quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Fe$tival Prome$$a$

Caro irmão Arsênico...

O Festival Promessas provocou muita discussão na rede. Alguns se manifestaram favoráveis, outros nem tanto. Meu amigo Renato Vargens publicou dois artigos  aqui e aqui que devem ser lidos e considerados. Confesso que realmente fiquei surpreso com algumas manifestações de apreço ao famigerado show por alguns ditos "reformados". Pouca coisa se pode acrescentar ao que já foi dito, mesmo assim arrisco-me a fazer algumas considerações:

1. Posso afirmar que a Bíblia não aprova a adoração a Deus compartilhada (Êx 20.3 com Mt 6.24). O que houve ali naquele show foi adoração compartilhada, especialmente com a autopromoção, que rende alguns milhares de trocados em futuros cachês com outras apresentações. 
2. Posso afirmar que a Bíblia condena a idolatria (Êx 20.4,5). Porventura não são os tais cantores que ali se apresentaram os "ídolos da música gospel"? Eles têm fã clubes, há tietagem, gritos, aplausos, holofotes, tratamento vip, exigências são feitas, etc. O que é isso? Adoração? Não, é idolatria. 
3. Posso afirmar que a Bíblia condena que se tome o santo nome de Deus em vão (Êx 20.7). Não se trata do simples pronunciar do santo nome de Deus, mas o usar tal nome de modo irreverente e com fins escusos. Ali naquele show não havia reverência alguma pelo santo nome do Senhor e os interesses, especialmente os da Globo, deixaram evidente que tudo ali não passou de uma blasfêmia. 

Mas alguns podem afirmar que houve uma abertura para a proclamação do evangelho. Eu respondo: houve uma abertura para a proclamação do evangelho-show. Evangelho-show é outro evangelho, e não há outro evangelho, senão o que a Bíblia anuncia, logo, não houve evangelho nenhum proclamado ali. 

Fraternalmente, 

Silas Roberto Nogueira. 

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

SALVAÇÃO SOMENTE PELA GRAÇA


Charles H. Spurgeon


"Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos" (II Tim. 1:9).

Se quisermos influenciar pessoas intelectuais, devemos usar bons argumentos. Pessoas não muito racionais podem ser influen­ciadas por emoção, sem argumentação alguma. O apóstolo Paulo queria influenciar Timóteo, seu filho na fé. Timóteo era um estudante diligente. Ele tinha habilidade intelectual. Tinha também a graça de Deus. Paulo sentiu que a melhor maneira de influenciar Timóteo era lembrá-lo de verdades da Bíblia nas quais Timóteo já havia crido.
Aqui se encontra uma lição para pregadores. Deve haver equi­líbrio na pregação. É bom e correto os pregadores apelarem aos sentimentos de seus ouvintes. Contudo, o bom ensinamento deve ter uma base firme em verdades bíblicas. É responsabilidade do pregador instruir no entendimento, bem como apelar ao coração. Se as doutrinas da Bíblia não são ensinadas ao homem, ele poderá facilmente se desviar para as falsas doutrinas. O apóstolo disse: "...levados em roda por todo o vento de doutrina" (Ef. 4:14). São as pessoas bem instruídas na verdade bíblica que não serão levadas por falsos ensinamentos.
Paulo quer manter Timóteo fiel à fé. Assim o apóstolo lembra--o que é a excelente doutrina da graça de Deus que rege a salvação do homem. No nosso texto o apóstolo Paulo apresenta um resumo do evangelho. Ele mostra o destaque dado à graça de Deus, a fim de ajudar Timóteo a ser corajoso em seu testemunho por Cristo.
Alguns achavam que verdades doutrinárias eram mera teoria.
Isso não é verdade. O entendimento claro da doutrina é que leva a uma vida santa e prática. A maneira mais garantida de se levar pessoas à obediência e santidade é ensiná-las a verdade de Deus revelada.
Consideraremos primeiramente a doutrina ensinada pelo após­tolo. Em seguida tentaremos mostrar como esse ensinamento deve afetar nossas vidas.

1. Pensaremos cuidadosamente sobre a doutrina ensinada gelo apóstolo, no nosso texto. Não queremos ensinar doutrina só porque é popular. Queremos apenas ensinar o que entendemos ser o significado verdadeiro do texto.
Muitos de vocês podem não gostar da doutrina que pregamos. Talvez possam até se zangar. Não podemos pregar para agradar nossos ouvintes. A aprovação de Deus será suficiente para nós embora pessoas possam nos contradizer. Que toda mente honesta esteja desejosa de receber a verdade da inspirada Palavra de Deus.
(I). O apóstolo expõe sua doutrina nas palavras do nosso texto. Paulo declara que Deus é o autor da salvação: "Quem nós salvou, e chamou". Ele claramente confirma o ensinamento de Jonas de que "... do Senhor vem a salvação" (Jon. 2:9). Salvação pelo homem não se encontra no nosso texto.
O fato de que a salvação é inteiramente do Senhor é muito claro neste texto.
(II). O apóstolo refere-se a todas as pessoas da Trindade. O Pai nos salvou. Deus Pai planejou o caminho da salvação. O pensamento que Cristo deveria sofrer como cabeça federal de Seu povo veio do coração do Pai. Esta mesma verdade é ensinada em outras passagens das Escrituras — I João 5:11, Ef. 1:3-6 e João 16:27.
Além disso, a dádiva de Cristo, o único Filho de Deus, veio do coração compassivo de Deus. Veja João 3:16. Deus, o Pai, esco­lheu pessoas que seriam redimidas. Elas são "chamadas por Seu decreto" (Rom. 8:28). Portanto, o plano de salvação veio da sabedoria e graça de Deus, o Pai.
(III). Oapóstolo não esquece da obra de Cristo, o Filho. Somos salvos através do Filho de Deus. Porventura não é Seu nome Jesus, que significa Salvador? O Filho de Deus nasceu no mundo como homem. Ele viveu uma vida perfeita. Demons­trou na Sua vida a retidão, com a qual o Seu povo se reveste. Por causa da morte cruel de Cristo na cruz o pecador pode ser limpo de seu pecado. O povo de Deus é aceito por meio da vida perfeita e da morte expiatória de Cristo Jesus. Diante do trono eterno o povo de Deus irá cantar: "...Àquele que nos ama, e em Seu sangue nos lavou dos nossos pecados... a Ele glória e poder para todo o sempre. Amém" (Apoc. 1:5-6).
(IV). O apóstolo nos lembra da obra do Espírito Santo, a terceira pessoa na Trindade. O Espírito Santo nos capacita a entender o evangelho. A mente humana por natureza não entende as coisas de Deus. O Espírito Santo influi na nossa vontade. Ele nos tira da nossa condição de rebeldia e ajuda-nos a obedecer à verdade. Acaso não é o Espírito Santo que nos renova? "... criados em Cristo Jesus para as boas obras..." (Ef. 2:10). Não é o Espírito Santo que nos ensina e nos conforta? O Pai planeja, o Filho redime, o Espírito Santo aplica esta redenção aos nossos corações e nós nascemos de novo. Portanto, o Pai, o Filho e o Espírito devem ser referidos como o Deus "que nos salvou".
(V. Dizer que nós nos salvamos a nós mesmos é ridículo. Na Bíblia, somos chamados de "templo santo no Senhor" (Ef. 2.21). O templo não construiu-se a si mesmo. Cremos que Deus, o Pai, foi o arquiteto do templo. Ele planejou, Ele forneceu os materiais de construção e Ele terminará a obra. Não haveria necessidade alguma de um redentor se pudésse­mos salvar a nós mesmos. Mas éramos escravos de Satanás e não tínhamos como por nós mesmos quebrar o poder do pecado que nos aprisionava. Poderia o rebanho de Deus, o qual Cristo tomou das garras do leão, ter se libertado a si mesmo? Não, não podemos acreditar que Cristo veio para fazer o que os pecadores podiam fazer por si mesmos. Podem os mortos por si mesmos se fazerem vivos? Quem pode dizer que Lázaro, morto no túmulo, veio à vida por ele mesmo? Ainda que Lázaro pudesse se ressuscitar dentre os mortos nem assim creríamos que os mortos em pecado pudessem se fazer vivos!
Pecadores salvos pela graça de Deus, tornam-se novas criaturas em Cristo. Como poderia a criação ter feito a si mesma? Se temos uma nova criação, deve ter existido um criador.
E, do ponto de vista espiritual, regeneração é obra inteiramente de Deus, o Espírito Santo. Ninguém ajuda o Espírito Santo na Sua obra de regeneração. A renovação da alma é operação dEle. Nós adoramos o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Reconhecemos que se somos salvos, é porque fomos salvos exclusivamente por Deus. A Deus seja toda a glória!
2. Quero dizer três coisas sobre a maneira pela qual Deus nos salvou.
(I) . Nossa salvação é completa. O apóstolo diz: "Que nos salvou". Crentes em Jesus Cristo são salvos no momento que colocam sua confiança em Cristo. Eles não esperam que sejam salvos. Deus salvou completamente Seu povo. Ele o escolheu para esta salvação. O preço total da salvação desses pecadores escolhidos por Deus foi pago quando Cristo morreu por eles na cruz. Cristo disse quando pendurado na cruz: "Está consu­mado" (João 19:30). Estávamos completamente perdidos por causa da desobediência de Adão. Fomos completamente salvos quando Cristo, o segundo Adão, terminou Sua obra redentora por nós.
(II). Meu segundo pensamento é que o texto diz: "Que nos salvou, e chamou". Será que Deus nos salvou antes de nos chamar? O texto diz que Ele assim o fez. Não sabemos que somos salvos até que o Espírito Santo opere em nossos corações, trazendo-nos a Cristo. Entretanto, no propósito de Deus e na redenção de Cristo, somos salvos antes de sermos chamados. O Senhor Jesus Cristo pagou as dívidas do Seu povo quando foi crucificado. Por conseguinte, vocês podem ver que fomos salvos antes de sermos chamados.
(III). Deus nos chamou para uma vida santa. Aqueles pecado­res pelos quais Cristo morreu são chamados pelo poder do Espírito Santo à santidade. Eles deixam seus pecados; tentam ser como Cristo. Antes de serem salvos amavam o pecado. A velha natureza deles amava tudo que era maligno. A sua nova natureza não pode pecar porque é nascida de Deus. Deus chama Seu povo à santidade. O povo de Deus não é santo porque quer que Deus o salve. Deus, através do Espírito Santo, opera a santidade nele. Portanto, o belo fruto espiritual que vemos num crente tanto é a obra de Deus quanto é o resultado da expiação pela qual Cristo o comprou. A salvação de um crente é unicamente pela graça. Deus é o autor dessa graça. Salvação tem que ser pela graça, pois não pode ser adquirida. A seqüência verdadeira é: Deus nos salvou antes de nos chamar. Esta ordem mostra que nossa santificação não é a causa, e sim o efeito, da nossa salvação.
3. Em nosso texto, o apóstolo diz: "não segundo as nossas obras". A atitude do mundo é: "Faça o melhor que puder e Deus o abençoará". A pregação do evangelho afirma que somos pecadores perdidos. Só merecemos ser condenados por Deus. Se haveremos de ser salvos, isso só será possível pela graça soberana de Deus. Ele tem que nos amar voluntariamente ou iremos para o inferno. Nossas próprias boas obras jamais podem nos salvar. Se boas obras pudessem nos salvar, a salvação não seria pela graça e sim pelas obras. Deus afirmou muitas vezes em Sua Palavra: "Não vem das obras, para que ninguém se glorie" (Ef. 2:9).
Na Epístola aos Gálatas, o apóstolo é bem resoluto a este respeito. "O homem não é justificado pelas obras da lei" (Gal. 2:16). Jesus Cristo é o "autor e consumador da nossa fé" (Heb. 12:2). Pecadores devem receber a livre salvação das mãos da graça divina ou devem obtê-la por seus próprios esforços. E impossível merecer salvação; há somente o caminho da graça. Nós só podemos ser "justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus" (Rom. 3:24).
Por que Deus fez a salvação possível somente através da fé? A Bíblia nos diz: "Portanto é pela fé, para que seja segundo a graça" (Rom.. 4:16). Não há mérito algum na fé. Fé é dom de Deus. Nossa salvação depende inteiramente da graça.
4. A próxima coisa a ser mencionada no nosso texto, é o propósito eterno de Deus. Quando somos salvos, não é de acordo com nosso propósito ou mérito, porém "segundo seu próprio propósito". "Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece" (Rom. 9:16). O que Cristo disse a Seus discípulos, Ele diz a nós: "Não me escolheste vós a mim, mas eu vos escolhi" (João 15:16). O ensino de Cristo é que "não quereis vir a mim para terdes vida eterna"(João5:40). Vocês não virão; vocês não podem vir, até que a Sua graça os traga.
"Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou o não trouxer" (João 6:44). "Todo o que o Paime dá virá a mim" (João 6:37). Estas passagens concordam com nosso texto.
Por que existem pessoas tão iradas contra o propósito de Deus? A nós, seres humanos, é permitido termos propósitos. Por que então Deus não pode ter um propósito? De fato, Ele tem um propósito! Ele governa no céu e na terra. Ele salva Seu povo "segundo seu próprio propósito".
5. Nosso texto diz: "seu próprio propósito e graça". O propósito de Deus está todo fundamentado na graça; graça, tudo baseado na Sua graça, do começo ao fim. Os homens são pecadores condena­dos. Mas eles geralmente querem fazer algo para merecerem seu próprio perdão. Deus afirma que um pecador não tem como ser salvo dessa maneira. Deus está disposto a recebê-lo, fraco e indigno, como você o é. Ele lhe dará salvação, todavia não pode vendê-la a você. A salvação de Deus é pela graça. Ele o convida sinceramente a vir a Cristo e a viver. No entanto, você jamais poderá vir, a não ser que o Espírito Santo o faça disposto a aceitar a misericórdia de Deus.
(I) . Salvação é referida na Bíblia como uma dádiva. "Graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos" (2 Tim. 1:9). Isto deveria nos manter humildes. Não podemos ser orgulhosos de algo que nos foi doado. O texto não nos diz: "a qual Ele nos vendeu", ou "nos propôs", mas "a qual nos foi dada". Portanto, nossa salvação é exclusivamente o dom da graça de Deus.
(II) . "Nos foi dada em Cristo Jesus". A graça de Deus vem a nós através de Cristo Jesus. Paulo afirma: "Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo" (Gal. 6:14). Salvação é um dom da graça.
(III) . Deus nos deu esta graça "antes dos tempos dos séculos". Deus vivia sozinho antes do mundo começar. Nós ainda não existíamos, portanto não podíamos fazer nada pela nossa salvação. Deus já reinava então, assim como Ele reina agora. Ele não tomou conselho de homem ou anjo porque nada até então havia sido criado. Ele nos deu salvação antes da funda­ção do mundo para que a nossa salvação pudesse ser totalmen­te pela graça, através de Jesus Cristo.
Você, meu amigo, pode não gostar do ensino do texto, mas creio que dei o verdadeiro significado dele. Peço que aceite o que Deus diz.
6. Vou tentar agora mostrar como o ensinamento deste texto pode ser usado por nós. Ele pode afetar a nossa maneira de viver. Creio que a doutrina da graça é tão cheia de poder hoje quanto no passado. Ela dá coragem ao homem que a recebe. Paulo exorta a Timóteo que não deve envergonhar-se. Deus lhe deu graça em Cristo Jesus antes da fundação do mundo.
(I). Um homem pode ser muito pobre em bens materiais. Este mesmo homem pode ser rico espiritualmente se ele conhece a graça de Deus. O nome de uma pessoa pode não estar nos livros de história do mundo, entretanto o nome do crente foi registrado no livro de Deus antes do início dos tempos. O homem que nisso crer será forte quando tiver que travar a batalha do Senhor. Os que crêem na livre graça de Deus têm confiança. Não têm medo. Eles sabem no que crêem. Até nossas crianças, às quais são ensinadas as doutri­nas da graça, sabem mais do que muitos adultos. Muitos não sabem no que crêem, pois eles ouvem pregações que não os ensinam realmente a verdade de Deus. Se uma pessoa recebeu as doutrinas da graça ela se apegará firmemente a elas. As doutrinas serão muito queridas a essa pessoa, e ela estará preparada a morrer pelas verdades que crê.
(II). Estas doutrinas da graça dão ao homem algo em que se segurar. Por outro lado, as doutrinas da graça seguram o homem! A pessoa que crê que a salvação vem de Deus e não do homem jamais abandonará este ensinamento. Todas as outras doutrinas são como chão escorregadio onde alguém pode facilmente cair. Se a salvação é por esforço humano, como pode você saber se seu esforço é suficiente? Se você tiver seus pés firmes nas doutrinas da graça não precisa ter medo de cair. Este fundamento é bem firme e o suportará. Apeguemo-nos firmemente à verdade do propósito eterno de Deus em Cristo Jesus antes do início dos tempos.
(III). Este ensinamento da doutrina da graça desmascara os falsos ensinamentos. Se dissermos às pessoas que elas são salvas por Deus, verão que não precisam de padres, missas e absolvições. A doutrina da graça é a verdade que Deus usa para sacudir os portões do inferno. Nos tempos quando a Igreja de Deus foi perseguida, os cristãos arriscaram suas vidas para ouvir esta verdade. Quando não era permitido que os cristãos se encontrassem em igrejas, eles se encontravam à noite em lugares secretos. Não tinham medo desde que pudes­sem ouvir a doutrina da graça de Deus. Eles correriam o risco de serem mortos se tão-somente pudessem ser alimentados pela pregação desta doutrina, a qual amavam. Quando o erro é pregado em tantos lugares, isto deve ser contra-atacado pela pregação das doutrinas da graça. Os inimigos de Deus não serão capazes de resistir a estas verdades.
(IV). Quando essas verdades são escritas no coração do ho­mem, elas farão com que ele busque a Deus. Ele saberá que Deus o salvou e passará a vida seguindo a Deus. Ele verá a mão de Deus em tudo. Ele adorará o Deus que já fez e continua a fazer tanto por ele. Ao mesmo tempo, esta doutrina faz com que o homem despreze a si mesmo. Ele sabe que não tem em si mesmo justiça nenhuma. Ele sabe que somente Deus o pode salvar. Ele se sente pequenino, mas contente. Ele se mantém humilde diante do propiciatório de Deus. Mas ele é ousado quando outros se opõem a ele. Que todos nós possamos conhecer o imenso poder que há na verdade da graça de Deus.
(V) . Esta preciosa verdade traz conforto ao pecador. O maior conforto do pecador é saber que a salvação é pela graça. Se os homens fossem salvos por mérito, por boas obras, aonde estaria você? E aonde estariam os bêbados, os blasfemadores e os impuros? Aqueles entre vocês que amaldiçoam a Deus em seus corações e não O amam, aonde estariam? Quando a salvação é inteiramente pela graça, sua vida passada, por mais impura que tenha sido, não é motivo para detê-lo de vir a Jesus. Cristo recebe pecadores. Deus escolheu alguns dos piores pecadores. Por que não então você? Ele recebe a todos que vêm a Ele. Ele não o lançará fora. Alguns chegaram a odiar a Cristo. Eles O insultaram frontalmente. Mas tão logo que eles clamaram: "Deus, tem piedade de mim, um pecador!" Ele teve misericórdia deles. Ele terá misericórdia de você, se o Espírito Santo o guiar a buscar misericórdia. Não haveria esperança alguma para você se me fosse necessário lhe dizer que você precisa conquistar sua própria salvação à parte da graça.
Contudo, a salvação é pela graça. Se você está morto em pecados, existe vida para você. Se você está nu, existe vestimenta para você. Se você se sente arruinado, existe salvação completa para você. Que você tenha a graça para se apoderar da salvação de Deus.
Então, você e eu cantaremos juntos os louvores da glória da graça divina.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A SINGULARIDADE DOS CAMINHOS DE DEUS


Dr. David Martyn Lloyd-Jones
Ministro por 30 anos da Westminster Chapel, Inglaterra.


Habacuque 1:1-11


A mensagem de Habacuque é de urgente necessidade nestes dias em que tantos vivem perplexos por este problema da história. Come­çamos, portanto, com duas declarações de fato:

I. Os caminhos de Deus às vezes são misterio­sos

A. Sua inação
A primeira coisa que descobrimos quando estudamos as ações de Deus é que pode parecer que ele esteja estranhamente silencioso e inativo em cir­cunstâncias provocativas. Por que Deus permite que certas coisas aconteçam? Por que a Igreja Cristã é o que é hoje? Veja sua história no decurso dos últimos quarenta ou cinqüenta anos. Por que permitiu Deus tais condições? Por que permitiu que surgisse o "modernismo", que solapa a fé e até nega suas verdades fundamentais? Por que ele não fere de morte essas pessoas quando proferem blasfêmias e negam a fé que deveriam pregar? Por que permite ele que se façam tantas coisas erradas até mesmo em seu nome?
Também, por que Deus não respondeu às orações de seu povo fiel? Vimos orando pelo reavivamento durante trinta ou quarenta anos. Nossas orações têm sido sinceras e urgentes. Temos deplorado o estado das coisas e temos clamado a Deus por causa dessa situação. Mas ainda assim parece que nada acontece. A seme­lhança do profeta Habacuque, muitos pergun­tam: "Até quando clamarei eu, e tu não me escutarás? gritar-te-ei: Violência! e não salvarás?"
Este, porém, não é o único problema da Igreja como um todo; é também a questão com a qual se defrontam muitas pessoas. Há os que, duran­te muitos anos, vêm orando a favor de alguém que lhes é caro, e Deus parece não responder-lhes. Raciocinam consigo mesmos nestes termos: "É, por certo, da vontade de Deus que alguém se torne cristão. Bem, venho orando a favor de um amigo por muitos anos e parece que nada acontece. Por quê? Por que está Deus tão silente?" Muitas vezes as pessoas se impacientam com a demora. Por que Deus não responde às nossas orações? Como podemos entender que um Deus santo permita que sua própria Igreja seja o que é hoje?


B. Suas providências inesperadas
A segunda coisa que descobrimos é que Deus, às vezes, dá respostas inesperadas às nossas orações. Isto, mais do que qualquer outra coisa, foi o que deixou Habacuque perplexo. Por um longo tem­po Deus parece não responder. Então, quando responde, o que diz é mais misterioso até do que sua aparente falha em ouvir as orações. Na mente de Habacuque estava perfeitamente claro que Deus tinha de castigar a nação e depois enviar um grande reavivamento. Mas quando Deus disse: "Estou respondendo à sua oração suscitando o exército caldeu para marchar contra suas cidades e destruí-las", o profeta não conse­guia acreditar no que ouvia. Mas foi o que Deus lhe disse, e o que realmente ocorreu.
João Newton escreveu um poema no qual descreve uma experiência pessoal semelhante. Ele desejava algo melhor em sua vida espiritual. Clamou por um conhecimento mais profundo de Deus. Esperava uma visão maravilhosa de Deus rompendo os céus e descendo com chuvas de bênçãos. Em vez disto, Newton teve uma expe­riência na qual, durante meses, Deus parecia tê-lo entregue a Satanás. Foi tentado e provado além de sua compreensão. Mas afinal chegou a enten­der e viu que aquele era o modo de Deus responder-lhe. Deus havia permitido que o poe­ta descesse às profundezas a fim de ensinar-lhe a depender inteiramente dele. Havendo Newton aprendido a lição, o Senhor tirou-o daquela provação.
Todos nós temos a tendência de prescrever as respostas às nossas orações. Pensamos que Deus pode manifestar-se somente de uma forma. Mas a Bíblia ensina que Deus às vezes responde às nossas orações permitindo que as coisas piorem muito antes que possam melhorar. Ele pode, às vezes, fazer o contrário do que prevemos. Ele pode esmagar-nos, colocando-nos frente a frente com um exército caldeu. Mas é um princípio fundamental na vida e caminhar da fé que, quando tratamos com Deus, devemos estar sem­pre preparados para o inesperado. Gostaria de saber o que nossos pais teriam pensado há quarenta anos se pudessem prever o estado atual da Igreja Cristã. Eles já se sentiam infelizes com o andamento da época. Já estavam realizan­do reuniões de despertamento e buscando a Deus. Se pudessem ver a Igreja de nossos dias, não creriam no que viam. Jamais poderiam ter imaginado que a igreja se afundasse tanto espiri­tualmente. Mas Deus permitiu que isto aconte­cesse. Tem sido uma resposta imprevista. Deve­mos apegar-nos à esperança de que ele tem permitido que as coisas piorem antes que, final­mente, melhorem.

C. Seus instrumentos incomuns
O terceiro aspecto surpreendente dos cami­nhos de Deus é que ele às vezes usa instrumentos estranhos para corrigir sua Igreja e seu povo. Os caldeus, dentre todos os povos, são os que Deus vai suscitar para castigar a Israel! Não se podia imaginar tal coisa. Mas aqui também está um fato evidente em toda a Bíblia. Deus, se assim o quiser, pode usar até mesmo os ímpios caldeus. No curso da história ele tem usado toda sorte de instrumentos estranhos e inesperados para a realização de seus propósitos. Este é um fato pertinente aos nossos dias, pois parece que, segundo a Bíblia, muito do que acontece no mundo agora deve ser examinado nesta luz. Talvez possamos ir além e dizer positivamente que o comunismo, temido por tantos cristãos em nosso tempo, não passa de um instrumento que Deus está usando para lidar com seu próprio povo.
A importância de tudo isto reside no fato que, se não virmos as coisas do modo certo, nossas orações serão erroneamente concebidas e erro­neamente dirigidas. Temos de admitir o verda­deiro estado da Igreja e reconhecer sua iniqüida­de. Devemos entender a possibilidade de que as forças que hoje mais se opõem à Igreja Cristã talvez estejam sendo usadas por Deus para seu próprio propósito. O ensino claro do profeta é que Deus pode usar instrumentos muito estra­nhos, e às vezes o último instrumento que teríamos esperado.


II. Os caminhos de Deus às vezes são mal interpretados

A. Por pessoas religiosas descuidadas
Os caminhos de Deus muitas vezes são estra­nhos e desconcertantes, e a surpresa em face do que ele faz é sentida por muitos. É, antes de tudo, uma questão que causa grande surpresa às pessoas religiosas mais descuidadas. Em Habacuque 1:5, Deus se refere aos ímpios em Israel, aqueles que se haviam tornado descuidados e frouxos. "Vede entre as nações, olhai, maravilhai-vos, e desvanecei, porque realizo em vossos dias obra tal, que vós não crereis, quando vos for contada." A atitude deles era: "Vejam o que esse profeta anda dizendo: que Deus vai usar os caldeus. Como se Deus pudesse fazer tal coisa' Não há perigo; não lhe dêem ouvidos. Os profetas são sempre alarmistas, e nos ameaçam com o mal. Que idéia essa de que Deus há de suscitar um povo como os caldeus para castigar a Israel! Isso é impossível!" A dificuldade de Israel é que o povo não acreditava nos profetas. Mas Deus tratou o povo exatamente como disse que faria.
A atitude que encontramos em Israel é tão antiga quanto à que o povo tinha na época do Dilúvio. Por meio de Noé, Deus advertiu o mundo antigo, do juízo, dizendo: "Não conten­derá o meu Espírito para sempre com o ho­mem". Os homens porém, zombaram dizendo que tal coisa era monstruosa e não poderia acontecer. Deu-se o mesmo com Sodoma e Gomorra. As pessoas despreocupadas nunca poderiam crer que suas cidades seriam destruí­das. Diziam que Deus interviria antes que tal acontecesse, e continuaram em seus caminhos indolentes na esperança de que Deus as livraria sem muita dificuldade para elas. No tempo de Habacuque a atitude era a mesma. Mas aconte­ceu que Deus suscitou os caldeus, e Israel foi atacado e conquistado. A nação foi devastada e levada para o cativeiro.
Encontramos o exemplo mais patente deste princípio no capítulo 13 de Atos, onde o apostolo Paulo cita o quinto versículo do primeiro capítulo de Habacuque aplicando-o aos seus contemporâneos. O que, em realidade, ele de­clara é: "Não, vós não credes, como não creram vossos pais. Visto que Israel não reconheceu o Seu Messias, e até o crucificou, e agora se recusa a crer no evangelho por ele anunciado, Deus vai, afinal, atuar em juízo. Ele vai suscitar o poder romano para saquear e destruir vosso templo, e vós sereis desterrados entre as nações. Sei que não credes nisto, porque o profeta Habacuque já o profetizou, e continuais a ignorar sua mensa­gem." O ano 70 d. C. chegou, inexoravelmente. As legiões romanas cercaram Jerusalém e a destruíram, e os judeus foram espalhados entre as nações, onde permanecem até hoje. É verda­de que os religiosos descuidados nunca crêem nos profetas. Sempre dizem: "Deus nunca fará tais coisas!" Quero, porém, lembrar-lhe que Deus o faz. Ele pode estar usando o comunismo em nosso tempo para castigar seu próprio povo e ensinar-lhe uma lição. Não ousamos, pois, continuar a ser complacentes e indolentes, di­zendo estar fora de cogitação que Deus possa usar tal instrumento. Não devemos permitir ser induzidos ao estado dos que habitam comoda­mente em Sião e não lêem os sinais dos tempos.

B. Pelo mundo
Em segundo lugar, os caminhos de Deus são surpreendentes para o mundo. "Então passam como passa o vento, e seguem; fazem-se culpa­dos esses, cujo poder é o seu deus" (Habacuque 1:11). Os caldeus falharam completamente em compreender que Deus os estava usando, atribuíram todo o êxito alcançado ao seu próprio deus. Pensavam que deviam o sucesso às suas proezas militares, e se vangloriavam do fato Mas Deus logo ia demonstrar-lhes que as coisas não eram assim, e que como ele os havia suscitado, do mesmo modo podia abatê-los. O mundo, mais até do que o próprio povo de Deus, deixa de entender os caminhos divinos. As arrogantes potências, que Deus tem usado para os seus próprios desígnios em várias épocas da história, sempre se orgulharam de suas realizações. O orgulho do mundo moderno pelo progresso científico e pelos sistemas políticos é típico desta situação. Visto como os inimigos da fé cristã vêem a Igreja enlanguescendo-se e eles em ascendência, atribuem esse êxito "ao seu próprio deus". Não compreendem o verdadeiro significado da história. Grandes potências têm-se levantado e conquistado por algum tempo, mas sempre se embriagam com seu próprio sucesso. E, de súbito, chega a sua vez de serem abatidas. O verdadeiro significado da história nunca lhes passa pela cabeça.

C. Pelo próprio profeta
Finalmente, os caminhos de Deus eram desconcertantes até para o próprio profeta. Porém sua reação foi muito diferente da do povo. Ele só queria saber como isto se reconciliaria com a santidade de Deus. Ele exclama: "Até quando, Senhor, clamarei eu, e tu não me escutarás? gritar-te-ei: Violência! e não salvarás? Por que me mostras a iniqüidade,  e me fazes ver a opressão?  Pois a destruição e a violência estão diante de mim; há contendas, e o litígio se suscita."

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Deve ser suficiente estabelecer os seguintes princípios bíblicos gerais por meio de uma res­posta a este problema da história:
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I. A história está sob controle divino
"Pois eis que suscito os caldeus, nação amarga e impetuosa." Deus controla não somente a Israel, mas também seus próprios inimigos, os caldeus. Toda nação da terra está sob a mão divina, porque não há poder neste mundo que, em última instância, não seja por ele controlado. As coisas não são o que aparentam. Parecia que a astuta façanha militar dos caldeus é que os levara a uma posição de ascendência. Mas não foi assim, de maneira alguma, porque Deus é que os suscitara. Deus é o Senhor da história. Ele está sentado nos céus, e as nações são para ele "como gafanhotos, como um pingo que cai dum balde, e como um grão de pó na balança". A Bíblia afirma que Deus está acima de tudo. Ele começou o processo histórico, controla-o, e pôr-lhe-á um fim. Jamais devemos perder de vista este fato decisivo.

II. A história segue um plano divino
As coisas não acontecem por acaso. Os aconte­cimentos não são simplesmente acidentais, por­que há um plano definido da história e tudo foi pré-organizado desde o começo. Deus que "vê o fim desde o princípio" tem um propósito em tudo, e conhece os "tempos ou épocas". Ele sabe quando deve ou não abençoar a Israel. Tudo está em suas mãos. Foi quando veio "a plenitude do tempo" que Deus enviou seu Filho. Ele permitiu que primeiro viessem os grandes filósofos, com sua clarificação do pensamento. Depois surgi­ram os romanos, famosos pelo governo ordena­do, construindo estradas e espalhando seu ma­ravilhoso sistema legal por todo o mundo. Só depois de ter planejado tudo foi que Deus enviou o seu Filho.
Há um propósito na história, e o que acontece em pleno século vinte não é acidental. Lembrando-nos de que a Igreja está no centro do plano de Deus, não nos esqueçamos jamais do orgulho e da arrogância da Igreja no século dezenove. Ei-la reclinando-se na auto-satisfação, desfrutando de seus assim chamados sermões cultos e ministé­rio erudito, sentindo-se um bocadinho envergo­nhada de mencionar coisas tais como conversão e obra do Espírito Santo. Observe o homem próspero da era vitoriana gozando confortavelmente sua adoração. Note sua fé na ciência e sua prontidão em colocar a filosofia no lugar da revelação. Com que constância ele nega o verdadeiro espírito do Novo Testamento! Sim, a igreja necessitava de castigo, e não é muito difícil entender o século vinte quando consideramos a história do século dezenove. Há, deveras, um plano em todas essas coisas.


III. A história segue um horário divino
Deus não se detém para consultar-nos, e tudo ocorre segundo "o conselho da sua vontade”. Deus tem o seu tempo; ele tem seu próprio caminho; ele age e trabalha conseqüentemente.


IV. A história está ligada ao reino divino
A chave da história do mundo é o reino de Deus. A história das demais nações menciona­das rio Antigo Testamento só tem importância quando se relaciona com o destino de Israel. E, em última instância, a história hodierna só tem importância em relação com a história da Igreja Cristã. O que realmente importa no mundo é o reino de Deus. Desde o princípio, desde a queda do homem, Deus vem trabalhando no estabele­cimento de um novo reino no mundo. E o seu próprio reino, e ele está chamando as gentes do mundo para esse reino; e tudo o que acontece no mundo relaciona-se com o reino que ainda está em processo de formação, mas que atingirá sua consumação perfeita. Outros acontecimentos só têm importância em relação com esse evento. Os problemas de nossos dias só devem ser entendi­dos à sua luz. O que Deus permite na Igreja e no mundo hoje está relacionado com seu grande propósito para a Igreja e para o reino.
Não nos desconcertemos, portanto, quando virmos coisas surpreendentes acontecendo no mundo. Antes, perguntemo-nos: "Que relação tem este acontecimento com o reino de Deus?" Ou, se estiverem acontecendo a você coisas estranhas, não se queixe, mas diga: "Que é que Deus está querendo me ensinar com isso? Que há em mim que necessita de correção? Onde errei e por que está Deus permitindo que essas coisas aconteçam?" Não temos por que desnortear-nos e duvidar do amor ou da justiça divina. Se Deus não fosse bondoso bastante e respondesse de imediato a algumas de nossas orações a nosso modo, seríamos cristãos muito pobres Felizmente, às vezes Deus demora para respon­der a fim de eliminar o egoísmo ou coisas que não deveriam fazer parte de nossa vida. Ele está interessado em nós, e tenciona adaptar-nos para uma posição mais plena em seu reino. Devemos portanto, julgar todo acontecimento à luz do grande, eterno e glorioso propósito de Deus.


segunda-feira, 21 de novembro de 2011

DEUS LUTA COM JACÓ

Silas Roberto Nogueira

(De uma série de mensagens em Gênesis)

Texto: Gênesis 32

Jacó está retornando à sua terra natal após vinte anos e terá que enfrentar as consequências das suas antigas escolhas. O momento crucial na vida de Jacó não está no seu encontro com Esaú, mas no seu encontro com Deus. Depois deste encontro transformador, Jacó estará apto a encontrar seu irmão Esaú. Vejamos algumas lições deste trecho das Escrituras.

A PROVIDÊNCIA DE DEUS, Gn 32.1,2
Do mesmo modo como os anjos apareceram a Jacó por ocasião de sua viagem para o exílio, aqui também o Senhor envia graciosamente seus anjos para certificá-lo da protetora presença divina em face da ameaçadora presença de Esaú. Os anjos (“anjos de Deus” – hb. mal’ak ‘elohin, lit. mensageiros de Deus) a Bíblia não nos oferece uma definição do que são os anjos, contudo revela a sua natureza e função – “espíritos ministradores” (Hb 1:14). Os anjos são “espíritos”, isto é, seres espirituais e morais (2 Pe 2:4), isto é, há anjos bons e maus (geralmente denominados “demônios” ou “espíritos maus”). Os anjos bons atuam como ministros da parte de Deus “para o serviço” a favor dos que “hão de herdar a salvação”. O termo “Maanaim” – lit. significa “acampamento, exército ou dois campos” – o que parece é que Jacó visualizou, por um lado, o exército do Senhor e, por outro, o ajuntamento indefeso que lavava consigo (v.5). O relato aqui nos remete à cena de Eliseu, 2 Rs 6:8-23. Há uma diferença entre os anjos referidos aqui e Aquele que entra em luta corporal com Jacó, mais tarde. Esse último, embora também chamado “anjo” (Os. 12.4) é identificado como Deus, v.30 e Os. 12.3. Como nenhum anjo da Bíblia é identificado como sendo Deus a não ser o “anjo de Jeová”, parece que aqui este é o caso. O “anjo de Jeová” é uma manifestação de Cristo pré-encarnado.           
                                                                                                                                                                                                                                  
Embora os anjos de Deus tenham aparecido a Jacó como uma prova da proteção divina, ele se sentia inseguro quanto ao que poderia ocorrer no seu encontro com Esaú. Jacó ainda não aprendera a confiar totalmente em Deus.

A ESTRATÉGIA DE JACÓ, vv.3-8
Ao pensar no encontro com Esaú, o pânico se apoderou de Jacó e trouxe-lhe à memória recordações do que havia feito a seu irmão. Outra vez o velho manipulador vem à tona. Jacó estabelece uma estratégia para proteger-se de Esaú. Carlos Osvaldo comenta “a reação de Jacó à aparente ameaça de vingança por parte de Esaú revela uma fé ainda fraca e atormentada pela tendência de recorrer ao suborno e ao engano para alcançar seus objetivos”.

Primeiro Jacó envia mensageiros com um discurso pronto, v. 3-5. Ao anunciar a Esaú tudo o que possuía, Jacó intencionava persuadir Esaú de que o Senhor o tinha abençoado de modo inteiramente à parte daquela bênção que ele havia, tão sutilmente, tomado do irmão mais velho. É como se dissesse que a usurpação não lhe valera de nada.

Em segundo lugar Jacó usa de uma linguagem cortês, note – “meu senhor Esaú”, v.4,5. Ao enviar mensageiros, Jacó esperava “achar favor” (LXX, gr charis) aos olhos de Esaú, v.5. Contudo, ao retornarem os mensageiros sem uma resposta por parte de Esaú e ainda dizendo que ele vem ao encontro de Jacó com um pequeno exército (v. 6) é para ele um forte indicativo que não obteve aquilo que esperava v.7. O texto diz que Jacó ficou tomado de medo e muito consternado. O hebraico descreve Jacó como alguém que está excessivamente amedrontado e angustiado. Na sua oração Jacó revela o seu temor de que seu irmão viesse a mata-lo e aos seus (v.11). Mais tarde, em Betel, Jacó refere-se a esse momento como tempo de “angústia”, mas usa outro termo que quer dizer “adversidade” ou “tribulação”, 35.3.  . Assim, se a primeira estratégia falha, Jacó, sempre cheio de recursos emprega outra estratégia. O plano “b” é posto em prática.

Em terceiro lugar ele divide aqueles que estão com ele em dois bandos, v. 7. Pensava Jacó que se Esaú desse sobre eles, mataria o primeiro grupo e quando chegasse ao segundo, sua ira já estaria aplacada e assim, não os mataria ou que eles tivessem tempo de fugir enquanto o primeiro grupo era dizimado, v.8. No primeiro grupo, ao que parece estavam, além de alguns animais, os servos, no segundo, os membros de sua família, v.22. O grupo em que estava a sua família estava dividido assim: primeiro, as servas imediatamente seguidas por seus filhos, depois Lia e seus filhos e por último, Raquel e José, 33.2. Essa disposição deixa evidente o favoritismo de Jacó por Raquel e José.

Em quarto lugar, Jacó ora, vv.9-12. A oração de Jacó é uma oração pactual, reivindicando a proteção de Deu à luz de Sua ordem para que voltasse a Canaã. Uma análise dos vv.9-12 revela elementos de uma verdadeira oração:
·         Jacó reconhece a iniciativa divina nas manifestações de graça para com seu pai e para consigo mesmo, v. 9;
·         Jacó reconhece o seu próprio demérito diante de Deus e Deus como a fonte de todo o bem e do dom perfeito, v.10;
·         Jacó reconhece que é necessitado de proteção divina, v.11;
·         Jacó expressa sua fé na promessa de Deus, v.12.

Em quinto lugar, Jacó apesar de ter orado, apela ao suborno, v. 13-21. O presente era extravagante, pois 550 animais estavam sendo separados em três rebanhos para serem doados a Esaú.  A intenção de Jacó é expressa nas palavras “vou aplacá-lo com o presente mandado à minha frente; depois o verei face a face, talvez me aceite” (v.20). Sua mente aguçada considera as alternativas, avalia as chances e procura uma saída. Jacó ainda não aprendeu a depender totalmente de Deus para sua salvação.

O GRANDE MOMENTO – O CONFRONTO COM DEUS
Este é o grande momento na vida de Jacó, o confronto com Deus no vau de Jaboque. Depois desse confronto, Jacó não será mais o mesmo. Este confronto ilustra também o encontro de cada um de nós com Deus.

1.       O Confronto solitário, v. 24.
Comenta J. D. MacMillan a frase introdutória “Jacó, porém ficou só” “é um imediato e impressivo lembrete de que, na história das experiências espirituais pessoais da graça de Deus, há lugares e áreas nos quais somos levados à solidão”. O tipo de solidão aqui parece ser a solidão da alma, como fruto do pecado. O pecado causa separação em três áreas específicas da vida humana:
(a)    Separa o homem de Deus, Is 59:2
(b)   Separa o homem do homem, Gn 28:5 (Exílio de Jacó por causa do ódio de Esaú)
(c)    Separa o homem de si mesmo, Sl 86.11 (o termo “dispõe-me” no original hebraico tem o sentido unir partes que estavam separadas, lit. “une o meu coração para temer o teu nome”). O encontro com Deus promove a cura da personalidade partida, fracionada.
De repente a solidão é quebrada, Deus irrompe na história.

Assim como Deus irrompeu na história do patriarca, irrompe na nossa história.

2.       O Confronto é íntimo, v. 24b
Jacó estava só e de repente estava a sós com Deus. Deus entra em cena e de modo bastante definido. Deus está aqui na pessoa do Anjo da Aliança, uma teofania, um aparecimento do Cristo pré-encarnado na forma de homem. Note que o texto não diz “Jacó ficou só e lutou com um varão”, mas está bem claro que o ataque partiu do homem: “e um homem pôs-se a lutar com ele...”.  O embate partiu do varão, partiu de Deus. Está claro que não foi uma visão, mas um confronto literal, físico. O termo hebraico usado para “lutava” implica em contato físico íntimo, um abraço apertado como fazem os lutadores de luta romana. O termo hebraico traduzido por “lutou” em Oséias 12:4 indica que o varão dominava Jacó no embate.

Assim como o encontro de Jacó e Deus foi íntimo, nosso encontro com Cristo é pessoal, individual.

3.       O Confronto é acirrado, v. 25a
Jacó era um homem forte, vigoroso (29:2,10; Os 12:3). O Anjo do Senhor ajustou-se à força de Jacó (Sl 103:14 - “ele conhece a nossa estrutura”) e isso tornou o embate acirrado. O Anjo do Senhor poderia ter vencido facilmente o embate, contudo o Senhor queria que Jacó se lhe rendesse de modo voluntário, corporal e espiritualmente. Jacó combateu com todas as suas forças, até que o Anjo tocou-lhe de modo que o submeteu.

Assim como Jacó lutou bravamente, nós igualmente lutamos até que sejamos subjugados pelo grande Mestre.

4.       O Confronto é transformador, v.25b
O confronto de Jacó com o Anjo do Senhor foi transformador. Jacó nunca mais foi o mesmo, pois houve um toque sobrenatural. 

  •      Um toque suave. Seria necessário um toque tremendamente violento para provocar o deslocamento da coxa de um homem capaz num embate. É improvável que isso tenha ocorrido aqui. O termo hebraico traduzido por “tocou-lhe” indica que não houve violência. Em Isaías 6:7 o mesmo termo aparece, onde a brasa “tocou” os lábios do profeta e indica um toque suave, de dedo, não de punho. O toque a que Jacó foi submetido, portanto, foi sobrenatural. Assim como Deus tocou de modo suave, porém sobrenatural em Jacó, toca em nós.


  •      Um toque humilhante. Todo lutador tem orgulho de sua habilidade física, de sua destreza. A derrota é sempre humilhante. Jacó foi tocado no lugar de sua força, na sua autoconfiança, na sua autossuficiência. Mediante um golpe sobrenatural Jacó fica impossibilitado de prosseguir a luta. Assim como Deus soube onde tocar em Jacó, sabe o nosso ponto fraco e não deixará de explorá-lo de modo a submeter-nos.


O texto diz que ao amanhecer, quando Jacó ia ao encontro a Esaú –“mancava de uma perna” (v.31). Jacó levava consigo a marca da experiência pela qual havia passado um novo nome (v.28), a bênção de Deus (v.29) e o senso de ter visto Deus face a face e ter a sua vida preservada (v.30).  
Porventura, seria diferente conosco? Entraria Deus num embate por nossa alma e sairíamos do mesmo modo? Veríamos nós a Deus e continuaríamos os mesmos?


Até esse momento, o encontro mais importante para Jacó era com Esaú. Ele estava cheio de medo, temores. A única coisa que ocupava a sua mente era a sua vida e a vida de seus familiares. No entanto, quando estava lutando com Deus, a única coisa que preenche a sua mente é o seu oponente. Esse encontro entre Jacó e Deus foi transformador. Depois dele não há mais medo, Jacó mesmo vai à frente dos seus familiares ao encontro de Esaú (33:3a). Age com humildade (33:8, 5 “teu servo”, 8). Age com liberalidade (33: 10-11). Mas, acima de tudo não vê mais as pessoas como meio de obter vantagens, mas como indivíduos que possuem em si a imagem de Deus (ainda que desfigurada), 33:8.
Vejo nesse encontro de Jacó de Deus uma figura da regeneração. A regeneração é um ato de Deus, assim como foi um toque de Deus em Jacó. A regeneração é um encontro transformador. A regeneração muda a nossa vida de uma vez para sempre. A regeneração afeta o modo como vemos não somente as pessoas, mas sobre tudo o próprio Deus. Ninguém sai ileso de um encontro dom Deus.