terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A Mortificação do Pecado (V)

Silas Roberto Nogueira

Chegamos agora à questão: como fazê-lo? Há três modos básicos de mortificar o pecado, pelo menos. Dois deles são humanos e um é divino. O primeiro consiste no método católico romano.  Há certas práticas do catolicismo que visam mortificação que podem ser consideradas absolutamente ineficazes, tais como vestir-se com panos de saco, fazer votos, penitências, jejuns, clausura ou autoflagelo. O segundo método consiste no legalismo. Lloyd-Jones referiu-se a esse método como “falso puritanismo”, diz ele:

Esse método pode ser descrito também como “falso puritanismo”. Digo “falso” puritanismo porque na realidade é uma negação dos ensinos do puritanismo. Alguns de nós experimentaram isso em sua vida. Eu, pessoalmente, fui criado nesse tipo de atmosfera. Os nossos mentores não nos ensinaram as grandes doutrinas puritanas; mas nos ensinaram uma espécie de prática puritana, sem dar-nos a doutrina, sem dar-nos a razão, sem dar-nos a verdade. Era um modo de viver imposto a nós com grande rigor, e constituía a principal característica dos não conformistas do fim do século dezenove e do começo do século vinte. Era o tipo de vida no qual você “desprezava os prazeres e vivia dias laboriosos”. Era uma religião sem alegria, uma forma de legalismo, uma tirania em que não havia felicidade, não havia gozo, não havia espírito de exultação. Era uma “religião do medo” que levava à morbidez e à introspecção, e muitas vezes ao desespero. Não passava de puro legalismo, um sistema de vida, um código de ética, um código moral imposto às pessoas de maneira errada. [i]

A crítica de Owen quanto aos métodos romanista e legalista consiste em que, primeiro, eles nunca fizeram parte do propósito de Deus no que diz respeito a esta finalidade e, em segundo lugar, tais métodos não se valem dos meios apontados por Deus de uma maneira adequada. Assim sendo, tanto um método quanto o outro são absolutamente ineficazes, seus adeptos não entenderam o que a Bíblia quis dizer sobre a mortificação dos “feitos do corpo”.

A pergunta que surge então é: qual o método certo quanto à mortificação? A resposta está no texto que temos estudado – “pelo Espírito...”, isto é, Ele é o meio pelo qual posso mortificar os feitos do corpo, o pecado.  Qualquer método que não leve em consideração o Espírito Santo para a mortificação do pecado não será eficaz. Owen assevera que a mortificação é obra que só o Espírito Santo pode efetuar pelas seguintes razões:

1)       Somente Ele convence, de modo claro e pleno, o coração da iniqüidade, da culpa e do perigo da corrupção, da concupiscência ou do pecado a ser mortificado. Sem essa convicção... nenhuma obra eficaz será feita.
2)       Somente o Espírito revela a plenitude de Cristo para nosso alívio, consideração que impede o coração de entrar em caminhos errados e em desânimo desesperador, 2 Co 12:8,9.
3)       Somente o Espírito coloca o coração na expectativa do alívio por parte de Cristo, o grande e soberano meio de mortificação, 2 Co 1:21,22.
4)       Somente o Espírito introduz a cruz de Cristo em nosso coração com seu poder para matar o pecado, pois pelo Espírito somos batizados na morte de Cristo.
5)       O Espírito é o autor e consumador de nossa edificação. Oferece novos suprimentos e influência da graça para a santificação, quando o princípio contrário é enfraquecido e abafado, Ef 3:16-18.
6)       Em todas as orações que a alma dirige a Deus nessa condição, tem apoio do Espírito. De onde vem o poder, a vida e o vigor da oração? De onde vem sua eficácia para prevalecer com Deus? Não provém do Espírito? Ele é o Espírito de súplica prometido aos que contemplam aquele a quem traspassaram (Zc 12:10), que os capacita a orar com gemidos inexprimíveis (Rm 8:26). Este é o grande e reconhecido meio da fé para prevalecer com Deus. Assim Paulo lidou com a tentação, qualquer que fosse “...roguei ao Senhor que o tirasse de mim” ( 2 Co 12:8). [ii]

Continua...

[i] Romanos, pp. 182,183
[ii] A Mortificação do pecado, John Owen, pp. 212-215