sábado, 26 de dezembro de 2009

INTRODUÇÃO À EPÍSTOLA AOS EFÉSIOS

Dr. David Martyn Lloyd-Jones
Foi ministro da Capela de Westminster, Londres. 
Expôs a Epístola aos Efésios de 1954 a 1962, aos domingos pela manhã; 
o conjunto de sermões soma 8 volumes! 



“Paulo, apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus, aos santos que estão em Éfeso, e fiéis em Cristo Jesus

Efésios 1:1


Ao abordarmos esta Epístola, confesso francamente que o faço com considerável arrojo. É muito difícil falar dela de maneira comedida por causa da sua grandeza e da sua sublimidade. Muitos tentaram descrevê-la. Um escritor a descreveu como “a coroa e clímax da teologia paulina”. Outro disse que ela é “a destilada essência da religião cristã, o mais autorizado e o mais consumado compêndio da nossa santa fé cristã”. Que linguagem! E de maneira nenhuma é exagerada.


Longe de mim querer competir com os que assim tem procurado descrever esta Epístola, mas me parece que qualquer descrição geral que dela se faça deve observar de modo especial certas palavras que lhe são características, e que o apóstolo usa mais vezes nela, talvez, do que em qualquer outra Epístola. O apóstolo fica maravilhado ante o mistério, as glórias e as riquezas do método de redenção de Deus em Cristo. Como eu mostrarei, estas são as palavras que ele usa com muita freqüência – a glória disso, o mistério e as riquezas do método de redenção de Deus em Cristo!


Outra maneira pela qual se pode expor a característica peculiar desta grande Epístola é mostrar que esta é uma carta na qual o após-tolo olha para a salvação cristã da vantajosa posição dos “lugares celestiais”. Em todas as suas Epístolas ele expõe e explica o caminho da salvação; ele trata de doutrinas específicas, e de discussões ou controvérsias que tinham surgido nas igrejas. Mas o peculiar traço e característica da Epístola aos Efésios é que aqui o apóstolo parece estar como ele mesmo diz, nos “lugares celestiais”, e dessa posição especial ele está contemplando o grandioso panorama d salvação e da redenção. O resultado é que nesta Epístola há muita pouca controvérsia; e isso porque o seu grande interesse foi dar aos Efésios, e a outros aos quais a carta é dirigida, uma visão panorâmica desta maravilhosa e gloriosa obra de Deus em Jesus Cristo, nosso Senhor.


Da Epístola aos Romanos Lutero diz: “ela é o documento mais importante do Novo Testamento, o evangelho em sua expressão mais pura”, e em muitos aspectos eu concordo que não existe exposição mais pura e mais clara do evangelho do que na Epístola aos Romanos. Aceitando isso como certo, eu me aventuro a acrescentar que, se a Epístola aos Romanos é a expressão mais pura do evangelho, a Epístola aos Efésios é a expressão mais sublime e mais majestosa dele. Aqui o ponto de vista é mais amplo e maior. Há declarações e passagens nesta Epístola que realmente frustram qualquer tentativa de descrição. O grande apóstolo empilha epíteto sobre epíteto, adjetivo sobre adjetivo, e ainda assim não consegue expressar-se adequadamente. Há passagens no capítulo primeiro, e outras no capítulo 3, especialmente mais para o fim dele, em que o apóstolo é transportado acima e além de si próprio, e se perde e se abandona numa explosão de adoração, louvor e ação de graças. Reitero, pois, que em toda a extensão das Escrituras não há nada que seja mais sublime do que esta Epístola aos Efésios.


Comecemos procurando ter uma visão geral dela, pois só poderemos captar e entender verdadeiramente as particularidades se fizermos uma firme tomada do conjunto todo e da exposição geral. Por outro lado aqueles que imaginam que ao fazerem uma tosca divisão da mensagem desta Epístola de acordo com os capítulos terão tratado dela adequadamente, exibem a sua ignorância. É quando passamos aos detalhes que descobrimos a riqueza; um sumário da sua mensagem é muito útil como começo, porém é quando chegamos às declarações particulares e às palavras individuais que encontramos a glória real exposta à nossa maravilhosa contemplação.


O tema geral da Epístola é proposto logo no seu primeiro versículo. Isso é característico do apóstolo; ele não pôde refrear-se, e parte imediatamente para o seu tema. “Paulo, apóstolo Jesus Cristo, pela vontade de Deus” – aí está! O tema da Epístola, primeiramente e acima de tudo, é Deus – Deus o Pai. “A vós graça, e paz da parte de Deus nosso Pai e da do Senhor Jesus Cristo. Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo.” O apóstolo Paulo sempre começa dessa maneira, e é assim que todo cristão deve começar. Esse é o tema que domina tudo o mais. Nunca houve perigo de que Paulo se esquecesse disso, pois mais que ninguém ele sabia que tudo é de Deus e por Deus, e que a Ele se deve dar glória para todo o sempre.


A Bíblia é o livro de Deus, é uma revelação de Deus, e o nosso pensamento sempre deve começar com Deus. Grande parte do problema da Igreja hoje deve-se ao fato de que somos muito subjetivos, muito interessados em nós mesmos, muito egocêntricos. Esse é o erro peculiar ao presente século. Tendo-nos esquecido de Deus, e havendo – nos tornado tão interessados em nós mesmos, tornamo-nos miseráveis e infelizes, e passamos o tempo em “frivolidades e misérias”. Do princípio ao fim, a mensagem da Bíblia tem o propósito de levar-nos de volta a Deus, humilhar-nos diante de Deus e habilitar-nos a ver a nossa verdadeira relação com Ele. E esse é o grande tema desta Epístola; ela nos põe face a face com Deus, com o que Deus é e com o que Deus fez e faz; toda ela salienta a glória e a grandeza de Deus – Deus, o Eterno, Deus sempiterno, Deus sobre todos – e a indescritível glória de Deus. Este tema grandioso aparece constantemente nas diversas frases que o apóstolo emprega. Aqui vão exemplos – “E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito da sua vontade”; “descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo”; “em quem também fomos feitos herança (ou “obtivemos uma herança” – VA inglesa), havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade”. Deus, o eterno e sempiterno Deus, auto-suficiente em Si mesmo, de eternidade a eternidade, que não necessita da ajuda de ninguém, vivo, que habita em Sua glória duradoura, absoluta e eterna, é o grande tema desta Epístola. Não devemos começar examinando a nós mesmos e as nossas necessidades microscopicamente; devemos começar com Deus, e esquecer-nos de nós. Nesta Epístola somos como que levados pela mão do apóstolo, e nos é dito que nos vai ser dada a oportunidade de ver a glória e a majestade de Deus. Ao aproximar-nos deste estudo, parece-me ouvir a voz que na antiguidade veio a Moisés, provinda da sarça ardente, dizendo: “Tira os teus sapatos de teus pés; porque o lugar em que estás é terra santa”. Estamos na presença de Deus e Sua glória; portanto, devemos caminhar com cautela e com humildade.


Não somente isso, porém; estamos de imediato diante da soberania de Deus. Pensem nos termos que constantemente vemos perpassar pelas páginas das Escrituras, as grandes palavras e expressões da verdadeira doutrina e teologia cristã. Quão pouco nos falam acerca da glória, da grandeza, da majestade e da soberania de Deus! Os nossos antepassados deleitavam-se com essas expressões; estas eram as expressões dos reformadores protestantes, dos puritanos e dos pactuários. Eles tinham prazer em passar o tempo contemplando os atributos de Deus.


Notem como o apóstolo chega de imediato a este ponto. “Paulo, apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus” – não por sua própria vontade! Paulo não se chamou a si mesmo, e a Igreja não o chamou; foi Deus quem o chamou. Ele é o apóstolo pela vontade de Deus. Ele expõe isso muito explicitamente na Epístola aos Gálatas, onde diz: “... quando aprouve a Deus, que desde o ventre de minha mãe me separou”. Há sempre ênfase à soberania de Deus, e quando estivermos avançando em nosso estudo desta Epístola, a veremos sobressair em toda a sua glória em toda parte. Foi Deus que escolheu em Cristo todo aquele que é cristão; foi Deus que nos predestinou. Faz parte do propósito de Deus que sejamos salvos. Jamais haveria salvação alguma, se Deus não a planejasse e não a pusesse em execução. Foi Deus que “amou ao mundo de tal maneira”; foi Deus que “enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei”. É tudo de Deus e de acordo com o Seu propósito. É “segundo o conselho da sua vontade” que todas estas coisas aconteceram.


Toda esta Epístola nos diz que sempre devemos contemplar a salvação desta maneira. Não devemos partir de nós e depois ascender a Deus; devemos partir da soberania de Deus, Deus sobre todos, e depois descer a nós. Ao caminharmos através da Epístola, veremos que não somente a salvação é inteiramente de Deus em geral; também é de Deus em particular. Vejam, por exemplo, o grande tema que Paulo desenvolve no capítulo 3. A tarefa especial que lhe fora confiada como apóstolo é: “demonstrar a todos qual seja a dispensação do mistério, que desde os séculos esteve oculto em Deus, que tudo criou” (“por Jesus Cristo”, VA). O mistério é que os gentios sejam co-herdeiros com Jesus. Foi esse o “mistério” que noutras eras não foi dado a conhecer aos filhos dos homens, e agora é revelado aos Seus santos apóstolos e profetas pelo Espírito.


Deus domina todas as coisas; o fator tempo em particular. Quando vocês lêem o Velho Testamento, alguma vez perguntaram por que foi que todos aqueles séculos tiveram que passar antes que de fato o Filho de Deus viesse? Por que foi que tão longo tempo somente os israelitas, os judeus, tiveram os oráculos de Deus e o entendimento de que há somente um Deus vivo e verdadeiro? A resposta é que é Deus quem decide o tempo em que tudo deve acontecer, e assim Ele revela esta verdade que até aqui tinha sido secreta. Este fato é apenas outra ilustração da soberania de Deus. Ele deter-mina o tempo para que as coisas todas aconteçam. Deus é sobre todos, dominando sobre todos, e marcando o tempo de cada acontecimento, em Sua infinita sabedoria. Numa época como esta, não sei de nenhuma outra coisa que seja mais consoladora e que dê mais segurança do que saber que o Senhor continua reinando, que Ele continua sendo o soberano Senhor do universo, e que, apesar de que “se amotinam as gentes, e os povos imaginam coisas vãs”, Ele estabeleceu o seu Filho sobre o Seu santo monte de Sião (Salmo 2). Virá o dia em que todos os Seus inimigos lamberão o pó, virão a ser o estrado dos Seus pés e serão humilhados diante dEle, e Cristo será “tudo em todos”. Dessa maneira a soberania de Deus é ressaltada na introdução desta Epístola e repetida até o fim dela, porque é uma das doutrinas cardinais, sem a qual realmente não entendemos a nossa fé cristã.


Depois, tendo dito isso, o apóstolo passa a tratar do mistério de Deus, Sua grandeza e a majestade da Sua soberania. A palavra “mistério” é utilizada seis vezes nesta Epístola aos Efésios, mais vezes, portanto, do que em suas outras Epístolas. Assim, estou justificado em dizer que este é um dos mais importantes temas desta Epístola, o mistério dos procedimentos de Deus com relação a nós, o mistério da Sua vontade. Nós o vemos neste capítulo primeiro – “Descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo”. Pergunto se sempre compreende-mos isso como deveríamos. É de temer-se que, às vezes, os cristãos abordam estas grandes verdades como se as compreendessem com o seu próprio entendimento. Jamais pensemos assim. Se você começar a imaginar que pode entender a mente e a vontade de Deus, estará condenado ao fracasso, pois há mistérios aos quais nenhuma mente humana pode fazer frente. “Grande é o mistério da piedade”; ninguém o pode entender. E se você tentar entender os procedimentos de Deus com respeito ao homem e ao mundo, garanto-lhe que você se verá tão confuso que sentirá acabrunhado e infeliz. Na verdade você poderá acabar quase perdendo a fé e tendo um sentimento de rancor contra Deus. “O mistério da sua vontade”! Ele é infinito e eterno, e nós somos finitos e pecadores, e não podemos ver nem entender.


Se você se sentir tentado a dizer que Deus não é justo, aconselho-o a, com Jó, pôr a mão na boca, e tratar de compreender de quem você está falando. Certamente, fazer objeção ao mistério é quase negar que sequer somos cristãos. Haverá algo mais maravilhoso, mais encantador, mais glorioso para o cristão do que contemplar os mistérios de Deus? Espero que ao aproximarmos destes grandes temas, você já esteja cheio de um sentimento de divina expectação, e aspire a adentrá-los cada vez mais. Um dos aspectos mais maravilhosos da vida cristã é que nela você está sempre avançando. Você pensa que já o conhece todo, e então dobra uma esquina e de repente vê algo que não conhecia, e vai adiante, sempre adiante. É por isso que o apóstolo escreve acerca das “riquezas da sua graça”; é o glorioso mistério que a Ele aprouve revelar-nos por Seu Santo Espírito. Mas não permita Deus que alguma vez imaginemos que seremos capazes de entender isso tudo no sentido de abarcá-lo totalmente. Meu interesse não é somente aumentar o nosso conhecimento intelectual de Deus, e sim desvendar “o mistério” dos Seus caminhos, a fim de que possamos vê-la e adorar o Senhor, e confessar a nossa ignorância, pequenez e fragilidade, e Lhe agradecer o mistério da Sua santa vontade.


O próximo tema é a graça de Deus; e esta palavra é utilizada treze vezes nesta Epístola. O apóstolo a fica sempre repetindo. No versículo dois ele a coloca na frase inicial: “A vós graça, e paz da parte de Deus nosso Pai e da do Senhor Jesus Cristo”. Este é o tema que, acima de tudo mais, é desenvolvido nesta Epístola – a estupenda graça de Deus para com o homem pecador, providenciando para ele salvação e redenção. “A graça de Deus”; sim, e abundante em particular – “as riquezas da sua graça”. Essa idéia acha-se aqui mais do que em qualquer outro lugar – “as riquezas da sua graça”! “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com toda as benção espirituais nos lugares celestiais em Cristo. “Nesta Epístola nos é dado um vislumbre das riquezas, da abundância, da superabundância da graça de Deus para conosco; e se não estivermos ansiosos por um exame e investigação com a mais ávida antecipação possível, é duvidoso se somos cristãos. A maioria das pessoas se interessa por valores e riquezas; gostamos de ir a museus e a outros lugares onde se guardam e se armazenam coisas preciosas, gostamos de ver jóias e pérolas; ficamos em filas e pagamos pelo direito de ver tais valores e riquezas. Gabamo-nos disso como indivíduos e como nações. Repito, pois, que o supremo objetivo desta Epístola é fazer-nos entrar e olhar, e ter um vislumbre das riquezas, das superabundantes riquezas da graça de Deus. Tudo começa com Deus, Deus o Pai, que é sobre todos.


Mas tendo dito isso, pasaremos para o que invariavelmente vem em seguida em todas as Epístolas deste apóstolo, na verdade o que sempre vem em segundo lugar em toda a Bíblia – o Senhor Jesus Cristo. “A vós graça, e paz.da parte de Deus nosso Pai e da do Senhor Jesus Cristo”. Vocês notaram quantas vezes ocorre o nome, o nome que era tão caro e bendito para o apóstolo? “O apóstolo de Jesus Cristo”, “A vós graça, e paz de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo”, e assim continua. No versículo primeiro Paulo nos diz logo de início que ele é um “apóstolo de Jesus Cristo”. Soa quase ridículo ter que dizê-lo, e, todavia, é essencial salientar que não há evangelho nem salvação fora de Jesus Cristo. É necessário porque há pessoas que falam de cristianismo sem Cristo. Falam em perdão, mas o nome de Cristo não é mencionado, pregam sobre o amor de Deus, porém em sua opinião o Senhor Jesus Cristo não é essencial. Não é assim com o apóstolo Paulo; não há evangelho, não há salvação sem o Senhor Jesus Cristo. O evangelho é especial-mente acerca dEle. Todos os propósitos misericordiosos de Deus são levados a efeito por Cristo, em Cristo, mediante Cristo, do princípio ao fim. Tudo o que Deus, em Sua vontade soberana, por Sua infinita graça, e segundo as riquezas da Sua misericórdia e do mistério da Sua vontade – tudo o que Deus se propôs realizar e realizou para a nossa salvação, Ele o fez em Cristo. Em Cristo “habita corporalmente toda a plenitude da divindade”; nEle Deus entesourou todas as riquezas da Sua graça e sabedoria. Tudo, desde o início até o fim, é nosso Senhor Jesus Cristo e por meio dEle. Somo chamados e escolhidos “em Cristo” antes da fundação do mundo, somos reconciliados com Deus pelo “sangue de Cristo”. “Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça”. (VA: “...pelo seu sangue, o perdão dos pecados...”).


Todos nós estamos interessados no perdão, mas como sou perdoado? Será porque eu me arrependi ou tenho vivido uma vida virtuosa que Deus me vê e me perdoa? Digo com reverência que nem mesmo o Deus todo-poderoso poderia perdoar o meu pecado simplesmente com base nesses termos. Há unicamente um modo pelo qual Deus nos perdoa; é porque Ele enviou Seu Filho unigênito do céu à terra, e à agonia, à vergonha e à morte na cruz: “Em quem temos a redenção pelo seu sangue”. Não há cristianismo sem “o sangue de Cristo”. É central, absolutamente essencial. Sem Ele não há nada. Não somente a Pessoa de Cristo, todavia em particular a Sua morte, o Seu sangue derramado, o Seu sacrifício expiatório e substitutivo! É dessa maneira, e somente dessa maneira, que somos redimidos. Nesta Epístola Cristo é exposto como absolutamente essencial. Veremos isso quando entrarmos em detalhes. Ele está em toda parte, tem que estar. Somos escolhidos nEle, chamados por Ele, salvos pelo Seu sangue. Ele é a Cabeça da Igreja, como nos lembra o capítulo primeiro. Ele está “acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro”. Ele é a “cabeça da igreja, que é o seu corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todos”; e Ele está à mão direita de Deus, com toda a autoridade e poder no céu e na terra. Jesus, o nosso Senhor, é supremo; Ele é o Filho de Deus, o Salvador do mundo. Esse vai ser o nosso tema. Você está começando a ansiar por isso – por vê-lO, contemplá-lO em Sua Pessoa, em Seus ofícios, em Sua obra, em tudo o que Ele é e pode ser para nós?


Então, em particular, como já estive antecipando, o tema do grande propósito de Deus em Cristo é o tema prático desta Epístola. Vemo-lo no versículo 10: “De tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra” Vemos aí o propósito de Deus. O apóstolo prossegue e nos diz que este propósito sempre foi necessário por causa do pecado. No capítulo 2 veremos que ele nos fala acerca dos problemas que importunam a mente e o coração do homem, e de como sua causa é o fato de que “o príncipe das mundo antigo estava na mesma situação. Não há nada de novo nisso, é tudo resultado do pecado e do ódio do diabo a Deus. É resultado do fato de que o homem perdeu sua verdadeira relação com Deus. O homem se põe como Deus, e com isso causa todo o transtorno e confusão no mundo. Mas nos é exposto como, no princípio, ainda no Paraíso, Deus anunciou o Seu plano e começou a pô-lo em prática.


O Velho Testamento é um relato de como Deus começou a pô-lo em ação. Primeiramente Ele separou para Si um povo, os hebreus, mais tarde conhecidos como judeus. Na história deles vemos o início do Seu propósito de redenção. Do burburinho da humanidade Deus formou um povo para Si. Chamou um homem chamado Abraão e fez dele uma nação. Aí temos o começo de algo novo. Mas depois houve grande rivalidade entre os judeus e os gentios, e assim, um dos importantes temas desta Epístola é mostrar como Deus tratou dessa questão. O grande tema aqui é que Ele Se revelou, não somente aos judeus, mas também aos gentios; “a parede de separação que estava no meio” se foi; Deus criou “dos dois um”. Há uma nova criação aí; algo novo foi trazido à existência; a isto se chama Igreja; e esta obra de Deus prossegue crescentemente, diz o apóstolo, até que, quando chegar a plenitude dos tempos, Deus executará o Seu plano completo, e tudo quanto se opõe a Ele será destruído. Todas as coisas serão reunidas e feitas uma só em Cristo. Este é um dos importantes temas desta Epístola. A princípio somente os judeus, depois os judeus e os gentios, e depois todas as coisas. E tudo isso será feito “em Cristo e por ele”. (cf. Ef. 2:13,18.)


Isso, por sua vez, leva a outro tema importante, a Igreja. O propósito de Deus se vê muito clara e objetivamente na Igreja e por meio dela, o Seu grande propósito de unir todas as nações em Cristo. Nela se vêem indivíduos diferentes, de nacionalidades diferentes, procedentes de diferentes partes do mundo, com experiências diferentes, diferentes na aparência, diferentes psicologicamente e em todos os aspectos concebíveis; todavia, são todos um só “em Cristo Jesus”. É isso que Deus está fazendo, até que finalmente haja “novos céus e nova terra, em que habita a justiça” (2 Pedro 3:13), e Jesus reine “de costa a costa, até que as luas não tenham mais crescente nem minguante”.


Não há nada mais enaltecedor e maravilhoso do que ver a Igreja sob essa luz e, portanto, ver a importância, o privilégio e a responsabilidade de ser membro dessa Igreja. É por isso que devemos viver a vida cristã; e assim, no capítulo 4 e até o fim da carta, Paulo dá ênfase ao comportamento ético que se espera dos cristãos porque eles são o que são, e porque esse é o plano de Deus, e eles devem manifestar a Sua graça na sua vida diária e no seu modo de viver.


Tivemos aí, pois, uma breve vista dos grandes temas desta Epístola. Permita-me fazer um sumário deles, de maneira simples e prática. Por que estou chamando a sua atenção para tudo isso? É porque estou profundamente convencido de que a nossa maior necessidade é conhecer estas verdades. Todos nós precisamos rever esta gloriosa revelação, e livrar-nos da nossa mórbida preocupação com nós mesmos. Se apenas nos víssemos como somos retratados nesta Epístola; se apenas nos apercebêssemos, como o apóstolo o expressa em sua oração nos versículos 17-19, de que devemos saber “qual seja a esperança da nossa vocação, e quais as riquezas da glória da sua herança nos santos; e qual a sobreexcelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder”, que diferença isso faria! Acaso você é um cristão acabrunhado, infeliz, achando que a luta é demais para você? Você está a ponto de ceder e desistir? O que você necessita é conhecer o poder que está operando vigorosamente por você, o mesmo poder que ressuscitou Cristo dentre os mortos. Se tão--somente soubéssemos o que significa sermos “cheios de toda a plenitude de Deus”, deixaríamos de ser fracos e de afligir-nos, deixaríamos de apresentar um quadro tão lamentável da vida cristã aos que vivem conosco e ao redor de nós. O que necessitamos primordialmente não é uma experiência, é, sim, compreender o que somos e quem somos, o que Deus em Cristo fez e como Ele nos abençoou. Não nos apercebemos dos nossos privilégios.


A nossa maior necessidade ainda é a necessidade de entendimento. A nossa oração por nós mesmos deve ser a oração que o apóstolo fez por aquelas pessoas, que “os olhos do (nosso) entendimento” sejam “iluminados”. E disso que precisamos. Nesta Epístola “as abundantes riquezas” da graça de Deus são expostas diante de nós. Vejamo-las, tornemos posse delas e desfrutemo-las. Acima de tudo, e especialmente numa época como esta, quão vital é que tenhamos um novo e robusto entendimento do grande plano e propósito de Deus para o mundo. Com conferências internacionais sendo realizadas quase na soleira da nossa porta, com todo o mundo perguntando qual será o futuro e quais serão as consequências dos nossos problemas atuais, com os homens perplexos e desanimados, quão privilegiados somos por podermos pôr-nos de pé e olhar esta revelação, e ver o plano e o propósito de Deus por trás e além disso tudo. Plano e propósito que não serão realizados por meio de estadistas, mas por meio de pessoas como nós. O mundo ignora isto e dá risada e zomba; no entanto, com o apóstolo, nós sabemos com certeza que “todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e ... todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro” foi posto debaixo dos pés de Cristo. O Senhor Jesus Cristo foi rejeitado por este mundo quando Ele veio, os homens O repudiaram como a “um qualquer”, um “carpinteiro”; contudo Ele era o Filho de Deus e o Salvador do mundo, o Rei dos reis, o Senhor dos senhores, Aquele diante de quem se dobrará “todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra” (Filipenses 2:10). Graças sejam dadas a Deus pelo glorioso evangelho de Jesus Cristo, e pelas “riquezas da sua graça”!

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Fonte: David Martyn Lloyd-Jones, O Supremo Propósito de Deus, Editora PES.