segunda-feira, 17 de setembro de 2012

MEDO DO FUTURO


D. M. Lloyd-Jones 



"Porque Deus não nos deu o espírito de temor, mas de fortaleza, e de amor, e de moderação".
II Timóteo 1:7
Com estas palavras, somos dirigidos a uma outra causa da condição que descrevemos, em termos gerais, como depressão espi­ritual. Quase não há fim para os meios em que esta condição, esta doença da alma, pode nos atacar. Demonstramos como o nosso adversário, o diabo, é sutil, e pode até mesmo transformar-se num anjo de luz, e isso é verdade; mas é igualmente verdadeiro afirmar que ele é implacável. Com isso quero dizer que ele não desiste. Ele não se importa com que métodos emprega, desde que possa nos abater e desacreditar a obra de Deus; e ele não está preocupado em ser consistente. Ele não hesita em variar o seu sistema, os seus processos, ele não hesita em contradizer o que nos disse anterior­mente; ele tem somente uma preocupação e um objetivo, e é o de trazer descrédito ao nome e à obra de Deus, e especialmente, é claro, à grande obra de Deus em nossa redenção por meio de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.
Quando Deus no princípio criou este mundo, é nos dito que "viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom". Ele estava satisfeito com tudo; tudo era perfeito. E foi por causa disso que o diabo, em sua inveja e malícia, determinou estragar e arrui­nar essa obra e concentrar seus esforços especialmente na obra suprema de Deus — a criação do homem. Se ele tão somente pu­desse derrubar o homem, então a obra-prima da criação seria arruinada. Então ele se concentrou, como bem lembramos, na mulher, e a enganou, e ela por sua vez enganou seu marido; e assim o homem caiu. Todavia a história da humanidade não termina neste ponto. Deus propôs e planejou um grande meio de redenção. Esta é, sem dúvida nenhuma, a extraordinária glória de Deus. A redenção é uma obra maior até do que a criação, especial­mente quando consideramos a maneira como Deus a realizou, a saber, enviou Seu Filho unigênito a este mundo, na maravilha e no milagre da encarnação; mas acima de tudo, entregou-0 à morte na cruz. Esta é a coisa suprema — que o homem pecaminoso e caído possa ser redimido e restaurado, e finalmente toda a criação tambem. Obviamente, então, a preocupação suprema do adversá­rio, o diabo, nosso oponente, é tentar de uma forma ou de outra trazer descrédito e desonra a esta obra de Deus. E para isso, ele tem como objeto especial de ataque os herdeiros da salvação, os cristãos, e não há nada que sirva aos seus propósitos tanto quanto nos deprimir e abater, e dar a impressão que essa exaltada salvação c apenas um fruto da imaginação, e que nós que cremos nela temos crido em "fábulas astutamente inventadas". E que melhor modo de fazer isso do que nos levar a uma condição em que damos a impressão de estar sempre deprimidos, abatidos e miseráveis?
Vimos como o diabo procura nos deprimir, fazendo com que concentremos nossa atenção no passado, de modo que, remoendo o passado, fiquemos abatidos. Entretanto, se isso falha, podemos estar certos de que ele mudará completamente a sua estratégia, fazendo com que passemos a olhar para o futuro. Isto é exata­mente o que ele faz, e é do que trata este versículo que estamos considerando agora. Vamos examinar o caso daqueles que estão sofrendo de depressão espiritual porque têm medo do futuro — eles temem o futuro.
Esta, novamente, é uma condição muito comum, e é realmente extraordinário notar a maneira em que o inimigo muitas vezes consegue causar a mesma condição fundamental nas mesmas pes­soas, através desses métodos diametralmente opostos. Quando a gente consegue corrigir a atitude dessas pessoas a respeito do passado, elas imediatamente começam a falar sobre o futuro, e como resultado estão sempre deprimidas no presente. Eles recebe­ram satisfação a respeito do perdão dos pecados — sim, até mesmo daquele pecado particular, que era tão excepcional. Foram cienti­ficados que, embora tenham desperdiçado anos, Ele pode "resti­tuir os anos consumidos pelo gafanhoto". E então dizem: "Ah, sim, mas. . .", e começam a falar sobre seu temor a respeito do futuro e do que está por acontecer.
As Escrituras estão cheias de ensinamentos a respeito disso, mas creio que estou certo ao dizer que o supremo exemplo desta condição é, sem dúvida, o jovem Timóteo, a quem Paulo escreveu esta epístola, bem como a anterior. Foi indubitavelmente seu pro­blema peculiar, e com certeza o apóstolo escreveu ambas estas cartas por causa disso. Ele dependia muito de Paulo devido seus temores a respeito das dificuldades e perigos por vir, e o objetivo das duas epístolas foi corrigir a atitude de Timóteo quanto a esse problema de enfrentar o futuro. Ora, não devemos gastar todo nosso tempo com Timóteo — eu o cito apenas como um exemplo de alguém que estava espiritualmente deprimido por causa do seu medo do futuro.
Quais são as causas dessa condição? Por que é que as pessoas temem o futuro? Quais são as razões que dão para esse temor? Quais são os aspectos particulares dessa dificuldade, e quais são os problemas que tende a produzir, e sobre os quais suas vítimas estão sempre falando? Bem, não há qualquer dúvida de que, antes de tudo o mais, devemos mencionar o temperamento — a formação da pessoa. Todos nascemos diferentes. Não há duas pessoas exata­mente iguais. Temos nossas características particulares, nossas vir­tudes, nossos defeitos, nossas fraquezas e nossas imperfeições. A pessoa humana tem um equilíbrio muito sutil e delicado. Funda­mentalmente todos temos as mesmas características gerais, mas as proporções relativas variam tremendamente de caso para caso, assim como nossos temperamentos variam e diferem. É muito im­portante que mantenhamos isso em mente. "Mas, ah", alguém dirá, "somos cristãos agora, e quando uma pessoa se torna cristã, todas essas diferenças são apagadas". Ora, essa é a falácia essencial a respeito de toda esta questão. Não há mudança mais profunda no universo do que a mudança descrita como regeneração; porém regeneração — a obra de Deus na alma, em que Ele planta a vida divina e espiritual dentro de nós — não muda o temperamento de um homem. Seu temperamento ainda permanece o mesmo. O fato de você ter se tornado cristão não significa que deixou de viver consigo mesmo. Você terá que viver consigo mesmo enquanto estiver vivo, e sempre será você mesmo, e não outra pessoa. Paulo era essencialmente o mesmo homem depois de ser salvo e convertido que era antes. Ele não se tornou outra pessoa. Pedro ainda era Pedro, João ainda era João, em temperamento e em suas características essenciais. É nisso que vemos a glória da vida cristã. É como a variedade na natureza e na criação. Olhem para as flores. Não há duas idênticas. É na variedade dentro da unidade fundamental que Deus demonstra as maravilhas dos Seus caminhos. E é exatamente o mesmo na Igreja Cristã. Todos somos diferentes, nossos temperamentos são diferentes, todos somos nós mesmos. Essa é uma das grandes glórias da Igreja. Deus distribui Seus dons através do Espírito Santo de diversas maneiras, ainda que nossa personalidade essencial continue exatamente a mesma que era antes de nossa conversão. Por personalidade quero dizer nosso temperamento, a forma peculiar em que fazemos as coisas. Fazemos as mesmas coisas, mas de forma diferente. Como cristãos lodos devemos fazer as mesmas coisas essenciais, mas a forma como as fazemos é diferente. Pensem na diferença com que dife­rentes pregadores pregam o mesmo evangelho e a mesma vida cristã; sua maneira de apresentação é diferente, e deve ser dife­rente. E Deus usa essas diferenças para espalhar o evangelho. Ele pode usar um homem para fazer com que a mensagem apele a um certo tipo de pessoa, enquanto que outro pregador não pode­ria ser usado daquela maneira. Apresentações diferentes apelam para tipos diferentes de pessoas, e está certo, e Deus usa a todos.
Então, antes de tudo colocamos o temperamento; e há pes­soas que, por temperamento, são nervosas, apreensivas, temerosas. Paulo mesmo era, eu creio, um exemplo disso. Ele era um homem nervoso, sem auto-confiança, no sentido natural. Ele foi a Corin­to "em fraqueza e temor e grande tremor". Era por natureza um homem timorato — "por fora combates, temores por dentro". Assim era ele por natureza. E isso também era verdade a respeito de Timóteo, e há pessoas que nascem assim. Existem outras pessoas que são auto-confiantes e seguras. Não têm medo de nada; enfrentam qualquer coisa; levantam-se em qualquer lugar. Nem conhecem o significado de "nervos". Esses dois tipos de pessoas são cristãos, e contudo quanto a isso são diferentes, vital e fundamentalmente diferentes. Há alguns cristãos que somente com grande dificuldade podem ser persuadidos a falar em públi­co, e há outros que são exatamente o oposto. Essa questão do temperamento é, portanto, muito importante em nossa conside­ração sobre as causas dessa forma particular de ansiedade e depressão.
Há também outras coisas que emergem quando consideramos o caso de pessoas que temem o futuro. Vocês podem perceber que elas estão sempre preocupadas com a natureza da tarefa que desa­fia  o  cristão.  Têm   um  conceito  muito  alto  da causa  cristã   (a julgar pelas coisas que dizem), e têm uma idéia exaltada da vida cristã. Essas pessoas entendem que não é fácil ser um cristão, que não é apenas uma questão de se converter e então nadar num mar de rosas o resto da vida. Não, elas o vêem como uma alta missão, uma batalha de fé; estão conscientes do caráter superior dessa vida; sabem que significa seguir a Cristo. Elas lêem o Novo Testamento,  e  sendo  invariavelmente pessoas   inteligentes,  estão conscientes da grandeza da tarefa e da chamada. Mas isso, por sua vez, tende a deprimi-las, porque também têm perfeita cons­ciência de sua pequenez. Em outras palavras, têm medo de falhar. Elas temem fracassar para com a causa. Dizem: "Gosto do evan­gelho. Creio que meus pecados foram perdoados. Quero ser um cristão, mas tenho tanto medo de falhar. Tudo está bem enquanto estou em reuniões ou na companhia de pessoas cristãs, mas tenho que viver, e conheço minhas fraquezas; estou consciente da gran­deza da tarefa, e conheço as dificuldades".  Elas têm medo do fracasso; não querem desapontar a Deus e ao Senhor Jesus Cristo e Sua Igreja na Terra. Quem são eles, para viver a vida cristã? A grandeza da tarefa e sua profunda consciência de suas próprias deficiências e necessidades as oprimem. Ou pode ser que simples­mente sofram de um tipo geral de medo do futuro, sem que nada possam definir em particular. Se lhes perguntam se elas têm medo de alguma coisa em especial, elas não sabem, mas têm esse medo indefinido, essa apreensão com respeito ao futuro, de coisas que podem  acontecer, de coisas que elas  talvez  tenham que  sofrer. Tive que tratar com pessoas assim muitas vezes.  Lembro-me de uma senhora que me disse: "Bem, sim, eu creio, mas não sei se posso me chamar de cristã". Quando eu disse: "Por que não?" sua resposta foi alguma coisa assim:   "Tenho lido sobre pessoas no passado, e pessoas no presente que têm sido perseguidas por amor a Cristo, e tenho tentado imaginar a mim mesma enfrentando tal oposição". Ela era mãe de um menino de três anos naquela época, e  disse:  "Sabe, se chegasse num ponto em que eu tivesse  que escolher entre negar minha fé ou abrir mão deste menino, eu não sei o que faria, não sei se seria forte o suficiente;   duvido que tivesse a coragem de colocar Cristo em primeiro lugar a qualquer preço, ou talvez sofrer e morrer se necessário". E por isso ela achava que não tinha o direito de se considerar cristã. Ora, ela nunca   tinha   enfrentado,   e   talvez  nunca   tivesse   que  enfrentar um teste assim, mas estava consciente da possibilidade, e isso a deprimia. Tal depressão espiritual é causada por medo do futuro — muitas vezes temores imaginários.
Não devemos nos deter muito nestas descrições ,ainda que pudéssemos multiplicar os casos. O que é extraordinário, é que isso pode se apossar de nós de tal forma que nos paralize completa­mente no presente; tais pessoas muitas vezes correm o risco de ficarem tão absorvida se envolvidas, nesses temores que se tornam totalmente incapacitadas no presente. Não há dúvida de que esse era o problema de Timóteo. Paulo estava na prisão, e Timóteo começava a se perguntar o que iria acontecer com ele. E se Paulo fosse executado? Como poderia ele, Timóteo, enfrentar sozinho as dificuldades que estavam surgindo na Igreja, e a perseguição que estava começando a se manifestar, na qual o próprio Timóteo talvez acabasse envolvido? Paulo teve que ser bastante firme com ele; dizendo que Timóteo não devia se envergonhar dele ou dos seus sofrimentos — "Portanto não te envergonhes do testemunho de nosso Senhor, nem de mim, que sou prisioneiro seu; antes participa das aflições do evangelho, segundo o poder de Deus". Medo do futuro era, indubitavelmente, a essência do problema de Timóteo.
A pergunta que se nos apresenta é: como devemos enfrentar esse problema? Como deve ser tratado? Mais uma vez não posso pensar num método melhor do que adotar o processo empregado com o problema anterior. Há certas considerações gerais prelimi­nares a serem feitas, antes de abordarmos os ensinamentos especí­ficos das Escrituras. Por isso, gostaria de apresentar certas propo­sições. A primeira coisa, novamente, é descobrir e saber exata­mente onde está a linha divisória entre prudência legítima quanto ao futuro, e antecipação paralisante. Devemos pensar sobre o futuro, e é muito tola a pessoa que não pensa nele. Mas o que as Escrituras nos exortam constantemente é que não devemos nos preocupar sobre o futuro. "Não vos inquieteis pelo dia de amanhã" significa "não sejam culpados de ansiedade quanto ao amanhã". Não significa que não devemos tomar providências quanto ao futuro; se fosse assim, o fazendeiro não sairia a arar e preparar a terra e semear. Ele está olhando para o futuro, mas ele não passa o tempo todo se preocupando com os resultados do seu trabalho. Não, ele pensa nisso dentro dos limites da razão, e depois descansa. Aqui, novamente, a questão é onde estabelecer o limite. Pensar está certo até um determinado ponto, mas se passarmos desse ponto, isso se transforma em ansiedade e preocupação, que paralisa e incapacita. Em outras palavras, ainda que esteja certo pensarmos sobre o futuro, está errado ser controlado por ele. O problema com as pessoas que são prisioneiras desses temores é que elas são controladas pelo futuro, são  dominadas por pensamentos a respeito dele, constantemente torcendo as mãos em  desespero,  sem  fazer nada,  deprimidas  pelos  seus  temores. Na  verdade,   são  completamente  governadas   e  controladas  pelo futuro desconhecido, e  isso sempre é errado.  Pensar a respeito está certo, mas ser controlado pelo futuro está errado. Ora, essa é uma proposição fundamental, e o mundo já descobriu isso. O mundo nos diz que não devemos cruzar a ponte antes de chegar a ela. Transfiram isso para seu ensino cristão, pois o mundo está certo nisso, e o cristão deve aceitar essa sabedoria. Não cruzem a ponte antes de chegar a ela. De fato, muitas declarações bíblicas em torno desse assunto se tornaram proverbiais — "não vos inquie­teis com o dia de amanhã", "basta a cada dia o seu mal". Certa­mente o Novo Testamento aborda esse conceito e o coloca em termos espirituais. Mas é verdadeiro até o último nível — "basta a cada dia o seu mal". Isso nada mais é que bom senso. Como vimos   antes,   é   uma   perda   de  tempo   preocuparmo-nos   com   o passado que não pode mais ser mudado; mas é igualmente erra­do preocuparmo-nos com o futuro, que no momento é obscuro. "Um passo de cada vez". Vivamos o presente ao máximo, e não permitamos que o futuro hipoteque o nosso presente, nem permi­tamos que o passado o faça.
Passemos agora ao que o apóstolo diz. Ele eleva a argumen­tação a um nível  mais alto, dando-nos ensinamentos específicos de caráter duplo. Primeiramente é uma reprimenda, e em segundo lugar é um lembrete. E ambos são absolutamente vitais e essen­ciais. A primeira coisa que ele faz é repreender Timóteo. Dirige-se a ele dizendo: "Porque Deus não nos deu o espírito de temor". Isso é uma reprimenda. Timóteo era culpado de um espírito de temor,   estava   escravizado   a   ele;   por   isso   Paulo  o   repreende: "Deus não nos deu o espírito de temor, mas de fortaleza, e de amor, e de moderação". O princípio, a doutrina aqui, é que nosso problema   básico,   se   sofremos   desta   manifestação   particular   da depressão espiritual, é nossa falha em compreender o que Deus nos deu, e está dando, ao nos conceder o dom do Espírito Santo. Esse realmente era o problema de Timóteo, e é o problema de todos os cristãos tais como ele. É a falha em compreender o que Deus fez por nós, e o que Ele ainda está fazendo por nós.  De fato, podemos empregar palavras que o Senhor usou certa vez numa circunstância um pouco diferente. Ao responder a Tiago e João, que queriam chamar fogo do céu para consumir certos samari­tanos, Ele disse: "Vós não sabeis de que espírito sois". E isso é o que Paulo está dizendo a Timóteo. Jesus o usou de forma negativa, aqui está de forma positiva. O apóstolo está exortando Timóteo a avivar o dom de Deus.
Nossos temores decorrem da falha de não nos avivarmos — falhamos em pensar, e em assumir controle de nós mesmos. Co­meçamos a olhar para o futuro, e então a imaginar coisas e  a dizer: "O que será que vai acontecer?" E daí nossa imaginação se descontrola. Acabamos dominados por isso, e não paramos a fim de nos lembrar de quem somos e o que somos, nossos temores nos controlam, e ficamos abatidos.  Agora a primeira coisa que precisamos fazer é assumir controle de nós mesmos, erguer-nos, avivar-nos,  dominar-nos,  e  falar conosco  mesmos.  Como  diz  o apóstolo, precisamos nos lembrar de certas coisas. E eu creio que a coisa principal que Paulo está dizendo a Timóteo é: "Timóteo, você parece estar pensando a respeito de si mesmo e a respeito da vida e de tudo que você precisa fazer, como se ainda fosse uma pessoa comum. Contudo, Timóteo, você não é uma pessoa comum! Você é um cristão, você nasceu de novo, o Espírito de Deus está em você. Mas você está enfrentando todas essas coisas como se ainda fosse o que era antes — uma pessoa comum". E não é este o problema com todos nós em relação a isso? Ainda que verdadeiramente sejamos cristãos, que creiamos na verdade, que   tenhamos   nascido   de   novo,   que   sejamos   filhos   de   Deus, caímos nessa situação em que começamos a pensar como se ne­nhuma dessas coisas tivesse nos acontecido. Como o homem do mundo, o homem que nunca foi  regenerado, permitimos  que  o futuro  nos  assalte  e  nos  domine,  e  comparamos  nossa  própria fraqueza e falta de poder com a grandeza da missão e a tremenda tarefa diante de nós. E ficamos abatidos, como se ainda vivêssemos na esfera do homem  natural.  Mas a coisa a fazer,  Paulo diz a Timóteo, é lembrar-se que, como cristãos, temos recebido o dom do Espírito Santo de  Deus, e por causa disso, precisamos  com­preender que toda a nossa perspectiva de vida e do futuro deve ser essencialmente diferente. Precisamos pensar no sofrimento de forma diferente, e encarar todas as coisas de um modo novo. E a forma  que   devemos   enfrentar  isso   tudo,  é   lembrar-nos   que   o Espírito Santo está em nós. O futuro está aí, a missão está diante de nós, a perseguição está aí, a oposição está aí, o inimigo está aí. Vejo tudo isso. Devo também admitir que sou fraco, que me falta o poder necessário, que me falta a tendência. Mas em vez de  parar  aí,  devo  prosseguir dizendo:   "Sim,  eu  sei tudo  isso, mas. . ." E no momento que eu uso essa palavra "mas", estou fazendo o que o apóstolo quer que eu faça. Digo: "Mas — mas o Espírito de Deus está; em mim; Deus me deu o Seu Espírito Santo". No momento em que eu digo isso, a perspectiva muda completamente. Em outras palavras, precisamos aprender a dizer que o que importa em  qualquer uma dessas  questões, não é o que é verdade a meu respeito, mas o que é verdade a respeito dEle. Timóteo era fraco por natureza, o inimigo era poderoso, e a tarefa era grande. Está certo, mas ele não devia pensar apenas em si mesmo, ou na situação em termos de si mesmo — "Porque Deus não nos deu o espírito de temor. Ele nos deu o Espírito de poder".   Então,  não  pensem  em   sua  própria  fraqueza;   pensem no poder do Espírito de Deus. É quando começamos a fazer isso que equilibramos nossa  doutrina  e vemos  a  situação toda cla­ramente.
Já me esforcei muito para enfatizar que nossos temperamen­tos são diferentes, e quero enfatizá-lo de novo. No entanto, neste ponto eu diria que, embora nossos temperamentos sejam diferen­tes, eles não deviam fazer qualquer diferença face a face com a tarefa. Aqui está o milagre da redenção.  Deus nos  deu nossos temperamentos. Mais uma vez, todos temos temperamentos dife­rentes, e isso também é de Deus. Sim, mas nunca deveria acon­tecer conosco, como cristãos, o sermos controlados por nossos tem­peramentos. Devemos ser controlados pelo Espírito Santo. A coisa deve ser colocada nessa ordem. Aqui estão forças e capacidades, e aqui estão nossos temperamentos específicos que as usam, mas o ponto vital é que, como cristãos, devemos  ser controlados pelo Espírito Santo. É uma tragédia quando o cristão permite que o seu temperamento o controle. O homem natural sempre é contro­lado por seu temperamento, ele não pode evitar isso; mas a dife­rença que a regeneração faz, é que agora há um controle superior até ao temperamento. No momento em que o Espírito Santo entra numa pessoa, Ele controla tudo, inclusive o temperamento, capa­citando-a então a operar através do seu temperamento. Esse é o milagre da redenção. O temperamento permanece, porém não está mais no controle. O Espírito Santo está no controle.
Vamos agora examinar isso em detalhe. "Deus não nos deu o espírito de temor". Que espírito, então, Ele nos deu? Notem: "Deus não nos deu o espírito de temor, mas de poder. . ." Isso é o que Ele coloca em primeiro lugar, e com razão. Temos uma tarefa, e conhecemos nossa própria fraqueza. Sim, mas há um poder até para os fracos, e significa poder no sentido mais amplo que se possa imaginar. Vocês estão com medo de não serem capa­zes de viver a vida cristã? A resposta é: "Operai a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar". O temor e o tremor permanecem. Isso faz parte dos seus temperamentos, mas vocês são capacitados a trabalhar através do poder "que opera em vós tanto o querer como o efetuar". Então, não se tornam pessoas que não sentem medo ou não são mais sujeitas ao temor. Ainda têm que operar a sua salvação com temor e tremor, mas há poder apesar disso. É o poder de Deus operando em vocês "tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade". Mas isso se refere não só à questão de viver a vida cristã, e batalhar contra tentações e pecados; também significa poder para resistir, poder para prosseguir, não importa as condições ou circunstâncias, poder para perseverar e ficar firme. E digo mais: significa que a pessoa mais tímida pode receber poder para todas as coisas — até para enfrentar a morte. Isso foi evidente nos apóstolos; pode ser visto num homem como Pedro, que tinha medo da morte, tinha medo de morrer. Ele até negou o Senhor por causa desse medo, dizendo: "Não O co­nheço, nada tenho a ver com Ele". Negou com pragas e jura­mentos o seu bendito Senhor, seu maior benfeitor, para salvar sua vida. Mas olhem para ele depois, no livro de Atos dos Apósto­los. O Espírito de poder tinha entrado nele, e agora ele está pronto a morrer, pronto a enfrentar as autoridades, pronto a enfrentar qualquer pessoa. Essa é uma das coisas mais gloriosas nos longos anais da história da Igreja, e ainda está acontecendo. Nunca me canso de dizer a cristãos que leiam as histórias dos mártires, dos pais da Igreja, dos reformadores, dos puritanos e outros. Leiam essas histórias e não encontrarão apenas homens fortes e corajosos, mas também mulheres e jovens fracos, e até mesmo crianças morrendo gloriosamente por amor a Cristo. Não podiam fazê-lo por si mesmos, mas receberam o espírito de poder. Ora, isso é o que Paulo quer dizer aqui. Ele diz a Timóteo: "Não fale assim. Você está falando como um homem natural. Está falan­do  como  se  você  mesmo,  com  seu próprio  poder,  tivesse  que enfrentar isso tudo. Mas Deus lhe deu o espírito de poder. Vá em frente. Ele vai estar com você. Você nem vai mais se conhecer; vai ficar assombrado consigo mesmo. E ainda que possa significar ter que enfrentar a morte, irá regozijar-se por ter sido considerado digno de sofrer vergonha e até mesmo à morte por amor do Seu glorioso nome". Poder! Ele foi dado. E o que você e eu devemos fazer, quando somos tentados a ficar deprimidos por causa das coisas que estão contra nós, é dizer: "Eu tenho o Espírito Santo, e Ele é o Espírito de poder".
A próxima coisa que ele menciona é "amor". E eu considero isto muito interessante, fascinante mesmo. Eu me pergunto quan­tos teriam colocado amor neste ponto da lista? Por que vocês acham que ele o colocou aqui? O que ele está querendo dizer? "Deus não nos deu o espírito de temor, mas de poder. ..". Sim, eu entendo que preciso de força. Mas amor — por que amor? Certamente não é amor que esta pessoa tímida precisa! Por que ele coloca isso em segundo lugar — o espírito de amor? Aqui temos uma soberba migalha de psicologia, pois, no fim das contas, qual é a causa principal do espírito de temor? A resposta é "o eu". Auto-preocupação, auto-proteção, egoísmo. Vocês já perceberam que a essência deste problema é que estas pessoas medrosas real­mente estão absorvidas demais em si mesmas — "Como posso fazer isso? E se eu falhar?" "Eu" — estão constantemente volta­das para si mesmas, olhando para si mesmas e preocupadas con­sigo mesmas. E é aqui que o espírito de amor entra, porque só há um modo de alguém se libertar de si mesmo. Há somente uma cura para isso. Ninguém pode tratar com seu próprio "eu". Esse foi o erro fatal daqueles pobres homens que se tornaram monges e eremitas. Eles conseguiram se afastar do mundo e das outras pessoas, mas não conseguiam se afastar de si mesmos. O nosso "eu" está dentro de nós e não podemos nos livrar dele; quanto mais nos mortificarmos a nós mesmos, mais a nossa natureza vai atormentar-nos.
Há somente uma maneira de nos libertar — é nos absor­vermos tanto em outra coisa ou outra pessoa, que não tenhamos tempo de pensar em nós mesmos. Graças a Deus, o Espírito Santo torna isso possível. Ele não é apenas o "Espírito de poder", mas também é o "Espírito de amor". Que significa isso? Significa amor a Deus, amor ao grande Deus que nos criou, amor ao grande Deus que planejou um caminho de redenção para nós, miseráveis criaturas — que nada merecemos senão o inferno. Ele nos amou com um amor eterno. Pense nisso, diz Paulo a Timóteo, e quando você se absorver no amor de Deus, vai se esquecer de si mesmo. "O Espírito de amor!" Esse Espírito de amor libertará vocês do auto-interesse, da auto-preocupação, da depressão por causa de si mesmos, porque depressão é resultado do "eu" e da auto-preo­cupação. Ele liberta do "eu" em todas as áreas. Então, falem consigo mesmos a respeito deste eterno, grandioso amor de Deus — o Deus que olhou para nós, apesar do nosso pecado, que planejou o caminho da redenção, e não poupou Seu próprio Filho, mas O entregou por todos nós.
E então? Continuem pensando no amor do Filho, em sua extensão, comprimento, profundidade, altura; conheçam o amol­de Cristo, que excede todo o entendimento. Pensem nEle que desceu das cortes do céu e pôs de lado as insígnias da Sua eterna glória, que nasceu como um bebê, trabalhou como um carpinteiro, e suportou tais contradições dos pecadores contra Si mesmo. Pensem nEle, em cujo santo rosto homens cuspiram, colocaram uma coroa de espinhos em Sua cabeça, e vararam Suas mãos e pés com pregos. Ali está Ele, na cruz. Que está fazendo ali? AH Ele morreu por nós, para que pudéssemos ser perdoados e recon­ciliados com Deus. Pensem no Seu amor, e à medida que come­çarem a entender algo a respeito, vão se esquecer de si mesmos.
E daí, amor aos irmãos. Pensem em outras pessoas, suas necessidades, suas preocupações. Devo prosseguir? Timóteo parece que estava conjecturando: "Eu posso ser morto". Paulo diz: "Pense em outras pessoas; olhe para essas pessoas perecendo em seus pecados. Esqueça de si mesmo". Cultivem amor pelos perdidos, amor pelos irmãos da mesma forma, e amor pela causa maior e mais nobre do mundo, esta bendita, gloriosa causa do evangelho. Ponham isso em prática. Isto é o que o apóstolo quer dizer com "espírito de poder e de amor". Se forem consumidos por este espí­rito de amor, vão se esquecer de si mesmos. Vão dizer que nada importa exceto o Cristo que Se deu a Si mesmo por vocês, e nada é demais para darem a Ele. Como o conde Zinzendorf, vocês terão somente uma paixão, que será: "Ele, e Ele somente!" Q espírito de amor!
E finalmente, "moderação" — "Deus não nos deu o espírito de temor, mas de poder, e de amor, e de moderação". Que signi­fica isso? É o antítodo certo para o espírito de temor — auto-con­trole, disciplina, uma mente equilibrada. Ainda que sejamos tími­dos  e nervosos, o  Espírito que  Deus  nos  deu  é  o   Espírito  de controle, o Espírito de disciplina, o Espírito de Julgamento. Nosso Senhor já disse tudo isso antes mesmo de Paulo pensar nisso. Paulo está apenas repetindo e expondo algo que o Senhor já havia ensinado. Lembrem-se do que Ele disse aos discípulos quando os enviou a pregar. Ele os advertiu que seriam odiados, e persegui­dos, e que talvez chegasse o dia em que tivessem de entregar suas vidas, ou certamente serem levados diante de juízes para defender suas cidas. Contudo, prosseguiu e disse: "Quando vos entregarem, não vos dê cuidado como, ou o que haveis de falar, porque na­quela mesma hora vos será ministrado o que haveis de dizer". Estarão nos tribunais sendo interrogados, e eles farão todo o possí­vel para pegá-los em alguma palavra, mas não se preocupem, diz o Senhor, porque naquela hora lhes será dado o que devem dizer. Não precisam temer, não perderão a calma; não ficarão tão alar­mados ou assustados que não saibam o que dizer; porque "naquela mesma hora vos será ministrado o que haveis de dizer". O espírito de sabedoria e de moderação!
Posso resumir este ponto de forma breve numa só ilustração. É a história de uma jovem nos dias dos "Covenanters", os parti­dários da Reforma na Escócia. Ela ia participar de um culto da Ceia do Senhor realizado pelo grupo num domingo à tarde, e, naturalmente, tais cultos eram absolutamente proibidos. Os solda­dos do rei da Inglaterra estavam à procura, em toda parte, das pessoas que iam se reunir para participar daquele culto da Ceia do Senhor, e quando essa jovem virou uma esquina, defrontou-se face a face com um grupo de soldados, e soube que estava encurra­lada. Por um momento ela imaginou o que deveria dizer, mas imediatamente ao ser interrogada, surpreendeu-se a si mesma, res­pondendo: "Meu Irmão mais velho morreu, e vão ler Seu testa­mento esta tarde, e Ele deixou algo para mim, e quero ouvir a leitura do testamento". E permitiram que ela prosseguisse. "Deus não nos deu o espírito de temor, mas de poder, e de amor, e de moderação" — sabedoria, prudência, entendimento. Ele os fará sábios como as serpentes; serão capazes de fazer declarações abso­lutamente verdadeiras aos seus inimigos, e eles não vão entender, e os deixarão ir. Ah, sim, seu Irmão mais velho tinha morrido. Cristo tinha morrido por ela, e naquele culto Seu testamento seria lido novamente, e ela relembraria mais uma vez o que Ele deixara para ela e o que tinha feito por ela. Como vêem, o mais ignorante e o mais tímido no reino de Cristo vai receber um espírito de moderação e de sabedoria. Não se preocupem, Cristo diz; receberão naquela hora o que devem dizer. Ele lhes mostrará o que fazer, revelará o que devem dizer, e se necessário, Ele lhes impedirá de qualquer reação. Não vivemos por nós mesmos. Não devemos pensar em nós mesmos como pessoas comuns. Não somos pessoas naturais; nós nascemos de novo. Deus nos deu o Seu Espí­rito Santo, e Ele é o Espírito "de poder, e de amor, e de mode­ração". Portanto, àqueles que são particularmente propensos à depressão espiritual devido ao temor do futuro, eu digo em nome de Deus e com as palavras do apóstolo: "Despertem o dom", falem consigo mesmos, relembrando o que é verdade a seu respeito. Em vez de permitirem que o futuro e preocupações a seu respeito os escravizem, falem consigo mesmos, relembrando quem são e o que são, e que o Espírito está em vocês: e, havendo-se lembrado do caráter do Espírito que está em vocês, então serão capazes de prosseguir com firmeza, sem temer coisa alguma, vivendo no pre­sente, prontos para o futuro, com somente um desejo — o de glori­ficar Aquele que deu tudo por vocês.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O Pensamento Puritano



Rev. Augustus Nicodemos Lopes
Os puritanos davam muita ênfase na certeza plena da sua salvação. Sabiam que o propósito do homem é "glorificar a Deus e gozá-lo para sempre" mas entendiam que, enquanto não se alcançasse essa certeza plena de que você era um eleito, não poderia glorificar a Deus de forma total. Quando nós pensamos que uma das coisas que impulsionava a máquina puritana, ou todo o movimento puritano, e os levava àquela ousadia de enfrentar reis e rainhas, lembramo-nos que tudo era decorrente da convicção e da certeza advindas do fato de estarem plenamente seguros de que Deus estava ao lado deles. Portanto, esta questão da certeza da salvação, da certeza da eleição, é fundamental no movimento puritano. Eles achavam que esta era a maior bênção que alguém poderia ter ainda neste mundo. Por isso este tema é importante de ser conhecido.
O puritano Willliam Guthrie, no seu livro, "O Maior Benefício do Crente" (1658) diz: "Qual a principal ocupação do homem neste mundo?" Resposta: "Ter certeza de que participa de Cristo e viver de acordo com isto". Thomas Brooks, outro puritano famoso, no seu livro "Céu na Terra" de 1654, diz o seguinte: "Estar no estado de graça concede ao homem o céu no futuro; saber que está no estado de graça concede o céu agora e no futuro".
Esta era a base, portanto, das reformas externas que eles pretendiam fazer na Igreja e no Estado; a certeza que eles tinham de que eram povo eleito de Deus, lhes dava coragem para além das portas da Igreja e enfrentar o mundo aplicando a Palavra de Deus em todos os aspectos da vida.
Os puritanos ingleses, em especial, destacavam e enfatizavam o papel de uma vida transformada nesse processo de se obter a certeza de salvação. É interessante observarmos que neste ponto os puritanos foram mais além e, num certo sentido, até divergiram dos reformadores, especialmente Lutero. Martinho Lutero, por causa da sua ênfase contra o Romanismo, fez uma distinção radical entre fé e obras. Os que conhecem a posição luterana sabem disso. O conceito de Graça e o conceito de Lei, ficou dentro do Luteranismo ao ponto de que os estudiosos do Luteranismo alemão de hoje, como por exemplo Bultman, olharem para o Velho Testamento, que Lutero considerava como Lei, e não verem qualquer valor no Antigo Testamento por acharem que a dicotomia, a separação, entre Lei e Graça é total. E Lutero dava muita ênfase a esta distinção radical entre fé e obras. Calvino era mais equilibrado. Ele achava que as obras tinham um papel fundamental na vida cristã mas que, de forma alguma, colaboravam para salvação. Sem dúvida, nenhum deles dizia que o homem era salvo pelas obras, mas acreditavam que as obras tinham um papel preponderante na vida do crente.
Os Puritanos concordavam com Calvino que é por meio das obras realizadas através da graça, que os eleitos "fortalecem o seu chamado e, a exemplo das árvores, são julgados por seus frutos [...] não sonhamos com uma fé destituída de boas obras, nem de uma justificação que poderá subsistir sem elas".
Os puritanos queriam colocar as duas coisas juntas; não porque defendessem salvação pelas obras, como nós iremos ver adiante, mas é que os puritanos estavam lutando num contexto diferente dos reformadores. Os puritanos estavam enfrentando uma Igreja que tinha a sã doutrina; era uma Igreja que tinha vindo da Reforma mas que havia se tornado tolerante; estavam enfrentando uma geração de hipócritas, pessoas que possuíam a doutrina da Reforma e, porque tinham a doutrina certa, porque vieram da Reforma, achavam que isso bastava. Os puritanos diziam: "de forma nenhuma! ninguém pode ter certeza de salvação se não tiver provas concretas na sua vida; evidências da graça de Deus no seu coração!".
Nós podemos, então, quase que fazer a seguinte afirmação: enquanto que a preocupação maior da Reforma foi mostrar como uma pessoa podia ser salva, o Puritanismo se preocupava em mostrar como ela saberia que estava salva. Na época em que os puritanos viveram (século XVII), defendiam que a certeza de salvação era o resultado de um encontro pessoal, contínuo e vivo com o Deus da Aliança. Essa ênfase era uma fonte de irritação para muitos que chamavam os puritanos de presunçosos, legalistas e introspectivos, porque olhavam muito para o seu coração, para a sua vida, examinando-se, para verificar as evidências da obra da Graça de Deus, para que então pudessem afirmar que estavam salvos.

1. A relação entre a fé que salva e a certeza de salvação, no movimento puritano.

Quando os puritanos afirmam na Confissão de Fé que a certeza da salvação não faz parte da essência da fé salvadora, estão querendo dizer que uma pessoa pode estar salva e ainda não ter alcançado a certeza de salvação. E alguém pergunta: por que é que os puritanos, então, foram mais além do que os reformadores, neste ponto? Os puritanos ensinavam que a fé ativa, a fé que salva, não é uma atividade intelectual somente, mas ela se centraliza no coração do homem; e que uma fé que não move o coração, uma fé que não move a vontade, uma fé que não muda a conduta, não pode ser uma fé salvadora. Era nesse ponto, então, que os puritanos iam um pouco mais além dos reformadores. O famoso Thomas Goodwin, chamado de "o maior exegeta de todos os tempos, que do púlpito expôs os escritos de Paulo", diz as seguintes palavras no seu livro "Fé Justificadora" (volume oito das suas obras):
"aquele ato de fé que justifica o pecador é diferente da convicção absoluta de que ele tem a vida eterna, e portanto esta fé pode existir sem a convicção, já que a fé não contém necessariamente uma certeza inabalável inerente em si mesma; quando se afirma que somente os que têm plena e inabalável certeza de salvação são crentes verdadeiros, condena-se uma geração inteira de justos cuja fé, quer seja por causa da fraqueza ou por várias tentações, nunca chegou ainda a atingir um nível inabalável, mas que entretanto apega-se a Cristo de todo coração e caminha obedientemente em Seus mandamentos. O principal ato da fé não é certeza ou convicção plena, visto que a fé reside na vontade do homem e que é pelo consentimento deste que ele se une a Cristo. A fé não reside primariamente no intelecto. Certeza da salvação é o selo que vem confirmar o que a fé fez e portanto vem depois dela".
Então, isso é o que ensinavam os puritanos, especialmente os puritanos ingleses influenciados por Beza.
A Confissão de Fé da Igreja Presbiteriana ensina exatamente a mesma coisa. A Confissão de Fé é um reflexo da teologia puritana, e eu quero citar aqui o capítulo XVIII no parágrafo terceiro da Confissão de Fé: "Esta segurança infalível", de salvação, "não pertence de tal modo à essência da fé, que um verdadeiro crente, antes de possuí-la, não tenha de esperar muito e lutar com muitas dificuldades". Ou ainda o Catecismo Maior na pergunta 81. Pergunta: "Todos os verdadeiros crentes têm sempre a certeza [de salvação,] de que estão agora no estado de graça e de que serão salvos?" Resposta: "A certeza da graça e salvação, não sendo da essência da fé, os crentes verdadeiros podem esperar muito tempo antes de consegui-la". Os puritanos não negavam que se pode ter a certeza de salvação, claro que eles enfatizavam isso, mas eles estavam reagindo a uma situação, a uma igreja onde a graça era "barata", onde pelo simples fato de você ser inglês, e portanto membro da igreja da Inglaterra, era considerado salvo. Os puritanos diziam: "de forma nenhuma! Você têm que primeiro ver as evidências, examinar a sua vidas à luz da Palavra de Deus antes de que possa dizer: eu sou um dos eleitos, eu sou um dos salvos, eu tenho a fé verdadeira".
Outra evidência dessa doutrina puritana, está no Catecismo Maior na pergunta 172, onde se vê a pergunta sobre a Santa Ceia e se questiona se uma pessoa, que não tem plena certeza da sua salvação, pode participar deste sacramento. Os puritanos respondem dizendo que seria ideal que tivesse, mas desde que a certeza de salvação não é parte, não é essência, da fé salvadora, então aquela pessoa que ainda tem dúvida, mas que ama a Jesus e deseja andar nos seus caminhos, pode se aproximar da Ceia do Senhor para participar dela para ser fortalecido pelos meios de graça no Senhor Jesus. Era assim que eles viam a questão da participação na Ceia do Senhor.
Estamos enfatizando a descontinuidade entre a questão da fé salvadora e a certeza de salvação que os puritanos faziam, mas ao mesmo tempo eles enfatizavam uma certa continuidade. Aqui é necessário uma explicação. A distinção que eles faziam entre fé que salva e a certeza de que se está salvo não era qualitativa. Não é que as duas coisas fossem diferentes uma da outra, mas sim quantitativa. Em outras palavras: a fé salvadora, a fé inicial que a pessoa exerce em Jesus, é bastante para faze-lo estender sua mão e receber a oferta de Deus que é Jesus Cristo, e esta fé inicial tem em si mesma, confiança suficiente para dizer: "eu sou um pecador, mas Cristo morreu por mim" e estende a mão e recebe a Jesus. Então existe essa confiança inicial, porém esta fé inicial, esta fé salvadora, ela cresce e amadurece até produzir plena convicção, até produzir absoluta certeza. Eles diziam que esta certeza, ou esta convicção, conquista todas as dúvidas e prevalece contra todas as tentações. Então o alvo maior do puritano, na vida cristã, era crescer na graça ao ponto de atingir esta certeza plena na sua vida, de que era de Cristo e que Cristo era dele.
Não devemos pensar que eles estavam fazendo muita confusão numa coisa tão simples. A diferença é que eles encaravam a questão, de certeza de salvação, de um ponto de vista muito diferente que os evangélicos hoje estão acostumados a encarar, quando pensam o contrário do que ensina a Confissão de Fé de Westminster. Certeza de salvação não vem simplesmente de um ato onde você levanta a sua mão, ou faz uma decisão a favor de Cristo e a partir daí, na mesma hora, lhe é dada certeza de salvação. Os puritanos achariam isso um absurdo, porque você não pode dar certeza de salvação a uma pessoa enquanto aquela pessoa não demonstra na sua vida o resultado da fé, fé ativa. Isso porque eles criam que a fé não era algo do intelecto, mas era centralizada no coração, e se é no coração, deve mover o homem, a suas emoções, a sua vontade, modificar a sua conduta e produzir frutos dignos de arrependimento.
Thomas Brooks mostrou como os puritanos, faziam essa distinção entre fé salvadora e certeza plena, mas ao mesmo tempo dizia que uma cresce e produz a outra. No livro "Céu na Terra", Thomas Brooks diz o seguinte (numa página ele começa dizendo): "certeza da salvação não faz parte da essência do ser um cristão", mas logo alguns parágrafos abaixo ele diz: "entretanto a fé a seu tempo, por si mesma se erguerá e progredirá até a plena convicção". Então, se vê aqui, como os puritanos mantinham os dois lado: a fé inicial é suficiente para nos levar a Cristo, porém ela tem que crescer e progredir até desabrochar em segurança plena. Thomas Goodwin no seu livro, no capítulo sobre Fé Justificadora, diz o seguinte: "no coração do cristão está selado um sussurro secreto da misericórdia da parte de Deus. Eu não afirmo que isso se transforme imediatamente em plena convicção, mas que este sussurro secreto é suficiente para conduzir o coração a Cristo e jamais abandoná-Lo."
Voltemos outra vez à Confissão de Fé de Westminster, citando agora o capítulo XIV no parágrafo III. A Confissão de Fé diz o seguinte: a fé salvadora "é de diferentes graus: é fraca ou forte, pode ser muitas vezes e de muitos modos assaltada e enfraquecida, mas sempre alcança a vitória, desenvolvendo-se em muitos até à plena segurança em Cristo, que é tanto o Autor como o Consumador da fé." Ele é o autor, da fé inicial, e é o seu consumador. Ou seja, à medida que esta fé progride e atinge a sua plena consumação, desabrocha na confiança inabalável que os puritanos possuíam e que os capacitava a enfrentar os reis e os exércitos para levar o Reino de Deus avante.
Em resumo, podemos dizer o seguinte: os puritanos faziam esta distinção entre a plena certeza e a confiança inicial da fé, e insistiam que esta certeza inabalável é o alvo maior na vida cristã e que ela cresce a partir do ato inicial da fé; se desenrola a partir daquele momento inicial, e que cada crente pode atingir este alvo, e deve esforçar-se por isso, sabendo que é um pecado não se esforçar para progredir na graça até esta plena certeza.
Vamos mostrar algumas conseqüências na vida prática dos puritanos, que os fazia pensar assim. Os irmãos sabem que há uma conexão indissolúvel entre o que se acredita e o que se pratica. Já que os puritanos criam assim, a sua prática era organizada ou controlada por esta convicção.
Em primeiro lugar, eles não consideravam certeza de salvação como critério para se analisar alguém, para ver se a pessoa era crente ou não. Infelizmente isso é muito comum hoje em dia. Hoje, quando nós queremos evangelizar uma pessoa e não sabemos se ela é crente, a primeira pergunta é: você tem certeza de salvação? Os puritanos jamais fariam esta pergunta usando-a como critério, se uma pessoa era salva ou não. Porque para eles os testes relacionados, os testes da salvação não eram apenas uma confissão, embora isso fosse importante, mas era a vida e o propósito de se seguir a Jesus. Por isso essa pergunta para eles não fazia parte da sua abordagem evangelística em primeiro lugar.
Em segundo lugar, por outro lado, tão logo uma pessoa se convertia, ela era encorajada a prosseguir na vida cristã crescendo até obter a plena certeza, e os puritanos gostavam especialmente de dois textos (eles gostavam da Bíblia toda mas especialmente de dois textos nessa conexão): Primeiro era Hebreus 6.11: "Desejamos, porém, continue cada um de vós mostrando até ao fim a mesma diligência para a plena certeza da esperança...", e ainda II Pd.1.10: "Por isso, irmãos, procurai, com diligência cada vez maior, confirmar a vossa vocação e eleição; porquanto, procedendo assim, não tropeçareis em tempo algum". E esta ênfase da Palavra de Deus em confirmar a nossa vocação e eleição em todo tempo, era também a ênfase deles; eles acreditavam nisso e todo novo convertido era encorajado a isso. Não era dada a certeza de salvação ao novo convertido, mas eles encorajavam a que o novo convertido progredisse, crescesse na sua confiança inicial em Jesus até alcançar esta plena certeza.
Em terceiro lugar, uma outra conseqüência, era que os puritanos advertiam os novos convertidos de que a fé salvadora é sempre acompanhada de santidade de vida; que ela inevitavelmente há de produzir mudanças, ou de produzir evidências, na vida das pessoas; que serão os sinais, as marcas da obra da Graça de Deus e que se a pessoa não as tem, não as porta, não traz consigo estes sinais, não tem como dizer que está salva. Então, a ênfase era em santidade de vida, antes de que você pudesse dizer que estava salvo. E também no seu aconselhamento, quando o pastor puritano encontrava alguém que estava em profunda depressão, e que estava incerto do seu relacionamento com Deus, ele não começava dizendo: "você então precisa se converter, se você não tem certeza de salvação você tem que se converter". Eles não começavam assim. Eles sabiam que a pessoa podia ser um crente verdadeiro cuja fé tinha sido abalada ou diminuída porque negligenciou os meios de graça, negligenciou o estudo da Palavra, negligenciou a oração, negligenciou o atendimento aos cultos, negligenciou ouvir a Palavra de Deus pregada. Estes são os meios chamados "Meios Ordinários", comuns, através dos quais o Espírito produz a convicção, e se a pessoa os abandona, como ela pode vir a ter certeza do seu relacionamento com Deus? Primeiramente, o pastor puritano, o conselheiro puritano, ele examinava como estava a vida devocional daquela pessoa; como estava o seu uso dos meios de graça. Ou então, uma outra coisa que ele podia pensar, é que a pessoa havia cometido algum pecado, que havia de forma especial ferido a sua consciência e entristecido o Espírito Santo. Portanto, a pessoa não podia mais desfrutar daquela alegria, daquele gozo que eram características de alguém que é salvo. Assim ele fazia uma análise, convidava a pessoa a se auto-examinar, a examinar a sua consciência, a sua conduta, procurando aquilo que poderia ser o obstáculo ao crescimento até à plena certeza. Além disso, eles sabiam também que o crente podia ser assaltado por Satanás de forma tão súbita e violenta que a sua fé podia ser abalada. Isso é possível. E então, eles também exploravam esta área.
Eles também acreditavam - isto está inclusive refletido na Confissão de Fé - que Deus para provar o crente em algumas ocasiões, retira a luz da Sua presença. Era o que os puritanos chamavam de "a noite da alma". Dessa forma a alma do crente entrava na "noite" e, sentindo-se quase que abandonado, perguntava: "meu Deus por que me desamparastes?". Mas não era nada, era Deus testando seu filho, querendo saber se ele o seguia apenas pelas bênçãos recebidas ou porque O amava. O puritano sabia que existia "a noite da alma", e também dava valor a isso quando estava aconselhando as pessoas. Sabia também que a pessoa podia ser uma nova convertida que ainda estava querendo compreender a Graça de Cristo, entender plenamente, enquanto a fé amadurecia e lutava contra as dificuldades. Também, o pastor puritano ao aconselhar uma pessoa que não tinha certeza de salvação, sabia também que a razão podia ser que ela não era salva e que precisava, então, deixar os seus pecados, a sua incredulidade, e se converter ao Senhor Jesus, ou então precisava de uma instrução mais clara a respeito do caminho da Graça.
Percebemos assim, como essa ênfase, essa separação que os puritanos faziam entre fé e certeza de salvação, leva-nos a um lugar de mais seriedade quando examinamos um candidato ao batismo, quando evangelizamos, ou quando queremos examinar os outros e dizer se ele é crente ou não. Às vezes isso é necessário. Mas o caminho dos puritanos era por aqui, eles entendiam que tinha de ser uma avaliação da vida do indivíduo, buscando os sinais da operação da Graça de Deus. E eu acredito que isso já é um corretivo para as tendências do evangelicalismo brasileiro, onde uma "graça barata" é oferecida: um Cristo que não faz exigências; uma fé que não muda o coração; uma certeza de salvação que é dada simplesmente porque uma pessoa fez uma decisão, levantou a mão, ou qualquer coisa deste gênero. Não estou negando que uma pessoa pode ser salva assim, pode. Mas o que estou dizendo é que a certeza de salvação não vem do fato de que você atendeu um apelo ou levantou uma mão. Mas, a certeza de salvação é decorrente da sua observação, de você perceber na sua vida os sinais da Graça Salvadora de Deus mudando a sua vida e o seu coração. Essa é a ênfase dos puritanos, na relação entre fé e certeza.
Somos obrigados a falar sobre outra questão muito importante. A relação entre a razão, o intelecto, e a obra do Espírito Santo. Os puritanos faziam isso quando tratavam dessa questão de certeza de salvação. Nós precisamos deixar muito claro aqui um ponto. E não me entendam mal, pois se me entenderem mal vão entender mal os puritanos. E eles agora não podem nem se defender a não ser através dos livros; então leia os seus livros. Os puritanos não diziam que a base da certeza de salvação era a análise que o crente fazia da sua vida. Não, de forma nenhuma. A base e a convicção da salvação, segundo os puritanos, era externa, era a obra de Cristo na cruz do Calvário, que era suficiente para salvar todo aquele que crê, como está revelado na Escritura. Era essa a base, não somente da salvação, mas da certeza.
Mas a questão é: como eu sei que estou salvo? Como eu sei que a minha fé é a fé que salva? Como é que eu sei que de fato participo de Cristo? Os puritanos atacaram essa questão que não era uma questão nova. Essa questão de como é que uma pessoa, um crente, pode conhecer a vontade de Deus era uma questão que vinha ocupando já a Igreja durante muitos séculos. Na época medieval Tomaz de Aquino fez uma dicotomia, uma separação muito grande, entre a capacidade da razão em compreender, analisar, em chegar a uma conclusão e a fé, que era um reino completamente diferente. Havia esta dicotomia. Daí então se fazia a pergunta: de que forma eu sei que estou salvo? É pela minha razão? Eu examinando, verificando as evidências da minha vida, ou fazendo uma comparação, fazendo um cálculo dizendo: "a Bíblia diz que eu sou salvo se eu for assim, eu sou assim, logo eu sou salvo". É um processo intelectual em que eu chego a conclusão de que estou salvo? Ou é um processo místico, um processo espiritual, quando o Espírito Santo vem, e de forma direta sem nem passar pela minha razão ele testifica no meu coração.
Esse é um conflito que a Igreja vinha debatendo durante muito tempo. Se você ler os puritanos, você vai ver que de vez em quando eles mudam de ênfase. Você vê que alguns puritanos colocam muita ênfase na questão do raciocínio, do intelecto. Eles estavam lutando contra os místicos, contra aqueles monges, contra aqueles falsos piedosos que falavam de um misticismo extraordinário mas que não tinha frutos. O puritano dizia: "Não, não. Você tem que analisar, você tem que ver a sua vida. Use a sua mente. Some um mais um e veja se bate dois, veja se você é crente".
Quando eles enfrentavam os intelectuais, os hipócritas, que achavam que estavam salvos só porque tinham a sã doutrina, então, a ênfase deles era no testemunho do Espírito Santo. Diziam: "Não, não, você tem que vê se tem o testemunho do Espírito Santo no seu coração, se o seu coração está aquecido, se está mudado, de fato transformado". Em outras palavras, na lógica puritana da doutrina da salvação não havia qualquer dicotomia, porque eles acreditavam que a plena certeza de salvação decorre de um exame sincero e humilde das evidências internas e externas da sua salvação juntamente com o testemunho interno do Espírito Santo. Ou seja, para eles não havia separação, já que o Espírito Santo opera na mente humana e através da mente humana. E assim nós encontramos esta síntese, esta combinação equilibrada dos puritanos sobre esta questão que havia se levantado na Idade Média.
Cito algum testemunho dos puritanos. John Owen, nas suas obras, no volume 2, dá uma descrição gráfica de como a razão opera juntamente com o Espírito Santo para estabelecer a certeza de salvação. Ele diz: "A alma, pelo poder de sua própria consciência, é trazida diante da Lei de Deus. Lá o homem apresenta o seu caso. Ele argumenta: ‘Eu sou filho de Deus’, e apresenta todas as evidências de sua filiação. Em meio à sua defesa, enquanto ele está diante de Deus argumenta: ‘Eu tenho essas evidências. Na minha vida vejo esses sinais’. Então, o Espírito Santo vem e, através de uma palavra ou de uma promessa, conquista o seu coração com a persuasão consoladora, derruba todas as objeções e confirma que a sua causa é certa". Assim nós vemos como eles criam nas duas coisas. Ou ainda William Guthrie, outro puritano, escreve: "Certeza é obtida através da seguinte argumentação: quem crê em Cristo jamais será condenado, eu creio em Cristo, logo jamais serei condenado", e mais "o Espírito Santo testifica sobre esta avaliação e a torna evidente à mente". Tem que ser as duas coisas. Richard Sibbes no volume um das suas obras diz: "Eu sei que creio porque o Espírito Santo impele a minha alma a isto, porém a forma mais comum de conhecermos o nosso estado diante de Deus é deduzindo a causa a partir dos efeitos".
Estou enfatizando estas coisas para mostrar como o movimento puritano, as equilibrou e deixou como legado para Igreja esta doutrina que abrange os dois aspectos: a questão do intelecto e a questão do testemunho do Espírito no coração. Isso nos ajuda muito por causa da situação do evangelicalismo brasileiro. Quando por um lado nós temos a tendência ao formalismo: que leva uma pessoa a acreditar que está salva apenas porque é firme doutrinariamente. A essa o puritano diria: "E o seu coração meu irmão? E o testemunho interno do Espírito Santo?". Por outro lado nós temos o emocionalismo divorciado de uma mente informada. A esse o puritano dizia: "Não, não, você tem que estudar a Palavra, examiná-la, e examinar a sua vida. As duas coisas têm que bater antes de que você diga que você está salvo". Quero ainda mencionar a Confissão de Fé no capítulo XVIII verso dois. Aqui os puritanos dizem: "Esta certeza não é uma simples persuasão conjectural e provável, fundada numa esperança falha, mas uma segurança infalível da fé, fundada na divina verdade das promessas de salvação, na evidência interna daquelas graças nas quais essas promessas são feitas, e no testemunho do Espírito de adoção que testifica com os nossos espíritos que somos filhos de Deus". Então, o puritano acreditava que na operação conjunta destas coisas, o crente podia chegar à plena certeza de salvação.

Quero rapidamente tocar num assunto aqui que tem sido motivo de polêmica entre os irmãos que têm começado a conhecer o movimento dos puritanos, a ler sua literatura. O fato é esse: embora os puritanos enfatizassem os dois lados, ou seja, a dedução racional das evidências para se chegar à certeza de salvação; e por outro lado o testemunho direto do Espírito Santo, eles tinham uma predileção pelo testemunho direto do Espírito Santo na alma. Isso eles valorizavam acima de tudo. Era bom ter os dois, mas o testemunho direto no coração do crente junto com a graça, junto com as evidências da graça, era o que eles valorizavam mais. Essa ênfase estava, num certo sentido, perdida, mas quem começou a chamar a atenção para este aspecto do movimento puritano foi Dr. Martyn Lloyd-Jones, e eu recomendo aos irmãos especialmente o seu comentário em Romanos 8:16 (Editora PES) e Efésios 1:12-14. Quem não tem adquira, porque ali você vai encontrar uma exposição clara desta ênfase dos puritanos sobre o testemunho direto do Espírito no coração. Ou ainda aquele livro "Avivamento" em alguns capítulos.
Quero ler aqui o testemunho de alguns comentaristas puritanos em Romanos 8:16 e Efésios 1:3. Romanos 8:16: "O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus." William Guthrie comentando este texto diz o seguinte: "Existe uma comunicação do Espírito de Deus que algumas vezes é concedida a alguns do seu povo, que vai além do testemunho acerca da filiação divina em Romanos 8:14". Em Romanos 8:14, lemos assim: "Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus." então, pode-se dizer, que é esse primeiro passo. Se você é guiado pelo Espírito, e tem as evidências desse andar no Espírito, então você chega à conclusão de que é salvo. E Paulo vai mais além. No verso dezesseis, segundo William Guthrie, Paulo está agora falando de um outro nível de certeza, quando Paulo diz que o Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. Então ele continua: "É uma manifestação gloriosa de Deus à alma, derramando seu amor no coração, é algo que se percebe melhor sentindo do que descrevendo. Não é uma voz audível, mas é um raio de glória enchendo a alma da presença de Deus; do Deus que é luz, vida, amor, e liberdade. Ó quão gloriosa é esta manifestação do Espírito! A fé se eleva a uma convicção plena tal, que você se vê diante do próprio Deus! Esta graça não é dada a todos os crentes; muitos passam seus dias em tristeza e temor". Eles acreditavam, então, na soberania de Deus em conceder esse testemunho direto, esse testemunho íntimo à alma do crente que era além da certeza normal que se obtém através dos meios de graça, e eles davam muito valor a isso.
Ou ainda Richard Sibbes, no livro "Uma Fonte Selada", ele diz o seguinte:
"Acontece freqüentemente que nossas almas, apesar de santificadas, não conseguem resistir às súbitas tentações, sutis e fortes. Deus, então, nos adiciona do seu Espírito. A sensação de culpa sempre vence o testemunho dedutivo de que fomos salvos e santificados".
Preste bem atenção. Sibbes está dizendo que esta certeza de salvação que vem da nossa dedução, do exame, do fato de que eu sou santo, que eu deixei disso ou deixei aquilo outro, que eu tenho vontade de ler a Bíblia, que eu tenho vontade de orar; essa análise que você faz da sua vida e a conclusão a que você chega, não é suficiente para resistir a determinadas tentações; "portanto o testemunho direto do Espírito se faz necessário para testificar do amor do Pai por nós. Através desse testemunho o coração é animado e confortado com gozo indizível". Ou seja, nós chegamos à conclusão da nossa salvação através dos meios dedutivos, examinando, olhando. Mas isso às vezes é insuficiente para as tentações, para os ataques do diabo, mas existe então, esta certeza que nos é comunicada pelo Espírito diretamente ao nosso coração, como diz Romanos 8:16. É essa certeza, então, que dissipa toda dúvida, que nos liberta, que nos enche de gozo. É isso que nos diz o puritano Richard Sibbes.
Veja ainda o que diz Thomas Goodwin, expondo Efésios 1:13:
"Existe uma luz que vem e conquista a alma humana e lhe assegura que ela é de Deus e que Deus é dela, e que Deus o ama eternamente. É uma luz além da fé comum; é a coisa que chega mais próxima ao gozo do céu; aqui na terra é o máximo que podemos ter; é a fé elevada à sua máxima potência acima do nível comum; é o amor soberano de Deus vindo de encontro da alma do eleito".
Vou narrar apenas duas experiências dos puritanos nesse sentido. Uma é muito conhecida, é de John Flavel, um puritano que escreveu vários livros e foi descrita por Isaac Watts. Ele diz que esse puritano, John Flavel, estava de viagem a cavalo, quando de repente Deus começou a tratá-lo de uma forma bem íntima. Isaac Watts descreve assim, resumidamente, a experiência:
"Os pensamentos de Flavel começaram a elevar-se cada vez mais altos, como as águas na visão de Ezequiel até se tornarem como uma inundação. Tal era a disposição da sua mente, tal gosto das alegrias celestiais, e tal a certeza plena da sua participação no céu que ele perdeu totalmente a sensação que estava neste mundo, bem como ficou sem qualquer outra preocupação. Durante horas a fio ficou sem saber onde estava, como alguém que acorda de um sono profundo. A alegria do Senhor inundou seu coração de tal forma que durante muitos anos ele chamou aquele dia: ‘Um dia do céu sobre a terra’, e que aprendeu mais sobre o céu naquele dia de que com todos os seus livros".
Era isso que o puritano buscava, essa plena convicção, essa certeza absoluta que era mais do que uma dedução normal e racional, daquilo que nós estamos vendo em nossa vida.
Há também o exemplo (há muitos outros mas eu selecionei apenas estes), de um puritano chamado João Howe, que também é narrado por Isaac Watts. Quando ele morreu encontraram escrito numa página da sua Bíblia: "O que eu senti pela misericórdia do meu Deus, no dia 22 de outubro de 1704, ultrapassa meu poder de descrição. Naquele dia experimentei um agradabilíssimo derreter do meu coração com lágrimas jorrando dos olhos e alegria por Deus ter derramado o Seu amor no coração dos homens, especialmente porque meu próprio coração havia sido tocado desta forma". A experiência tinha sido tão extraordinária, e única, que ele escreveu na página da sua Bíblia, registrando-a para a posteridade até os dias de hoje. E assim vemos este desejo dos puritanos de ter uma certeza, mas que fosse dada pelo testemunho do Espírito no seu coração.
Deixe-me fazer aqui algumas observações necessárias. Os puritanos não encaravam esta forma de se obter plena certeza, que eu acabo de mencionar, como sendo normativa. Isso não acontece todo dia. Eles não encorajavam as pessoas a buscarem experiências místicas. De forma nenhuma. Era algo desejável, porém era algo que era dado, era algo que era da soberania de Deus, e portanto eles procuravam deixar na mão de Deus. Eles não desprezavam o processo dedutivo normal, desde que assistido pelo Espírito. Era o normal, e todos deviam buscar a certeza de salvação pela fé na obra de Cristo e pelo exame de suas vidas, pela evidência que foram tocados pela graça. E eles exerciam muita cautela quando se tratava de experiências místicas. Em geral eles rejeitam revelações extraordinárias e sobrenaturais. Eu não tenho tempo de entrar na análise deste ponto. E inclusive está na própria Confissão de Fé de Westminster. Para que o crente tenha certeza de salvação ele não precisa de uma revelação extraordinária. A Confissão de Fé enfatiza isso. Quando ela vinha, o puritano exigia que ela tinha de ser compatível com as outras evidências. Ou seja, um hipócrita não podia sentir esse tipo de coisa. Mas se acontecia na vida de um santo, na vida de um homem que andava com Deus, um homem que tinhas as evidências da graça, era genuína.
Portanto nós acreditamos que aqui há um equilíbrio que pode ser muito útil também à Igreja brasileira, quando vivemos numa época em que há um misticismo, há uma ênfase tão grande em buscar experiências com Deus. Os puritanos acreditavam que Deus pode dar experiências (não revelacionais), e eles eram gratos e felizes a Deus quando Deus dava, mas eles encaravam como sendo algo da soberania de Deus, que não era algo que era da vida diária e que o crente na sua vida normal é guiado pela Palavra, pelo exame da sua vida em análise com a Palavra de Deus e que quando essa experiência vinha ela tinha que ser atestada por uma vida santa, de acordo com a Palavra de Deus, senão era misticismo, era coisa do maligno ou coisa então da psicologia humana. Percebem como essa ênfase é importante para os nossos dias?
Finalmente, apresento a relação entre a obediência e certeza de salvação. Eu já falei que os puritanos destacavam a importância de uma vida transformada para que uma pessoa viesse a assegurar-se da salvação. Era uma ênfase que eles davam na obediência que o crente tem de exercer praticando as boas obras. Essa ênfase sempre foi mal interpretada. Por exemplo o crítico moderno dos puritanos, Perry Muller, ele diz o seguinte (os puritanos têm muitos críticos até o dia de hoje): "Se é Deus quem salva por que é que os puritanos ficam nos perturbando com essa exigência de obediência?" Se os puritanos insistiam que a salvação era pela graça, como os Reformadores, por que é que eles ficavam citando "que tem que obedecer", "tem que fazer boa obra"? Por quê? E esse crítico não podia entender. Ora, não é somente esse crítico, mas muitos outros têm acusado os puritanos de serem "prisioneiros de um sistema teológico legalista". Que embora fossem herdeiros da Reforma mesmo assim eram legalistas, e isso tem assustado muita gente que pensa que puritanismo sempre descamba no legalismo. Ou então de que os puritanos eram introspectivos, e que punham muita ênfase apenas no auto-exame. A imagem que fazem dos puritanos de que eram pessoas sérias, contritas, abatidas, mortificadas, ascetas, com nariz grande, pode ser vista nos seus retratos no livro "Os Puritanos - Origens e Sucessores " (PES).
Mas eles eram mal entendidos (e ainda são) por causa da ênfase que davam na necessidade de obediência e de santificação. Então, qual o lugar da obediência na teologia puritana, especialmente com relação à certeza de salvação?
Vamos voltar outra vez, então, e fazer uma comparação com os Reformadores. Enquanto que os reformadores, especialmente Lutero, associavam a certeza de salvação com a justificação, ou seja, a certeza de salvação está ligada diretamente à justificação, ao passo que os puritanos, influenciados por Beza, diziam que a certeza de salvação estava ligada à santificação. Não, não está ligada à justificação não. Ser salvo pela graça é uma coisa, outra coisa é ter certeza de salvação. Ela está ligada à santificação. Então se nós não entendermos esse ponto, não vamos entender a ênfase dos puritanos na necessidade de obediência, na necessidade de santidade de vida. A crítica que se faz aos puritanos a essa altura é esta: já que a certeza de salvação está ligada à santificação, quando é que o crente vai ter certeza de salvação? Ele nunca poderá chegar à plena certeza já que a santificação é um processo, alguém pode dizer. Mas a resposta do puritano era esta: Não estamos dizendo que você tem que ser plenamente santificado, para você ter certeza de salvação. Estamos dizendo é que a partir do momento em que você tem os sinais externos mínimos e básicos da operação da graça de Deus, você passa a ter certeza de salvação. A resposta é essa. É aqui, então, o lugar da obediência à Palavra de Deus dentro da teologia puritana. Nós podemos dizer que é um círculo, e esse círculo está expresso na Confissão de Fé. No capítulo XVI, parágrafo 2: "boas obras, feitas em obediência aos mandamentos de Deus, são o fruto e as evidências de uma fé viva e verdadeira;...". Então os puritanos sabiam que a fé produz obras vivas e verdadeiras. Continua: "por elas", por estas obras, "os crentes manifestam a sua gratidão e robustecem a sua confiança (fé)...". Então diziam: A fé produz obras e as obras robustecem a fé, é um círculo. Uma coisa leva à outra. Uma e outra, como diziam os puritanos, as bênçãos de Cristo se fortalecem mutuamente no coração do crente. Funcionava desta maneira.
Em resumo o ensino da Confissão de Fé é este: a plena certeza é privilégio daqueles que desejam obedecer a Cristo. Para ter certeza plena de salvação, precisamos saber que essa certeza é um privilégio daqueles que querem andar no caminho de Jesus. As boas obras, feitas como resultado dessa obediência, vêm fortalecer a plena segurança da salvação. Por outro lado, a obediência que se traduz em obra, já é fruto da convicção e da segurança de salvação que a pessoa possui.
A essa altura é importante fazer um comentário sobre essa questão do auto-exame, do exame íntimo que está relacionado perfeitamente com esta questão. Estudos recentes sobre o puritanismo têm entendido que essa relação entre reflexão, exame interno, e obras, pode ser traduzida como sendo uma espiral viva, como uma espiral crescente. Primeiro o puritano se examina, reflete à luz da Escritura sobre sua vida. Ele procura evidências na sua vida da operação da graça de Deus; coisas como quebrantamento, desejo de fazer a vontade de Deus, temor a Deus, desejo de buscar Sua Glória, boas obras, amor ao próximo, zelo pelo nome de Deus, ódio ao pecado. Então eles examinavam procurando essas coisas que eram a evidência da operação da graça de Deus no seu coração.
Eu quero mencionar o puritano Thomas Brooks no livro "Céu na Terra": "segurança da salvação é um ato reflexo da fé", ou seja, é a fé em reflexão, é a fé se examinando, "é um discernimento experimental de que se está em estado de graça. Esta certeza provém de observar em si próprio as evidências especiais, peculiares e distintas da graça de Cristo". Esse era o ensino. A fé tem essa capacidade de refletir, tem essa capacidade de se examinar. Essa era a primeira parte da espiral. Depois de se examinar à luz da Escritura e debaixo do poder do Espírito Santo, que era alguma coisa que os puritanos enfatizam tremendamente, o passo seguinte era a ação. E nós sabemos como eles iam para a ação. Mas iam para a ação porque tinham feito um auto-exame. Eles sabiam que eram povo de Deus, tinham aquela certeza, demonstrada pelas evidências e pela Palavra. E a mecânica era essa: ação à reflexão, ação à reflexão, ação... e assim numa espiral crescente que acompanhava o puritano a sua vida toda, a fé e a certeza de salvação se fortaleciam, à medida em que ele crescia na graça e no conhecimento do Senhor Jesus Cristo. Era assim que funcionava. Era algo dinâmico. Quero aplicar tudo isso para a Igreja de hoje.
Quero dizer duas coisas antes.
1) Primeiro, é minha convicção de que os puritanos ingleses nesse aspecto capturaram profundamente o ensino Bíblico. Eu gosto dos puritanos, não porque eles são do final do século XVI, ou do século XVII, e sim porque eles acertaram, porque eles, dentro da História da Igreja, fazem parte daquelas gerações, daqueles modelos históricos de cristianismo que melhor refletem a Escritura Sagrada em muitos aspectos. Eu sei que eles cometeram erros. Sei perfeitamente disso. Posso até dizer para os irmãos em que eu não concordo com eles, mas acredito que, na grande maioria, na sua grande parte, aqueles homens de Deus nos expuseram a Palavra de Deus de forma clara e concreta, e este é um dos pontos em que eles estão certos. É uma exegese certa da Escritura, no meu entender.
2) Por outro lado à medida em que entendemos esta questão, precisamos ser cautelosos porque o e o que aconteceu foi que eles colocaram ênfase nos dois lados (reflexão e ação). Quando esta ênfase nos dois lados era apresentada, notamos o quanto os puritanos eram equilibrados. As duas coisas andavam juntas. Quando, na fase final do puritanismo, o lado da graça foi abandonado, caíram no legalismo, perderam o equilíbrio dessa espiral, deixaram o lado da ação e o lado da confiança em Deus e se tornaram reflexivos demais. O puritanismo virou símbolo apenas de auto-exame e de reflexão; aquela pessoa introspectiva que é, infelizmente, a figura que ficou até o dia de hoje. Mas não foi isso que caracterizou o movimento, isso foi um desvio do puritanismo. Nem é puritanismo! Então à medida que queremos aprender com eles, lembremo-nos que temos que manter em equilíbrio estas coisas. Em que isso pode servir à igreja brasileira?
Primeiro, a doutrina puritana sobre a certeza de salvação pode nos ajudar a corrigir a influência da Igreja Católica que diz que a certeza de salvação é impossível nesta vida. Os puritanos diziam: "De forma nenhuma! A obra completa de Cristo, e a obra do Espírito em nós, torna esta certeza possível. É pecado não buscar esta certeza depois do que Cristo fez na cruz do Calvário, depois que o seu Espírito foi derramado no dia de Pentecostes". Isso nos ajuda a combater esta tendência.
Em segundo lugar, nos ajuda também, como já mencionado, a corrigir a influência do evangelho barato, que oferece uma certeza de salvação com base em decisões feitas em resposta a apelos (por decisão), sem que haja sinais que podem ser observados de arrependimento, de mudança, de fé verdadeira. Os puritanos diriam: "Certeza de salvação depende da santificação. É necessário crescer na graça, no auto-exame, na percepção da graça de Deus no coração". E isso, eu acredito, é muito importante e prático, especialmente na hora em que vamos examinar os candidatos à Profissão de Fé.
Em terceiro lugar, essa doutrina puritana pode nos ajudar contra a influência do legalismo proveniente, infelizmente, de alguns círculos pentecostais que torna a certeza de salvação inatingível, porque é baseada no rigorismo do cumprimento da Lei. Ou então baseada em evidências legalistas. O puritano diria: "A certeza de salvação não se baseia na auto-avaliação, como sendo algo pessoal do crente, mas na percepção da graça de Deus agindo em seu coração. Não tem nada de legalismo".
E por fim, em quarto lugar, acredito que é uma influência, um corretivo saudável para o misticismo que existe hoje inundando as igrejas (inclusive presbiterianas) que esquecem que a prioridade do homem é o seu relacionamento pessoal com Deus. O puritano diria: "O fim principal do homem é glorificar a Deus, e isso através da obediência que parte de um coração seguro da sua salvação".
Como estamos nós? Quais são as evidências, quais são as bases que você tem na sua vida para crer que faz parte dos eleitos de Deus? Qual a evidência que você apresenta diante de si mesmo e diante de Deus para reivindicar, se podemos usar esta palavra, de forma limitada, ou pelo menos para se apresentar como um candidato à salvação eterna que Cristo nos oferece? Eu lhe asseguro, pela Palavra de Deus, e com isso nós nos juntamos aos puritanos, que se nós não tivermos na nossa vida as evidências da obra da graça de Deus, de uma fé salvadora sediada no coração, que move o coração, que move a vontade, nós não temos como dizer que estamos salvos.
Digo também uma palavra de conforto aqui, ao crente verdadeiro, e que luta para ter esta certeza. Quero encorajá-lo a prosseguir. Porque é vontade de Deus que você encontre plena certeza. Continue crescendo nessa espiral, analise a sua vida, faça uma reflexão do seu coração, da sua alma, da sua conduta à luz da Palavra de Deus. Corrija o que tem que ser corrigido. Abandone o que tem de ser abandonado. Obedeça a Deus, continue nesse caminho. Volte e examine o seu coração outra vez e nesse processo você chegará à plena certeza de salvação.
Que Deus nos ajude, e que possamos, com esse corretivo que vem da Palavra de Deus, mediada pelo modelo puritano, ser abençoados, crescer e ter um cristianismo equilibrado no Brasil nos dias de hoje.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Volta difícil


e então eu me fui, 
me fui pra tão longe de mim mesmo
que ficou difícil voltar
Mas não queria mais prosseguir...
Parei no meio do caminho
Entre o que eu era e o que me tornaria
Notei aí que não era o que sempre pensei que fora
Notei também que voltar é difícil
Pois os que me conheceram pelo que não era
Gostam mais do que não sou 
E eu, eu agora gosto do que era
Não do que nunca fui, como antes pensava. 
Mas, decidi voltar a bem de mim mesmo.
Silas

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

A JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ


Notas do sexto sermão da Série em Gálatas

Silas Roberto Nogueira

Gálatas 2.15-21

INTRODUÇÃO

Vimos em nosso estudo anterior (vv.11-14) que conduta de Pedro em apartar-se dos gentios por causa dos judaizantes revelou uma desconformidade com “a verdade do evangelho”, qual seja a justificação pela fé. Nos dias atuais pouco se ouve falar sobre o assunto, embora seja um tema de suma importância. Paulo imprimiu o selo apostólico sobre tal artigo como “a verdade do evangelho”. Lutero, séculos mais tarde, consideraria a justificação pela fé como “o artigo principal”, “o mais importante”, “o mais especial” de toda a doutrina cristã. Certa vez declarou Lutero que “se o artigo da justificação for alguma vez perdido, então toda a verdadeira doutrina ficará perdida”. Para Calvino a justificação pela graça mediante a fé era o “ponto principal sobre o qual a religião se sustém” e por isso mesmo devíamos “devotar-lhe maior atenção e cuidado”. Os puritanos entenderam que a doutrina da justificação era muito vulnerável e somente a graça de Deus poderia impedir que ela fosse esquecida. Vale a pena entender a razão pela qual os puritanos pensavam assim, como introdução ao assunto[1]:
·         Os puritanos entendiam a justificação como “um mistério do evangelho”. Seguindo o raciocínio apostólico entendiam que a justificação era uma revelação divina por meio da graça. Como tal é duplamente humilhadora, primeiro humilha o orgulho intelectual, porque jamais poderia ter sido criada ou desenvolvida pela razão religiosa. Depois, humilha o orgulho moral por declarar que todos os homens são impotentes e destituídos de esperança no tocante ao pecado. Assim sendo, o mistério da justificação é ameaçado continuamente pelo orgulho humano.
·         Os puritanos entendiam a justificação como “um mistério coroador” .  O puritano Robert Traill declarou: “todos os grandes fundamentos da verdade cristã têm por centro a justificação.” A suficiência das Escrituras, a Trindade, a encarnação de Cristo e a suficiência de Sua obra expiatória “são todas elas linhas diretas da verdade, que tem por centro essa doutrina da justificação...”. Portanto, quando perdemos a justificação perdemos todas as outras doutrinas, mas o contrário também é verdade. Quando se nega a autoridade das Escrituras, a ira de Deus, a expiação, retira-se a base para se aceitar a justificação pela fé.  Assim sendo, o mistério da justificação é ameaçado continuamente pela teologia herética.
·         Os puritanos entendiam a justificação como “um mistério espiritual”. A implicação disso é que a doutrina da justificação só pode ser apreciada pela consciência iluminada pelo Espírito e que foi convencida do seu pecado. Robert Traill queixou-se que muitos que nunca tiveram os seus corações e consciências “exercitados no tema” tivessem tomado a pena e escrito sobre o assunto. Assim sendo, o mistério da justificação é continuamente ameaçado pela frivolidade espiritual, destemor e falta seriedade e de experiência na aproximação a Deus que alguns homens têm.
·         Os puritanos entendiam a justificação como “um mistério doador de vida”. Para eles a fonte de toda a verdadeira paz, esperança, amor, alegria, santidade e segurança era a justificação. Não é justamente o que afirma Paulo em suas Epístolas, especialmente aqui, que a justificação é a fonte de sua nova vida, 2.20. Assim sendo, o mistério da justificação é continuamente ameaçado pela hostilidade satânica, como o entendia Lutero. O diabo envida todos os esforços para suprimir a verdade do evangelho.
·         Os puritanos entendiam a justificação como “um mistério contestado”. A religião humana é caracterizada pela justificação por meio das obras. A trindade teológica que milita contra o ensino apostólico é o pelagianismo, o arminianismo e o romanismo.  Assim sendo, o mistério da justificação é continuamente ameaçado pela religião natural dos homens.

Precisamos estar atentos, pois como disse Thomas Watson “um erro sobre a justificação é algo perigoso, como um defeito em uma fundação. A justificação dada por Cristo é a fonte e água da vida. Ter veneno doutrinário vazando nessa fonte é algo terrível”.  Passemos ao exame do texto e depois a algumas aplicações:

1.  A NECESSIDADE DA JUSTIFICAÇÃO, v.15,16
v.15,16 – A complexa frase de Paulo aqui com mais de 50 palavras quer simplesmente dizer que não importa se você é judeu ou gentio, a justificação é pela graça de Deus mediante a fé. Calvino está certo em dizer que nesta única proposição está contida toda a controvérsia que deu origem à carta. Faremos bem em observá-lo mais acuradamente:
a)       A necessidade humana da justificação. A maior necessidade do homem não é saúde, prazer, riquezas ou poder, mas a salvação. A maior tragédia humana é estar alienado de Deus e sob sua ira, Rm 1.18. Não há mal maior que o pecado, pois nada separa o homem de Deus senão o pecado. O homem carece urgentemente da justificação, pois não pode lidar com o pecado, não pode salvar-se a si mesmo, não pode deixar a sua condição de condenado, de filho da ira. O patriarca Jó formulou a mais importante pergunta do Velho Testamento: “como pode o homem ser justo para com Deus?” (9.2). O fato é que não pode (Sl 14.1-3). Deixado à mercê de si mesmo o homem certamente perecerá em seus delitos e pecados, Ef 2.2 segs.
b)        Deus tem que suprir a necessidade humana de justificação. É a primeira vez que Paulo usa o termo “justificado”. Paulo toma o termo por empréstimos do mundo jurídico, forense. O sentido do termo é a absolvição da culpa por parte do juiz após julgamento (Dt 25.1). O termo usado pelo apóstolo Paulo está na voz passiva, indica que o homem sofre a ação e que Deus é o agente da justificação, Rm 8.33. Teologicamente definimos a justificação como “um ato da livre graça de Deus em que ele perdoa todos os nossos pecados e nos aceita como justos em sua presença, mas apenas por meio da retidão de Cristo imputada a nós e recebida somente pela fé.[2] A justificação é algo que Deus faz por nós, não em nós. A justificação não afeta nossa condição, mas nossa posição.
c)       A justificação é pela graça. Se a justificação não pode ser obtida mediante as obras, logo que fica estabelecido o fato de que ela é algo que Deus concede aos homens, portanto a justificação é pela graça, Rm 3.24.  
d)       A justificação é mediante a fé. Paulo estabelece um importante contraste – obras da lei versus fé em Cristo. Paulo estabelece como a verdade do evangelho que a justificação é mediante a fé em Cristo, pois as obras da lei não podem obter a homem nenhum a justiça que Deus exige ou requer. Não somos salvos pela fé, mas pela graça mediante a fé, Ef 2.8,9. A fé não é a causa meritória, mas a causa instrumental da justificação. Nós nos apropriamos da justificação pela fé.
e)       A justificação é por meio de Cristo. Ele obteve a justificação para nós. Deus não aceita nenhuma obra senão a perfeita obra de Cristo. Cristo entregou-se pelos nossos pecados, 1.4; 3.13,14

2.  A SUFICIÊNCIA DA JUSTIFICAÇÃO, v. 17,18
v. 17,18. O versículo 17 é particularmente difícil de interpretar.  Paulo propõe aqui uma pergunta retórica para chamar à razão os crentes da galácia. Argumento de Paulo é – se cremos em Cristo para nossa justificação mediante a fé sem as obras da lei estamos livres da condenação da lei, pois Cristo não nos levaria a pecar contra Deus. No ver.18 o argumento de Paulo é se nós, que buscamos a justificação em Cristo pela fé, nos voltarmos para as obras da lei como meio de justificação aí sim estamos pecando. O que podemos observar aqui?
a)       A justificação pela graça mediante a fé não é uma ocasião à indolência, v. 17 É bem possível que alguns judeus estivessem acusando Paulo de que a sua doutrina da justificação pela graça mediante a fé servia como uma ocasião ao pecado, à quebra da lei. Paulo responde dizendo que se isso fosse verdade Cristo seria um ministro do pecado, o que é uma blasfêmia. Cristo veio para destruir o pecado (1 Jo 3.8), não para estabelece-lo. A justificação não é uma porta aberta ao pecado, mas uma avenida para a santificação, 1 Co 6.11.
b)       A justificação pela graça mediante a fé em Cristo é completa, suficiente, v.17. Paulo afirma a suficiência da obra de Cristo em justificar aqueles que nEle creem à parte das obras. O argumento dos judaizantes era que a obra de Cristo não era suficiente para a salvação (At 15.1,5) e exigiam a obediência aos ritos judaicos. Paulo, entretanto, refuta esse raciocínio dizendo que sujeitar-se a tais prescrições é que se constituía pecado. Se Cristo não é suficiente para salvar-nos nada poderia sê-lo.

3. AS CONSEQUÊNCIAS DA JUSTIFICAÇÃO, v 19-21
v.19-21. No v. 19 Paulo argumenta que assim como Cristo pagou os seus pecados na cruz do calvário, ele estando em Cristo está morto para a lei. Isto é, ela não tem poder sobre ele, visto que ele está morto com Cristo. No v.20 Paulo confessa-se uma nova criatura em Cristo, não mais sujeita à condenação do pecado, pois Cristo entregou-se por Ele. No v.21 Paulo afirma que a atitude de Pedro é como uma anulação do que Cristo fez por ele. Os que buscam salvar as suas vidas na base do mérito pessoal estão descartando a graça de Deus oferecida em Cristo, como se o seu sacrifício tivesse sido em vão. O que podemos observar aqui:
a)       A justificação é a fonte de uma nova vida, v.19. Regeneração e justificação são coisas diferentes. A primeira é um ato de Deus em nós, a segunda é o julgamento de Deus a nosso respeito. A nova vida mencionada aqui não é a regeneração, mas a vida sob o controle de Deus. O que Paulo diz aqui é que se ele está morto a lei não tem poder sobre ele, pois a lei só tem poder enquanto uma pessoa está viva, Rm 7.1. Paulo ilustrou o que diz aqui com uma analogia do casamento, Rm 7.2-11. Assim como a morte dissolve o vínculo entre marido e mulher, assim a morte do crente com Cristo rompe o jugo da lei. Deste modo o crente está livre para unir-se com Cristo e viver uma nova vida. 
b)      A justificação é a fonte de uma nova vida santa, v. 20. A justificação capacita-nos a nos relacionarmos com Deus, pois remove a condenação que pesava sobre nós. Mas justificação não é santificação. A justificação é um ato, a santificação é um processo. Na justificação o pecado é perdoado, na santificação o pecado deve ser mortificado. O que Paulo quer dizer aqui é que a sua vida era animada pelo poder de Deus no seu homem interior. Calvino diz que Cristo vive em nós de duas maneiras: (1) uma consiste em governar-nos por meio do Seu Espírito Santo dirigindo-nos em todas as nossas ações e (2) a outra consiste em fazer-nos partícipes da sua justiça de modo a sermos aceitos por Deus.  
c)       A justificação é a fonte de uma nova vida confiando na graça, v. 21. Um cristão deve viver sempre confiando na graça divina.  Uma vida baseada nos esforços pessoais é um flagrante desprezo da graça divina.
Conclusão
Quais as lições que aprendemos aqui?
·         Justificação é a nossa maior necessidade
·         Justificação é obra de Deus
·         Justificação é pela graça mediante a fé em Cristo
A pergunta é: você já recebeu a justificação de Deus?



[1] PACKER, J. I., Entre os gigantes de Deus, p.162 segs.
[2] Pergunta 33 do Breve Catecismo de Westminster.