quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

A TOCHA DA EVANGELIZAÇÃO LEVADA PELOS PURITANOS A mensagem da Evangelização Puritana


Dr Joel R. Beeke 
Autor de Paixão pela Pureza, PES. 



A preocupação evangelística puritana

Quais os métodos que os puritanos usaram para comunicar a sua mensagem? Qual a disposição interior do evangelista puritano?
Ao analisarmos a mensagem da evangelização puritana, procuraremos cobrir pelo menos quatro características e, assim fazendo, procuraremos contrastar a evangelização puritano com a evangelização moderna.
Antes disso, quero, de forma sumária, definir o que entendo por puritano. Estou usando a palavra "puritano" no sentido geral da palavra, que inclui aqueles piedosos ministros e teólogos ingleses do século XVI e XVII, que estavam preocupados com uma vida pura de acordo com as doutrinas da graça soberana de Deus. Eles estavam preocupados com as seguintes áreas:
1. Com a manutenção do ensino das Escrituras e do pensamento reformado sadio.
2. Com a necessidade de desenvolver um padrão pessoal de piedade, conforme as prescrições das Escrituras, que flui do correto entendimento de doutrina, e que dá ênfase à conversão pessoal e se manifesta numa religião experimental resultante do poder transformador do Espírito Santo.
3.  Com a necessidade de uma vida eclesiástica baseada nas Escrituras, onde o Deus triúno é adorado conforme as determinações de Sua Palavra.
Quando me refiro à evangelização puritana estou focalizando a proclamação que era efetivada pelos puritanos de todo o conselho de Deus como revelado em Sua Palavra. Percebe-se que a palavra Escritura está presente e inferida nos três itens. Por isso queremos considerar quatro características bem abrangentes da pregação puritana. Dentro de cada característica veremos o contraste com a evangelização moderna.

Característica da pregação puritana - contraste com a evangelização moderna

Em primeiro lugar, os puritanos, por serem profundamente embasados nas Escrituras Sagradas, apresentavam sermões extensamente baseados nas Escrituras. Para o puritano, o sermão nunca estava só ligado às Escrituras, mas ele saía e crescia de dentro da Palavra de Deus. Para o pregador puritano o texto não estava no sermão, mas o sermão estava no texto. Por isso, um velho membro de uma igreja puritana poderia dizer: "Ouvir um sermão, para mim, é como estar dentro da Bíblia".

Se você abrir um livro de sermões puritanos, encontrará de dez a quinze versículos citados em cada página, além de encontrar dez a doze referências textuais. Os pastores puritanos sabiam como usar suas Bíblias. Eles viviam e respiravam os textos da Palavra de Deus. Eles tinham centenas e até milhares de textos das Escrituras memorizados e sabiam como citá-los para os problemas da alma ou para qualquer outro problema pessoal. Eles usavam as Escrituras de forma sábia, não passando por elas de forma superficial, porém trazendo o texto e fazendo-o permanecer de acordo com a doutrina que estava sendo enfocada. Os sermões evangelísticos de hoje muitas vezes são perturbadores, não porque não citem as Escrituras, mas porque o fazem de modo repetitivo, superficial. Quando alguém saía da igreja, após um sermão puritano, nunca esquecia o texto que fora usado, pois aquele texto lhe fora colocado inteiramente aberto, tendo sido levado até o seu coração.

Hoje, na evangelização moderna, temos toda razão para ficarmos perturbados quando testemunhamos que há uma seleção muito pequena dos textos bíblicos utilizados, além de textos que são tirados do seu contexto bíblico. Nós pregadores sabemos que podemos citar uma porção de textos sem estarmos sendo bíblicos nestas citações. Uma seqüência de textos intercalados por anedotas não faz, de maneira alguma, com que um sermão seja bíblico em si.

Os puritanos acreditavam fortemente em Sola Scriptura. Você pode procurar nos seus escritos e sermões, qualquer história ou referência pessoal e não as encontrará. Pelo fato de pensarem que o púlpito era um lugar de grande importância, este não podia ser degenerado com uma pregação egocêntrica. Eles sabiam que só uma coisa pode salvar pecadores: o Espírito Santo ligando-Se à semente incorruptível da Palavra de Deus. Por isso a tarefa deles era exatamente expor a Palavra de Deus incorruptível, orando para que o Espírito a aplicasse aos corações dos ouvintes. Se estamos convencidos de que conhecemos bem as nossas Bíblias e abrirmos um livro puritano, logo ficaremos muito humilhados. Eles foram gigantes espirituais nas Escrituras e nós somos anões, pigmeus perante eles. Por isso é muito importante lermos os puritanos. Eles são nossos mentores para nos ensinar como usar a Bíblia de uma forma pastoral, evangelística e na nossa pregação. Você sem dúvida seria um evangelista mais sábio e útil se buscasse mais as Escrituras como faziam os puritanos. Ame a Palavra de Deus de maneira mais calorosa. Pesquise a Palavra de Deus em suas devoções pessoais. Busque a bênção de pensar biblicamente, de falar biblicamente, viver biblicamente e perceberá que sua palavra contém uma autoridade divina. Você não precisará persuadir as pessoas pela sua personalidade ou por você mesmo, mas a Palavra de Deus é que vai persuadi-las. A Palavra quando exposta, passo a passo, abre as Escrituras perante nós. Esse é o primeiro ponto da pregação puritana. Eram profundamente bíblicos.

Em segundo lugar, o pregador puritano era doutrinador. A mensagem puritana não pedia desculpas por apresentar doutrina. O puritano não temia pregar todo o conselho de Deus para o povo. Os puritanos achavam que você não podia contar uma história qualquer, sem que esta tivesse doutrina. Doutrina é simplesmente a apresentação das verdades de Deus trazidas das Escrituras numa forma que pode ser entendida e que se relaciona com as nossas vidas. Não diluíam suas mensagens com anedotas, humor, histórias triviais e levianas durante a pregação. Eram profundamente sérios, verdadeiros e austeros no púlpito, pois sabiam que ao chegar ali estariam lidando com verdades eternas e almas eternas. Sentiam a realidade solene do seu chamado divino. Pregavam a verdade de Deus como um homem que está morrendo para homens que estão morrendo.
Vejamos alguns exemplos:

1. Quando pregavam a doutrina do pecado tinham a coragem de chamar pecado de pecado mesmo. Eles pregavam o pecado como uma rebelião moral contra Deus, uma rebelião que traz um sentimento de culpa e, se não houver arrependimento e perdão, a conseqüência será a condenação eterna certamente. Pregavam a respeito de pecados específicos; pecados de omissão e pecados de comissão; pecados por palavras e ações; falavam do quanto foi horroroso o nosso pecado original em Adão e Eva; falavam à congregação que eles tinham um referencial muito ruim e um coração mal por natureza; que o homem natural não pode amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo; ensinavam de forma "aberta" que uma reforma, apenas externa na nossa vida, não é suficiente para salvação eterna; a reforma interna produzida pelo Espírito Santo é absolutamente necessária e por isso pregavam como aquela regeneração podia ser experimentada e então vivida.

2. Outro exemplo se vê na sua pregação. Pregavam de uma maneira muito forte a doutrina de Deus. A evangelização deles era construída em cima de forte base teísta; pregavam Deus no Seu ser majestoso e em todos os Seus atributos gloriosos. Não só deixavam Deus ser Deus, mas declaravam que Deus é Deus. Os puritanos colocavam Deus em uma posição bem elevada - como deve ser. Quando se aproximavam de Deus em oração não falavam com Ele como quem fala com o vizinho pela janela, ou como um vizinho que pode ajustar seus atributos de acordo com suas necessidades e desejos pessoais. O puritano sempre exaltou a majestade de Deus e, quando se aproximava de Deus, você podia perceber aquele sentimento profundo de reverência. O Deus que o puritano pregava era o Deus da Bíblia. Talvez um dos versículos mais importantes, na Bíblia, para um puritano, seria exatamente Gênesis 1:1 - "No princípio, Deus". E de Deus que emanam e se desdobram todas as coisas neste mundo. Todas as coisas são preparadas, iniciadas,projetadas e feitas para a glória de Deus!

3. A evangelização puritano também proclamava de forma completa e plena a doutrina de Jesus Cristo. Pregavam o Cristo integral para o homem integral. Recusavam-se em separar os benefícios que advêm de Cristo, da própria Pessoa de Cristo. Um dos grandes puritanos, Joseph Alleine, em seu clássico livro originalmente intitulado, An Alarm to the Unconverted (Publicado no Brasil pela PES, como Um Guia Seguro para o Céu), disse que o ser de Cristo integral é aceito por aquele que é realmente convertido. Os verdadeiros convertidos não aceitam apenas as recompensas de Cristo, mas a própria obra de Cristo. Não amam apenas os benefícios de Cristo, e sim também o "fardo" de Cristo ("...tomai sobre vós o meu jugo..."). Amam não só tomar os mandamentos, mas também, a cruz de Cristo. Por outro lado, o falso convertido recebe Cristo pela "metade". Ele quer os privilégios de Cristo, porém não quer se inclinar diante do senhorio de Cristo. Ele divide os ofícios de Cristo e os benefícios de Cristo. Esse é o problema dos "crentes" de hoje.

Freqüentemente Jesus tem sido apresentado na evangelização de hoje como alguém que está aí para satisfazer todas as necessidades e desejos dos homens. Na pregação de hoje, Jesus é apresentado como alguém que não exige que o homem ofereça o seu coração completo e a sua vida completa. Quando os puritanos pregavam, instavam com os pecadores a se voltarem para Jesus e avisavam que eles precisavam avaliar o preço de seguir a Jesus, e o preço era perder a sua vida; morrer diariamente por amor a Cristo, negar-se a si mesmo, tomar a cruz e segui-lO. Os puritanos tinham horror àquilo que hoje é chamada "a graça barata", porque, na verdade, essa não é uma graça verdadeira. Graça barata significa que eu aceito Jesus na minha própria força; Ele reforma um pouco a minha vida por fora, porém eu continuo agindo com os princípios egocêntricos no meu ser interior. A graça barata me leva a pensar que, por um lado, eu tenho a Jesus, que estou a caminho para o céu, mas, por outro lado me permite continuar vivendo uma vida mundana. Na verdade, eu estou mesmo no meu caminho para o inferno. Os puritanos apresentavam Jesus como um Salvador completo para um pecador completo. Um puritano disse: "O pregador que é o seu melhor amigo, é aquele que vai dizer mais verdades sobre você mesmo". Eles não estavam preocupados em causar dano ao amor próprio dos ouvintes das suas congregações. Eles estavam mais preocupados com Cristo do que com os ouvintes. Estavam preocupados com a Trindade. O cristão encontra o seu amor próprio a medida que ele ama ao Pai que o criou, ao Filho que o restaurou através da cruz, e no amor ao Espírito Santo que mora nele e que faz com que sua alma e seu corpo sejam templo do Espírito Santo.

4. A doutrina puritana expandia e explanava com detalhes a doutrina da santificação. A vida inteira do crente era para ser colocada aos pés de Deus. Ele tinha que trilhar a vereda do Rei no caminho da justiça. Ele precisava conhecer a vida de uma forma experimental. Precisava conhecer essas "irmãs siamesas" que são, a vida e a experiência. Quando o ministro prega sobre santificação, você precisa saber o que está sendo requerido de sua parte. Você não pode entender estas coisas sem doutrina e isso nos traz à terceira característica da pregação dos puritanos.

Em terceiro lugar, destacamos que a pregação puritana era experimentalmente prática. A ausência de uma pregação experimental e prática é uma das grandes falhas no culto e na evangelização de hoje. O que significa uma pregação experimental? A palavra experimental vem da palavra experiência. Em termos de cristianismo, a religião experimental significa que a Palavra de Deus e suas doutrinas precisam ser recebidas não apenas na mente (os puritanos chamavam isso de conhecimento na cabeça, apenas), mas também precisam ser experimentadas e vividas no coração. Isso eles chamavam de "conhecimento do coração". Eles baseavam este tipo de ensinamento, por exemplo, em Provérbios 4:23: "Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida".

Para os puritanos os pensamentos precisam fluir das Escrituras e as experiências do coração, fluem do ensino da doutrina e das Escrituras. Dessa forma, experiência não é alguma coisa mística, separada da Bíblia. Isso eles rejeitavam totalmente! Ao mesmo tempo, eles também rejeitavam completamente o tipo de religião que se satisfaz com o conhecimento apenas na cabeça, que é só racional. Estas doutrinas sobre as quais falamos resumidamente, a doutrina de Deus, de Cristo e do pecado, para os puritanos deviam ser tão reais quanto as cadeiras em que sentamos. Estas doutrinas precisam ser transformadas numa realidade que queime dentro de minha alma. Elas precisam influenciar toda a minha vida, todo o meu estilo de vida. Dessa forma, os puritanos acreditavam em viver, na prática, o que eles experimentavam. Sempre eles traziam suas experiências às Escrituras para terem a certeza de que estavam sendo totalmente bíblicos - até nas suas experiências. Para os puritanos doutrina seria algo vazio se não fosse acompanhada pela experiência. Toda experiência verdadeira leva a uma experiência pessoal com Cristo. Por isso é necessária a pregação da Pessoa de Cristo e esta pregação será honrada pelo Espírito Santo, porque Ele toma estas coisas e as aplica aos pecadores.

Os puritanos, na sua pregação, incluíam o que chamavam de "marcas de um auto exame". Estas marcas de exame eram os sinais que distinguiam a Igreja do mundo. Distinguiam os verdadeiros crentes daqueles que eram crentes nominais ou apenas por professarem a fé. Os puritanos faziam distinção entre fé salvadora e fé temporária. Muitos livros têm sido escritos a respeito deste assunto. O mais famoso deles foi escrito por Jonathan Edwards: Afeições Religiosas. Também o livro de João Bunyan, O Peregrino, contém tais marcas. O que nós hoje, desesperadamente precisamos, é de uma volta a este estilo de evangelização reformado-puritano que sempre está pesquisando e sondando o coração. Os puritanos nunca diziam de uma forma "leviana" que os pecados do povo estavam perdoados, mas pregavam de forma profunda o que realmente o pecado é e como ele tem afetado as pessoas. Eles procuravam tirar do pecador todo o seu sentimento de justiça própria para, então, levá-lo ao Senhor Jesus Cristo.

Alguém disse que a religião da América, hoje, tem 2.000 km de comprimento por 3.500 Km de largura (essas são as dimensões do país), mas com uma profundidade de mais ou menos 12 centímetros, apenas! O problema, em todos os lugares no mundo, hoje, é que a evangelização freqüentemente começa num lugar errado. Poderíamos dizer muitas coisas sobre as diferenças entre a evangelização moderna e a puritana, em relação à experiência do povo de Deus. Pois bem, quero apenas destacar um ponto e este é a resposta a uma pergunta: quando olhamos atrás para a história da Igreja, e também na história bíblica, observando as épocas de avivamento verdadeiro, não produzido pelo homem, qual era o elemento evidente naquela época que hoje está claramente ausente? Respondemos sem hesitação que é a ausência de profunda convicção de pecado. Este é um grande problema nos nossos dias.


Convicção de pecado

Hoje há muito pouca convicção de pecado entre os não salvos. A maioria dos chamados "cristãos" contemporâneos, vive de maneira tão descuidada em sua vida, que é muito difícil alguém diferenciá -los de homens não convertidos. O problema é que freqüentemente o pecado não é pregado como pecado para as pessoas; o horror do pecado não é enfatizado às pessoas. Isso nos leva a uma pergunta ainda mais profunda: por que as épocas de avivamento realizado pelo Espírito Santo foram períodos de profunda convicção de pecado? A resposta é que o Espírito Santo, como Jesus nos diz, vem para convencer do pecado, da justiça e do juízo. Assim, o convencimento do pecado é o caminho pelo qual Deus age para abrir espaço no coração do pecador. Quando o homem vê a realidade de Deus e a realidade do pecado contra Deus, ele se humilha até o pó. Só então, ele vai apreciar o que aquele Deus-homem, Jesus Cristo, fez por nós pecadores. Foi o que aconteceu com Isaías quando ele chegou à presença de Deus: "Ai de mim porque sou um homem de lábios impuros..." O mesmo aconteceu com Jó ao chegar à presença de Deus. Por cerca de quarenta capítulos no livro de Jó ele estava mais ou menos se defendendo, estava lutando para entender o que Deus havia feito com ele. Mas ao se sentir na presença de Deus, o Senhor Se tornou tão grande e Jó tornou-se tão pequeno, que perdeu todas as suas defesas. Então Jó falou: "Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te vêem. Por isso me abomino, e me arrependo no pó e na cinza" (Jó 42:5-6). Ele já havia ouvido falar de Deus antes, porém agora ele "viu a Deus", pela fé e perdeu tudo que estava do seu lado e se lançou como um pobre pecador, tão  somente na misericórdia de Deus. É isso que está faltando na evangelização moderna. Não se vêem pecadores chegando até a cruz e clamando como aquele publicano que disse em sua oração: "Ó Deus, tem misericórdia de mim pecador".

Vocês vêem o que é realmente o pecado, e quem é Deus? Se assim acontecer seremos levados à cruz e, quando experimentarmos pela fé a beleza e plenitude de Cristo na cruz, não precisaremos de nenhuma explicação da parte de Deus por aquilo que Ele está fazendo em nossa vida. Nós nos inclinamos diante dEle e dizemos que seja feita a Sua vontade. Deus nunca explicou a Jó por que Ele fez tudo aquilo com sua vida. Entretanto, veio de Deus o poder para que Jó fosse justo aos Seus olhos.

Avivamento

Isso nos leva a outra questão. Se a falta de convicção de pecado é um problema tão sério, como pode esse tipo de convicção ser restaurado à Igreja hoje? Novamente aqui a história da Igreja nos dá uma resposta muito clara. O Espírito Santo encontra um homem caído, quebrantado; este homem chega diante da cruz e encontra a plenitude da salvação em Cristo Jesus, e o Espírito envia esse tipo de homem para pregar o pecado e a conversão aos outros. Em outras palavras, Deus está levantando homens que sejam santos, que sejam humildes, homens de oração para usá-los; homens que odeiam o pecado e que amem a Deus; homens que estejam tremendamente convictos da necessidade da salvação de almas; homens que estejam orando sempre por um avivamento bíblico, um avivamento do Espírito Santo. Deus usa este tipo de homem para trazer avivamento. Lembrem-se que o avivamento começa com uma convicção experimental de pecado.

Arrependimento

Isso nos leva a outra questão. Quando Deus Se agrada em levantar esse tipo de homem, será que alguma coisa específica em sua pregação tem conexão com a convicção de pecado? Creio que a resposta é sim! É esse tipo de homem, que de forma incisiva, se dirige à convicção da consciência, de uma forma bem aguçada. Eles mostram aos pecadores de forma clara a necessidade de arrependimento e o Espírito Santo Se agrada em honrar e abençoar a Sua Palavra quando este homem prega de forma convincente. O que aconteceu com João Batista quando ele começou a pregar com convicção? Os homens começaram a fugir da ira vindoura. O que aconteceu quando Pedro pregou com profunda convicção no dia de Pentecoste? O Espírito Santo desceu sobre os que ouviam a sua palavra.

Evangelização moderna

Por isso minha tese é: a evangelização moderna está se levantando como um obstáculo frontal, com raras exceções, à verdadeira convicção de pecado, ao arrependimento e ao verdadeiro avivamento. A evangelização moderna tem uma visão superficial de pecado; fala tão pouco de um assunto que a Bíblia tanto menciona. Por que a evangelização moderna fala tão pouco a respeito do pecado? A evangelização moderna tem medo de falar às pessoas as verdades a respeito delas mesmas; tem medo de perdê-las. Ensina que nós não devemos ofender as pessoas, e sim, sempre conquistá -las. A razão humana diz que não vamos ganhar as pessoas se lhes falarmos do pecado. A evangelização moderna não nega que o homem esteja morto nos seus delitos e pecados; não nega que a Bíblia diz em Romanos 8:7, que a mente carnal está em inimizade contra Deus; não nega que está escrito em 1 Coríntios, capítulo 2, que o homem natural não aceita, não compreende as coisas de Deus, mas a evangelização moderna diz que textos assim são apenas afirmações doutrinárias. Diz que esses textos são relevantes para os crentes, todavia não seriam relevantes para os não salvos. Dizem: "Como podemos ganhar as pessoas se dissermos que elas não podem se salvar a si próprias?" Concluem, assim, que qualquer ensino que retira da mente dos ouvintes a capacidade de responder imediatamente ao evangelho, na verdade é alguma coisa que impede a evangelização.

Dessa forma fazem do cristianismo alguma coisa bem simples e fácil. Dizem: "aceite a Jesus hoje, é simples, não precisa se preocupar com seus pecados, Ele já lhe perdoou. " Mas eles não somam aí o que é que significa realmente ser perdoado e quais os frutos de uma vida verdadeiramente perdoada. Por isso, a evangelização moderna produz cristãos muito superficiais, com uma religiosidade de apenas "12 centímetros" de profundidade. O pastor batista, Erroll Hulse, trabalhou certa vez em uma cruzada evangelística de massa com o Dr. Billy Graham e logo após, teve de escrever um livro intitulado, O Dilema do Pastor, onde esclarece que menos de cinco por cento dos que vinham à frente, no apelo, mostravam frutos subseqüentes em suas vidas. Se formos comparar por um momento, tudo isso, com o ministério do puritano Richard Baxter, que teve 600 pessoas convertidas na pequenina cidade de Kidderminster onde foi pastor, fazendo-o dizer no fim de sua vida que ele não sabia de nenhum que tivesse caído ao longo do caminho, perceberemos que há uma grande diferença. Há uma diferença entre uma pregação superficial a respeito de Jesus e que ignora o pecado, e uma pregação que diz ao pecador que ele não vai saber valorizar a Jesus enquanto não souber claramente o que é pecado. A evangelização moderna põe toda a pressão em cima da vontade do pecador e o pecador precisa tomar uma decisão imediata. Um ato de decisão feito pelo homem usurpa o papel do Espírito Santo em salvar pecadores.

Evangelização puritana

A evangelização puritana tem uma mensagem bem mais ampla sobre o que é o evangelho. O dever da fé é enfatizado, mas outros deveres também são ressaltados. Os evangelistas puritanos vão dizer aos seus ouvintes, não salvos, que eles precisam se arrepender, precisam parar de fazer o mal, precisam ser santos como Deus é santo, precisam amar a Deus de todo o coração e precisam entrar pela porta estreita. Tudo isso é enfatizado na evangelização puritana. Noutras palavras,a evangelização puritana apresenta a Bíblia como um todo para confrontar o incrédulo. Contudo, sejamos cuidadosos aqui. Eles não pregavam que o incrédulo tinha capacidade de fazer estas coisas, mas pregavam a seus ouvintes as exigências das Escrituras, sabendo que o Espírito Santo é quem faz tudo isso para mostrar aos pecadores que eles não podem cumpri-las por sua própria força.

O alvo do puritano era levar a alma não sal va a uma encruzilhada, quando duas estradas se cruzam. Uma dessas estradas poderia ser chamada a estrada da necessidade e o pecador realmente convencido diria: "Eu preciso ser salvo, salvação é minha necessidade!" A outra estrada poderia ser chamada a estrada da impossibilidade. O pecador diria: "Eu não posso ser salvo; eu não consigo ser santo como Deus é santo; não posso ir a Jesus e me dobrar diante dEle por minha própria força". Qual era o alvo do puritano? Era o de levar o pecador a esta encruzilhada e ao chegar lá descobrir que precisa ser salvo mas não pode. Dessa forma ele vai clamar ao Deus todo-poderoso: "Faze por mim ó Senhor, o que eu não posso fazer por mim mesmo!". É isso que Paulo faz nos capítulos 1,2 e 3 de Romanos; o mesmo fez João Batista quando pregava assim: "Arrependei-vos porque o reino de Deus está próximo". João Batista não começou dizendo: "Eis o Cordeiro de Deus...", porém começou dizendo "arrependei-vos". Quando Jesus começou Seu ministério pastoral, Ele não disse "tome uma decisão por mim", mas também começou dizendo "arrependei-vos porque o reino de Deus é chegado". Como foi que Jesus evangelizou Nicodemus?Ele disse: "você precisa nascer de novo". Como Jesus evangelizou o jovem rico? Ele disse: "Guarde os mandamentos". Por que Jesus lhe disse isso? Ele sabia que o jovem não podia guardar todos os mandamentos no seu coração. Jesus estava colocando como alvo a convicção de pecado.

Os puritanos não faziam na sua evangelização nada que os apóstolos e o próprio Senhor Jesus não fizesse. Eles pregavam a lei para que os pecadores se sentissem culpados perante Deus e aí pregavam Cristo, não um Cristo de 12 centímetros de profundidade, e sim, Cristo completo na Sua altitude, na Sua amplitude e na Sua profundidade. Pregavam Cristo destacando Seus ofícios, Seus nomes e Seus títulos. Pregavam Sua natureza e Sua Pessoa,pregavam-no plenamente. Isso nos leva a uma conclusão: o que nós estamos precisando desesperadamente é de uma evangelização centralizada em Deus; uma evangelização centralizada na mensagem; centralizada na Bíblia; não uma evangelização feita pelo homem, mas uma evangelização onde o Espírito Santo está agindo na Palavra e por meio dela. Para este fim você e eu, como evangelistas, nós mesmos fomos restaurados para um relacionamento mais vital e íntimo com Deus por Jesus Cristo. O que nós precisamos desesperadamente é de carregadores da tocha, homens e mulheres que estejam em chamas por Deus. Não de homens que estejam em fogo por ensinos não bíblicos, mas de homens inflamados pelo ensino da Palavra de Deus - sim, de homens cheios daquele temor filial a Deus. Você já percebeu que todas as vezes que Paulo fala a pastores e presbíteros para dar-lhes algum conselho ele sempre diz, "Tem cuidado de ti mesmo e depois do rebanho"?

Conclusão

Querido irmão, se você não odiar o pecado, se você não amar a Deus, se não estiver cheio do poder de Cristo, não deve ficar surpreso de seu ministério ser tão infrutífero. Se as pessoas perceberem que viver religiosamente não é viver a realidade da nossa vida, elas vão ser levadas a desobedecer as nossas mensagens. Um dos nossos grandes problemas hoje é que a nossa própria casa não está em ordem. Que Deus nos leve a conhecê-lo de uma forma íntima e pessoal, seguindo-0 de forma incondicional e pregando todo o conselho de Deus.
Queridos amigos, o tempo está curto, muito cedo vamos pregar nosso último sermão, fazer a nossa última oração, participar da nossa última conferência, e a única coisa que realmente vai contar é a seguinte: conhecemos realmente a Deus e a Jesus Cristo a quem Ele levou assunto aos céus? Que Deus nos faça portadores da tocha da evangelização puritana em nossa geração.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

PERVERSÃO MORAL




Ai daqueles que ao mal chamam bem e ao bem, mal, dos que transformam as trevas em luz e a luz em trevas; que mudam o amargo 
em doce e o doce em amargo
(Isaías 5:20)


É da essência do entendimento desta mensagemtanto do capítulo todo quanto do v. 20 em particularque nós entendemos que era uma mensagem para o período em que foi dada. O profeta, deixe-me lembrar-lhe, foi levantado por Deus para dirigir-se aos seus contemporâneos, à nação de Judá, em tempos particularmente sérios. Esta nação existira por muitos anos. Criada por Abraão, agora, no século VIII antes de Cristo, as coisas estavam começando a ir mal, perigosamente erradas. A nação estava face a face com a calamidade, e Deus levantara um profeta para avisar ao povo que, se não se arrependessem, não se voltassem para Deus, não teriam nada além de ruína.
Mas como vimos, estamos vivendo em uma era e em uma geração que corresponde muito exatamente à que está descrita aqui. Além disto, de acordo com o ensino da Bíblia, homens e mulheres, desde que caíram e desobedeceram a Deus, têm sempre sido pecadores em todas as eras e em todas as gerações. Maseste é o princípio – existem épocas e tempos quando eles se tornam excepcionalmente pecadores, ou quando seu pecado fica particularmente evidente.
Não se pode ler a Bíbliaum livro de história e ao mesmo tempo de grandes ensinamentossem notar que existe um extraordinário tipo de periodicidade a esse respeito. Você encontrará eras em que os israelitas estavam certamente vivendo uma vida não perfeita, mas ainda assim comparativamente bem. Existem, porém, outros pecados relevantes quando, como vimos, eles pecaram violentamente, com tirantes de carroças, e a situação se tornou desesperadora. Em outras palavras: às vezes o pecado parecia levar a um terrível clímax; e àquele clímax, invariavelmente, seguia-se a calamidade.
Ao dizer isto estou fazendo uma simples observação histórica. Nota-se esse tipo de curva no gráfico da história da humanidade, quando se lêem o Velho e o Novo Testamentos, e exatamente o mesmo é encontrado quando se segue a subseqüente história da humanidade. Tome, por exemplo, o relato que a Bíblia faz da destruição do mundo pelo Dilúvio. Isto é o que ela nos diz. O filho de Adão e Eva, Caim, começou a pecar; sua descendência continuou do mesmo modo, e, assim, o pecado foi aumentando. Ele alcançou um ponto tal, tornando-se tão feio e repulsivo que Deus falou à raça humana: "Meu Espírito não contenderá com o homem" (Gênesis 6:3). Então, ele levantou um homem, Noé, para avisar à humanidade que, se eles não se arrependessem, seu mundo seria destruído. Aquela geração era formada pelos que pecavam com toda a vontade, desafiando Deus com uma arrogância incomparável. A isto se seguiu a calamidade do Dilúvio.
Outro exemplo tem relação com a Torre de Babel. Ali, outra vez o pecado da humanidade alcançou tais proporções que Deus desceu e confundiu suas línguas, destruindo a Torre que eles estavam tentando erigir. Novamente, isto levou a uma situação desastrosa. E aqui, nesta parte do livro de Isaías que estamos considerando, temos outro exemplo notável da mesma coisa. Aqui, estava Judá pecando do modo que Isaías descreve, levando a uma orgia final, e, novamente, seguido de calamidade. Os caldeus e os babilônios se levantaram, reuniram seus exércitos, vieram e saquearam a cidade de Jerusalém, levando a maioria dos judeus como escravos para a Babilônia. Esse terrível período de pecado, mais uma vez, levou a uma tremenda calamidade.
Vê-se exatamente a mesma coisa no tempo de Jesus Cristo. Os judeus novamente começaram a pecar de um modo excepcional. Apesar dos avisos de João Batista, e dos avisos do próprio Filho de Deus, eles não deram ouvidos. Não obstante a subseqüente pregação dos apóstolos, continuaram, desesperadamente, em pecado, e, mais uma vez, isso levou exatamente ao mesmo resultado. No ano 70 A.D. o exército romano cercou a cidade de Jerusalém, conquistou-a e saqueou-a, arrasando-a até os alicerces, e os judeus, como nação, foram espalhados entre as outras nações.
Essas são ilustrações deste princípio claramente ensinado na Bíblia, de que, embora homens e mulheres sejam sempre pecadores, existem tempos em que o pecado excede a si próprio. A situação enlouquece, e as pessoas pecam de uma forma tão desesperada, desafiando Deus em uma arrogância tão blasfema, que isto as leva a um período que chega a ser indescritível em seu horror. A Bíblia nos ensina que, nesses tempos, Deus retira seu poder, permitindo que os seres humanos se afundem em sua iniqüidade, e então os visita com punição na forma de um terrível desastre. Ele, porém, nunca faz isto sem, antes, avisar. Ele sempre envia seus profetas, seus mensageiros para falarem ao povo individual e coletivamente.
Nesses tempos, nada é mais proeminente no comportamento da raça humana do que o elemento revelado neste versículo que estamos examinando: o elemento da perversão moral: "Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem, mal; dos que transformam as trevas em luz e a luz em trevas; dos que mudam o amargo em doce e o doce em amargo!" Em todos esses períodos na história da humanidade, quando o pecado toma conta, esta é, invariavelmente, a característica mais pronunciada. E ela se apresenta diante de nós forçosamente aqui, neste versículo. E é assim, infelizmente, porque este é o elemento mais proeminente na vida do mundo moderno para o qual estou chamando a sua atenção.
À luz do que é demonstrado tão claramente pela história, existe alguma coisa que requeira nossa consideração tão urgente? Alguma coisa mais imporia diante disto? Ao lado disto, que significado tem a maior conferência entre homens de Estado? Se isso é verdadeiro, então estamos numa posição desesperada. Se a lei da história é verdadeira, a menos que nos arrependamos e nos voltemos para Deus, só há um final: calamidade. Então, vamos examinar o ensino das Escrituras com relação a este assunto.
Em primeiro lugar, devemos considerar as características desta situação. O princípio é sempre o mesmo, mas quero colocá-lo particularmente na sua expressão moderna. Pecado é sempre pecado, mas existem graus de pecado. Ele pode aparecer em diferentes formas e aparências. Algumas vezes, homens e mulheres pecam e ficam envergonhados. Esta é uma situação de pecado. Mas existem outras ocasiões, como já vimos no nosso estudo prévio, quando as pessoas não mais sentem vergonha; elas pecam abertamente; elas orgulham-se do pecado e, até mesmo, gabam-se dele. Esta é uma condição diferente.
Existe, porém, algo além disto. Épocas há, nas quais as pessoas não parecem ter absolutamente nenhum senso de moral. Isto é válido não apenas de uma forma geral mas, também, individual. Todos conhecemos indivíduos que pecaram e estão envergonhados. Espero que todos experimentemos essa vergonha. Também conhecemos aqueles que pecaram e não estão envergonhados. E podemos, até, conhecer indivíduos que perderam por completo seu senso de moral, que não parecem saber a diferença entre o certo e o errado. Eles são amorais, imorais.
Mas existe algo ainda pior que isso – e é o que está descrito neste versículo –,  a saber: a condição de perversão. Porque ser pervertido é pior que ser imoral. Ser imoral é, de alguma forma, ser negativo, mas os pervertidos foram além da imoralidade e estão em uma posição na qual revertem moralidade e colocam mal por bem, e bem por mal; trevas por luz e luz por trevas; amargo por doce e doce por amargo. Esta é uma posição na qual eles derrubaram todos os padrões. É uma reversão positiva, deliberada, do que antes era mais ou menos universalmente aceito.
Isto é algo que pode ser visto em indivíduos, em nações, em grupos de pessoas e às vezes na vida de toda a comunidade mundial, como tenho demonstrado pelas Escrituras. Neste estado, homens e mulheres viram tudo de pernas para o ar, andam de cabeça para baixo e se gloriam no fato de que estão agindo desta maneira. Aquela era a situação do povo vivendo em Jerusalém quando Isaías se dirigiu a eles nesta profecia e lhes avisou que, a menos que se arrependessem, não poderiam esperar nada além de um desastre.
Isto não é igualmente válido para hoje? Esta não é uma das mais óbvias características destes anos nos quais estamos vivendo? Não é este elemento de perversão a maior e mais relevante característica do nosso tempo, este virar de cabeça para baixo, a inversão de tudo que era comumente aceito e reconhecido? Isto pode ser ilustrado em quase todos os campos; é uma situação muito persuasiva. Você a encontra em todas as artes onde o belo é freqüentemente desprezado, forma e linha não são reconhecidos e o feio é entronizado.
Mas esta perversão de padrões é muito mais séria, claro, quando se chega ao campo moral. Hoje, a grande palavra sobre a qual as pessoas se gabam é "a nova moralidade". Esta está sendo ensinada abertamente. Em dezembro de 1962, o professor Carstairs apresentou suas famosas palestras: a série Reith, na qual atacou diretamente a moral tradicional e pronunciou o que foi, então, chamado de "a nova moralidade", advogando experiências sexuais antes do casamento e também experiências extramaritais. E essa liberdade-libertinagem não se limita ao professor Carstairs. Existem, também, outros que não hesitam em escrever livros e artigos e aparecer nos programas de televisão, introduzindo esta nova moralidade que nos diz que o que até aqui foi visto como pecado não é pecado. Na verdade, eles concordam em que é errado condenar essas coisas, por serem uma forma de auto-expressão...
Somos, assim, confrontados não apenas por um ataque à religião mas, também, à moralidade num todo. E o ataque é direto e diário! Na verdade, vai além disto. Existem aqueles que ainda atacam a mente do homem. Esta é a essência da posição de D. H. Laurence. Ele disse que todo o problema com a raça humana é que ela pensa muito e o cérebro se desenvolveu demais. Assim, o segredo do sucesso e da felicidade na vida é deixar que a parte inferior governe e tome o controle; é o "de volta à natureza". É um ataque à mente e a tudo por cujo meio exercemos discriminação e controle. Na verdade, para resumir, é em, última análise, a ridicularização do controle, da disciplina e da decência. É um apelo para que façamos tudo o que quisermos fazer, e dispensemos qualquer idéia de decência, ordem e respeito.
Deixe-me dar um exemplo. Aconteceu de eu ler a manchete de um jornal que me levou a ler a crítica de uma peça que estreara em Londres. Isto é o que um crítico muito conhecido disse: "Há uma década, este tipo de choramingo de espuma de sabão deve haver parecido na televisão bravo e realista. Suas homilías sobre a infidelidade e a santidade da família têm tons de moralidade de classe média, e parecem, ao mesmo tempo, antiquadas e puritanas." Veja onde chegamos! Aparentemente, esta era uma peça que há dez anos teria sido considerada corajosa e chocante. Hoje, porém, qualquer tentativa, mesmo singela, de defender a moralidade ou fazer referência aos equívocos da infidelidade, e à santidade da família, como uma unidade da sociedade, é algo rejeitado com grande desprezo, como "moralidade de classe média, que parece, ao mesmo tempo antiquada e puritana".
Em um certo sentido, é uma perda de tempo ler essas críticas; em outro sentido, não é. Eu leio a crítica de filmes e dramas e é isso o que observo. Se houver qualquer elemento de decência em um filme ou em uma peça, ele é dispensado e ridicularizado. A única coisa louvada é o pervertido, o que apresenta o anormal e feio, ou que contenha algo mais ou menos repulsivo. Este parece ser o padrão universal, e, se houver algum elemento de romance ou de beleza, é para ser ridicularizado.
Esta é a situação que nos está confrontando, e você deve haver notado algo mais. Você já notou a tendência atual de ser mais simpático em relação ao criminoso do que à pessoa que sofre em suas mãos? As pessoas fazem abaixo-assinados a seu favor, dizendo que precisam receber uma segunda oportunidade, e que não deve ser tratado tão duramente.
O mesmo se aplica aos pervertidos. Nós quase chegamos ao estágio em que não ser pervertido é anormal. O pervertido é glorificado. Não há nada tão maravilhoso como o amor dos pervertidos!
Tudo pode ser resumido em uma frase que tem sido o slogan desta geração: Mal, seja o meu bem. "Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem, mal..." Isto é precisamente o que está acontecendo em tantos países, em círculos culturais e educativos, entre intelectuais e aqueles que se proclamam líderes da sociedade. Não é uma repetição exata dos dias de Isaías? Ou, quem sabe? até muito pior.
Qual é o argumento que os devotos dessa perversão apresentam para defendê-la? Eu, obviamente, não posso lidar com isto adequadamente. Estou tentando dar uma olhadela na situação. Uma das grandes correntes de justificativa para tudo isto diz que de qualquer forma isto não é hipocrisia. Hipocrisia é vista como a pior coisa concebível; e esta é a resposta a ela: perversão!
Ninguém, claramente, quer defender a hipocrisia. Não há nada que possa ser dito, enfim, em sua defesa; mas o derradeiro provedor de máximas, o francês Conde de la Rochefoucauld, disse uma verdade sobre ela: "A hipocrisia é a homenagem paga pelo vício à virtude", e esta é uma afirmativa muito profunda. Em outras palavras: um hipócrita é alguém que sabe que está errado e tenta esconder seu erro, fingindo que não o praticou. Ele reconhece a moralidade e ele mesmo, de alguma forma, paga tributo a ela. Ele não é um pervertido. Isto é o que se pode dizer da hipocrisia. Desta forma, existe sempre esperança para o hipócrita; ele é uma pessoa que distorce as coisas, mas, pelo menos, sabe que está errado.
O segundo elemento na justificativa da nova moralidade, ou a argumentação apresentada para defendê-la, é que é certo questionar a existência de qualquer padrão moral externo, objetivo, universal. Até agora a humanidade em geral tem crido que exista tal padrão. Às vezes, eles o chamam de "lei natural", e ela tem sido mais ou menos reconhecida em todas as sociedades, cristãs ou não. Vivemos, porém, numa era em que isto está sendo seriamente questionado. Ouvimos de alguns filósofos do momento que não existe essa coisa como um padrão de moral externo: cada homem tem o seu. O que eu acho certo é moral para mim, e, se faço algo que você julgue errado, isto não imporia: devo agir de acordo com meu próprio padrão e interior. E assim é. Cada homem se torna lei para si próprio e faz o que bem entende e o que cisma que vai fazer, e o que acredita ser certo.
Um outro ponto muito grave é que essas pessoas estão questionando toda a categoria do natural, ou do normal. A Bíblia faz uma grande questão deste ponto. Por exemplo: lê-se em II Timóteo 3:3: "sem afeição natural". Do mesmo modo, tem-se esta afirmativa crucial no capítulo 1 de Romanos, onde Paulo, em seu grande indiciamento da era em que viveu, e de outras eras, usa este tipo de linguagem: "De igual modo, também os homens, deixando a relação natural com a mulher, arderam em seu desejo uns pelos outros, praticando torpezas, homens com homens, e recebendo em si mesmos a paga da sua aberração" (v. 27), e assim por diante. O mesmo, diz ele, acontece com as mulheres. Mas o termo que ele usa é "natural".
Hoje, isto está sendo posto em dúvida. Dizem-nos que não devemos usar este termo. Eles nos perguntam: "Que você quer dizer com 'natural', e 'normal'?" E acrescentam: "Que para você significa 'natural'?" Mas se outro homem é diferente, então é natural para ele. Em última análise: não há diferença entre os sexos e não existe essa coisa como "natural". E, assim, este comportamento é justificado mediante o questionamento das diferenças naturais entre homem e mulher, e o desejo natural da mulher pelo homem e do homem pela mulher. Na verdade, tudo está sendo negado, e o que se diz é que pode ser "natural para um homem desejar outro homem, e uma mulher desejar outra mulher". Todos os padrões se foram porque a categoria do natural não é mais reconhecida.
E, é claro, acima de tudo as pessoas dizem que não existe essa coisa como pecado, e isto porque não existe Deus. Se não existe nenhum cânon moral universal, então não há pecado. Na verdade, não existe crime. Nas cortes, cresce o número de pleitos por "responsabilidade reduzida" ou "responsabilidade diminuída". Que isso significa? Um médico aparece na corte e diz: "Este homem fez isto – já admitiu –, mas eu estou aqui para declarar que ele não podia deixar de havê-lo feito porque ele é do jeito que é; é constituído de uma forma tal – física e biologicamente – que não pôde evitá-lo." Assim, não há pecado nem crime; tudo passa a ser uma questão de tratamento médico. Todos os padrões se foram para sempre. Eu entendo, óbvio, que existem casos registrados nos quais o pleito de "responsabilidade diminuída" seja válido, mas eu estou protestando contra a tendência de universalizar o excepcional.
Então, positivamente, a justificação do malfeitor toma a forma de culto de auto-expressão. Dizem-nos o seguinte: "Você tem esses poderes dentro de você, então certamente você deve usá-los. Eles não devem ser reprimidos e restringidos. Por que você acha que os recebeu? Por que eles se encontram em você? Libere-se! Expresse-se!"
Então, vem o argumento do amor contra a castidade. O problema no passado, dizem, é que a castidade é vista como uma coisa maior que o amor. Mas o amor é o que realmente importa; a castidade vem em segundo lugar. Se houver amor, não faz diferença se um homem ama um homem ou uma mulher sexualmente. Não temos que nos preocupar com moralidade e castidade. A única coisa que interessa é o amor. Desta maneira, tem-se toda a confusão, toda a promiscuidade e as perversões de hoje.
Meu problema é mostrar o equívoco de tudo isto de uma forma breve. O Senhor coloca a questão da seguinte forma:
Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração e com toda a tua alma, de todo o teu entendimento, e com toda a tua força: este é o primeiro mandamento. E o segundo é este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo (Marcos, 12:30,31).
 Se você olha por este lado, não vai querer justificar tudo que faz dizendo: "Ah, eu amo''. Você reconhecerá que pode haver cobiça, e que você não deve magoar a outra pessoa. Você reconhecerá que a outra pessoa é alguém aos olhos de Deus, que Deus está acima de ambos e que vocês não são animais mas seres responsáveis diante do Deus Todo-Poderoso, que espera que vocês vivam uma vida mais elevada e nobre. Você entenderá que sendo assim deve disciplinar-se e controlar-se, e que você expressa seu amor ao considerar seu vizinho como você próprio, levando-o em consideração, e nem sempre colocando seu desejo de autogratificação em primeiro lugar.
Consideramos até aqui os argumentos que se apresentam em favor da nova moralidade, e vimos que são todos falsos. Desta forma, eles não fornecem a explicação para a conduta moderna.
Não, a resposta é muito simples para aqueles que conhecem sua Bíblia. A primeira coisa que a Bíblia tem a dizer é que não há nada novo sobre a "nova moralidade". Ela é tão velha quanto o período antes do Dilúvio. Tão velha quanto Sodoma e Gomorra – daí alguns termos usados hoje. Ainda assim o homem do século XX se gaba de seus avanços. Uma nova moralidade? Ela é tão velha quanto o pecado! A Bíblia conhece tudo sobre ela, e pode ensinar-lhe mais sobre ela do que a maioria dos livros modernos. Tudo está definido e analisado ali. Não só isso – e para mim isso é o mais impressionante –, mas a Bíblia na verdade profetiza que este tipo de coisa vai acontecer, que ocorrerá de tempos em tempos.
Outra vez, para aqueles que conhecem sua Bíblia não há nada extraordinário sobre a situação presente. Eu não estou nem um pouco surpreso com o fato de os homens e mulheres do século XX, com toda a sua sofisticação, estarem-se comportando do jeito que estão. A Bíblia afirma que isto aconteceria. Você já leu, em Lucas 17, a profecia de Jesus Cristo sobre os últimos dias? "Como foi nos dias de Noé, assim também será (...) Como foi nos dias de Ló (...) assim também será (...)" (Lucas 17:26-30). Tudo está predito. Seja lá o que você fizer, se você for um seguidor da assim chamada nova moralidade, você não estará fazendo nada novo; sua moralidade é muito velha. Na verdade, como alguém já disse: "A nova moralidade não é nada além da velha moralidade tentando se aperfeiçoar em termos filosóficos".
Mas a Bíblia pode dizer-lhe por que ela ressurge e por que as pessoas se comportam deste modo. E isso é que é importante. Por que estamos sendo afligidos por tudo isso em nossos dias? Por que nos defrontamos dia a dia com este horror? Aqui estão as respostas bíblicas. A principal explicação é que o pecado não pode nunca satisfazer, nunca. Ele finge, apenas. Ele diz: "Só uma vez..." Mas você nunca pára em uma vez. O pecado nunca satisfaz, e as pessoas ficam assim cansadas de seus pecados em particular, e querem mais. Quando se cansam do espectro completo dos pecados conhecidos, inventam outros diferentes, e torcem e pervertem.
A perversão é sempre uma prova da falha do pecado em se satisfazer. É um tipo de exaustão. Conheci um caso muito trágico de um médico que se tornou viciado em drogas. Eu me lembro de haver perguntado ao coitado, que foi meu colega de classe: "Como você entrou nessa?" E ele me disse que seu problema sempre fora o fato de ser um alto consumidor de álcool, mas chegara a um ponto tal que a bebida não mais fazia efeito. Contudo ele necessitava experimentar sempre aquela sensação. Então, com a falha da bebida começou com as drogas. É por essa razão que existem milhares de miseráveis e infelizes viciados neste país. O pecado sempre pressiona para algo além, e quando os caminhos normais do pecado não mais satisfazem as pessoas se voltam para o anormal. É apenas a manifestação da falha do pecado em satisfazer verdadeiramente.
Mas existe uma segunda razão. Você já notou o aspecto contraditório e pouco inteligente dessas perversões? Aqui temos homens e mulheres, por um lado se gabando de seus grandes avanços, de seu conhecimento, desprezando seus ancestrais de 100 ou 200 anos passados, e ainda mais os de mil ou 2 mil anos antes. Aqui está a moderna sociedade do alto de seu conhecimento, sofisticação e desenvolvimento – quão maravilhosamente deixou todas as prévias gerações para trás! Dizem que as pessoas são inteligentes demais para serem cristãs!
Mas agora olhe para eles por um outro lado, onde D.H. Lawrence denuncia o super desenvolvimento de uma parte do cérebro, e diz que eles pensam demais e que o caminho para ser feliz neste mundo é parar de pensar e ir em frente.
Não apenas isso, mas apesar de todo o orgulho quanto ao seu grande desenvolvimento, para onde vai a sociedade em termos de música e artes? Está voltando à selva, retornando aos desenhos nas paredes das cavernas. Isso são fatos. As duas coisas, porém, não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. Se a melhor música é a música do analfabeto e sem educação, onde está a sofisticação? Ser sofisticado hoje é voltar ao primitivo, às origens, ao elementar. E o mesmo é óbvio em todos os outros aspectos. Isto é surpreendente, posto que não é inteligente. Este é o elemento contraditório que é sempre encontrado no pecado: ao mesmo tempo em que as pessoas estão-se gloriando de estar à frente de todos os outros, na realidade, estão de volta ao começo.
Mas há algo ainda mais profundo sobre tudo isso. Olhando do ponto de vista psicológico, creio que tudo isto é resultado de uma consciência sem paz. É o fato de as pessoas estarem tentando sufocar a consciência, fazer frente a ela. É medo e infelicidade; é não-paz.
Um outro fator, e para mim o mais importante de todos, é que tudo o que estamos testemunhando é, em última análise, decorrência de uma falha em entender a verdadeira natureza do homem e da mulher, a natureza e o sentido da vida, seu fim e propósito.
Não estou dizendo tudo isto por mera crítica. Sou um pregador do Evangelho, e estou interessado nisso porque desejo que as pessoas sejam salvas e livres de tudo que é mau, e recebam a verdadeira felicidade em Cristo. Estou apresentando estes argumentos com a finalidade de ajudar. Creio que a principal causa da tremenda perversão moderna é a frustração e o vazio. Em um certo sentido, não condeno as pessoas. Vivemos neste século assustador, depois de havermos passado por duas guerras mundiais, e as nações ainda estão empilhando armamentos. Então, os jovens são tentados a perguntar: "Que é a vida? Que é viver? Quem sou eu? Sou eu apenas bucha de canhão? Estou aqui apenas para ser explodido por uma bomba? Eu quero experimentar; quero descobrir. Talvez eu não esteja aqui por muito tempo. Por isto quero aproveitar o máximo da vida enquanto estou aqui..."
Os homens e as mulheres modernos estão perdidos; não se conhecem; não sabem que são seres feitos à imagem de Deus; não sabem como usar a mente e o cérebro; não percebem que são diferentes dos animais. Ignoram que não foram feitos para serem criaturas cobiçosas, e, sim, para refletir algo do próprio Deus eterno. Esta é a causa do problema – as pessoas desconhecem isto, razão por que se comporiam dessa maneira –, o que é um insulto a si mesmas.
Então, acima de tudo isto, eis uma demonstração sensacional do que a Bíblia quer dizer quando fala sobre o poder do pecado: o fato de que o pecado é algo que prende e escraviza pessoas, fazendo delas seus servos. Porque o diabo, o inferno e o pecado são muito poderosos. Que coisa malévola é o pecado! Deixe que ele se desenvolva e você verá até onde o levará, não meramente ao pecado e à vergonha, mas ao pecado e à ausência de vergonha, à total falta de conceito moral. Segue-se a perversão: luz, trevas, trevas, luz; amargo, doce, doce, amargo; e toda a falsidade e as conseqüências que se seguem.
Ao mesmo tempo, o estado do nosso mundo atual mostra que o problema real com o ser humano está no coração. Nosso Senhor disse tudo: "Esta é a condenação, que a luz veio ao mundo e os homens amaram as trevas mais do que a luz, porque as suas obras eram más" (João 3:19). Se você é um seguidor da nova moralidade, isso não acontece por causa da sua cabeça, e sim do seu coração. Eu já mostrei que você não é governado por sua cabeça. Se isso fosse verdade você não se estaria contradizendo a si mesmo, como faz. Seu problema está no coração – você gosta do pecado, é cobiçoso, tem um coração mau. Esta é a verdadeira explicação para tudo isso.
Deixe-me fazer-lhe uma pergunta. Qual é o fim para o qual tudo isso invariavelmente leva? Já demos resposta a essa pergunta. Leva ao dilúvio, à destruição de Sodoma e Gomorra, ao saque de Jerusalém e ao povo de Israel levado como escravos para a Babilônia. Leva ao ano 70 A.C, e à dispersão dos judeus entre as nações. Sempre levou e sempre levará.
Tome a história secular. Vimos que isso mesmo foi a causa do declínio e da queda do grande Império Romano. Roma caiu porque apodreceu em seu coração. Um abscesso se formou e os cidadãos de Roma se tornaram imorais e pervertidos. Roma decaiu a partir do centro, e os góticos e vândalos vieram e a conquistaram como resultado direto. E esta foi a causa do declínio e queda, desde então, da maioria de outros impérios. As autoridades que escrevem sobre isto dizem que as sociedades antigas perderam sua força e poder quando os padrões morais relaxaram. É sempre a mesma coisa. Uma vez que o povo perde sua compreensão moral de si mesmos e da vida, toda a sua força, politicamente, militarmente e em todos os outros aspectos, se vai. Eles relaxam em seus banhos, cometem suas fornicações e adultérios e permitem que seus impérios se arruínem.
Mais uma vez, recordo as palavras solenes do Filho de Deus: "Como foi nos dias de Noé, assim será (...)" (Lucas 17:26). Antes de que venha o julgamento final, diz ele, é assim que eles estarão vivendo; estar-se-ão se divertindo e dando-se em casamento, comendo e bebendo, comprando e vendendo. Eles o fizeram antes do Dilúvio, e antes de Sodoma, e farão uma vez mais antes do fim. É isto que faz com que nossa situação atual seja tão alarmantemente séria. Embora o homem moderno não creia em Deus, e não acredite em padrões morais; ainda que ele não creia em nada, exceto nele mesmo e em seus próprios desejos, isso não afeta a situação em nada. Deus ainda está no céu ; Ele ainda é Todo-Poderoso e continua a ser o "Juiz Eterno". Deus ainda trará a história a uma conclusão com um julgamento e a destruição eterna de todo mal e erro. O diabo e todos que pertencem a ele serão lançados no lago da perdição sem fim.
"Nos últimos dias", diz Paulo, "tempos difíceis virão. Os homens serão egoístas, gananciosos, jactanciosos, soberbos, blasfemos, desobedientes aos pais (...)." Você vê pelos jornais isto acontecendo todos os dias; o Novo Testamento está bem atualizado: "...ingratos, iníquos, sem afeto, implacáveis, mentirosos, incontinentes" – não podendo controlar-se. Eles afirmam: "Eu não posso evitar, sou um animal..." E diz mais o apóstolo: "...inimigos do bem, atrevidos, enfatuados". Ou seja: eles debocham da moralidade (II Timóteo 3:1-3).
Sim, ali estava acontecendo no primeiro século A.C. Eles desprezavam essa "moralidade de classe média": tão puritana, tão certinha e arrumada. Cuspiram nela; riram dela. Homens e mulheres que são fiéis no casamento, que crêem na família, que se restringem a si próprios: quão puritanos! Que piada! Que atraso! Que fora de moda! Imagine ainda se crer nisso! Sim, eles desprezam aqueles que fazem o bem, são "traidores, enfatuados, atrevidos, mais amigos dos prazeres do que de Deus" (II Timóteo 3:3,4). Estas são as condições que sempre prenunciam calamidade e desastre, sofrimento e dor. É, pois, no nome de Deus que peço a vocês que considerem essas coisas à luz deste pronunciamento, e à luz do que Deus fez invariavelmente no passado.
Então, aqui está o diagnóstico bíblico. Existe alguma esperança para esse povo? Existe uma mensagem para este mundo do jeito que está? Existe algo a se dizer a esses "novos moralistas", aqueles que exultam e se gloriam na perversão e ridicularizam a moralidade e a santidade? Graças a Deus tenho um glorioso Evangelho para eles. Já houve, antes, no mundo pessoas como essas, como já vimos. O apóstolo Paulo escreve aos cristãos na Galácia: "Não se deixem enganar, de Deus não se zomba" (Gálatas 6:7). E à igreja em Corinto ele diz que certas pessoas nunca terão uma herança no reino de Deus. Quem são elas? Ele dá uma lista terrível: "Não se deixe enganar: nem fornicadores, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas (...) nem os bêbados, nem os mentirosos (...) herdarão o Reino de Deus" (I Coríntios 6:9,10). Eles estarão de fora. Nada impuro pode entrar no reino de Deus, porque "Deus é luz, e nele não há trevas algumas" (I João 1:5). Não há impureza no céu. Tudo ao redor de Deus é gloriosamente puro, limpo, saudável, lindo e verdadeiro. E homens e mulheres nessa situação de impureza não têm herança no reino de Deus.
O problema, então, está no coração das pessoas. Pode-se fazer algo por elas? Bem, elas não conseguem fazê-lo por si mesmas, porque não se pode mudar o próprio coração. "Pode o etíope mudar a sua cor, ou o leopardo suas manchas?" (Jeremias 13:23) Não podem. Você não pode dar-se um coração limpo; você não pode renovar a sua natureza.
A mensagem da santa Bíblia, porém, é a de que Deus pode. Nosso Senhor disse a Nicodemos: "Em verdade em verdade te digo, a menos que o homem nasça de novo, ele não pode ver o reino de Deus" (João 3:3). O que homens e mulheres precisam é de um novo coração, uma nova natureza que irá amar a luz e odiar as trevas. Eles necessitam de uma nova natureza que irá apreciar o que é doce e não o que é amargo; uma natureza que tudo o que quer é amar o bem e odiar o mal.
E não é este o problema de todos nós? É a nossa natureza que está errada. Nós somos errados dentro de nós. "A boca fala do que o coração está cheio" (Lucas 6:45). Eu sou guiado por meu coração e levado a pecar; o problema todo está aí. Por causa da minha natureza, preciso de um coração novo, uma nova aparência, um novo desejo. Como conseguir isso? Bem, eu não posso produzi-los, mas posso suplicar como Davi no Salmo 51: "Cria em mim um coração puro, ó Deus, e renova em mim um espírito reto" (v. 10). Davi disse isto depois de haver cometido adultério e assassínio. Ele se confessou repelente e impuro: "Tu desejas a verdade no íntimo" (v. 6). Pois foi justamente aí que ele errou. Senhor, faze de mim algo que eu não sou. "Purifica-me com hissope e eu serei limpo; lava-me, e ficarei mais branco que a neve" (v. 7).
Graças a Deus, a mensagem ainda é esta. Eu não me desespero com os homens e mulheres modernos e sua assim chamada nova moralidade e perversões. O Evangelho é "o poder de Deus para Salvação" (Romanos 1:16). O apóstolo Paulo pregou na cidade portuária de Corinto para a ralé, para a sordidez, o centro do mal, que era aquele lugar. Ele pregou ali e o poder de Deus foi demonstrado na vida de homens e mulheres. "Mas fostes lavados, fostes santificados, fostes justificados no nome do Senhor Jesus, e pelo Espírito de nosso Deus" (I Coríntios 6:11). E graças a Deus isto ainda acontece.

Seu sangue pode tornar o imundo limpo, seu sangue disponível a mim.

Charles Wesley

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

DISCIPLINA


Dr. David Martyn Lloyd-Jones 

Lloyd-Jones era médico, mas abandonou a medicina para tornar-se médico de almas. Foi um dos maiores pregadores da história e nos fala ainda hoje, mesmo depois de morto. O "Doutor" como era carinhosamente chamado pelos que o conheciam tornou-se um modelo para muitos ministros ao redor do mundo, especialmente por sua paixão pela exposição da Palavra. 


"E vós também, pondo nisto mesmo toda a diligência, acrescentai à vossa fé a virtude, e à virtude a ciência, e à ciência temperança, e à temperança paciência, e à paciência piedade, e à piedade amor fraternal; e ao amor fraternal caridade".
II Pedro 1:5-7



Aqui neste primeiro capítulo de sua segunda epístola, o após­tolo Pedro trata de mais uma causa de depressão espiritual. De fato, seu objetivo ao escrever a carta era tratar desse problema. Ele escreve para animar pessoas que estavam desanimadas, e desa­nimadas a tal ponto que estavam quase duvidando da fé que tinham aceito. Isso é algo que pode surgir como um perigo muito real neste estado de depressão espiritual; e se a condição persiste e continua, invariavelmente leva a dúvidas e incertezas, e a uma tendência de olhar atrás, para a vida da qual fomos libertos.
Felizmente o apóstolo nos dá uma descrição muito exata deste problema. Ele nos conta, indiretamente, uma série de coisas a respeito das pessoas a quem está escrevendo. Por exemplo, após fazer sua exortação, ele diz no versículo oito: "Porque, se em vós houver e abundarem estas coisas, não vos deixarão ociosos nem estéreis no conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo". Ele diz: "Se estas coisas existirem em vós" — farão de vocês o que não são no momento. Ou seja, "farão com que não sejam ociosos nem estéreis no conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo" — impli­cando que a condição deles era "ociosa e estéril". Mas não é só isso; ele diz que eles eram cegos, "nada vendo ao longe, havendo-se esquecido da purificação dos seus antigos pecados". Na verdade, há Uma insinuação de que eles estavam tropeçando, pois ele lhes diz que, se fizessem essas coisas, "nunca jamais tropeçariam"; e não só isso, mas se fizessem essas coisas, tornariam "cada vez mais firme" a sua vocação. É claro que eles não tinham muita certeza a respeito destas coisas na ocasião em que o apóstolo lhes escreveu.
Não há dúvida de que eles eram cristãos. Precisamos repetir isso, porque há pessoas que têm noções tão falsas e sem base nas Escrituras, as quais julgam que alguém que se enquadra nos termos em que o apóstolo Pedro descreve estas pessoas não pode realmente ser um cristão. Mas obviamente estas pessoas eram cristãs, ou ele não estaria escrevendo para elas. Muitas pessoas têm uma idéia errônea do cristão, como alguém que está sempre vivendo no topo da montanha, acima das circunstâncias; e há alguns que pensam que se alguém não está lá o tempo todo, não é realmente um cristão. Tal idéia sobre o cristão não tem qualquer fundamento nas Escrituras. Essas pessoas eram cristãs, mas estavam infelizes, vivendo uma vida ineficaz, que parecia não levar a lugar algum, e não estavam ajudando outras pessoas. Não só isso, mas não eram muito produtivas no tocante às suas próprias vidas, e sua fé não lhes dava gozo nem segurança. Eram ociosas e estéreis. Estas pa­lavras realmente as descrevem — ineficazes para ajudar os outros, com falta de conhecimento e compreensão. Elas não estão cres­cendo no conhecimento do Senhor. Aqui está disponível este tre­mendo conhecimento e compreensão, mas não os possuem, não têm crescido neles, são estéreis nesse sentido. Na verdade, apesar de não haver dúvidas quanto ao fato de serem cristãs, estas pessoas parecem ter muito pouco que demonstrasse isso. E também parecem não compreender o significado da sua conversão, parecem ter esquecido o fato de que foram purificadas dos seus pecados de outrora, e estão vivendo como se isso nem tivesse acontecido. Agora, todas essas coisas inevitavelmente caminham juntas. Quando há uma falta de entendimento e de produtividade neste aspecto da compreensão, vocês sempre encontrarão um fracasso corres­pondente na vida, tanto no que se refere à sua própria santidade, como também à sua utilidade e valor para outras pessoas.
Essa é a descrição que o apóstolo dá destas pessoas, e natu­ralmente todos estamos bem familiarizados com esse tipo. É o tipo de indivíduo que não podem negar ser um cristão, apesar de sua vida pouco demonstrar isso. Ele parece estar preso em superficia­lidades e misérias, e não dá a impressão de ser nada do que o Senhor disse que um cristão seria quando recebesse o Espírito Santo: "Rios de água viva correrão do seu interior". Não, a im­pressão que ele dá é de esterilidade e improdutividade, nada está sendo produzido por ele, e parece não estar dando nada a outros. Sua vida é fraca e não parece estar em crescimento ou desenvolvi­mento. Sua vida toda parece totalmente ineficaz, e ele vive aba­tido, infeliz e tomado de dúvidas. Parece incapaz de dar uma razão da esperança que há nele; diz crer, e no entanto está sempre nessa posição em que o próprio fundamento de sua fé parece sujeito a ser abalado. Ora, essa é a condição da qual o apóstolo trata aqui, e que estamos considerando.
A primeira coisa que devemos considerar é a causa desta condição. Como é que alguém pode chegar a tal estado? Há cris­tãos que correspondem a esta descrição. Por que são assim? Por que não são como outros cristãos, cujas vidas são dinâmicas, efe­tivas e que transmitem vida? Qual é a diferença? Essa é a pergunta, que devemos considerar, e parece estar bem claro que o apóstolo aqui diz a essas pessoas que existe apenas uma causa de todas as manifestações desta depressão — a falta de disciplina. Esse é o problema real, uma completa ausência de disciplina e ordem em suas vidas. Mas, felizmente para nós, o apóstolo não se limita a uma declaração genérica. Os escritores do Novo Testamento nunca se limitam a generalidades; eles sempre prosseguem, salientando os detalhes, considerando o problema ponto por ponto; e felizmente o apóstolo faz isso neste caso particular.
Por que essas pessoas não têm disciplina? Por que essa frou­xidão, essa indolência é tão aparente em suas vidas? A primeira causa parece ser que elas têm uma perspectiva errada da fé. Encontro isso no começo do quinto versículo, onde ele diz: "E vós também, pondo nisto mesmo toda diligência, acrescentai à vossa fé" — complemente a sua fé, guarneça sua fé com as coisas que ele passa a mencionar. Temos aqui uma sugestão de que eles tinham uma perspectiva errada da fé. Isso é algo muito comum. Parece que essas pessoas tinham uma espécie de visão mágica da fé; em outras palavras, tinham a idéia de que, enquanto alguém tivesse fé, tudo estaria bem, sua fé operaria automatica­mente em sua vida, e tudo que ele precisa fazer como cristão é crer na verdade. Precisa aceitar a fé, e tendo feito isso, tudo o mais acontecerá automaticamente; ele dá um passo, toma uma decisão — qualquer que seja a expressão usada — e isso é tudo que é necessário. Eu o descrevo como uma visão quase mágica da fé,  ou uma concepção automática  da fé.  Mas  talvez possa expressá-lo de forma diferente. Muitas vezes existe o que podemos descrever como uma visão mística da fé. Isso certamente explica o problema de muitas pessoas. O que quero dizer com visão mís­tica, é uma concepção de fé que sempre pensa nela como um todo. Colocando-o de forma negativa, quero dizer que tais pessoas não compreendem que a fé precisa ser complementada pela virtude, ciências, temperança, paciência, piedade, amor fraternal e caridade, como o apóstolo mostra aqui. Elas têm somente uma fórmula, e essa fórmula é que uma pessoa deve estar sempre "olhando para o Senhor", e enquanto "olhar para o Senhor" não precisa fazer mais nada. Elas dizem que qualquer tentativa de fazer outra coisa e voltar à posição de "salvação pelas obras". Então, se um cristão tem um problema em sua vida cristã, simplesmente dizem: "Olhe para o Senhor, permaneça nEle".
Este é um erro muito comum. Irmãos, vocês podem encon­trá-lo numa forma muito interessante em expositores que tomam este ponto de vista. Ao expor certas passagens das Escrituras onde muita ênfase é colocada em detalhes, eles obviamente caem em dificuldades, porque do ponto de vista deles não devemos nos preocupar com detalhes. Há somente uma coisa a ser feita, é "permanecer no Senhor e olhar para Ele", e enquanto fizermos isso, não há mais nada a fazer. Esta é uma causa extremamente produtiva deste tipo de depressão espiritual e letargia de que esta­mos tratando. Tais pessoas passam o tempo todo nesta condição infeliz. Tentam colocar em prática esta exortação de "permanecer no Senhor" e "olhar para o Senhor", e por algum tempo tudo parece estar bem, mas então, de alguma forma, algo acontece de errado, e parecem não estar mais "permanecendo", e mais uma vez sentem-se infelizes. O problema volta, e assim passam sua vida toda tentando manter esta posição, a única que reconhecem. Ora, obviamente isto é um assunto muito importante, e precisamos ter certeza de que nossa visão da fé é a visão do Novo Testamento, e que compreendemos o que o apóstolo quer dizer, ao afirmar que devemos suplementar, ou complementar nossa fé com certas coisas.
A segunda causa geral desta condição é, sem dúvida, nada mais que mera preguiça ou indolência, nada mais que frouxidão, ou, nas palavras do apóstolo, falta de diligência. Ele diz: "Pondo nisto toda diligência". Ele quer ter certeza que entendemos isso bem, e o repete no décimo versículo. Creio que todos sabemos algo a esse respeito. Existe uma espécie de indolência ou preguiça geral que aflige a todos nós, e que é indubitavelmente produzida pelo próprio diabo. Já não percebemos, todos nós, que no que se refere à vida espiritual, parece que não temos o mesmo zelo e entusiasmo, nem aplicamos a mesma energia dedicada à nossa vocação secular, nossa profissão ou negócio, nossas distrações, ou algo que nos interessa? Todos já não percebemos que podemos estar trabalhando com muita disposição, mas se paramos para um tempo de oração, repentinamente nos sentimos extremamente can­sados? Não é curioso que sempre ficamos com sono e cansados quando vamos ler a Bíblia? Estamos plenamente convencidos de que é algo puramente físico, que realmente nada há que possamos fazer, mas é certo que a partir do momento em que começamos a nos dedicar às coisas espirituais, imediatamente vamos nos de­frontar com esse problema de indolência e preguiça que nos afeta, por mais alertas e dispostos e cheios de energia que pudéssemos estar previamente.
Ou observem isso quando assume a forma de procrastinação. Queremos ler a Bíblia, queremos estudá-la, queremos ler um co­mentário; mas não sentimos vontade no momento, achamos que não é certo fazer estas coisas quando não temos vontade, e que devemos esperar até que estejamos nos sentindo melhor, e que haverá uma oportunidade melhor mais tarde. Ou não temos tempo, ou não temos oportunidade. Quantas vezes todos nós passamos por esse tipo de experiência! Mas então, quando chega a hora certa, por estranho que pareça, ainda não conseguimos nos dedicar àquilo. Está fora de discussão que a maioria de nós está vivendo vidas que carecem de disciplina, ordem e organização. Talvez nunca antes a vida fosse tão difícil para os cristãos como na época atual. O mundo e as organizações da vida ao nosso redor tornam as coisas quase impossíveis; a coisa mais difícil é pôr em ordem nossas próprias vidas e administrá-las. A razão disso não é que estas coisas externas nos compelem, mas se não reconhecemos o perigo de nos desviarmos, se não assumimos uma posição contra isso, já teremos falhado sem saber. Há tantas coisas que nos dis­traem. Começamos com o jornal da manhã (e muitas pessoas co­meçam com dois em vez de um), e então, depois de algumas horas chega o jornal (ou jornais) da tarde. Essas coisas são lançadas sobre nós. Naturalmente não somos obrigados a comprar os jornais, mas estão aí, e todo mundo faz isso. Talvez seja entregue à nossa porta. É colocado à nossa frente, e quase sem percebermos, está ocupando o nosso tempo. Não preciso deter-me com todos estes detalhes — o rádio, a televisão, as coisas que temos de fazer, reuniões para assistir, incidentes aqui e ali, problemas que surgem. O fato é que cada um de nós está lutando por sua vida no presente, lutando para controlar, governar e viver sua própria vida. Todos os pastores concordarão comigo quando eu digo que não há nada que nos é dito com mais frequência hoje em dia do que isto: "Eu não sei o que fazer, parece que não tenho tempo de ler a Bíblia e meditar como eu gostaria".
A simples resposta para isso é que não passa de falta de dis­ciplina, uma falha em organizar nossas vidas. Não adianta reclamar a respeito das circunstâncias. Sempre voltamos para isso, e não há necessidade de discutir o assunto — todos temos tempo! Se temos tempo para fazer tantas outras coisas, então temos tempo, e o segredo do sucesso nesta área é tomar esse tempo e insistir que seja dedicado às questões da alma, em vez de ser gasto com tantas outras coisas. Essa é a segunda causa do problema — uma falta de disciplina em nossas vidas, uma falha em organizar, comandar e controlar nossas vidas como no fundo do coração sabemos que deveríamos fazer.
Sendo essa a causa, passemos agora para o tratamento. Qual é o tratamento prescrito pelo apóstolo Pedro para esta condição? É simplesmente o inverso da causa do problema. Em primeiro lugar e antes de tudo, ele enfatiza "toda a diligência". "Façam o máximo de esforço" diz outra tradução, É isso — "fazer o má­ximo de esforço" — à luz destas coisas, à luz de Suas grandíssimas e preciosas promessas que nos foram dadas, para que por elas nos tornemos participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção que pela concupiscência há no mundo — por causa de todas estas coisas, façam todo o esforço, ponham toda a diligência, ou, como está traduzido no décimo versículo, "procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação". Aqui, então, está o tratamento:
o  exercício de disciplina e diligência.
Talvez a melhor maneira de esclarecer este assunto seja colo­cando-o num contexto histórico. Eu desafio vocês a lerem a vida de qualquer santo que já adornou a vida da Igreja, sem perceber imediatamente que a grande característica da vida dessa pessoa era ordem e disciplina. É invariavelmente a característica universal e marcante da vida de todos os grandes homens e mulheres de Deus.
Leiam sobre Henry Martyn, David Brainerd, Jonathan Edwards, os irmãos Wesley, e Whitefield — leiam seus diários. Não importa a que ramo da Igreja pertenceram — todos disciplinaram suas vidas e insistiram na necessidade disso; e obviamente é algo bíblico e absolutamente essencial. "É necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe", diz o autor da Epístola aos Hebreus (Hebreus 11:6); sim, e também "que é galardoador dos que o buscam diligentemente". Precisamos ser diligentes em buscar a Deus. "Mas", alguém dirá, "esse tipo de ensino não esta­ria aprovando a justificação pelas obras?" Veja como o diabo é sutil! "Você certamente está voltando à heresia católica romana, e à forma católica de devoção!" A resposta a isso é que foi o apóstolo Pedro, o apóstolo inspirado, que se esforçou para nos lembrar que todas as Escrituras são inspiradas, e é ele que também nos diz que devemos acrescentar todas essas outras coisas à nossa fé, e exercer toda a diligência ao fazer isso. Sejam mais zelosos, sejam ainda mais ativos, ele diz. E é claro que não há nenhuma contradição nisso. O erro da justificação pelas obras está em confiar na disciplina de sua própria alma para salvar sua alma; mas o oposto de confiar em suas obras, não é não fazer coisa alguma, é fazer tudo sem colocar a sua confiança no que faz. Não são as obras que estão erradas, é colocar sua fé nelas, confiar em suas próprias obras. Mas que perigo sutil temos aqui! Creio que um dos maiores perigos no protestantismo hoje em dia, especialmente nos círculos evangélicos, é que, em nosso medo do erro da justifi­cação pelas obras, temos declarado que as obras não têm qualquer importância. Argumentamos que a fé somente é que conta, e porque sou um homem de fé, não importa o que eu faço e minha vida pode ser completamente indisciplinada. De maneira nenhuma! O oposto de uma confiança falsa nas obras não é indolência, falta de disciplina e não fazer nada; é ser diligente, e mais que dili­gente, ser zeloso, e "acrescentar à sua fé". Mas ao mesmo tempo devem compreender que suas ações nunca serão suficientes, e sim que Deus certamente é galardoador daqueles que O buscam com diligência. Tantas pessoas dizem que dariam tudo para ter um vestígio que fosse do conhecimento que os santos tiveram. "Se eu pudesse ter esse mesmo gozo, essa alegria que tiveram! Eu daria o mundo inteiro em troca disso, por que não posso ter essa expe­riência?" — perguntam. A resposta é que nunca realmente a bus­caram. Observem as vidas desses homens, e o tempo que dedicaram à leitura da Bíblia e à oração e várias outras formas de auto-avalia­ção e exercícios espirituais. Eles creram no exercício da disciplina da vida espiritual, e foi por causa disso que Deus os recompensou, dando-lhes aquelas manifestações graciosas de Si mesmo, e aquelas experiências estupendas que aqueceram seus corações.
Então, colocamos em primeiro lugar a necessidade de disci­plina e ordem. Na verdade, vejo-me tentado neste ponto a tratar do assunto em detalhes. Se concordamos com a importância de reivindicar tempo e organizar nossa vida diária, devemos insistir a todo custo que certas coisas precisam ser feitas. Em outras pa­lavras, se realmente creio que a Bíblia é mais importante para mim do que o jornal matutino, devo ler a Bíblia antes de ler o jornal.
O que quer que eu tenha deixado de fazer, isso deve ser feito. Devo ser fiel em meu tempo de oração, devo gastar tempo em meditação; outras coisas talvez fiquem por fazer, mas isso tem que ser feito. Este é o começo, é uma ilustração de um elemento de ordem sendo incorporado à minha vida. Tantas pessoas falham, e se tornam infelizes e deprimidas simplesmente porque não assu­miram controle de si mesmas. Vocês mesmos precisam fazer estas coisas; ninguém mais as fará por vocês — na verdade, ninguém mais pode fazê-las por vocês. Se não prestarem atenção a essas coisas em detalhes, continuarão sendo cristãos deprimidos, podem ter certeza! Sejam diligentes, façam todo esforço, sejam mais que zelosos — cuidem disso a qualquer preço.
O segundo princípio é que devemos suplementar a nossa fé. "Acrescentai à vossa fé", diz a tradução que eu li; "suplemente a sua fé", diz outra tradução; ainda outra diz, "guarneça a sua fé". Os estudiosos nos dizem que a palavra "guarnecer" é uma palavra grega usada em conexão com a representação de um drama. Signi­fica providenciar uma espécie de orquestra ou coro. A represen-
tação é guarnecida com esta orquestra, este coro, para que possa ser completa. Era algo que rematava a apresentação, tornando-a perfeita. Esse é o significado da palavra: acrescentar, guarnecer, suplementar, tornar a coisa completa — uma fé integral.
O que se deve acrescentar à fé? O apóstolo nos dá uma lista, a qual eu quero citar aqui. A primeira coisa que ele diz é: "Acres­centai à vossa fé a virtude". O que ele quer dizer com isso? Aqui temos novamente uma palavra cujo sentido mudou com o decorrer do tempo. Não significa virtude no sentido que comumente usamos a palavra hoje em dia, pois cada um destes itens é uma virtude em si. Seu sentido aqui é de energia, energia moral; significa poder, vigor. Isto é muito importante. A condição da qual o após­tolo está tratando aqui é este tipo de vida cristã lânguida, indis­ciplinada e frouxa, e ele começa lembrando-os disso: "Agora que têm fé, vocês crêem na verdade, e não há dúvida quanto a isso, vocês têm essa mesma fé preciosa que está em nós". Bem, o que mais eles precisam fazer a respeito? Ele lhes diz que em acréscimo à fé que têm, eles precisam deixar de ser lânguidos. Em outras palavras, acrescentem à sua fé essa energia moral, assumam con­trole de si mesmos, não se arrastem através da vida cristã, andem por ela como devem, com vigor, acrescentem à sua fé força e poder. Não sejam cristãos debilitados que sempre dão a impressão de que estão ao ponto de ter uma vertigem e desmaiar, e que podem falhar a qualquer momento. Não sejam lânguidos, diz o apóstolo, guarneçam a sua fé com virilidade e poder — virtude.
Como essa exortação é necessária! Comparem, façam um contraste do cristão típico e comum com a pessoa típica e comum do mundo. O cristão declara estar interessado em coisas espirituais, no reino de Deus, e num conhecimento de Deus e de Cristo. Esta é sua reivindicação. Ele diz que tem fé, e é isso que a fé significa. Comparem-no com a pessoa típica do mundo, que está interessada em jogos e nas coisas que acontecem no mundo dos esportes. Vocês percebem a diferença; não há nada lânguido a respeito da pessoa que está interessada nessas coisas. Observem seu entusiasmo e sua energia. Então observem o cristão em contraste, como ele é débil, sempre com uma expressão de pesar. E a razão é que esse tipo de cristão falhou em "acrescentar à sua fé". Ele diz que é um cristão e que crê na verdade, mas falhou em "guarnecer" a sua fé.
"Acrescentai à vossa fé a virtude, e à virtude a ciência". Isso não quer dizer simplesmente conhecimento de doutrina. Temos isso numa certa medida — de outro modo nem teríamos fé. Isto signi­fica um tipo de discernimento, significa entendimento, significa iluminação. Não sabemos tudo no momento em que cremos em Cristo, não entendemos todas as coisas; isso é só o começo. Há constantes apelos e exortações nas epístolas do Novo Testamento para que cresçamos em entendimento — "para que o vosso amor cresça", diz Paulo, "em entendimento". Isso é o que o apóstolo Pedro está dizendo neste ponto. Ele diz que os cristãos não devem parar na fé. Já são cristãos, mas precisam entender a vida cristã. Devem compreender os perigos sutis que os cercam, precisam compreender algo da sutileza de Satanás. Precisam de compreensão: por isso, "acrescentai à vossa fé" — esforcem-se por ter esse dis­cernimento, essa compreensão, essa iluminação. Como isso é essen­cial — que nos entreguemos à leitura diligente das Escrituras e de livros a respeito das Escrituras e das doutrinas da fé. Vocês nunca compreenderão a fé verdadeiramente se não se dedicarem a essas coisas. Às vezes é um processo doloroso, e certamente exige toda a disciplina que pudermos aplicar. Um estudante nunca se torna perito em qualquer assunto sem trabalho árduo. Aquela conversa a respeito do tipo de homem que tem uma inteligência tão brilhante que nunca precisa estudar ou se esforçar, e depois recebe o primeiro lugar nos exames, é puro mito. Isso não acontece — é uma mentira. Sem conhecimento — e nunca se pode ter conhecimento se não se esforçar — a pessoa nunca terá verdadeira compreensão, verdadeiro discernimento. Isso requer disciplina e esforço; na verdade, guarnecer sua fé com conhecimento, ou ciên­cia, é trabalho muito árduo.
O próximo item é. temperança, que significa domínio próprio, e aqui não significa simplesmente que controlamos a nossa vida em geral. Esta temperança é uma coisa muito mais detalhada e particular do que isso. Significa que precisamos controlar cada aspecto da nossa vida. Talvez signifique que tenhamos que con­trolar até o que comemos e bebemos. Os médicos constantemente estão nos dizendo que muitas pessoas estão numa condição pre­cária de saúde física porque comem ou bebem demais. Não há dúvida de que isso é verdade, e há uma tendência crescente a isso no mundo moderno. É lançado sobre nós, de maneira atraente, e há pessoas que sofrem de cansaço e lentidão muitas vezes por simples falta de temperança ou domínio próprio. Não controlam seus apetites, seus desejos, suas paixões; comem demais, ou bebem demais, ou até mesmo dormem demais. O meio de se obter uma boa visão disso é ler as vidas dos santos, ler seus diários, ler o que eles faziam e como controlavam suas vidas. Como temiam essas coisas, e como compreendiam claramente que tinham de evitá-las a todo custo!
Paciência significa perseverança para continuar mesmo em meio ao desânimo. Temos que fazer isso — nós mesmos. Precisa­mos acrescentar isso à nossa fé. Não significa apenas olhar passi­vamente para o Senhor; nós mesmos precisamos exercer paciência e perseverança, e continuar fazendo isso dia após dia.
Depois vem a piedade, que neste ponto sem dúvida significa preocupação e cuidado em manter a nossa comunhão com Deus. Então os dois últimos itens da lista se referem à nossa atitude para com os nossos semelhantes. Amor fraternal significa nosso relacionamento para com nossos irmãos em Cristo. E caridade significa amor a todos os homens, mesmo aqueles que não estão na fé. Precisamos observar estas coisas em detalhes.
Depois de nos levar através desses vários passos e estágios, o apóstolo agora nos encoraja a fazer tudo o que ele nos disse. Qual é o encorajamento? Antes de tudo, ele nos lembra do que nós somos. Ele nos diz que nos tornamos "participantes da natureza divina". Se vocês acham que estou pregando uma doutrina dura, e que estou reduzindo a vida cristã a uma tarefa árdua, se sentem hesitações e dúvidas, quero lhes fazer algumas perguntas. Vocês percebem o que são como cristãos? Percebem que são "partici­pantes da natureza divina" e que o Filho de Deus veio do céu à terra e foi até a cruz do Calvário para salvá-los, para libertá-los do mundo e suas concupiscências? "Havendo escapado da corrup­ção que pela concupiscência há no mundo." Concupiscência é a causa dessa corrupção. Vão permanecer nessa condição? Não que­rem escapar dela? Percebam, ele diz, que Cristo morreu para que pudessem ser tirados dela, e que realmente foram tirados dela. Por isso, então, "ponde nisto toda a diligência". "Certamente", Pedro pergunta, "vocês não esqueceram que foram purificados dos seus pecados, certamente não esqueceram que morreram com Cristo, e que portanto estão mortos para a lei e mortos para o pecado?" "Como viveremos para o pecado, nós os que para ele morremos?" Essa é a forma que Paulo o expressa. Esse também é o argumento de Pedro. Precisamos compreender isso, e é um extraordinário encorajamento ao enfrentarmos a batalha da fé.
No entanto, não devemos parar aí. O apóstolo diz que também devemos compreender que somente fazendo estas coisas é que tere­mos grande alegria e felicidade no presente. "Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição". E vocês podem tornar firme a sua vocação fazendo estas coisas. Nunca serão felizes de outra forma. Não basta dizer: "A Palavra de Deus diz — todo aquele que nele crê — eu creio, portanto. . ." Isso é verdade, mas nem sempre satisfaz. Está correto racionarmos assim, e faz parte da nossa segurança, porém se pensarmos que nossa segurança se limita a isso, estaremos cometendo um grande engano. Se quisermos tornar firme a nossa vocação e eleição, de­vemos ser diligentes em todas estas coisas que o apóstolo men­ciona, e se o fizermos, teremos grande alegria, paz e felicidade. Saberemos qual é nossa posição, e colheremos os primeiros frutos da glória que nos aguarda.
"Fazendo isto, nunca jamais tropeçareis". Nada é mais desa­nimador do que nossas quedas e tropeços. Tropeçamos, e então nos sentimos miseráveis e infelizes, e lá vem a depressão que faz com que nos sintamos totalmente sem esperança a respeito de tudo. Bem, o que devemos fazer é evitar as quedas, os tropeços — e se fizermos essas coisas, jamais tropeçaremos. Isso não significa que estamos sendo guardados, sem fazer coisa alguma. Ele diz: "Façam estas coisas, e vocês não tropeçarão". Então, reunam toda a dili­gência para fazer estas coisas, e não tropeçarão.
E finalmente — e como isso é glorioso ! — "porque assim", ele diz, "vos será amplamente concedida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo". Ele não está falando sobre salvação aqui, porque estas pessoas já são salvas; ele fala sobre a entrada para a glória. Observem a palavra "concedida". Ele diz que a entrada será concedida a nós. Essa é exatamente a mesma palavra que anteriormente foi traduzida como "acrescen­tar". Vocês "concedera" essas coisas à sua fé, e a entrada será concedida a vocês. Isso funciona reciprocamente. Em outras pala­vras, "se fizerem estas coisas", Pedro diz, "se disciplinarem as suas vidas, se organizarem as suas vidas e guarnecerem a sua fé dessa maneira e com todas essas várias qualidades, vocês não tropeçarão no presente, e terão grande alegria e felicidade resul­tantes de sua segurança, e quando o fim chegar, deixarão esta vida com suas velos cheias pelas gloriosas brisas celestes. Não haverá nenhuma hesitação em sua entrada, não será feita com velas ras­gadas; será uma entrada ampla a que será concedida a vocês. Não precisarão dizer, como Lord Tennyson:
E que não haja ranger do madeirame Quando em me fizer ao mar.
Porque não será uma saída para um mar desconhecido, mas antes, um fim das tormentas da vida e uma entrada triunfante no porto do nosso eterno descanso e glória na presença de Deus.
Se somos cristãos infelizes e deprimidos, é muito provável que seja devido a essa falta de disciplina. Portanto, vamos ser posi­tivos e ativos, pondo toda diligência, vamos suplementar a nossa fé, sem termos medo. Vamos esclarecer as nossas idéias e então colocá-las em prática, e complementar a nossa fé com esta força e vigor, com este conhecimento, com esta temperança, com esta paciência, piedade, amor fraternal e caridade. Vamos começar a desfrutar da nossa vida cristã e ser úteis aos outros. Vamos crescer na graça e no conhecimento, e assim atrairemos todos que nos conhecem, para que se unam a nós nesta fé preciosa, e para que experimentem a bem-aventurança destas grandes e preciosas pro­messas que nunca falham