quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

CORREÇÃO



Dr. David Martyn Lloyd-Jones

(Médico por profissão, pastor por vocação. Pastoreou a Capela de Westminster por mais de três décadas e tornou-se um dos mais conhecidos expositores bíblicos de todos os tempos. O sermão abaixo faz parte do livro Depressão Espiritual, Editora PES. Segundo um ex-membro da Capela de Westminster, o Dr Lloyd-Jones sentiu-se dirigido por Deus a tratar do assunto "depressão" e numa manhã, após seu período devocional, enquanto fazia a barba, subitamente vei-lhe à mente todos os esboços, de modo que todos os sermões presentes no livro foram esboçados num único dia!)



"E já vos esquecestes da exortação que argumenta convosco como filhos: Filho meu, não desprezes a correção do Senhor, e não des­maies quando por ele fores repreendido; porque o Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer um que recebe por filho. Se su­portais a correção, Deus vos trata como filhos; porque, que filho há a quem o pai não corrija? Mas, se estais sem disciplina, da qual todos são feitos participantes, sois então bastardos, e não filhos. Além do que tivemos nossos pais segundo a carne, para nos corrigirem, e nós os reverenciamos: não nos sujeitaremos muito mais ao Pai dos espíritos, para vivermos? Porque aqueles, na ver­dade, por um pouco de tempo nos corrigiam como bem lhes pare­cia; mas este, para nosso proveito, para sermos participantes da sua santidade. E, na verdade, toda a correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela".
Hebreus 12:5-11


Uma das causas mais prolíficas deste estado de depressão espiritual é a falha em, compreender que Deus usa muitos métodos no processo da nossa santificação. Ele é nosso Pai, que "nos amou com um amor eterno". Seu grande propósito para nós é nossa santificação — "Porque esta é a vontade de Deus, a vossa santi­ficação" (I Tessalonicenses 4:3), e "para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em caridade" (Efésios 1:4). A grande preocupação de Deus por nós é, primariamente, não a nossa felici­dade, mas nossa santidade. Em Seu grande amor por nós, Ele está decidido a nos levar a isso, e emprega muitos métodos diferentes para atingir esse fim.
O fato de não compreendermos isso muitas vezes nos leva a tropeçar e, em nosso pecado e insensatez, até mesmo a compreender de maneira completamente errada o modo como Deus nos trata. Como crianças insensatas, achamos que nosso Pai celestial não está sendo amoroso para conosco, e sentimos pena de nós mesmos, achando que Ele está nos tratando com rudeza. Isso, é claro, leva à depressão, e é tudo devido à nossa falha em compreender os gloriosos propósitos de Deus para conosco.
Esta é a questão tratada de maneira tão extraordinária e perfeita no capítulo doze de Hebreus, onde o tema é que Deus às vezes opera santificação na vida de Seus filhos através da corre­ção, e especialmente capacitando-os a compreender o significado da correção. Esse é o tema para o qual quero chamar a sua atenção. Talvez não haja outra área em que vejamos mais claramente o fato de que santificação é uma obra de Deus, do que em conexão com este assunto da correção. "Vejam as coisas que vocês estão sofrendo", diz o autor. "Por que estão sofrendo tudo isso?" A resposta é que eles estão sofrendo estas coisas porque são filhos de Deus. Ele declara que Deus está fazendo isso para o seu bem — "Porque o Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho". E então observemos que, não satisfeito em colo­cá-lo assim, ele o expressa negativamente também, dizendo: "Se suportais a correção, Deus vos trata como filhos; porque, que filho há a quem o pai não corrija? Mas, se estais sem disciplina, da qual todos são feitos participantes, sois então bastardos" — vocês não são verdadeiramente membros' da família, não são filhos. Essa é uma declaração muito significativa. Quero expressá-la na forma de um princípio. O que este homem realmente está dizendo é que a salvação toda é obra de Deus, do começo ao fim, e que Deus tem Seus métodos e meios de produzi-la. Uma vez que Deus começa uma obra, Ele a completa: "Aquele que em vós começou a boa obra, a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo". Deus jamais começa uma obra para desistir dela ou deixá-la numa situação incompleta — quando Deus começa Sua obra em Seus filhos, Ele vai completar essa obra. Deus tem um propósito e objetivo final para eles: que passem a eternidade com Ele na glória. Muito do que acontece conosco neste mundo deve ser entendido e explicado à luz desse fato; e é um fato bem definido, de acordo com o argumento do autor, que Deus vai nos trazer a essa condição, e nada vai impedir que isso aconteça.
Ora, Deus tem vários meios de fazer isso. Um deles, é dar-nos instrução através das grandes doutrinas e dos princípios ensinados na Bíblia. Ele nos deu Sua Palavra. Ele inspirou homens a escrever essas palavras pelo Espírito Santo para nossa instrução, a fim de sermos preparados e aperfeiçoados. Mas se nos tornarmos recalci­trantes, se não aprendermos as lições que nos são apresentadas positivamente na Palavra, então Deus, como nosso Pai, tendo em vista o grande objetivo de nos aperfeiçoar e preparar para a glória, adotará outros métodos. E um desses outros métodos que Ele usa, é este método da correção. Pais terrenos que são dignos desse nome — e estamos vivendo em dias de tanta-indulgência e frou­xidão, que mal podemos usar este argumento da forma que o autor de Hebreus o usou — mas pais dignos desse nome fazem isso. Eles corrigem seus filhos para o seu próprio bem; se a criança não está se comportando de maneira apropriada como resultado de instrução positiva, então a correção deve ser aplicada, a disciplina deve ser exercida. É doloroso, mas necessário, e um bom pai não negligencia isso. E este homem diz que Deus é assim, e infinita­mente mais. Se, portanto, não somos obedientes às lições e instru­ções positivas da Palavra de Deus, não devemos nos surpreender se outras coisas começarem a nos acontecer. Não devemos nos sur­preender se tivermos que enfrentar certas coisas que são dolorosas. Tais coisas nos são enviadas deliberadamente por Deus, diz este homem, como parte do processo da santificação. Observem como ele enfatiza isso. Diz que devemos nos examinar a nós mesmos para descobrir se estamos experimentando isso em nossa vida, porque, ele diz de forma muito clara, se não temos experiência desse tipo de tratamento, então é de duvidar que realmente seja­mos filhos. Se nada conhecemos desse processo, não somos filhos, somos ilegítimos, não pertencemos a Deus, pois "o Senhor corrige o que ama". De certa forma, então, podemos dizer que a pessoa que devia se sentir mais infeliz consigo mesma é aquele cristão (ou que professa ser cristão) que não tem consciência desse tipo de experiência em sua vida. Devíamos ficar alarmados com isso. Longe de ficarmos aborrecidos com o processo, devíamos agradecer a Deus por ele, pois Ele está nos dando provas de que somos Seus filhos, e está nos tratando como tal. Está nos corrigindo e disciplinando para nos conformar ao padrão e nos tornar dignos daquele que é nosso Pai.
Isso é algo que está constantemente acontecendo na vida e na experiência dos filhos de Deus. Também é algo ensinado através de todas as Escrituras. Existem exemplos e ilustrações sem fim que poderiam ser citadas. É a grande mensagem do Salmo 73. É a grande mensagem do livro de Jó. E o apóstolo Paulo trata do assunto no quinto capítulo da Epístola aos Romanos, onde fala sobre regozijo em meio às tribulações, etc. Também faz parte do argumento do capítulo oito de Romanos. É encontrado novamente na Primeira Epístola aos Coríntios, no capítulo onze, na secção que trata da Ceia do Senhor. O apóstolo ensina que havia membros da igreja que estavam doentes e enfermos porque não estavam vivendo a vida cristã: "Por causa disto há entre vós muitos fracos e doentes". Na verdade, muitos até mesmo tinham morrido por causa disso: "E (há) muitos que dormem". Então, leiam o pri­meiro capítulo da Segunda Epístola aos Coríntios e encontrarão o apóstolo descrevendo a experiência que tinha acontecido com ele. Ele afirma que aconteceu para que aprendesse a não confiar em si mesmo, e sim no Deus vivo. Outra grande declaração clássica deste ensino pode ser encontrada no capítulo doze da Segunda Epístola aos Coríntios, onde Paulo fala sobre o "espinho na carne" que lhe fora dado; o propósito disso tudo, ele diz, era mantê-lo numa condição espiritual correta, para que não se exaltasse. Foi-lhe dado um espinho na carne, e embora tivesse orado, pedindo a Deus três vezes que o removesse, Deus não fez isso, e ele final­mente aprendeu sua lição. Portanto, aquilo promoveu sua santifi­cação. No primeiro capítulo da Epístola de Tiago, lemos: "Meus irmãos, tende grande gozo quando cairdes em várias tentações". É algo em que devemos nos regozijar. E então encontramos tudo isso resumido na palavra do próprio Senhor ressuscitado, no ter­ceiro capítulo de Apocalipse, no versículo 19: "Eu repreendo e castigo a todos quantos amo".
Encontramos, então, esta grande doutrina através de toda a Bíblia. Na verdade, todo o tratamento de Deus com os filhos de Israel sob a velha dispensação é um grande comentário disso. Ele tratou com eles daquela maneira porque eram Seus filhos. "De todas as famílias da terra a vós somente conheci; portanto, todas as vossas injustiças visitarei sobre vós" (Amos 3:2). Ele os tratou daquela maneira porque eram Seus filhos.
A pergunta óbvia que vem à nossa mente, então, é: o que é correção? O que significa'? Significa treinar. O sentido básico da palavra é esse. É o treinamento ministrado à criança, ou o método de treinar uma criança. Temos a tendência de confundir correção com a palavra castigo. É certo que inclui disciplina, mas também inclui instrução; inclui repreensão, e na verdade pode incluir um considerável grau de castigo; mas o objetivo essencial da correção é treinar e desenvolver a criança para que se torne uma pessoa adulta. Bem, se esse é o sentido de correção, vamos considerar por um momento os meios pelos quais Deus nos corrige.
Como Deus corrige Seus filhos? Ele o faz especialmente atra­vés das circunstâncias — todo tipo de circunstâncias. Nada é mais importante na vida cristã do que compreender que tudo o que nos acontece tem um sentido, se tão somente o buscarmos. Nada nos acontece por acaso — um pardal "não cairá por terra sem a von­tade do nosso Pai", diz o Senhor, e se isso é verdade a respeito do pardal, quanto mais o será a nosso respeito! Nada pode nos acontecer sem o consentimento do nosso Pai. As circunstâncias estão constantemente nos afetando, e seu propósito é operar a nossa santificação — tanto as circunstâncias agradáveis como as desagradáveis. Devemos portanto ser observadores, sempre bus­cando lições e fazendo perguntas.
Quero agora ser mais específico. A Bíblia ensina muito clara­mente que uma circunstância particular que Deus muitas vezes usa no que toca a essa área, é uma perda financeira, ou mudança na posição material da pessoa, perda de bens, perda de possessões ou de dinheiro. Tais coisas são muitas vezes usadas por Deus. Vemos descrições disso no Velho Testamento, e aconteceu muitas vezes na história subsequente do povo de Deus na Igreja, que através de uma perda no sentido material e temporal, Deus ensinou uma lição a alguém que a pessoa não poderia ter aprendido de outra forma.
Então vamos pensar na questão da saúde. Já mencionei a Primeira Epístola aos Coríntios, capítulo onze. O apóstolo ensina especificamente que havia algumas pessoas que estavam doentes e fracas porque Deus permitira isso para ensiná-las e treiná-las. "Examine-se pois o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálice. Porque o que come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor. Por causa disto, há entre vós muitos fracos e doentes, e muitos  que  dormem".  Este  é um método  que Deus empregou muitas vezes, de modo que aqueles que dizem nunca ser a von­tade de Deus que sejamos doentes ou fracos, estão simplesmente negando as Escrituras. Contudo, que ninguém caia na armadilha de dizer:  "Você está afirmando que toda doença é um castigo enviado por Deus?" Claro que não; estou simplesmente dizendo que Deus às vezes usa esse método para corrigir Seus filhos. É "por causa disto" que muitos estão "doentes e fracos";  é uma obra de Deus. Deus permitiu que aquilo lhes acontecesse, ou talvez Deus mandou aquilo às suas vidas, para seu próprio bem. A von­tade de Deus é mais importante que a saúde do corpo da pessoa, e se ela não se submete e se sujeita à instrução positiva da Palavra de Deus, então Ele certamente vai tratar com essa pessoa, e talvez envie uma doença para fazê-la parar e pensar. Gostaria de men­cionar que o grande Dr. Thomas Chalmers sempre dizia que o que realmente o levou a entender o evangelho, sob a direção de Deus, foi uma doença que o confinou a um quarto por quase um ano. Ele tinha sido um pregador brilhante, muito "científico" e "intelectual", mas saiu daquele quarto de doença como um pre­gador do evangelho, e agradeceu a Deus por aquela visitação. Encontramos um paralelo disso na Segunda Epístola de Paulo aos Coríntios, no capítulo primeiro, versículo nove, onde ele nos diz que "já tinha a sentença de morte em si". Então temos também a clássica declaração sobre o espinho na carne no capítulo doze. Deus não removeu aquele espinho porque queria ensinar o após­tolo a dizer: "Quando sou fraco, então sou forte", e se regozijar na enfermidade, em vez de na saúde, para que a glória de Deus fosse promovida. Não há dúvida que Deus permitiu aquilo, talvez até mesmo o tenha causado, a fim de corrigir e treinar Seu servo daquela forma particular.
Da mesma forma, Deus permitiu perseguição. Estes cristãos hebreus estavam sendo perseguidos. Por isso estavam tão infelizes. Seus bens haviam sido roubados, suas casas destruídas, porque eles eram cristãos, e estavam perguntando: "Por que estamos rece­bendo esse tipo de tratamento? Pensamos que, se crêssemos no evangelho, tudo acabaria bem, mas estamos cheios de problemas, enquanto que aqueles que não são cristãos parecem estar se dando muito bem e tendo sucesso em tudo. Por que isso?" E a resposta à pergunta deles esta nesse capítulo doze da carta aos Hebreus.
A doutrina, todavia, vai além, vai ao ponto de afirmar que Deus às vezes emprega a morte dessa forma: "Há entre vós muitos fracos e doentes, e muitos que dormem". É um mistério que nin­guém pode entender, mas é um ensino claro das Escrituras, e por isso digo que precisamos compreender que todas estas coisas têm um significado. Através das circunstâncias, das coisas que aconte­cem em nossa vida e neste mundo, em nossa carreira, em nossos estudos e exames, pela doença ou saúde, por todas essas coisas, Deus está realizando Seu propósito para nós. Se somos filhos de Deus, todas essas coisas têm um significado, e precisamos aprender a examiná-las, para descobrir sua mensagem. E mediante isso será promovida a nossa santificação.
Outra maneira de Deus nos corrigir, e preciso colocá-la numa categoria à parte, é esta: Deus às vezes, sem dúvida, parece afastar Sua presença e esconder Sua face de nós para alcançar esse propó­sito. É evidente que este é o grande tema do livro de Jó. É encon­trado novamente no livro de Oséias, nos capítulos cinco e seis..
Deus até mesmo diz ao povo ali: "Irei, e voltarei para o meu lugar, até que se reconheçam culpados e busquem a minha face". Deus Se afastou, e afastou Sua presença e Suas bênçãos para levá-los ao arrependimento; isso é uma parte da santificação.
Por outro lado, também sabemos que há variações de senti­mentos e emoções na vida cristã. Essa é uma questão que muitas vezes deixa o povo de Deus confuso e perplexo. Todos já tivemos alguma experiência nesse sentido. Descobrimos que, por alguma razão, a experiência que vínhamos tendo de repente chegou ao fim, e dizemos com Jó: "Ah! se eu soubesse que o poderia achar!" Não temos consciência de nada que tenhamos feito de errado, mas Deus parece ter Se retirado, e temos a sensação de que nos aban­donou. Essas "deserções" do Espírito, que parecem acontecer de tempos em tempos, são também parte do método de Deus de disci­plinar e corrigir Seus filhos; são parte de Seu grande processo de nos treinar e preparar para o grande propósito e objetivo que Ele tem para nós.
Isso então me leva à minha próxima pergunta. Por que Deus corrige? Já vimos o que é correção, e vimos como Deus corrige, e agora fazemos a grande pergunta — por que Deus faz isso? Encontramos abundantes respostas a essa pergunta nesta passagem da Sua Palavra. Do versículo cinco ao versículo quinze, neste capí­tulo doze da Epístola aos Hebreus, o assunto é nada mais que uma ampla resposta a isso. É porque Deus nos ama: "Porque o Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho". Essa é a resposta fundamental. É tudo por causa do amor de Deus. É porque Deus nos ama que Ele às vezes parece ser "cruelmente amoroso". Tudo é feito para o nosso bem; essa é a verdade da qual devemos nos apropriar — é sempre para o nosso bem. Agora vamos observar a declaração do versículo sete. A tradução Revista e Corrigida da Bíblia diz: "Se suportais a correção, Deus vos trata como filhos". Mas a tradução Revista e Atualizada sem dúvida traduz este texto de forma muito melhor. Em vez de "se suportais a correção", o sentido do texto na verdade é este: "É para disci­plina que perseverais (Deus vos trata como a filhos)". Por que vocês estão perseverando? Essa é a pergunta que esses cristãos hebreus estavam fazendo. "Se somos cristãos, por que estamos suportanto?" E a resposta é que estão suportando porque são cristãos, estão aguentando para sua correção, para sua disciplina. Em outras palavras, o propósito de perseverarem, ou suportarem, é o seu crescimento, seu treinamento, seu desenvolvimento;  as coisas que estão suportando são parte da sua correção. O que é correção? É treinamento. Então temos que nos apropriar firme­mente deste fato, que todo sofrimento e provação e infelicidade tem esse grande propósito em vista, ou seja, nossa preparação e treinamento. E o autor repete isso — observem como ele repete esses conceitos — no versículo dez. "Porque aqueles (nossos pais terrenos), na verdade, por um pouco de tempo, nos corrigiam como bem lhes parecia; mas este, para nosso proveito, para sermos participantes da sua santidade." Ora, ai está o conceito, expresso da maneira mais clara; definitivamente o ensino é que Deus nos corrige para que possamos ser participantes da Sua santidade, a fim de que sejamos santificados. Tudo é feito, ele diz, "para o nosso proveito", e o proveito é a santificação. Deus nos santifica pela verdade fazendo estas coisas e então, através da Sua Palavra, esclarecendo o que Ele está fazendo.
Se esse é o objetivo geral que Deus tem em vista ao nos corrigir desta maneira, vamos agora examinar algumas das razões particulares que Ele tem para fazer isso. Uma é que há certas imperfeições em nós, em todos nós, que precisam ser corrigidas. Há certos perigos que confrontam a todos nós na vida cristã, contra os quais precisamos ser protegidos. O fato de alguém ser cristão não significa que essa pessoa é perfeita. Não alcançamos imediatamente um estado de perfeição no momento que cremos no Senhor Jesus Cristo. Na verdade, não alcançamos esse estado de perfeição nesta vida; sempre haverá imperfeição enquanto o "velho homem" existir. Em consequência disso, sempre há certas coisas em nossa vida que precisam ser tratadas; e as Escrituras nos mos­tram muito claramente como Deus usa a correção para tratar de alguns desses problemas. Quais são eles? Um deles é orgulho espi­ritual, exaltação espiritual num sentido errado e perigoso. Quero expressá-lo com as clássicas palavras que mostram isso com tanta perfeição, e não necessitam de qualquer exposição. O apóstolo Paulo, no capítulo doze da Segunda Epístola aos Coríntios diz: "Conheço um homem em Cristo. . . e sei que o tal homem (se no corpo, se fora do corpo não sei; Deus o sabe) foi arrebatado ao paraíso; e ouviu palavras inefáveis, de que ao homem não é lícito falar. De um assim me gloriarei eu, mas de mim mesmo não me gloriarei, senão nas minhas fraquezas. Porque, se quiser gloriar-me, não serei néscio, porque direi a verdade; mas deixo isto, para que ninguém cuide de mim mais do que em mim vê ou de mim ouve"; e observem: "E para que me não exaltasse pelas excelências das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a saber, um mensa­geiro de Satanás para me esbofetear, a fim de me não exaltar". Ai está, com perfeição. O apóstolo recebera uma experiência muito rara, extraordinária e notável, tinha sido arrebatado ao terceiro céu, e havia visto e ouvido e sentido coisas maravilhosas, e corria o risco de cair em orgulho espiritual, exaltando-se a si mesmo. E ele nos diz que lhe foi enviado um espinho na carne — enviado a ele deliberadamente — para resguardá-lo. Orgulho espiritual é um perigo terrível, e é um perigo que persiste. Se Deus, em Sua mise­ricórdia e amor, nos conceder uma experiência incomum, isso nos coloca numa posição em que o diabo pode nos explorar e preju­dicar; e com frequência homens que tiveram tais experiências também tiveram que sofrer correção para mantê-los numa posição segura e correta.
Outro perigo é o perigo da auto-confiança. Deus deu dons aos homens, e o perigo é que passemos a confiar em nós mesmos e em nossos dons, passando a sentir, de certa forma, que não precisamos mais de Deus. Orgulho e auto-confiança são um perigo constante. Não são pecados da carne em si, são perigos espirituais, e são, portanto, ainda mais perigosos e sutis.
E então sempre há o perigo de sermos atraídos pelo mundo, suas perspectiva e seus caminhos. Um ponto enfatizado muitas vezes nas Escrituras é que estas coisas são muito sutis. A pessoa não decide, deliberadamente, que vai voltar ao mundo. É algo que acontece quase imperceptivelmente. O mundo e suas atrações estão sempre presentes, e a pessoa cai nelas quase sem saber. Ela então precisa ser corrigida, para que não passe a amar as coisas do mundo. Ainda um outro perigo é o de nos acomodar — o perigo de nos satisfazer com a posição que alcançamos na vida cristã — presunção, auto-satisfação. Não somos modernistas, não cremos em todas essas coisas em que muitos crêem hoje em dia, somos orto­doxos, cessamos de fazer certas coisas que sabemos ser obviamente erradas. Cremos ser perfeitos em nossa fé, e que nossas vidas estão acima de reprovação, e assim nos tornamos presunçosos e satis­feitos conosco mesmos. Acomodamo-nos, e assim paramos de cres­cer. Se nos compararmos com o que éramos dez anos atrás, real­mente não há diferença. Não conhecemos a Deus mais intimamente, não avançamos um passo sequer, não crescemos "na graça e no conhecimento do Senhor". Descansamos num estado de auto-satis­fação. Talvez eu possa resumi-lo dizendo que é o terrível perigo de esquecer Deus, e não buscá-10, não buscar comunhão com Ele.
É o perigo sério de pensar em nós mesmos em termos de expe­riência, em vez de pensar, constantemente, em termos do nosso conhecimento direto e imediato dEle, e de nosso relacionamento com Ele. À medida que prosseguimos na vida cristã, devíamos ser capazes de dizer que conhecemos a Deus melhor do que conhecía­mos, e que O amamos mais do que O amávamos há anos atrás. Quanto mais conhecemos uma pessoa boa, mais amamos essa pessoa. Multipliquem isso pelo infinito, e aí está nosso relaciona­mento com Deus. Conhecemos melhor a Deus, estamos buscando-O mais e mais? Deus sabe, o perigo é o de nos esquecermos dEle porque estamos mais interessados em nós mesmos e nossas expe­riências. E assim Deus, em Seu amor infinito, corrige-nos para nos fazer compreender estas coisas, a fim de nos levar de volta para Si mesmo e nos resguardar destes terríveis perigos que estão cons­tantemente nos ameaçando e nos cercando. Quero relacionar isso com sua experiência. Acaso, podem dizer que agradecem a Deus por coisas que acontecem contra vocês? Esse é um excelente teste da nossa profissão de fé! Vocês conseguem olhar para trás, para certas coisas — que foram desagradáveis, e que os tornaram infe­lizes na época em que aconteceram — e dizer como o salmista no Salmo 119:71: "Foi-me bom ter sido afligido, para que apren­desse os teus estatutos"?
Digo, então, que Deus nos corrige por estas razões particulares. Mas quero agora pô-lo de forma positiva. Ser santificado significa que exibimos certas qualidades positivas. Significa ser o tipo de pessoa que exemplifica as bem-aventuranças e o sermão do monte em sua vida, ser o tipo de pessoa que demonstra o fruto do Espírito — amor, alegria, paz, etc. É isso que significa santificação. Deus, ao nos santificar, está nos trazendo mais e mais a uma con­formidade com essa condição. E é bem evidente que, para nos levar a esse ponto, não é suficiente que recebamos a instrução positiva da Palavra; o elemento de correção também é necessário. A Palavra nos exorta a "olharmos para Jesus". Observem que faz isso logo antes de abordar o assunto da correção. A exortação do autor é: "Corramos com paciência a carreira que nos está pro­posta: olhando para Jesus..." Se fizéssemos isso sempre, nada mais seria necessário; se mantivéssemos sempre os olhos nEle, tentando nos conformar a Ele, tudo estaria bem. Mas não fazemos isso, e portanto a disciplina se torna necessária. E é necessária a fim de produzir certas qualidades em nós. A primeira delas é a humildade. Ela é, em muitos sentidos, a virtude suprema. Humildade, a mais inestimável de todas as jóias, uma das mais gloriosas de todas as manifestações do fruto do Espírito - humildade. Era a suprema característica do próprio Senhor. Ele era manso e hu­milde de coração. "A cana trilhada não quebrará, nem apagará o pavio que fumega". É o último ponto que alcançamos, e Deus sabe que todos precisamos ser humilhados para nos tornarmos humildes. O fracasso pode ser muito' proveitoso para nós nesse sentido. É muito difícil sermos humildes se somos sempre bem sucedidos; então Deus nos corrige através do fracasso, às vezes, para nos humilhar e assim nos manter humildes. Examinem suas vidas e vejam esse tipo de coisa acontecendo.
Vejam em seguida a devoção. O cristão deve ser devoto, deve ter seus olhos fixos nas coisas de cima. Seus interesses devem estar concentrados lá, e não aqui. Mas como é difícil ter essa atitude, e buscar "as coisas lá do alto", e "pensar nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra". Quantas vezes tem sido necessário que Deus nos corrija, para voltar nossos olhos para o alto. Tendemos a nos apegar tanto ao mundo que Deus tem que fazer algo para nos mostrar claramente que as coisas que nos prendem a este mundo são frágeis e podem se desfazer num se­gundo. E assim despertamos subitamente para o fato de que somos apenas peregrinos neste mundo, e fomos feitos para pensar no céu e na eternidade.
Mansidão] Quão difícil é ser manso em nossa atitude para com os outros e em nosso relacionamento com eles — amar os outros, ter empatia para com eles. Há um certo sentido, eu creio, em que é quase impossível sentirmos empatia, se não conhecemos algo da mesma experiência. Sei muito bem, em meu trabalho como pastor, que nunca teria sido capaz de verdadeira compreensão e simpatia para com certas pessoas, se não tivesse passado pelo mesmo tipo de experiência. Deus às vezes precisa tratar conosco com o propósito de nos lembrar a nossa necessidade de paciência. Ele diz, na verdade: "Você sabe que Eu sou paciente com você; seja paciente com essa outra pessoa!"
Estas, então, são algumas das coisas que nos mostram clara­mente a necessidade de correção. Deus, porque nos ama, porque somos Seus filhos, nos corrige para que eventualmente seja pro­duzido em nós o maravilhoso e incomparável "fruto pacífico de justiça".
Até aqui examinamos o assunto em princípio. No capítulo seguinte espero demonstrar como esta passagem aplica todo esse ensino, e como devemos aplicá-lo a nós mesmos. O grande prin­cípio é que Deus nos corrige porque somos Seus filhos. Se, por­tanto, vocês não estão conscientes desse tipo de tratamento em suas vidas, eu os exorto a examinarem-se a si mesmos, certifican­do-se de que realmente são cristãos, porque: "O Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho". Bendito seja Deus, que Se incumbiu da nossa salvação e do nosso aperfei­çoamento, e que, havendo começado a obra, irá completá-la, e que nos ama tanto que, se não aprendermos as lições voluntaria­mente, nos corrigirá para nos trazer à conformidade com a imagem do Seu amado Filho.