segunda-feira, 2 de julho de 2012

O PODER TRANSFORMADOR DO EVANGELHO



Silas Roberto Nogueira

Gálatas 1.11-24

INTRODUÇÃO
Os falsos apóstolos judaizantes que chegaram à Galácia não estavam somente disseminando a ideia de que era necessária a obediência à Lei mosaica para a salvação, mas estavam também caluniando o apóstolo Paulo. Eles empregavam o seguinte método contra Paulo, punham em dúvida a sua autoridade do seu apostolado e a genuinidade do seu evangelho. A intenção era minar a autoridade do mensageiro, comprometer a sua mensagem e promover uma cisão no relacionamento entre o apóstolo e a igreja (4.17) para facilitar a sua atuação.  O apóstolo Paulo nesta Epístola rechaça de modo cabal e absoluto a deturpação do evangelho que os falsos apóstolos pregavam como já vimos no estudo anterior. Especificamente no texto que lemos hoje Paulo faz uma vigorosa defesa do seu evangelho e do seu apostolado. Primeiro Paulo trata da origem do seu evangelho (v.11,12) e em segundo lugar, aquilo que o evangelho operou em sua própria vida (v.13-24). Como disse William Barclay Paulo mostra que o seu evangelho não é de segunda mão, mas que o recebeu de Deus mesmo. Como uma afirmação tão ousada exige uma comprovação que a corrobore, Paulo ousadamente apresente a sua própria vida, a mudança radical que o evangelho operou nele. Há dois pontos que precisamos destacar aqui quanto ao evangelho de Paulo:

1)       O evangelho não é invenção humana, v 11, 12a O termo grego “kata anthropon” significa literalmente – “de acordo com o homem”.  No v. 12 Paulo dá as suas razões, primeiro ele não recebeu o evangelho por meio de tradições humanas como acontecia no judaísmo. Em segundo lugar, ele não aprendeu o evangelho de outro homem, como os rabinos treinavam seus discípulos. Disso nós podemos concluir que o evangelho não é mera tradição humana e nem mero adestramento teológico, o evangelho é algo sobrenatural. Se o evangelho fosse humano, não seria evangelho.

2)       O evangelho é revelação de Jesus Cristo, v.12. Aqui Paulo fala que o evangelho é uma revelação, um desvendamento, um descortinar. O evangelho não é um descobrimento humano, mas uma revelação divina. Revelação é sempre uma iniciativa divina, não humana. Jesus Cristo é o objeto da revelação do evangelho. Na verdade, Jesus Cristo é o evangelho. Está claro que quando Paulo escreve este verso sua mente se volta imediatamente aquele dia no caminho de Damasco quando Jesus revelou-Se a ele. Mas o evangelho é também uma revelação acerca de Jesus como o Cristo de Deus. Essa revelação mudou a vida de Paulo para sempre.

No trecho que vamos estudar agora, um trecho biográfico que vai até o final do capítulo dois, Paulo mostra o poder do evangelho em sua própria vida. Primeiro Paulo faz uma retrospectiva, depois fala do momento em foi chamado na graça e em terceiro lugar, fala do seu chamado por parte de Deus. Vejamos as lições que podemos extrair deste texto:



1.       PAULO INIMIGO DE CRISTO, v.13,14
João Calvino diz que esta “narrativa foi introduzida como parte do argumento de Paulo. Ele relata que, durante toda a sua vida, nutria tão profunda rejeição pelo evangelho, que se tornara um inimigo mortal e um destruidor do cristianismo. Isso nos leva a inferir que a conversão de Paulo foi divina”. Paulo se descreve aqui como um fanático religioso, um inimigo voraz de Cristo e mostra isso em dois tempos:

a)       Paulo um voraz perseguidor da igreja e de Cristo, v.13.
Paulo descreve-se a si mesmo como um implacável perseguidor da igreja numa tentativa de devastá-la– “sobremaneira persegui a igreja... e a devastava”. A primeira vítima de Saulo foi Estevão, pois consentiu em sua morte, At 8.1. Depois disso, a narrativa de Lucas apresenta Paulo como alguém que “assolava a igreja” em Jerusalém com ações violentas “entrando pelas casas; e, arrastando homens e mulheres” encerrava-os no cárcere (At 8.3), castigava-os e tentava faze-los blasfemar (At 26.11) e quando formalmente acusados, dava o seu voto, para que fossem mortos (At 26.10). Não contente com seu plano de erradicação da igreja de Cristo em Jerusalém, pediu autorização para ir à Damasco visitar as sinagogas à caça de mais discípulos, At 22.5; 26.9,10,11. Paulo perseguia a igreja com violência e selvageria, de forma intensa, em excesso, sem medida e continuamente – é isso que ele quer dizer com “sobremaneira”. A ira de Paulo contra Cristo não poderia ser aplacada por argumentos humanos, At 26.9.

b)      Paulo um destaque entre os seus pares, v.14.
A fúria de Paulo contra a igreja é explicada por seu zelo religioso. Em outra nota biográfica aos filipenses Paulo diz: “quanto ao zelo, perseguidor da igreja”, Fp 3.6. Zelo sem conhecimento é fanatismo e, como já vimos Paulo era um fanático religioso. As razões estão presentes neste verso. Primeiro Paulo se descreve a si mesmo como alguém que se sobressaia aos seus pares. Havia sido educado aos pés do maior rabino de sua época, Gamaliel (At 22.3). Era um fariseu estrito, quanto à justiça que há na lei irrepreensível (Fp 3.5-6). Não era apenas um homem zeloso, mas “extremamente” zeloso da tradição dos seus pais. Hendrikesen comenta que “a religião judaica da qual Paulo fazia parte e se fazia progredir era aquele na qual a santa lei de Deus era sepultada sob o peso das tradições humanas”.

Concordamos com John Stott quando diz que “um homem nessa condição mental e emocional de maneira alguma mudaria de opinião, nem se deixaria influenciar por outras pessoas. Nenhum reflexo condicionado ou qualquer outro artificio psicológico poderia converter um homem assim. Apenas Deus poderia alcança-lo – e foi o que Deus fez!”.
  
2.       PAULO CONVERTIDO A CRISTO, v. 15,16ª
Depois de falar do passado, Paulo começa agora a falar do presente. Há uma mudança abrupta entre os versículos anteriores, 13,14 e estes, 15,16. Antes havia falado do que fizera, de como agira, mas agora fala o que Deus fez e como agiu em seu favor. Isso destaca que a sua conversão não foi devida a intervenção humana, mas a soberana agência divina. Há quatro pontos que podemos destacar aqui:

a)       A conversão de Paulo era plano de Deus, v.15. Note a frase – “me separou antes de eu nascer”. O termo “separou” implica em uma escolha de alguém ou alguma coisa com propósitos específicos. Não foi Paulo quem escolheu a Deus, mas Deus quem o escolheu. Deus não o escolheu porque previu que ele iria crer em Cristo, pois a presciência na Bíblia é de pessoas, não de atos, Rm 8.29,30. Depois, não foi escolhido porque tinha praticado boas ações, pois ele não havia nascido ainda – “antes de eu nascer”. A escolha divina é incondicional, soberana.

b)       A conversão de Paulo ocorre na história, 15. Observe a palavra – “quando”. Os que são chamados por Deus na eternidade vêm a Ele no tempo, na história. Há sempre um momento, uma hora, um dia, uma circunstância. O “quando” de Paulo aqui refere-se ao caminho de Damasco, perto do meio dia, quando de súbito Cristo veio ao seu encontro e mudou para sempre a sua trajetória (At 9.3; 22.6) – de perseguidor a pregador.

c)       A conversão de Paulo inclui um chamado irresistível, 15. Observe “e me chamou pela sua graça”.  A eleição é incondicional, a graça é irresistível. Há dois chamados que ocorrem quando o evangelho é anunciado, um é externo, dirigido aos ouvidos (eles ouvem, mas não entendem), o outro é interior, dirigido ao coração (quem ouve, atende). Esse chamado é eficaz, produz o efeito desejado por Deus. Quando Cristo chamou Paulo pelo nome no caminho de Damasco, ele atendeu, At 9.3. Os outros que estavam com Paulo viram a luz, mas não entenderam o chamado, At 22.9. A ovelha ouve a voz do Pastor, Jo 10.27.

d)       A conversão de Paulo inclui uma revelação sobrenatural, 16. Toda conversão é algo sobrenatural, pois começa com Deus. Paulo perseguia a Cristo por achar que Ele era um impostor, um charlatão, mas agora seus olhos foram abertos para ver a Jesus não como antes, mas como o Cristo, o filho de Deus, o salvador de todo o que crê, 2 Co 5.16. Essa revelação é um cerne da transformação do apóstolo Paulo.

John Stott declara que Paulo não merecia misericórdia, nem a pedira, mas ela foi ao seu encontro. Quando Paulo se refere ao seu estado pregresso, antes da conversão, se confessa como alguém blasfemo, perseguidor e arrogante. Contudo, insere uma maravilhosa adversativa – “mas” – na narrativa e conclui “obtive misericórdia...” e experimentou um transbordar da graça de Deus em relação à sua salvação, 1 Tm 1.13,14. Ninguém é salvo por acaso, nem por que Deus previu a sua fé ou mesmo porque merecia, mas os que são salvos o são pelo transbordar da graça e misericórdia de Deus. 

3.       PAULO PREGADOR DE CRISTO, v. 16b-24.
Nos versículos que seguem, Paulo trata do propósito de seu chamado. Deus escolheu Paulo não somente para salvá-lo, mas para usá-lo como instrumento para ganhar outros. Neste trecho  Paulo fará uma defesa do seu apostolado, defendendo-se da acusação de não ser um apóstolo legítimo.

a)       Paulo foi escolhido por Deus com um propósito, 16. O termo “separou” usado no v.15 refere-se a uma escolha tendo em vista um propósito. A revelação de Cristo em Paulo (“revelar seu Filho em mim”) não é apenas um descortinar de quem Cristo é a Paulo, mas também um revelar de Cristo por meio de Paulo. Mathew Henry, um batista puritano, comentou “pouco nos servirá que tenhamos a Cristo revelado a nós se Ele não é revelado também em nós”. Paulo afirma o propósito de Deus quanto à sua salvação na frase – “para que eu O pregasse entre os gentios”. Paulo descobriu isso agora, após a sua conversão, mas isso sempre fez parte do plano de Deus. O ministério cristão não é uma coisa para o qual os homens devem se apresentar como voluntários, Hb 5.4. Os falsos apóstolos saíram por conta própria (At 15.24), mas Paulo havia sido comissionado por Deus.

b)       Paulo não consultou homens sobre o seu chamado, v.16,17.  A expressão “não consultei carne e sangue” refere-se a homens, isto é, Paulo não buscou o conselho de homens sobre a questão, nem mesmo dos outros apóstolos - “nem subi a Jerusalém...” (v.17). Ele entendeu a urgência do chamado – “sem detença”. A síntese que oferece aqui do seu ministério mostra que era impossível que ele tivesse recebido o seu evangelho por intermédio de qualquer homem:

  • De Damasco para a Arábia: “parti para as regiões da Arábia” – depois de dar um breve testemunho de sua conversão em Damasco, partiu para as regiões da Arábia. Arábia aqui é uma referência a uma região próxima à Damasco. Não nos diz o que fez ali, mas podemos supor que estivera em oração e meditação.
  •  Da Arábia para Damasco: “e voltei, outra vez, para Damasco” – esse retorno não é explicado, mas o fato é que retorna da Arábia para Damasco para quem sabe um período maior de pregações. Nesse retorno Paulo ia corrigir o erro que havia praticado.
  • De Damasco para Jerusalém: “decorridos três anos... Jerusalém”, v.18. Essa visita corresponde a Atos 9.26-30. Paulo tinha como propósito conhecer Pedro. Nesse período conheceu Tiago, v.19. Nesta visita Paulo vai enfrentar seu passado.
  • De Jerusalém para Síria e Cilícia, v.21.  Paulo vai à sua cidade natal na Cilícia, Tarso. Paulo fora fazer Cristo conhecido aos seus conterrâneos, At 15.41. Paulo aqui vai enfrentar a sua cidade natal, seus amigos de infância e seus familiares.

c)       Paulo com seu testemunho glorifica a Deus, v.23,24. Embora desconhecido em alguns lugares, o testemunho da poderosa transformação operada em Paulo – “aquele que antes, nos perseguia, agora, prega a fé que, outrora, procurava destruir” – redundava em adoração a Deus, v. 24.

Estes versículos podem ser resumidos da seguinte maneira: a vida pregressa de Paulo no seu fanatismo religioso, a iniciativa divina de sua conversão e seu isolamento quase total dos líderes da igreja de Jerusalém, provam de modo inequívoco que sua mensagem não é humana, mas divina.

Conclusão

  • O evangelho é divino, não humano
  • Ser religioso não é uma garantia de salvação. Homens cheios de virtudes e religiosos são tão blasfemos, inimigos de Cristo e arrogantes (1 Tm 1.13) quanto Paulo e precisam receber a misericórdia de Deus e experimentar o transbordar da Sua graça
  •  A conversão de uma pessoa é sempre algo sobrenatural, Jo 3. O evangelho é o poder de Deus para a salvação (Rm 1,16).
  • Somos salvos com um propósito de fazer Cristo conhecido através de nós. Devemos ser um testemunho vivo – devemos pregar com as nossas vidas.

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Anotações das exposições em Gálatas - Comunidade Batista da Graça, Suzano/SP