quinta-feira, 28 de julho de 2011

A GRAÇA DE DEUS

A. W. Pink

Esta perfeição do caráter divino só é exercida em favor dos eleitos. Nem no Velho Testamento nem no Novo jamais se men­ciona a graça de Deus em conexão com a humanidade em geral, e muito menos com as ordens inferiores das Suas criaturas. Nisto a graça se distingue da "misericórdia", pois a misericórdia é "... sobre todas as suas obras1' (Salmo 145:9). A graça é a única fonte da qual fluem a boa vontade, o amor e a salvação de Deus para o Seu povo escolhido. Este atributo do caráter divino foi definido por Abraham Booth em seu proveitoso livro, The Reign of Grace — O Reino da Graça, assim: "É o livre, absoluto e eterno favor de Deus, manifesto na concessão de bênçãos espirituais e eternas a culpados e indignos.
A graça divina é o soberano e salvador favor de Deus exercido na dádiva de bênçãos a pessoas que não têm em si mérito nenhum, e pelas quais não se exige delas nenhuma compensação. Não apenas isso, é ainda mais; é o favor de Deus demonstrado a pessoas que, não só não possuem merecimentos próprios, mas são totalmente merecedoras do inferno. É completamente imere­cida, não é procurada de modo nenhum e não é atraída por nada que haja nos objetos aos quais é dada, por nada que deles pro­venha, e tampouco pelos próprios objetos. A graça não pode ser comprada, nem obtida, nem conquistada pela criatura. Se pudes­se, deixaria de ser graça. Quando dizemos que uma coisa é "de graça", queremos dizer que seu recebedor não tem direitos sobre ela, que de maneira nenhuma ela lhe era devida. Chega-lhe como pura caridade e, a princípio, não solicitada nem desejada.
A mais completa exposição da maravilhosa graça de Deus acha-se nas epístolas do apóstolo Paulo. Em seus escritos "graça" está em direta oposição a obras e merecimento, todas as obras e todo merecimento, de qualquer espécie ou grau. Vê-se isto com muita clareza em Romanos 11:6, na versão utilizada pelo autor: "E se é por graça, já não é pelas obras; de outra maneira, a graça já não é graça. Se é por obras, já não é pela graça; de outra maneira, as obras já não são obras". É tão impossível unir a graça e as obras, como o é unir um ácido e um álcali. "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie (Efésios 2:8-9). O absoluto favor de Deus não pode harmonizar-se com o mérito humano, mais do que o óleo e a água fundir-se num só elemento. Ver também Romanos 4:4-5.
São três às principais características da graça divina: primei­ra, é eterna. A graça foi planejada antes de ser exercida, e fez parte do propósito divino antes de ser infundida: "Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos" (2 Timóteo 1:9). Segunda, é livre, ou gratuita, pois ninguém a pôde comprar jamais: “Sendo justificados gratuitamente pela sua graça..." (Ro­manos 3:24. Terceira, ê soberana, porque Deus a exerce em favor daqueles a quem Lhe apraz, e a estes a concede: "Para que... também a graça reinasse..." (Romanos 5:21). Se a graça "reina", ocupa um trono, e o ocupante do trono é soberano. Daí o "...   trono da graça..." (Hebreus 4:16).
Exatamente porque a graça é um favor imerecido, exerce-se necessariamente de maneira soberana. Portanto, o Senhor declara: "Terei misericórdia" (ou graça) "...de quem eu tiver misericór­dia,..'" (Êxodo 33:19). Se Deus mostrasse graça a todos os des­cendentes de Adão, os homens logo concluiriam que Ele, sendo justo, estava compelido a levá-los para o céu como uma razoável compensação por ter deixado a raça humana cair em pecado. Mas o grande Deus não está sob nenhuma obrigação para com nenhu­ma de Suas criaturas, menos ainda para com os que são rebeldes contra Ele.
A vida eterna é um dom e, portanto, não pode ser obtida pelas boas obras, nem reivindicada como um direito. Vendo que a salvação é um "dom", quem tem direito de dizer a Deus a quem Ele deve doá-lo? Não é que o Doador recusa este dom a qualquer que o busque de todo coração e de acordo com as re­gras que Ele prescreveu. Não; Ele não o recusa a ninguém que O busca de mãos vazias e da maneira determinada por Ele. Mas, se de um mundo impenitente e incrédulo Deus está resolvido a exercer o Seu direito soberano escolhendo um número limitado de pessoas para serem salvas, quem sai prejudicado? Estará Deus obrigado a impor o Seu dom aos que não lhe dão valor? Estará Deus compelido a salvar os que estão determinados a seguir o seu próprio caminho!
Nada, porém, enraivece mais o homem natural e mais con­tribui para trazer à tona a sua inata e inveterada inimizade con­tra Deus, do que insistir com ele sobre a eternidade, a gratuidade e a absoluta soberania da graça divina. Dizer que Deus formou Seu propósito desde a eternidade, sem nenhuma consulta à cria­tura, é demasiadamente humilhante para o coração não quebrantado Dizer que a graça não pode ser adquirida ou conquistada pelos esforços do homem, esvazia demais o ego dos que confiam em sua justiça própria. E o fato de que a graça separa os que ela quer para serem os objetos do seu favor, provoca acalorados protestos  dos  rebeldes  arrogantes.  O  barro se  levanta  contra  o Oleiro e pergunta: "Por que Tu me fizeste assim?'   Um rebelde infrator da lei atreve-se a questionar a justiça da soberania divina. Vê-se a distintiva graça de Deus no ato de salvar aqueles que Ele separou  soberanamente  para  serem os  Seus  favoritos.  Com "distintiva" queremos dizer que a graça discrimina, faz diferenças   escolhe alguns e deixa de lado outros. Foi a distintiva graça de Deus que separou Abraão dentre os seus vizinhos idolatras e fez dele "o amigo de Deus". Foi a distintiva graça que salvou "publicanos e  pecadores", mas disse acerca dos fariseus: Deixai-os"   (Mateus   15:14).  Em parte nenhuma a glória da livre e soberana graça de  Deus  fulge mais conspicuamente  do que na indignidade e diversidade dos que a recebem. Esta verdade foi belamente ilustrada por James Hervey (1751):
"Onde o pecado abundou, diz a proclamação do tribunal do céu superabundou a graça. Manasses foi um monstro cruel, pois fez passar seus próprios filhos pelo fogo, e encheu Jerusalém de sangue inocente. Manasses foi-perito em iniqüidade, pois, não só multiplicou, chegando a extremos extravagantes, as suas impiedades sacrílegas, como também envenenou os princípios e perver­teu os costumes dos seus súditos, fazendo-os agir pior do que os pagãos idolatras mais detestáveis. Veja 2 Crônicas 33. Contudo, através desta super abundante graça, ele se humilhou, mudou de vida, e se tornou um filho do amor que perdoa e um herdeiro da glória imortal.
"Vede Saulo, aquele perseguidor cruel e sanguinário, quan­do, respirando ameaças e disposto à matança, atormentava as ove­lhas de Jesus e levava à morte os Seus discípulos. A devastação que causara e as famílias inofensivas que arruinara, não eram su­ficientes para mitigar o seu espírito vingativo. Eram apenas uma amostra para o paladar que, em vez de saciar a sede de sangue, fizeram-no seguir mais de perto a presa e ansiar mais ardentemente pela destruição. Continuava sedento de violência e morte. Tão ávida e insaciável era sua sede, que chegava a respirar amea­ças e mortes (Atos 9:1). Suas palavras eram verdadeiras lanças e flechas, e a sua língua, uma espada afiada. Para ele, ameaçar os cristãos era tão natural como respirar. Nos propósitos do seu coração rancoroso, eles não paravam de sangrar. Só devido à falta de poder é que cada sílaba que proferia e cada sopro da sua respiração não espalhavam mais mortes nem faziam cair mais discípulos inocentes. Quem, segundo os princípios da justiça hu­mana, não o teria pronunciado vaso da ira, destinado a inevitável condenação? E mais, quem não estaria pronto a concluir que, se houvesse cadeias mais pesadas e masmorra mais triste no mundo das torturas, certamente se reservariam para tão implacável ini­migo da verdadeira religiosidade? Entretanto, admirai e adorai os inexauríveis tesouros da graça — este Saulo é admitido na santa comunhão dos profetas, é enumerado com o nobre exército de mártires e faz distinguida figura no glorioso colégio dos apóstolos.
"Era proverbial a maldade dos coríntios. Alguns deles cha­furdavam em tão abomináveis libertinagens, e estavam habituados a tão ultrajantes atos de injustiça que eram uma infâmia até para a natureza humana. Contudo, até mesmo esses filhos da violência e escravos do sensualismo foram lavados, santificados, justificados (1 Coríntios 6:9-11). "Lavados" no sangue precioso do Redentor que deu Sua vida; "santificados" pelas poderosas operações do bendito Espírito; "justificados" através das misericórdias infini­tamente ternas do Deus da graça. Os que outrora foram um afli­tivo fardo para a terra, vieram a ser o júbilo do céu, o encanto dos anjos".
Agora, a graça de Deus se manifesta no Senhor Jesus Cristo, por Ele e através dEle.-"Porque a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo (João 1:17). Isto não significa que Deus nunca exercera a Sua graça em favor de al­guém antes de encarnar-Se o Seu Filho, Gênesis 6:8; Êxodo 33:19; etc; mostram que a verdade é outra. Mas a graça e a verdade foram plenamente reveladas e perfeitamente exemplifica­das quando o Redentor veio a esta terra e morreu na cruz por Seu povo. Ê somente através de Cristo, o Mediador, que a graça de Deus flui para os Seus eleitos. "Muito mais a graça de Deus e o dom pela graça, que é dum só homem (ou "por um SÓ ho­mem"), Jesus Cristo... muito mais os que recebem a abundância da graça, e o dom da justiça, reinarão em vida por um só — Jesus Cristo ... para que ... também a graça reinasse pela jus­tiça para a vida eterna, por Jesus Cristo nosso Senhor" (Roma­nos 5:15, 17, 21).
A graça de Deus é proclamada no evangelho  (Atos 20:24), o qual é para o judeu confiante em sua justiça própria um "es­cândalo" (ou "pedra de tropeço"), e para o grego presunçoso e filósofo   "loucura". Por quê? Porque não há nada no evangelho que se preste para gratificar o orgulho do homem. Ele anuncia que se não formos salvos pela graça, não seremos salvos de modo nenhum. Ele declara que, fora de Cristo - o Dom inefável da graça de Deus — o estado de todos os homens é desesperador, irremediável, sem esperança. O evangelho trata os homens como criminosos culpados, condenados e mortos. Declara que o mora­lista mais puro está na mesma condição terrível em que se acha o libertino mais  voluptuoso;  que o religioso confesso e zeloso, com todas as suas práticas religiosas, não é melhor do que o mais profano infiel.
O evangelho considera a todo descendente de Adão como pe­cador decaído, corrupto, merecedor do inferno e desvalido. A gra­ça que o evangelho divulga é a sua única esperança. Todos per­manecem diante de Deus como réus sentenciados, transgressores da Sua santa lei, como criminosos culpados e condenados, não a espera de alguma sentença, mas esperando a execução da sentença já passada sobre eles (João 3:18; Romanos 3:19). Queixar-se da parcialidade da graça é suicídio. Se o pecador insiste em que se lhe faça a pura justiça, então o "lago de fogo" terá que ser o seu quinhão eterno. Sua única esperança está em render-se a sen­tença que a justiça divina lhe passou, apropriar-se da retidão abso­luta que a caracteriza, lançar-se à misericórdia de Deus, e esten­der mãos vazias para servir-se da graça de Deus, que agora chegou a conhecer por meio do evangelho.
A terceira pessoa da Deidade é o comunicador da graça  pelo que e denominado "... o Espírito de graça... " (Zacarias 12-10) Deus, o Pai, é a fonte de toda graça, pois Ele em Si mesmo deter­minou a aliança eterna da redenção. Deus, o Filho, é o único canal da graça. O evangelho é o divulgador da graça. O Espírito é o doador. Ele aplica o evangelho com poder salvador à alma vivificando os eleitos enquanto ainda mortos, dominando as suas von­tades rebeldes, amolecendo os seus duros corações,  abrindo-lhes os olhos da sua cegueira, limpando-os da lepra do pecado   Pode­mos assim dizer com G. S. Bishop (já falecido): «A graça é uma provisão para homens que se acham tão decaídos que não podem erguer o machado da justiça, tão corruptos que não podem mudar as suas próprias naturezas, tão contrários a Deus que não podem voltar para Ele, tão cegos que não podem vê-10, tão surdos que não podem ouvi-1O, e tão mortos que Ele mesmo precisa abrir os seus túmulos e levantá-los para a ressurreição".