segunda-feira, 25 de junho de 2012

EVANGELHO - O FALSO E O VERDADEIRO


Silas Roberto Nogueira



Gálatas 1.6-12


Segundo a reportagem da Revista IstoÉ, 20% dos medicamentos vendidos no Brasil são “pirateados”. Medicação falsa não é exclusividade do Brasil, nos Estados Unidos e Europa Ocidental os índices chegam a 4% ou 5%, no Leste Europeu a 30% e na África a 37%. Medicação falsa além de não produzir a cura desejada, pode agravar a doença e levar à morte. Muito mais perigoso e mortal que medicação falsa é o evangelho falso que tem sido ministrado continuamente por algumas igrejas na atualidade. O evangelho falso é como pílula de farinha, não tem efeito nenhum, a não ser o psicológico. O evangelho falso, assim como o medicamento falso pode colocar a vida daquele que a ele se submete em risco. Precisamos aprender a discernir entre o falso e o verdadeiro evangelho a bem da nossa saúde espiritual. O evangelho falso coloca a eternidade em risco.  Essa Epístola, diferente de todas as outras de Paulo, não começa com uma ação de graças, elogios e nem oração. A forma como Paulo começa, de modo direto indica a urgência do assunto.

1.       EVANGELHO FALSO É DESCAMINHO DA GRAÇA, v 6

Paulo se confessa admirado com a maneira tão rápida como os gálatas estão entrando no descaminho da graça pelo falso evangelho. Essa é a primeira característica do falso evangelho – ele é o descaminho da graça. Em outras palavras, é o evangelho da desgraça. Paulo retrata os gálatas como “passando” para outro evangelho. No caso dos gálatas ainda não é apostasia completa, mas é um desvio que está em processo. Essa atitude é descrita por Paulo como um “desvio” (A21)[1] e tem o sentido de uma transferência de fidelidade. Nos dias de Paulo a palavra usada aqui era aplicada aos soldados que desertavam ou pessoas que mudavam de partido na política, filosofia ou religião.  Há dois pontos que merecem nossa atenção quanto ao afastamento dos gálatas do evangelho da graça:

(a)     O falso evangelho se originara dentro da comunidade cristã. Muitos judeus haviam sido convertidos (At 15.15) e formaram um partido dentro da igreja, Gl.2.12 e saíram pregando suas concepções do evangelho (At 15.24). Ao que parece, essas pessoas não faziam ainda uma clara distinção da lei e do evangelho.
(b)     O falso evangelho não negava que era preciso crer em Cristo, mas alegava que somente isso não era suficiente, At 15.1,5. Aqui reside o problema básico do falso evangelho um ataque frontal à suficiência de Cristo. O que estavam ensinando é que nós podemos completar aquilo que Cristo começou.

A seriedade desse sutil afastamento se pode verificar, pois não é apenas uma mudança de opinião, de partido político:

(a)     É um afastamento do Deus da graça

Paulo diz que os gálatas estão se afastando “daquele que os chamou na graça”. Calvino segue uma tradução que diz “de Cristo, que vos chamou pela graça”, contudo, aqui parece melhor entender uma referência a Deus o Pai (1 Pe 5.10), segundo o testemunho do Novo Testamento,  Rm 8.30; 9.11; 1 Co 1.9; Gl 1.15; 1 Tm.2.12; 1 Pe 1.15; 2.9; 2 Pe 1.3. Deus é o Deus de toda a graça e justamente dEle os gálatas estavam se afastando por causa da sedução do falso evangelho.

(b)    É um afastamento da Graça de Deus

Paulo afirmara pouco antes que Cristo morreu pelos nossos pecados para nos remir e extrair deste mundo mau (v.4). O verdadeiro evangelho é a proclamação daquilo que Cristo fez por nós sem que merecêssemos. Por isso Paulo fala na “graça de Cristo”. Mas os gálatas estavam se afastando do evangelho da graça (At 20.24) para outro evangelho. Um é o evangelho da graça, o outro é o evangelho da desgraça. Um é o evangelho do favor, o outro é o do desfavor. Mais tarde Paulo se refere à situação dos gálatas como aqueles que descaíram da graça. Essa expressão significa a busca da justificação e santificação pelas obras da lei.

A súmula disso, segundo John Stott é que “a deserção dos gálatas convertidos estava relacionada com a experiência e também com a teologia”. “Ele” [Paulo] “não os acusa de desertarem do evangelho da graça com vistas a um outro evangelho, mas de desertarem daquele que os chamara na graça. Em outras palavras, teologia e experiência, fé cristã e vida cristã, andam juntam e não podem ser separadas. Afastar-se do evangelho da graça é afastar-se do Deus da graça”.

2.       EVANGELHO FALSO NÃO É EVANGELHO NENHUM, v 6b,7-9

Paulo denuncia a natureza do falso evangelho com um jogo de palavras. O evangelho que se afasta do Deus da graça e da graça de Deus é “outro” evangelho, v.6. Contudo no início v.7 ele diz que não é “outro” (seguindo a ARA, ARC). No idioma grego há duas palavras que podem ser traduzidas por “outro”. Uma delas aparece no v.6 e tem o sentido de outro, mas de espécie diferente, a segunda palavra aparece no v.7 e tem o sentido de outro da mesma espécie. O que Paulo diz é que as mensagens são essencialmente diferentes em sua natureza. Warren Wiersbe diz que a mensagem dos falsos apóstolos é tão diferente do verdadeiro evangelho, que afinal não é evangelho. Não existem dois evangelhos, mas apenas um. Há alguns pontos a considerar:

(a)     O falso evangelho produz perturbação, v.7b

O artigo com o particípio marca essas pessoas como caracteristicamente perturbadoras, eles são “os perturbadores”. O sentido do termo usado aqui para perturbar é o de sacudir alguém para frente e para trás de modo que ela perca o equilíbrio, descaia de sua firmeza. Essa palavra é usada em Atos 15.24 quando a liderança do concílio se refere aos tais falsos apóstolos como aqueles que perturbam e transtornam as almas dos crentes gentios. O resultado do falso evangelho não é paz interior, mas uma profunda perturbação e transtorno interior. A razão disso é que aquilo que os falsos mestres apresentam como evangelho na verdade é uma perversão do evangelho. Calvino diz que a perversão é pior que a corrupção. A perversão tem como alvo transformar uma coisa em outra. J. B. Phillips traduziu como “uma falsificação do evangelho de Cristo”. John Stott declara com sabedoria que falsificar o evangelho resulta sempre em perturbação para a igreja.  

(b)    O falso evangelho atrai maldição e não bênção, v.8,9

Paulo diz aqui que não importa quem seja o mensageiro, homem ou anjo, se pregar um evangelho que vá além do que os apóstolos pregaram – seja maldito. John MacArthur comenta que os crentes gálatas “não deviam receber nenhum mensageiro, independentemente do quão perfeitas fossem suas credenciais, caso a doutrina da salvação que ele anunciasse diferisse, ainda que num ponto mínimo, da verdade de Deus revelada por meio de Cristo e dos apóstolos”. Dar guarida ao falso evangelho é colocar-se sob maldição.

Paulo não está preocupado em parecer intolerante quando pronuncia uma palavra de maldição sobre aqueles que pervertem o evangelho de Deus. John Stott diz que “se nós nos importássemos mais com a glória de Cristo e com o bem da alma humana, também não seríamos capazes de suportar a corrupção do evangelho da graça”. Quando o evangelho é pregado produz salvação, mas quando o falso evangelho é pregado produz perdição.

3.       EVANGELHO FALSO É UMA ARTICULAÇÃO HUMANA, v. 10-12

Os falsos apóstolos haviam caluniado o apóstolo Paulo. Ao fazer uma defesa do seu evangelho e apostolado, Paulo mostra algumas características do falso evangelho, vejamos:

(a)     O propósito do falso evangelho é agradar a homens, v.10,11

Os falsos mestres estavam levantando suspeitas sobre as motivações de Paulo. Eles estavam sugerindo que Paulo havia propositadamente adaptado a mensagem do evangelho para os gentios. A acusação é que ele havia tornado o evangelho palatável aos gentios. Contudo, Paulo afirma que não busca o favor humano, não prega para agradar aos homens, mas a Deus. O evangelho que Paulo pregou aos gálatas não é “segundo o homem”, v.11. O falso evangelho é costurado com argumentação humana. O falso evangelho é articulado de modo a ser atrativo aos homens. O evangelho da graça humilha os homens, pois os destitui de todo mérito. Mas o falso evangelho infla o orgulho humano com sua auto justificação.

(b)    O falso evangelho é uma descoberta humana, v.12

Os falsos mestres acusavam Paulo de ter produzido um evangelho que era diferente do evangelho dos outros apóstolos. Contudo, Paulo afirma que o evangelho que ele tem pregado não é uma descoberta sua, mas uma revelação divina. Paulo afirma que o seu evangelho não foi recebido por instrução humana, ao contrário dos judaizantes que receberam instruções religiosas das tradições rabínicas. A verdade é que os judeus não estudavam diretamente as Escrituras, mas as interpretações dos rabinos, as quais tinham como autoridade. Muitas dessas tradições não só não eram encontradas nas Escrituras como também a contradiziam (Mc 7.13). O falso evangelho é uma descoberta humana, é uma produção humana.  

O falso evangelho é uma formulação humana, cuja motivação é agradar ao homem. O falso evangelho é uma descoberta humana, representa o esforço humano de justificar-se diante de Deus. O falso evangelho é o evangelho da autossatisfação. Como o placebo que incentiva uma cura psicológica, o falso evangelho acalenta as mentes em conflito dando-lhes sensação de paz, de alívio.


CONCLUSÃO

Arthur Pink costumava dizer que “o sucesso de um falsificador de moedas depende de quão parecida a moeda falsa se torna com a genuína”. De fato o sucesso de qualquer falsificador é se tornar tão parecido com aquilo que ele falseia que poucos saberão identificar qual é o verdadeiro e qual é o falso. O falso evangelho é bem parecido com o verdadeiro evangelho, não é uma grosseira falsificação. Como uma perversão do evangelho, o falso evangelho possui elementos do verdadeiro evangelho. E justamente isso é que o torna perigoso. Como um medicamento falso que possui rótulo e promete cura, o falso evangelho é apresentado como evangelho e promete a salvação, contudo é totalmente ineficaz.

Mas como podemos reconhecer o verdadeiro evangelho? John Stott destacou duas marcas do verdadeiro evangelho:

(a)     A substância do evangelho: É o evangelho da graça, do favor livre e imerecido de Deus. Diz Stott: “este é o primeiro teste”. “O verdadeiro evangelho magnifica a livra graça de Deus”

(b)     A fonte do evangelho: “o segundo teste refere-se à origem do evangelho”. “O verdadeiro evangelho é o evangelho dos apóstolos de Jesus Cristo; em outras palavras é o evangelho do Novo Testamento.”

O falso evangelho apresenta um cristianismo sem Cristo, e isso não é uma boa nova, pois nos deixa na condição em que estávamos – perdidos.



[1] A21 – Almeida Século 21 

Anotações do segundo sermão da série de exposições em Gálatas - Comunidade Batista da Graça