quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A SINGULARIDADE DOS CAMINHOS DE DEUS


Dr. David Martyn Lloyd-Jones
Ministro por 30 anos da Westminster Chapel, Inglaterra.


Habacuque 1:1-11


A mensagem de Habacuque é de urgente necessidade nestes dias em que tantos vivem perplexos por este problema da história. Come­çamos, portanto, com duas declarações de fato:

I. Os caminhos de Deus às vezes são misterio­sos

A. Sua inação
A primeira coisa que descobrimos quando estudamos as ações de Deus é que pode parecer que ele esteja estranhamente silencioso e inativo em cir­cunstâncias provocativas. Por que Deus permite que certas coisas aconteçam? Por que a Igreja Cristã é o que é hoje? Veja sua história no decurso dos últimos quarenta ou cinqüenta anos. Por que permitiu Deus tais condições? Por que permitiu que surgisse o "modernismo", que solapa a fé e até nega suas verdades fundamentais? Por que ele não fere de morte essas pessoas quando proferem blasfêmias e negam a fé que deveriam pregar? Por que permite ele que se façam tantas coisas erradas até mesmo em seu nome?
Também, por que Deus não respondeu às orações de seu povo fiel? Vimos orando pelo reavivamento durante trinta ou quarenta anos. Nossas orações têm sido sinceras e urgentes. Temos deplorado o estado das coisas e temos clamado a Deus por causa dessa situação. Mas ainda assim parece que nada acontece. A seme­lhança do profeta Habacuque, muitos pergun­tam: "Até quando clamarei eu, e tu não me escutarás? gritar-te-ei: Violência! e não salvarás?"
Este, porém, não é o único problema da Igreja como um todo; é também a questão com a qual se defrontam muitas pessoas. Há os que, duran­te muitos anos, vêm orando a favor de alguém que lhes é caro, e Deus parece não responder-lhes. Raciocinam consigo mesmos nestes termos: "É, por certo, da vontade de Deus que alguém se torne cristão. Bem, venho orando a favor de um amigo por muitos anos e parece que nada acontece. Por quê? Por que está Deus tão silente?" Muitas vezes as pessoas se impacientam com a demora. Por que Deus não responde às nossas orações? Como podemos entender que um Deus santo permita que sua própria Igreja seja o que é hoje?


B. Suas providências inesperadas
A segunda coisa que descobrimos é que Deus, às vezes, dá respostas inesperadas às nossas orações. Isto, mais do que qualquer outra coisa, foi o que deixou Habacuque perplexo. Por um longo tem­po Deus parece não responder. Então, quando responde, o que diz é mais misterioso até do que sua aparente falha em ouvir as orações. Na mente de Habacuque estava perfeitamente claro que Deus tinha de castigar a nação e depois enviar um grande reavivamento. Mas quando Deus disse: "Estou respondendo à sua oração suscitando o exército caldeu para marchar contra suas cidades e destruí-las", o profeta não conse­guia acreditar no que ouvia. Mas foi o que Deus lhe disse, e o que realmente ocorreu.
João Newton escreveu um poema no qual descreve uma experiência pessoal semelhante. Ele desejava algo melhor em sua vida espiritual. Clamou por um conhecimento mais profundo de Deus. Esperava uma visão maravilhosa de Deus rompendo os céus e descendo com chuvas de bênçãos. Em vez disto, Newton teve uma expe­riência na qual, durante meses, Deus parecia tê-lo entregue a Satanás. Foi tentado e provado além de sua compreensão. Mas afinal chegou a enten­der e viu que aquele era o modo de Deus responder-lhe. Deus havia permitido que o poe­ta descesse às profundezas a fim de ensinar-lhe a depender inteiramente dele. Havendo Newton aprendido a lição, o Senhor tirou-o daquela provação.
Todos nós temos a tendência de prescrever as respostas às nossas orações. Pensamos que Deus pode manifestar-se somente de uma forma. Mas a Bíblia ensina que Deus às vezes responde às nossas orações permitindo que as coisas piorem muito antes que possam melhorar. Ele pode, às vezes, fazer o contrário do que prevemos. Ele pode esmagar-nos, colocando-nos frente a frente com um exército caldeu. Mas é um princípio fundamental na vida e caminhar da fé que, quando tratamos com Deus, devemos estar sem­pre preparados para o inesperado. Gostaria de saber o que nossos pais teriam pensado há quarenta anos se pudessem prever o estado atual da Igreja Cristã. Eles já se sentiam infelizes com o andamento da época. Já estavam realizan­do reuniões de despertamento e buscando a Deus. Se pudessem ver a Igreja de nossos dias, não creriam no que viam. Jamais poderiam ter imaginado que a igreja se afundasse tanto espiri­tualmente. Mas Deus permitiu que isto aconte­cesse. Tem sido uma resposta imprevista. Deve­mos apegar-nos à esperança de que ele tem permitido que as coisas piorem antes que, final­mente, melhorem.

C. Seus instrumentos incomuns
O terceiro aspecto surpreendente dos cami­nhos de Deus é que ele às vezes usa instrumentos estranhos para corrigir sua Igreja e seu povo. Os caldeus, dentre todos os povos, são os que Deus vai suscitar para castigar a Israel! Não se podia imaginar tal coisa. Mas aqui também está um fato evidente em toda a Bíblia. Deus, se assim o quiser, pode usar até mesmo os ímpios caldeus. No curso da história ele tem usado toda sorte de instrumentos estranhos e inesperados para a realização de seus propósitos. Este é um fato pertinente aos nossos dias, pois parece que, segundo a Bíblia, muito do que acontece no mundo agora deve ser examinado nesta luz. Talvez possamos ir além e dizer positivamente que o comunismo, temido por tantos cristãos em nosso tempo, não passa de um instrumento que Deus está usando para lidar com seu próprio povo.
A importância de tudo isto reside no fato que, se não virmos as coisas do modo certo, nossas orações serão erroneamente concebidas e erro­neamente dirigidas. Temos de admitir o verda­deiro estado da Igreja e reconhecer sua iniqüida­de. Devemos entender a possibilidade de que as forças que hoje mais se opõem à Igreja Cristã talvez estejam sendo usadas por Deus para seu próprio propósito. O ensino claro do profeta é que Deus pode usar instrumentos muito estra­nhos, e às vezes o último instrumento que teríamos esperado.


II. Os caminhos de Deus às vezes são mal interpretados

A. Por pessoas religiosas descuidadas
Os caminhos de Deus muitas vezes são estra­nhos e desconcertantes, e a surpresa em face do que ele faz é sentida por muitos. É, antes de tudo, uma questão que causa grande surpresa às pessoas religiosas mais descuidadas. Em Habacuque 1:5, Deus se refere aos ímpios em Israel, aqueles que se haviam tornado descuidados e frouxos. "Vede entre as nações, olhai, maravilhai-vos, e desvanecei, porque realizo em vossos dias obra tal, que vós não crereis, quando vos for contada." A atitude deles era: "Vejam o que esse profeta anda dizendo: que Deus vai usar os caldeus. Como se Deus pudesse fazer tal coisa' Não há perigo; não lhe dêem ouvidos. Os profetas são sempre alarmistas, e nos ameaçam com o mal. Que idéia essa de que Deus há de suscitar um povo como os caldeus para castigar a Israel! Isso é impossível!" A dificuldade de Israel é que o povo não acreditava nos profetas. Mas Deus tratou o povo exatamente como disse que faria.
A atitude que encontramos em Israel é tão antiga quanto à que o povo tinha na época do Dilúvio. Por meio de Noé, Deus advertiu o mundo antigo, do juízo, dizendo: "Não conten­derá o meu Espírito para sempre com o ho­mem". Os homens porém, zombaram dizendo que tal coisa era monstruosa e não poderia acontecer. Deu-se o mesmo com Sodoma e Gomorra. As pessoas despreocupadas nunca poderiam crer que suas cidades seriam destruí­das. Diziam que Deus interviria antes que tal acontecesse, e continuaram em seus caminhos indolentes na esperança de que Deus as livraria sem muita dificuldade para elas. No tempo de Habacuque a atitude era a mesma. Mas aconte­ceu que Deus suscitou os caldeus, e Israel foi atacado e conquistado. A nação foi devastada e levada para o cativeiro.
Encontramos o exemplo mais patente deste princípio no capítulo 13 de Atos, onde o apostolo Paulo cita o quinto versículo do primeiro capítulo de Habacuque aplicando-o aos seus contemporâneos. O que, em realidade, ele de­clara é: "Não, vós não credes, como não creram vossos pais. Visto que Israel não reconheceu o Seu Messias, e até o crucificou, e agora se recusa a crer no evangelho por ele anunciado, Deus vai, afinal, atuar em juízo. Ele vai suscitar o poder romano para saquear e destruir vosso templo, e vós sereis desterrados entre as nações. Sei que não credes nisto, porque o profeta Habacuque já o profetizou, e continuais a ignorar sua mensa­gem." O ano 70 d. C. chegou, inexoravelmente. As legiões romanas cercaram Jerusalém e a destruíram, e os judeus foram espalhados entre as nações, onde permanecem até hoje. É verda­de que os religiosos descuidados nunca crêem nos profetas. Sempre dizem: "Deus nunca fará tais coisas!" Quero, porém, lembrar-lhe que Deus o faz. Ele pode estar usando o comunismo em nosso tempo para castigar seu próprio povo e ensinar-lhe uma lição. Não ousamos, pois, continuar a ser complacentes e indolentes, di­zendo estar fora de cogitação que Deus possa usar tal instrumento. Não devemos permitir ser induzidos ao estado dos que habitam comoda­mente em Sião e não lêem os sinais dos tempos.

B. Pelo mundo
Em segundo lugar, os caminhos de Deus são surpreendentes para o mundo. "Então passam como passa o vento, e seguem; fazem-se culpa­dos esses, cujo poder é o seu deus" (Habacuque 1:11). Os caldeus falharam completamente em compreender que Deus os estava usando, atribuíram todo o êxito alcançado ao seu próprio deus. Pensavam que deviam o sucesso às suas proezas militares, e se vangloriavam do fato Mas Deus logo ia demonstrar-lhes que as coisas não eram assim, e que como ele os havia suscitado, do mesmo modo podia abatê-los. O mundo, mais até do que o próprio povo de Deus, deixa de entender os caminhos divinos. As arrogantes potências, que Deus tem usado para os seus próprios desígnios em várias épocas da história, sempre se orgulharam de suas realizações. O orgulho do mundo moderno pelo progresso científico e pelos sistemas políticos é típico desta situação. Visto como os inimigos da fé cristã vêem a Igreja enlanguescendo-se e eles em ascendência, atribuem esse êxito "ao seu próprio deus". Não compreendem o verdadeiro significado da história. Grandes potências têm-se levantado e conquistado por algum tempo, mas sempre se embriagam com seu próprio sucesso. E, de súbito, chega a sua vez de serem abatidas. O verdadeiro significado da história nunca lhes passa pela cabeça.

C. Pelo próprio profeta
Finalmente, os caminhos de Deus eram desconcertantes até para o próprio profeta. Porém sua reação foi muito diferente da do povo. Ele só queria saber como isto se reconciliaria com a santidade de Deus. Ele exclama: "Até quando, Senhor, clamarei eu, e tu não me escutarás? gritar-te-ei: Violência! e não salvarás? Por que me mostras a iniqüidade,  e me fazes ver a opressão?  Pois a destruição e a violência estão diante de mim; há contendas, e o litígio se suscita."

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Deve ser suficiente estabelecer os seguintes princípios bíblicos gerais por meio de uma res­posta a este problema da história:
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I. A história está sob controle divino
"Pois eis que suscito os caldeus, nação amarga e impetuosa." Deus controla não somente a Israel, mas também seus próprios inimigos, os caldeus. Toda nação da terra está sob a mão divina, porque não há poder neste mundo que, em última instância, não seja por ele controlado. As coisas não são o que aparentam. Parecia que a astuta façanha militar dos caldeus é que os levara a uma posição de ascendência. Mas não foi assim, de maneira alguma, porque Deus é que os suscitara. Deus é o Senhor da história. Ele está sentado nos céus, e as nações são para ele "como gafanhotos, como um pingo que cai dum balde, e como um grão de pó na balança". A Bíblia afirma que Deus está acima de tudo. Ele começou o processo histórico, controla-o, e pôr-lhe-á um fim. Jamais devemos perder de vista este fato decisivo.

II. A história segue um plano divino
As coisas não acontecem por acaso. Os aconte­cimentos não são simplesmente acidentais, por­que há um plano definido da história e tudo foi pré-organizado desde o começo. Deus que "vê o fim desde o princípio" tem um propósito em tudo, e conhece os "tempos ou épocas". Ele sabe quando deve ou não abençoar a Israel. Tudo está em suas mãos. Foi quando veio "a plenitude do tempo" que Deus enviou seu Filho. Ele permitiu que primeiro viessem os grandes filósofos, com sua clarificação do pensamento. Depois surgi­ram os romanos, famosos pelo governo ordena­do, construindo estradas e espalhando seu ma­ravilhoso sistema legal por todo o mundo. Só depois de ter planejado tudo foi que Deus enviou o seu Filho.
Há um propósito na história, e o que acontece em pleno século vinte não é acidental. Lembrando-nos de que a Igreja está no centro do plano de Deus, não nos esqueçamos jamais do orgulho e da arrogância da Igreja no século dezenove. Ei-la reclinando-se na auto-satisfação, desfrutando de seus assim chamados sermões cultos e ministé­rio erudito, sentindo-se um bocadinho envergo­nhada de mencionar coisas tais como conversão e obra do Espírito Santo. Observe o homem próspero da era vitoriana gozando confortavelmente sua adoração. Note sua fé na ciência e sua prontidão em colocar a filosofia no lugar da revelação. Com que constância ele nega o verdadeiro espírito do Novo Testamento! Sim, a igreja necessitava de castigo, e não é muito difícil entender o século vinte quando consideramos a história do século dezenove. Há, deveras, um plano em todas essas coisas.


III. A história segue um horário divino
Deus não se detém para consultar-nos, e tudo ocorre segundo "o conselho da sua vontade”. Deus tem o seu tempo; ele tem seu próprio caminho; ele age e trabalha conseqüentemente.


IV. A história está ligada ao reino divino
A chave da história do mundo é o reino de Deus. A história das demais nações menciona­das rio Antigo Testamento só tem importância quando se relaciona com o destino de Israel. E, em última instância, a história hodierna só tem importância em relação com a história da Igreja Cristã. O que realmente importa no mundo é o reino de Deus. Desde o princípio, desde a queda do homem, Deus vem trabalhando no estabele­cimento de um novo reino no mundo. E o seu próprio reino, e ele está chamando as gentes do mundo para esse reino; e tudo o que acontece no mundo relaciona-se com o reino que ainda está em processo de formação, mas que atingirá sua consumação perfeita. Outros acontecimentos só têm importância em relação com esse evento. Os problemas de nossos dias só devem ser entendi­dos à sua luz. O que Deus permite na Igreja e no mundo hoje está relacionado com seu grande propósito para a Igreja e para o reino.
Não nos desconcertemos, portanto, quando virmos coisas surpreendentes acontecendo no mundo. Antes, perguntemo-nos: "Que relação tem este acontecimento com o reino de Deus?" Ou, se estiverem acontecendo a você coisas estranhas, não se queixe, mas diga: "Que é que Deus está querendo me ensinar com isso? Que há em mim que necessita de correção? Onde errei e por que está Deus permitindo que essas coisas aconteçam?" Não temos por que desnortear-nos e duvidar do amor ou da justiça divina. Se Deus não fosse bondoso bastante e respondesse de imediato a algumas de nossas orações a nosso modo, seríamos cristãos muito pobres Felizmente, às vezes Deus demora para respon­der a fim de eliminar o egoísmo ou coisas que não deveriam fazer parte de nossa vida. Ele está interessado em nós, e tenciona adaptar-nos para uma posição mais plena em seu reino. Devemos portanto, julgar todo acontecimento à luz do grande, eterno e glorioso propósito de Deus.