sexta-feira, 11 de março de 2011

O Homem de Deus (iv)

Silas R. Nogueira

Além disso, Paulo destaca que alguns perigos cercam aqueles que estão “querendo” [os que fazem da aquisição de bens materiais, o alvo e o propósito únicos de sua existência] ser ricos:
(a)  Cair em tentação, v.9a. O tempo do verbo “caem” indica que os que querem ser ricos caem todo o tempo em tentação.  O senso moral dos gananciosos fica ofuscado pela paixão que os domina de modo que se precipitam em tentação.  
(b) Cair em ciladas, v 9b. A palavra “cilada” pode ser traduzida por “laço”. Há muitos laços na riqueza, um deles é colocado no seu pescoço para sufocá-lo, outro é colocado num dos pés para prendê-lo. Deuteronômio 7.25 deixa claro que o desejo pela riqueza é um laço (“para que não te enlaces”, ARA, ARC), captura você e o escraviza. 
(c)  Cair em desejos insensatos, v.9c. o desejo pela riqueza não só escraviza, nos faz agir de modo irracional. A riqueza leva as pessoas a frequentar círculos onde as regras são diferentes, a pressão social é enorme e os valores são totalmente distorcidos.
O resultado final disso é a submersão na ruína e perdição – “as quais afogam os homens na ruína e perdição”. A palavra que Paulo usa aqui para ilustrar o que ocorre com aqueles que buscam a riqueza é a mesma para referir-se a um navio que é arrastado para o fundo do mar. Não é um quadro de devastação parcial, mas de devastação total. Duas palavras ainda chamam nossa atenção, a primeira é “ruina” (gr. olethros) e a segunda é “destruição” (gr. apoleia). Elas são usadas aqui de modo intercambiável. A primeira, algumas vezes é usada com relação à destruição do corpo, a segunda com frequência é ligada à perdição da alma. O uso combinado das duas palavras aqui provavelmente refere-se a perca total do corpo e da alma na ânsia pela riqueza. v.10. Por isso Paulo diz que o “amor ao dinheiro é a raiz de todos os males”. Então exemplifica – “alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitos males”. A busca pela riqueza é uma tarefa autoflagelante da qual o homem de Deus foge. 

continua...

quinta-feira, 10 de março de 2011

O Homem de Deus (iii)

Silas Roberto Nogueira

A piedade sem o contentamento representa um enorme prejuízo para a alma. Somente quando a piedade vem com o contentamento é que ela é verdadeira fonte de lucro, diz Paulo. O homem de Deus deve fugir da piedade desacompanhada do contentamento. A palavra contentamento tem o sentido de suficiência, aquilo que é suficiente em si mesmo. O que Paulo quer dizer aqui é que a piedade deve ser acompanhada de uma satisfação íntima com a situação que Deus, em Sua sempre santa e muito sábia providência, nos determinou. Paulo referiu-se a este contentamento em Filipenses 4.11-13. A memorável frase “tudo posso naquele que me fortalece”, muito usada fora do seu contexto original, trata exatamente desse tipo de contentamento. Em tempos de teologia da prosperidade, Paulo faz uma declaração que causa arrepios e náuseas em alguns pastores, missionários, bispos e apóstolos midiáticos que costumam cruzar os céus em seus jatinhos particulares, vv.7,8:

Porque nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele. Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes.

Tais homens jamais orariam com Agur:
Duas coisas te peço; não mas negues, antes que eu morra: afasta de mim a falsidade (hipocrisia religiosa, leviandade) e a mentira (literalmente: “falar mentira”); não me dês nem a pobreza nem a riqueza; dá-me o pão que me for necessário; para não suceder que, estando eu farto, te negue e diga: Quem é o SENHOR? Ou que, empobrecido, venha a furtar e profane o nome de Deus. (Pv 30.7-9)
 
O autor de Hebreus no cap. 13.5 declara “... contentai-vos com as coisas que tendes”. O contentamento é a jóia rara do cristianismo contemporâneo.

Em segundo lugar o homem de Deus deve fugir da ânsia pela riqueza,vv. 9-10.  O grande mestre de Genebra comenta que Paulo aqui adverte “sobre quão perigoso pode tornar-se um incontrolável anelo” pela riqueza “especialmente entre os ministros da igreja”.  Não é o “desejo” em si que Paulo condena, ele não é um adepto do estoicismo, suas palavras se voltam contra o desejo de ser rico. Literalmente, tais pessoas estão “querendo” ser ricos, isto é, vêem em toda e qualquer oportunidade uma forma de obter lucro. Estão concentrados nisso, são capazes de tudo para obterem aquilo que querem e não se deterão diante de nada e ninguém até que alcancem o seu intento. Esse desejo é maligno e é característico dos falsos mestres (2 Pe 2.3,14), não do homem de Deus. O apóstolo Paulo deixa evidente que o que norteia o seu pensamento quanto às riquezas é o seguinte:  
(a)  Nada levamos deste mundo, v.7. Pode ser que Paulo tenha em mente as palavras de Jó: “nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei...” (1.21; Ecl. 5.14,15). Levaremos para o túmulo tão somente aquilo que somos. A morte deixa evidente o valor transitório das riquezas deste mundo, por isso o Senhor nos ordena ajuntar tesouros no céu, não na terra, Mt  6.20.
(b)  Devemos nos satisfazer com o básico, v.8. A satisfação das necessidades básicas deveria contentar ao cristão. Precisamos de bem menos do que imaginamos. Não é a abundância de recursos que traz alegria, Fp 4.11. O autor de Hebreus exorta: “seja a vossa vida sem avareza. Contentai-vos com as coisas que tendes; porque ele tem dito: de maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei...” (Hb 13.5,6). Precisamos aprender a discernir as nossas necessidades do nosso desejo. 




continua...

segunda-feira, 7 de março de 2011

O Homem de Deus (ii)

Silas Roberto Nogueira

(b) Daquilo que foge

Em segundo lugar, o que se pode dizer sobre o homem de Deus é que ele é, em certo sentido, um fugitivo. Em outras palavras, o homem de Deus é conhecido por aquilo que ele evita, aquilo de que foge. Nosso texto diz “foge destas coisas”. Paulo usou uma palavra cujo sentido é o de buscar segurança pela fuga, ou evitar algo que o põe em perigo. A palavra usada pelo apóstolo é um verbo que está no imperativo presente e isso implica em uma ação contínua, um estilo de vida. O homem de Deus vive em fuga, pois não há uma margem segura, no ministério as tentações e pressões são constantes, ou ele foge ou põe tudo a perder.

A questão é saber especificamente do que o homem de Deus deve fugir. John Gill assinala que a versão árabe traz “dessas abominações”. Paulo apenas diz: “destas coisas” (ARA) ou “de tudo isso” (NVI), tendo coisas bem específicas em mente. O contexto indica que Paulo se refere àquilo que mencionou nos versículos anteriores (v. 3-10).

Primeiramente o homem de Deus deve fugir da piedade sem contentamento, v.6.  Em outras palavras, o homem de Deus não vê a piedade como um meio de promover seus próprios interesses materiais.  Roger L’ Estrange declarou que “aquele que serve a Deus por dinheiro servirá ao diabo por salário melhor”. A marca distintiva dos falsos profetas e falsos mestres é a maneira como se beneficiam da religião para o enriquecimento pessoal. Paulo faz declarações fortes acerca de tais pessoas nos versículos 4,5. A primeira é que eles são “enfatuados”, isto é, orgulhosos (NVI). Tais homens estão tão cheios de si mesmos que não há espaço em seus corações para mais ninguém. O orgulho sempre está por perto daqueles que estão longe de Deus. A segunda declaração de Paulo é que tais pessoas são faltos de entendimento (“nada entende”). Pouco antes, no capítulo 1.6,7, o apóstolo declara que estas pessoas se perdem em discussões inúteis e “pretendendo passar por mestres” não entendem nem mesmo o que dizem, embora suas declarações sejam ousadas. A terceira declaração de Paulo é que tais pessoas são maníacas por debates ou polêmicas.  Não há nenhum fruto positivo dos seus debates, ninguém é instruído, antes é destruído pela inveja, provocações difamações e suspeitas malignas e “altercações (atritos) sem fim” (v.5). A quarta declaração apostólica é que tais pessoas possuem a “mente pervertida” (v.5). A palavra “mente” aqui significa bem mais que a capacidade de raciocinar, refere-se a atitude mental e moral do homem como um todo. Tanto o seu modo de pensar quanto o seu modo de agir são completamente “corrompidos” e isso é o que os leva a agir como mercenários. A quinta declaração diz que tais homens são “privados da verdade”. Eles se deixam privar da verdade pela sua depravação inata e recusam o “pleno conhecimento da verdade” (2.4). Por estarem privados da verdade, sua piedade é desprovida de poder (2 Tm 3.5) e de contentamento (v.6) sendo só uma aparência de piedade.

Continua...