaca aqui é que os que buscam a justificação pelas obras da lei estão sob maldição se não a cumprirem de modo perfeito, cf. Deuteronômio 27.26. E, nenhum homem consegue cumpri-la de modo como ela exige ser cumprida. Quando alguém tropeça em um só ponto da lei torna-se culpado de todos, Tg 2.10,11. Logo, não há esperança de justificação sob a lei, pois o seu alto padrão condena a todos. A lei impõe perfeição sob pena de maldição. Sendo assim, Paulo conclui que ninguém será justificado pela lei, mas somente pela fé. O justo viverá pela fé é uma citação de Habacuque 2.4. Paulo ao recorrer novamente ao VT deixa evidente que Deus sempre tencionou que a justificação fosse pela fé, jamais pelas obras.  Finalmente Paulo afirma a antítese entre lei e fé, v.12 citando Levítico 18.5. Aqui reside a diferença entre a lei e o evangelho. A lei diz “faça!” enquanto o evangelho diz “creia!”
(d)    A justificação é pela fé em Cristo, v.13-14. Paulo não emprega nenhuma partícula de transição, abruptamente introduz a doutrina da morte substitutiva de Cristo (“em nosso lugar”) como o único caminho para a justificação. É pela morte de Cristo que obtemos justificação de Deus, Rm 3.21-25. Cristo não se fez maldição por seus próprios pecados, mas pelos nossos, Hb 9.14 (1 Pe 1.19; 3.18). A morte de Cristo é vista como um “resgate”, Cl 2.14. Pela fé no sacrifício vicário de Cristo recebemos a justificação da parte de Deus e o Espírito Santo como selo que atesta essa justificação. Cristo é, pois a única alternativa para a justificação da parte de Deus. Não há outra via, não há outro caminho.

3.       ARGUMENTO LÓGICO, v. 15-29.
O argumento de Paulo aqui segue duas linhas de raciocínio para consubstanciar a sua tese de que a justificação é pela fé. Na primeira ele contrasta a promessa e a lei e estabelece a superioridade da promessa, v.15 a 20. Na segunda ele mostra o papel da lei, v.21-29. Vejamos:
(a)     A superioridade da promessa, v.15-20. Nesses versículos Paulo estabelece a superioridade da justificação pela fé em três linhas:
·         A lei não revoga a promessa, v.15-18. Ora a promessa da justificação pela fé é uma aliança de Deus com Abraão e, portanto irrevogável. Além disso, ela é anterior à lei e por isso a lei não pode ab-rogá-la.
·         A lei não é maior que a promessa, v.19-20. Há três declarações sobre a lei no v.19. Na primeira, Paulo mostra que a lei é como um espelho que mostra o pecado, mas não pode limpá-lo; na segunda declaração, Paulo diz que a lei era temporária – “até”, v.19b; na terceira afirma que ela foi mediada por anjos, v.19c. A promessa da justificação pela fé perdoa o pecado, é atemporal e foi mediada pelo próprio Deus, por isso é superior, v.20.
·         A lei não é contrária á promessa, v.21-22. O argumento paulino aqui é o seguinte, a lei não é contradiz a promessa – “de modo nenhum!”. Se nós pudéssemos ser salvos pela lei, Deus não teria nos dado um meio diferente de escaparmos das garras do pecado, por que a Lei nos mostra que somos pecadores. A única saída, então, é a fé em Cristo. A porta de escape do pecado é crer em Cristo.
(b)     O papel da lei, v.23-29.
Paulo já havia afirmado o caráter provisório da lei, mas agora ele desenvolve o assunto dizendo que:
·         A lei era como tutora, v.23-24. Paulo emprega duas metáforas para referir-se à lei. No v.23 é a lei é apresentada como um guardião, um carcereiro dos pecadores culpados que estão no corredor da morte aguardando o castigo. A fé, por sua vez liberta o encarcerado e o tira de sob juízo. A segunda metáfora é a do “aio” é “paidagogos” de onde a palavra pedagogo. Nos dias do Novo Testamento essa palavra se referia a um escravo que atuava como tutor de um menino até os 16 anos, acompanhando-o, cuidando do seu comportamento. Os aios eram severos, fazendo com que aqueles que estivessem sob seus cuidados ansiassem pela maioridade, v.24. A lei era uma tutora, não salvadora.
·         A lei não tem poder de subordinar os filhos de Deus, v.25-29. Nós nos tornamos filhos de Deus mediante a fé em Cristo, 25-26. E a fé nos coloca numa condição de não subordinados à condenação da lei, visto que fomos justificados pela fé em Cristo. Essa identificação com Cristo é simbolizada pelo batismo que representa um revestimento da justiça de Cristo,v 27. Essa justificação em Cristo, por sua vez é para todos sem distinção de raça ou gênero, v.28. E todos os que creem em Cristo pela fé é que se constituem a verdadeira descendência de Abraão, pois como ele, foram justificados pela fé, 29. 

Conclusão:
O que fica claro para nós aqui é o seguinte:
1.       É uma insensatez abandonar a doutrina da justificação pela fé. Sem ela nada temos que possa nos justificar diante de Deus.
2.       A justificação pela fé não é uma doutrina abstrata, mas tremendamente experiencial. Você sabe se foi justificado se tem o Espírito de Deus em você.
3.       A justificação pela fé não é uma novidade, uma invenção paulina. A justificação pela fé não é uma doutrina inventada por Paulo, mas possui raízes no VT.
4.       A justificação pela fé é a maioridade espiritual. Buscar ser justificado pelas obras da lei é infantilidade, pois a lei não salva, mas condena.