domingo, 28 de junho de 2009

O MINISTÉRIO PASTORAL ESTÁ MAIS ESTRANHO DO QUE COSTUMA SER: O DESAFIO DO PÓS-MODERNISMO

Por Dr. Albert Mohler



Dr. Albert Mohler é o presidente do Southern Baptist Theological Seminary, pertencente à Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos; é pastor, professor, teólogo, autor e conferencista internacional, reconhecido pela revista Times como um dos principais líderes entre o povo evangélico norte-americano. É casado com Mary e tem dois filhos, Katie e Christopher.


Hoje em dia, uma preocupação comum parece surgir onde quer que os ministros se reúnam: o ministério pastoral está mais estranho do que costumava ser. Não que o ministério esteja mais difícil, mais cansativo ou mais exigente... está apenas diferente – e cada vez mais estranho.

Esse sentimento de estranheza deve-se à propagação da cultura e da filosofia pós-modernista; provavelmente, o movimento cultural e intelectual mais importante do atual século XXI. Que diferença o pós-modernismo tem causado? Para saber, basta olhar para a mídia moderna, para a cultura popular e para a forma como algumas pessoas arregalam os olhos, desconcertadas, quando falamos sobre a verdade, o sentido da vida e moralidade.

O pós-modernismo desenvolveu-se entre os acadêmicos e artistas, mas rapidamente se espalhou para toda a cultura. O pós-modernismo refere-se basicamente ao desaparecimento da modernidade e ao surgimento de um novo movimento cultural. A modernidade, cosmovisão dominante desde o Iluminismo, foi suplantada pelo pós-modernismo, que tanto amplia, como nega certos princípios e símbolos centrais da era moderna.

É claro que muito da literatura a respeito do pós-modernismo é absurda e difícil de ser levada a sério. Quando a maioria dos personagens eminentes do pós-modernismo fala ou escreve, geralmente o resultado é uma linguagem inarticulada que se parece mais com um teste de vocabulário do que com um argumento bem fundamentado. No entanto, o pós-modernismo não deve ser deixado de lado como algo sem importância ou irrelevante. Essa não é uma questão de preocupação somente entre os acadêmicos e a vanguarda – esse novo movimento representa um desafio crucial à igreja cristã e ao pastor.

Na verdade, o pós-modernismo pode não ser considerado como um movimento ou uma metodologia. Ele pode ser melhor descrito como uma disposição mental que se afasta das certezas da era moderna. Essa disposição mental é o cerne do desafio pós-moderno.

O que delineia essa disposição mental pós-moderna? Esse novo movimento é útil para a nossa proclamação do evangelho? Ou a era pós-moderna traz um grande afastamento da verdade cristã? Uma olhada nos aspectos fundamentais do pós-modernismo pode ser útil.

A Desconstrução da Verdade

Ainda que a natureza da verdade venha sendo debatida ao longo dos séculos, o pós-modernismo tem transformado esse debate em seu carro-chefe. Embora a maioria dos argumentos ao longo da história tenha se focalizado nas afirmações antagônicas acerca da verdade, o pós-modernismo rejeita até mesmo a mera noção da verdade como algo imutável, universal, objetivo ou absoluto.

A tradição cristã compreende a verdade como algo estabelecido por Deus e revelado através da auto-revelação de Deus nas Escrituras. A verdade é eterna, imutável e universal. Nossa responsabilidade é regrar a nossa mente em conformidade com a verdade revelada de Deus e testemunhar essa verdade. Servimos a um salvador que identificou-se como sendo "o Caminho, a Verdade e a Vida" e exigiu fé nEle.

A ciência moderna, em si mesma um produto do Iluminismo, rejeitou a revelação de Deus como fonte da verdade e colocou o método científico em seu lugar. A modernidade tentou estabelecer a verdade baseada na precisão científica, através do processo do pensamento indutivo e da investigação. As outras disciplinas tentaram seguir o exemplo dos cientistas, estabelecendo uma verdade objetiva por meio do pensamento racional. Os modernistas estavam confiantes de que a sua abordagem produziria verdades universais e objetivas por intermédio da razão humana.

Os pós-modernistas rejeitam tanto a abordagem dos cristãos quanto a dos modernistas no assunto da verdade. Conforme a teoria pós-modernista, a verdade não é universal, não é objetiva ou absoluta e não pode ser determinada pelos métodos normalmente aceitos. Ao invés disso, os pós-modernistas argumentam que a verdade é construída socialmente, que ela é plural e inacessível à razão universal.

Conforme afirma o filósofo pós-moderno Richard Rorty, a verdade é fabricada e não descoberta. De acordo com os desconstrucionistas, uma ramificação influente dos pós-modernistas, toda verdade é construída socialmente. Ou seja, os grupos sociais constroem a sua própria "verdade" para servir aos seus interesses. De acordo com o argumento de Michel Foucault, um dos teóricos pós-modernistas mais importantes, toda reivindicação da verdade é construída para servir àqueles que estão no poder. Dessa forma, o papel do intelectual é desconstruir a reivindicação da verdade para libertar a sociedade.

Aquilo que tem sido entendido e afirmado como sendo a verdade, declaram os pós-modernistas, nada mais é do que uma estrutura de pensamento conveniente, planejado para oprimir aqueles que não estão no poder. A verdade não é universal, porque cada cultura estabelece a sua própria verdade. A verdade não é objetivamente real, pois toda verdade é meramente construída – como afirmou Rorty, a verdade é fabricada e não descoberta.

Não é preciso ter muita imaginação para perceber que esse relativismo radical é um desafio direto ao evangelho cristão. A nossa reivindicação não é pregar uma verdade entre muitas. Não cremos que o evangelho cristão é uma verdade construída pela sociedade, mas sim a Verdade que liberta pecadores do pecado – e ela é objetiva, universal e historicamente verdadeira. E como o falecido Francis Schaeffer nos instruiu, a igreja cristã deve lutar pela verdade verdadeira.

A Morte da Metanarrativa

Visto que os pós-modernistas acreditam que toda verdade é construída socialmente, devemos resistir a qualquer apresentação de uma verdade absoluta, universal e estabelecida. Todas as vastas e maravilhosas asseverações acerca da verdade, do sentido da vida e da existência humana são rejeitadas como "metanarrativas" que reivindicam muito mais do que aquilo que podem oferecer.

Jean-François Lyotard, provavelmente o mais famoso pós-modernista europeu, definiu o pós-modernismo nestes termos: "Simplificando ao extremo, pós-modernismo é a incredulidade contra as metanarrativas".[i] Assim sendo, todos os grandiosos sistemas filosóficos estão mortos, e todas as asseverações culturais são limitadas; tudo o que resta são histórias aceitas como verdade por diferentes grupos e culturas. As afirmações sobre uma verdade universal – as metanarrativas – são opressivas, "totalitárias" e devem ser rejeitadas.

O problema nessa questão, é lógico, é que o cristianismo não faz sentido sem o evangelho – que é uma metanarrativa. Na verdade, o evangelho cristão é nada menos do que a Metanarrativa de todas as metanarrativas. Para o Cristianismo, abandonar a reivindicação de que o evangelho é uma verdade universal e objetivamente estabelecida é o mesmo que abandonar o ponto essencial da nossa fé. O cristianismo é a grandiosa metanarrativa da redenção. Nossa história começa com a criação do Deus soberano e onipotente; continua por meio da queda da humanidade no pecado e da redenção dos pecadores por intermédio da obra substitutiva de Cristo na cruz; e promete um duplo destino eterno para toda a humanidade – os redimidos, para sempre com Deus, na glória; e os não-redimidos, no castigo eterno. Essa é a mensagem que pregamos – e ela é uma metanarrativa gloriosa e transformadora de vidas.

Não pregamos o evangelho como se fosse uma narrativa dentre muitas narrativas verdadeiras ou como a "nossa" narrativa, paralelamente às narrativas autênticas dos outros. Não podemos recuar, afirmando que a verdade bíblica é simplesmente para nós. A nossa reivindicação é que a Bíblia é a Palavra de Deus para todos. Isso é profundamente ofensivo para a cosmovisão pós-modernista, que ataca, com imperialismo e opressão, a todos quantos asseveram verdades universais.

O Falecimento do Texto

Se a metanarrativa está morta, logo, os maravilhosos textos por detrás das metanarrativas também estão mortos. O pós-modernismo afirma que é uma falácia atribuir significado a um texto, ou mesmo ao que o autor disse. O leitor é quem estabelece o significado, e nenhum controle limita o significado da leitura.

Jacques Derrida, líder da literatura desconstrucionista, descreve essa mudança nos termos "morte do autor" e "morte do texto". O significado fabricado, mas não descoberto, é criado pelo leitor no ato da leitura. O texto deve ser desconstruído para que possa libertar-se do autor e permanecer um texto vivo, como uma palavra livre.

Esse novo método de hermenêutica explica muitos dos correntes debates na literatura, na política, no direito e na teologia. Todos os textos – quer sejam as Sagradas Escrituras, a Constituição dos Estados Unidos ou as obras de Mark Twain – são submetidos ao criticismo e à dissecação esotérica, tudo em nome da libertação.

Segundo os pós-modernistas, os textos revelam uma mensagem oculta, com intenções opressoras da parte do autor e, por essa razão, devem ser desconstruídos. Essa não é uma mera questão de importância acadêmica. É o argumento por detrás das muitas interpretações contemporâneas da Constituição, feitas pelos juízes; das apresentações dos assuntos na mídia e da fragmentação da erudição bíblica moderna. O surgimento de escolas de interpretações voltadas para grupos de interesse como o das feministas, dos liberalistas, dos homossexuais e vários outros é a questão central desse princípio pós-moderno.

Conseqüentemente, a Bíblia é submetida à uma reinterpretação radical, geralmente com pouca ou nenhuma consideração pelo significado óbvio do texto ou pela intenção evidente do autor humano. Os textos que não agradam a mente pós-modernista são rejeitados como opressivos, patriarcais, heterossexuais, homofóbicos ou deturpados por outros preconceitos ideológicos ou políticos. A autoridade do texto é negada em nome da libertação, e as interpretações mais fantasiosas e ridículas são celebradas como "convincentes" e até mesmo "autênticas".

É claro que a noção de "morte do autor" assume um significado completamente novo quando aplicado às Escrituras, pois reivindicamos que a Bíblia não é meramente palavras de homens, mas sim a Palavra de Deus. A insistência pós-modernista na morte do autor é inerentemente ateísta e anti-sobrenatural. A reivindicação de uma revelação divina é descartada como apenas mais uma das exteriorizações do poder opressivo. Quando a verdade é negada, o que prevalece é a terapia. A questão crucial muda de "O que é a verdade?" para "O que faz com que eu me sinta bem?". Essa tendência cultural tem se desenvolvido ao longo do século, mas agora tem alcançado proporções épicas.

A cultura que confrontamos está quase que completamente submissa ao que Philip Reiff chamou de "triunfo da terapêutica". Num mundo pós-moderno, todas as questões acabam girando em torno do eu. Portanto, tudo o que resta como alvo de muitas abordagens educacionais e teológicas é elevar a auto-estima. Categorias de palavras como "pecado" são rejeitadas como opressivas e prejudiciais à auto-estima.

As abordagens terapêuticas são dominantes numa cultura formada de indivíduos que não têm sequer a certeza de que a verdade existe – mas que estão convictos de que nossa auto-estima deve permanecer intacta. O certo e o errado são descartados como lembranças obsoletas de um passado opressivo. Em nome de nossa própria "autenticidade", rejeitaremos todos os padrões morais inconvenientes e substituiremos a preocupação com o certo e o errado pela afirmação dos nossos direitos.

A Teologia é igualmente reduzida à terapia. Sistemas teológicos inteiros, bem como suas abordagens, são construídas de modo a reduzir o seu alvo a nada mais do que à elevação da auto-estima de indivíduos e grupos especiais. Essas teologias do "sentir-se bem" dispensam a "negatividade" dos textos bíblicos ofensivos ou até mesmo a Bíblia inteira. Categorias de palavras como "perdição" e julgamento ficam de fora. No lugar delas estão as vagas noções sobre aceitação sem arrependimento e completude sem redenção. Podemos não saber (ou nos importar) se somos salvos ou perdidos, mas certamente nos sentimos bem melhor acerca de nós mesmos.

O Declínio da Autoridade

Visto que a cultura pós-moderna está comprometida com uma visão radical de libertação, todas as autoridades devem ser subvertidas. Dentre todas as autoridades destronadas estão: textos, autores, tradições, metanarrativas, a Bíblia, Deus e todos os governos no céu e na terra. Exceto, é claro, a autoridade dos teóricos pós-modernistas e dos personagens eminentes da cultura, que exercem o seu poder em nome dos povos oprimidos em toda parte.

Segundo os pós-modernistas, aqueles que estão em posição de autoridade utilizam seu poder para continuarem no poder e servirem aos seus próprios interesses. Suas leis, tradições, textos e "verdade" nada mais são do que aquilo que é projetado para mantê-los no poder.

Assim, a autoridade dos líderes governamentais passa a ser corroída, da mesma forma como a autoridade dos professores, dos líderes comunitários, dos pais e dos pastores. Enfim, a autoridade de Deus é rejeitada como sendo totalitária e autocrática. E como os pastores são representantes dessa deidade autocrática, devemos resistir à autoridade deles de igual modo.

Doutrinas, tradições, credos e confissões de fé – tudo deve ser rejeitado e taxado como algo que limita a auto-expressão e representa &a autoridade opressiva. Os pregadores são tolerados, contanto que apóiem as mensagens terapêuticas que elevam a auto-estima; e resistidos, sempre que introduzem reivindicações sobre a autoridade divina ou à verdade universal em seus sermões.

A Destituição da Moralidade

Ivan, na novela de Fyodor Dostoyevsky, Os Irmãos Karamasov, estava certo; se Deus está morto, tudo é permissível. O Deus permitido no pós-modernismo não é o Deus da Bíblia, mas sim uma vaga idéia de espiritualidade. Não há tábuas da lei, nem os Dez Mandamentos... não há regras.

A moralidade, juntamente com outros alicerces culturais, é descartada como opressiva e totalitária. Um relativismo moral abrangente é a marca da cultura pós-moderna. Não estou dizendo que os pós-modernistas relutam em utilizar uma linguagem moral. Ao contrário, a cultura pós-modernista está recheada de discurso moral.

A homossexualidade, por exemplo, é abertamente defendida e aceita.& O avanço dos estudos sobre gays e lésbicas nas universidades, o aparecimento do poder político homossexual e as imagens eróticas homossexuais, agora comuns na cultura popular, marcam essa dramática reviravolta moral. A homossexualidade não é mais considerada um pecado. A homofobia é criticada como se fosse pecado, e as reivindicações por tolerância aos "estilos de vida alternativos" agora se transformaram em reivindicações públicas para a celebração de& todos os estilos de vida como moralmente iguais.

Michael Jones descreveu a modernidade como "promiscuidade sexual racionalizada", e a pós-modernidade é a sua extensão lógica. Michael Foucault, que argumentou que toda moralidade sexual é um abuso de poder, clamou para que o pós-modernismo celebrasse a "perversidade polimorfa". Ele viveu e morreu dedicando-se a esse estilo de vida, e sua profecia tem se cumprido nesta década.

O Ministério Cristão numa Era Pós-moderna

O pós-modernismo representa o único desafio a ser encarado pelo Cristianismo nesta geração. Walter Truett Anderson descreveu a realidade pós-moderna em seu engenhoso livro Reality Isn't What it Used to Be (A Realidade não é Como Costumava Ser).[ii] Esta é a reivindicação central do pós-modernismo: a realidade não é o que costumava ser, e jamais o será novamente. Agora, a humanidade é maior de idade; faremos nossa própria verdade; definiremos nossa própria realidade e nos empenharemos pela nossa auto-estima.

Nessa cultura, o ministério pastoral é mais estranho do que costumava ser. Atualmente, os conceitos pós-modernos de verdade reinam na era pós-moderna, e até mesmo nos bancos das igrejas pós-modernas. Pesquisas indicam que a maioria crescente daqueles que professam ser cristãos rejeitam até mesmo a noção de uma verdade absoluta.

A "morte do texto" fica evidente pela resistência à pregação bíblica em muitas igrejas. Os ouvidos pós-modernos não querem mais ouvir o "assim diz o Senhor" do texto bíblico. Uma vez que a verdade é fabricada e não descoberta, podemos projetar a nossa própria religião ou espiritualidade pessoal e omitir doutrinas e mandamentos morais inconvenientes. O pós-modernismo promete que o indivíduo pode construir uma estrutura pessoal de espiritualidade, livre de interferências ou autorização externas. Sob o lema: "Não existe outra verdade como a minha verdade", as crianças do pós-modernismo estabelecerão seu próprio sistema doutrinal e desafiarão a correção.

Gene Veith, deão da Faculdade Ciências Humanas, na universidade de Concórdia, contou-nos sobre um jovem que afirmava ser cristão, professava crer em Cristo e amava a Bíblia, mas também cria na reencarnação. Seu pastor confrontou sua crença na reencarnação dirigindo o jovem para Hebreus& 9.27. O texto foi lido: "E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo". O jovem voltou o olhar para o seu pastor e respondeu: "Bem, essa é a sua interpretação".[iii]

Em nome do pós-modernismo, qualquer coisa pode ser explicada como uma questão de interpretação. O conceito dos jogos de linguagem wittgenstein declara que cada sentença deve ser avaliada com cuidado. Um conceito tão claro e óbvio como a primeira linha do Credo Apostólico: "Creio em Deus Pai, Todo-poderoso, Criador do céu e da terra" deve ser analisado nos termos das intenções do falante. Essa confissão assevera a crença de que Deus é, de fato, o criador do céu e da terra ou essa afirmação é um mero sentimento pessoal?

A estranheza do ministério pastoral na era pós-moderna pode ser vista em estudos bíblicos que não estudam a Bíblia, mas são exercícios psicológicos de auto-conhecimento, com o tipo de moralidade self-service, praticada por muitos membros de igreja; e a crescente aceitação de outras religiões como caminhos válidos para a salvação.&&&

A cultura moderna é revoltada contra a verdade, e o pós-modernismo não é nada senão a forma mais recente dessa revolta. Nesses tempos estranhos, o ministério pastoral clama por convicções não diluídas e por uma apologética fiel. As tentações para comprometer a mensagem são grandes, e a oposição que se levanta contra todo aquele que tem a pretensão de pregar a verdade absoluta e eterna é severa. Entretanto, essa é a tarefa da igreja cristã.

Precisamos compreender o pós-modernismo, ler os escritos de seus teóricos e aprender sua linguagem. Isso é muito mais um desafio missionário do que um exercício intelectual. Não podemos nos dirigir a uma cultura pós-moderna a menos que entendamos sua mente.

Devido a sua própria natureza, o pós-modernismo está condenado à auto-destruição. Seus princípios centrais não podem ser aplicados de maneira consistente. (Apenas peça para que um acadêmico pós-moderno aceite "a morte do texto" nas cláusulas de seu contrato). A igreja deve continuar a ser o povo da verdade, apegando-se às reivindicações de Cristo, e batalhando pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos. O pós-modernismo rejeita qualquer menção a uma verdade que foi entregue "uma vez por todas", mas a igreja não pode comprometer o seu testemunho.

O ministério pastoral está mais estranho do que costumava ser. No entanto, esta é uma era de grandes oportunidades para evangelização, pois à medida que os deuses do pós-modernismo morrem, a igreja testemunha a Palavra da Vida. Em meio à uma era pós-moderna, nossa tarefa é testemunhar a Verdade e recolher os cacos à medida que a cultura se despedaça.


[i] Jean-Francois Lyotard, The Postmodern Condition: A report on Knowledge, trans. Geoff Bennington and Brian Massumi, "Theory and History of Literature," vol. 10. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1984. p. 24.



[ii] Walter Truett Anderson, Reality Isn't What it Used to Be. San Francisco: Harper and Row, 1990.



[iii] Gene Veith, "Catechesis, Preaching, and Vocation," in Here We Stand, ed. James Boice and Ben Sasse. Grand Rapids: Baker Book House, 1996. pp. 82-83.

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Traduzido por: Waléria Coicev

Revisão: Tiago Santos

Copyright © R. Albert Mohler Jr.


PRECISAMOS NOVAMENTE DE HOMENS DE DEUS

A. W. Pink


A igreja, neste momento, precisa de homens, o tipo certo de homens, homens ousados. Afirma-se que necessitamos de avivamento e de um novo movimento do Espírito; Deus, sabe que precisamos de ambas as coisas. Entretanto, Ele não haverá de avivar ratinhos. Não encherá coelhos com seu Espírito Santo.



A igreja suspira por homens que se consideram sacrificáveis na batalha da alma, homens que não podem ser amedrontados pelas ameaças de morte, porque já morreram para as seduções deste mundo. Tais homens estarão livres das compulsões que controlam os homens mais fracos. Não serão forçados a fazer as coisas pelo constrangimento das circunstâncias; sua única compulsão virá do íntimo e do alto.


Esse tipo de liberdade é necessária, se queremos ter novamente, em nossos púlpitos, pregadores cheios de poder, ao invés de mascotes. Esses homens livres servirão a Deus e à humanidade através de motivações elevadas demais, para serem compreendidas pelo grande número de religiosos que hoje entram e saem do santuário. Esse homens jamais tomarão decisões motivados pelo medo, não seguirão nenhum caminho impulsionados pelo desejo de agradar, não ministrarão por causa de condições financeiras, jamais realizarão qualquer ato religioso por simples costume; nem permitirão a si mesmos serem influenciados pelo amor à publicidade ou pelo desejo por boa reputação.



Muito do que a igreja faz em nossos dias, ela o faz porque tem medo de não fazê-lo. Associações de pastores atiram-se em projetos motivados apenas pelo temor de não se envolverem em tais projetos.



Sempre que o seu reconhecimento motivado pelo medo (do tipo que observa o que os outros dizem e fazem) os conduz a crer no que o mundo espera que eles façam, eles o farão na próxima segunda-feira pela manhã, com toda a espécie de zelo ostentoso e demonstração de piedade. A influência constrangedora da opinião pública é quem chama esses profetas, não a voz de Jeová.


A verdadeira igreja jamais sondou as expectativas públicas, antes de se atirar em suas iniciativas. Seus líderes ouviram da parte de Deus e avançaram totalmente independentes do apoio popular ou da falta deste apoio. Eles sabiam que era vontade de Deus e o fizeram, e o povo os seguiu (às vezes em triunfo, porém mais freqüentemente com insultos e perseguição pública); e a recompensa de tais líderes foi a satisfação de estarem certos em um mundo errado.



Outra característica do verdadeiro homem de Deus tem sido o amor. O homem livre, que aprendeu a ouvir a voz de Deus e ousou obedecê-la, sentiu o mesmo fardo moral que partiu os corações dos profetas do Antigo Testamento, esmagou a alma de nosso Senhor Jesus Cristo e arrancou abundantes lágrimas dos apóstolos.


O homem livre jamais foi um tirano religioso, nem procurou exercer senhorio sobre a herança pertencente a Deus. O medo e a falta de segurança pessoal têm levado os homens a esmagarem os seus semelhantes debaixo de seus pés. Esse tipo de homem tinha algum interesse a proteger, alguma posição a assegurar; portanto, exigiu submissão de seus seguidores como garantia de sua própria segurança. Mas o homem livre, jamais; ele nada tem a proteger, nenhuma ambição a perseguir, nenhum inimigo a temer. Por esse motivo, ele é alguém completamente descuidado a respeito de seu prestígio entre os homens. Se o seguirem, muito bem; caso não o sigam, ele nada perde que seja querido ao seu coração; mas, quer ele seja aceito, quer seja rejeitado, continuará amando seu povo com sincera devoção. E somente a morte pode silenciar sua terna intercessão por eles.


Sim, se o cristianismo evangélico tem de permanecer vivo, precisa novamente de homens, o tipo certo de homens. Deverá repudiar os fracotes que não ousam falar o que precisa ser externado; precisa buscar, em oração e muita humildade, o surgimento de homens feitos da mesma qualidade dos profetas e dos antigos mártires. Deus ouvirá os clamores de seu povo, assim como Ele ouviu os clamores de Israel no Egito. Haverá de enviar libertação, ao enviar libertadores. É assim que Ele age entre os homens.



E, quando vierem os libertadores... serão homens de Deus, homens de coragem. Terão Deus ao seu lado, porque serão cuidadosos em permanecer ao lado dEle; serão cooperadores com Cristo e instrumentos nas mãos do Espírito Santo...


Fonte: http://www.editorafiel.com.br

sexta-feira, 19 de junho de 2009

LIBERTAÇÃO E NOVA VIDA

D. M. Lloyd-Jones

“Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto. Não me lances fora da tua presença, e não retires de mim o teu Espírito Santo. Torna a dar-me (restitui-me) a alegria da tua salvação, e sustém-me com um espírito voluntário. Então ensinarei aos transgressores os teus caminhos, e os pecadores a ti se converterão. Livra-me dos crimes de sangue, ó Deus, Deus da minha salvação, e a minha língua louvará altamente a tua justiça. Abre, Senhor, os meus lábios, e a minha boca entoará o teu louvor.”

— Salmo 51:10-15

Em nossos três estudos anteriores, vimos que este Salmo não é apenas uma declaração clássica da doutrina bíblica e cristã do arrependimento, e que nos mostra também, de uma forma muito clara e dramática, os vários passos e estágios no processo do arrependimento, mas além disso, a um e ao mesmo tempo, ele nos lembra da maneira igualmente marcante, algumas das principais características da verdadeira e genuína experiência cristã. Aqui neste Salmo do Velho Testamento, ouvimos o clamor do coração humano que reconhece sua pecaminosidade na presença de Deus, o clamor para as muitas coisas que são supridas tão gloriosa e maravilhosamente pelo evangelho do Novo Testamento, por meio e através do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Tenho tentado traçar junto com vocês os vários passos e estágios; e tenho sido cuidadoso em ressaltar que não insistimos que todos devem experimentar essas coisas precisamente na mesma ordem, ou que deva existir um tipo de repetição mecânica daqueles elementos essenciais na experiência cristã. Todavia, temos nos preocupado em ressaltar que há certas coisas que estão invariavelmente presentes numa genuína experiência cristã; e esses são os passos que temos detalhado até agora. Primeiramente, vimos que o homem cristão é alguém que em algum momento ou outro foi despertado. Ele caiu em si mesmo e viu o caráter horrível das coisas que havia feito. Vimos que o passo seguinte era que tal homem sempre chega a perceber sua desesperada necessidade de perdão, volta-se para o verdadeiro Deus contra quem ele tem pecado, e lança-se inteiramente sobre Sua misericórdia. E então consideramos a terceira coisa que acontece ao cristão, a qual é que ele vê sua absoluta necessidade do novo nascimento e de uma nova natureza. É por isso que a doutrina da regeneração é para o verdadeiro cristão uma das mais gloriosas doutrinas de toda a Bíblia. Ele louva a Deus pelo milagre da redenção.

Agora veremos a outra característica do verdadeiro cristão, que é o fato dele mostrar certas conseqüências que advêm de tudo o que já tenho falado. Há certas conseqüências inevitáveis para aquelas coisas — a conscientização do pecado como resultado do despertar, a necessidade de perdão e a oração para a nova natureza. Então, agora quero tratar dessas conseqüências, e ao fazermos isso eu lhes lembraria mais uma vez do princípio que tenho enfatizado sempre, isto é, o que irei dizer é algo que encontramos em toda parte da Bíblia. Observem a experiência dos santos como ela nos é apresentada no Novo Testamento, e vocês verão que todos se amoldaram a um padrão fundamental. Tomem qualquer caso e comparem; todos eles são exatamente o mesmo. Isso é algo tão maravilhoso nas Escrituras; encontramos essas mesmas experiências repetidas em toda parte. Não apenas isso, se pegarem seu hinário, descobrirão que os autores que tiveram uma genuína experiência da graça de Deus em Cristo, também estão dizendo as mesmas coisas. Não importa qual a denominação a que pertençam. A experiência evangélica do novo nascimento é a mesma em todos os países e em todos os séculos, e essa é a razão porque essas grandes ilustrações que temos em nossos hinos dão testemunho e confirmam as mesmas coisas. Novamente, quando lemos as biografias dos santos através dos séculos, encontramos uma repetição das mesmas experiências. Martinho Lutero, após ter dolorosamente elaborado para si mesmo a doutrina essencial da justificação pela fé somente e a doutrina evangélica da redenção, descobriu também que Agostinho tinha dito tudo isso onze séculos antes, e quão surpreso e maravilhado ele ficou por ter descoberto o que Agostinho já havia escrito! Muitos outros santos tiveram a mesma experiência. Essas coisas são absolutas, e portanto devemos observá-las muito cuidadosamente.

Aqui, noutras palavras, temos nosso único padrão: o que importa não é o que você e eu pensamos, é o que a Bíblia ensina. As pessoas têm suas próprias idéias sobre o que constitui um cristão. Vocês percebem isso quando discutem essas coisas com outras pessoas, e elas dizem: “O que eu afirmo é isto”. E devido eles o terem dito acham que isso deve ser verdadeiro. Contudo, certamente não há um padrão definitivo do que torna um homem em cristão, exceto na Bíblia. O que conhecemos do cristianismo fora da Bíblia? Que direito temos nós de afirmar: “Isso é o que eu penso que torna um homem em cristão”? Certamente, a Bíblia é nossa única regra e autoridade. Nada conhecemos de Jesus Cristo, à parte do que encontramos na Bíblia, e não temos qualquer direito de postular o que é a experiência cristã fora do ensino da Palavra de Deus. Aí, eu digo, está o único teste e o único padrão. Eu diria novamente com Lutero: “Não conheço outro Deus senão Jesus Cristo”. Nada conheço além do que encontro na Bíblia, e o que encontro nela é que eu estou passando por este mundo, que tenho de encontrar-me com Deus face a face, que há um único caminho pelo qual eu posso fazer isso sem medo, horror, estremecimento, alarme e destruição final, e isso é prestar uma pronta obediência ao que Deus me fala em Sua própria Palavra, crer em Seu Filho o Senhor Jesus Cristo, e entregar-me e toda a minha vida a Ele. Se faço isso, se reconheço meu pecado, se percebo minha necessidade de perdão e creio que tenho isso através de Cristo e Sua perfeita obra, se suplico e oro por esse novo nascimento e o recebo, então afirmo que certas coisas me acontecerão.

Noutras palavras, afirmo que o que estou a ponto de dizer é um teste. Não posso imaginar nada mais terrível para um homem do que viver uma longa vida neste mundo presumindo e imaginando que é um cristão, e então descobrir no temível dia do Juízo que ele nunca foi um cristão de verdade. Essas são as sérias palavras do próprio Senhor Jesus Cristo: “Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? E em teu nome não expulsamos demônios? E em teu nome não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade” (Mateus 7:22,23). Para mim (e esse é o motivo pelo qual eu sou um pregador do evangelho) a coisa mais importante para um homem nesta vida e neste mundo é saber com segurança que ele é um cristão. É o único lugar seguro, é o único lugar de segurança, e estudando este Salmo, temos mostrado certos testes que podemos aplicar a nós mesmos. Aqui está o teste final.

Quais são as conseqüências do arrependimento, da fé no Senhor Jesus Cristo e do novo nascimento? A primeira é a possessão do júbilo e da alegria. Observem como Davi colocou isso: “Faze-me”, ele disse no versículo 8, “ouvir júbilo e alegria; para que gozem os ossos que tu quebraste”. Mas ouçam novamente como ele coloca isso no versículo 12: “Torna a dar-me (restitui-me) a alegria da tua salvação”. Ele tinha conhecimento disso, contudo a havia perdido, e quer tê-la de volta. Afirmo que qualquer homem que tem sentido isso através da experiência da conversão, que nasceu de novo, é alguém que conhece esse júbilo e alegria. Ora, sejamos cuidadosos acerca disso. Há muito mal-entendimento a respeito desta questão de alegria cristã. É muito importante observar que a alegria da qual Davi fala aqui é uma alegria exclusiva, exatamente da mesma maneira que a Bíblia fala dela em toda parte. Ele não está falando sobre uma alegria e júbilo comuns; não está falando de algo temperamental. A alegria da qual ele fala é chamada “a alegria da tua salvação”. É uma alegria especial. Por essa razão me esforço para enfatizar isso. Sou muito inclinado a concordar que temperamentalmente nos diferenciamos tremendamente uns dos outros. Há algumas pessoas que parecem ter nascido com um temperamento mórbido, introspectivo, miserável e infeliz, e há outras pessoas que são naturalmente alegres, otimistas e simpáticas. Se fizermos uma análise da humanidade do ponto de vista psicológico, descobriremos que há todas as variações concebíveis, do tipo introspectivo, totalmente miserável, a esse outro tipo de pessoa que está sempre, como já falamos, jubiloso, feliz e alegre, independente do que esteja acontecendo. Com efeito, a Bíblia é bem ciente de tudo isso, é claro, mas sua grande mensagem para nós — e graças a Deus por isso! — é que a alegria da qual ela fala é totalmente independente de qualquer situação natural. E a alegria da salvação vindo de Deus que é oferecida, e não uma alegria natural qualquer. Isso é importante neste sentido: o ensino bíblico é que todo cristão deve possuir esta alegria, e embora você tenha nascido naturalmente mórbido, ainda pode desfrutar desta alegria específica.

Um caso, talvez, ajudará a estabelecer este ponto. Penso que qualquer psicólogo concordaria comigo quando digo que o apóstolo Paulo era por nascimento e por natureza um homem dado à morbidez e introspecção; não houve nada nele do tipo de pessoa que possuía aquela alegria natural. Mesmo assim jamais houve um homem que conhecia a alegria da salvação provindo de Deus mais que o apóstolo Paulo. Ou considerem outro caso, um caso mais moderno. Consideremos um homem como João Wesley. É impossível imaginar que João Wesley fosse um tipo de indivíduo alegre e feliz. Ele era a verdadeira antítese disso: erudito, um tanto distante, com uma espécie de frieza em sua natureza e pessoa — temperamentalmente, um homem naturalmente mórbido também. E mesmo assim ele se tornou um homem que conhecia esta grande alegria da salvação e se gloriava e regozijava nela. Eu poderia fornecer muitos outros exemplos para estabelecer o mesmo ponto. O que afirmo, portanto, é que se estamos carentes da alegria da salvação provindo de Deus, não podemos nos desculpar em base temperamental e dizer: “Não somos todos iguais”. Não estamos discutindo temperamentos; estamos discutindo a alegria da salvação dada por Deus que é oferecida a todos, e que, de acordo com a Bíblia, é para todos. Considerem Pedro, por exemplo, em sua Primeira Epístola (capítulo 1, versículo 8). Ele está escrevendo aos cristãos e quer que eles se regozijem, e lhes diz: “Não o vendo agora, mas crendo, vos alegrais com gozo inefável e glorioso” — todos eles. Ele não diz:”alguns de vocês, os mais joviais e os mais alegres, estão regozijando na alegria”. Nada disso; todos nós, cada um, todo cristão.

Então, a pergunta que eu faço é esta: conhecemos alguma coisa acerca desta alegria, satisfação e regozijo? Tenho estabelecido que isso é uma conseqüência inevitável da verdadeira experiência evangélica do novo nascimento. Mas, caso que alguém esteja triste sobre isso, deixem-me colocá-lo da seguinte forma, pois é meu desejo ser essencialmente prático: há certas coisas que tendem a se levantar entre as pessoas e a experiência desta alegria e satisfação. Permitam-me mencionar algumas. A primeira, evidentemente, é o pecado. Essa era a essência do problema de Davi. “Restitui-me”, disse Davi, “a alegria da tua salvação.” Por que ele a tinha perdido? Ele a tinha perdido porque era culpado de adultério, assassinato e as outras coisas que já foram mencionadas. Meu querido amigo, não há necessidade de argumentar a respeito disso. Infelizmente, todos nós sabemos algo disso por dolorosa experiência. Se pecamos, quebramos a comunhão e o contato com Deus, e isso sempre nos leva à miséria e tristeza. Sempre há condições vinculadas às bênçãos de Deus. Devemos amar a Deus; Deus nos chama a amá-lO. Sei de muitas pessoas que estão vivendo uma vida cristã miserável porque não se submetem a Deus. A coisa não funciona em direções opostas. Leiam a respeito do apóstolo Paulo novamente, e a maravilhosa alegria que ele conhecia. Leiam as biografias dos santos e de suas vibrantes experiências. Por que todos nós não temos isso? Não é que elas fossem pessoas especiais. Não, Paulo disse que ele era “o principal dos pecadores”. Como então ele conhecia tamanha alegria? A essência do segredo é que ele evitava o pecado, ele vivia a vida para a qual Deus em Cristo o chamara. O pecado sempre rouba a alegria. Sejamos cuidadosos quanto a isso.

Mas há outra razão também, isto é, falta de compreensão quanto ao caminho da salvação. Há muitas pessoas que querem ser cristãs, há muitas que dariam o mundo inteiro se tão-somente pudessem ter a alegria de que se lê na Bíblia e nas vidas dos santos. E, no entanto, elas dizem: “Você sabe, parece que nunca sou capaz de apreendê-la. Tenho orado por ela e a almejado. A coisa que eu mais quero é esta grande alegria, e ainda não a tenho; sempre está me iludindo”. Bem, às vezes a razão por isso não passa de pura ignorância ou falta de ensino a respeito do caminho e os meios da salvação. Sem perceber isso, essas pessoas estão ainda confiando em si mesmas e em seus próprios esforços. Elas não perceberam que o evangelho é algo simples, que temos que vir a Deus de mãos vazias, reconhecendo que nada podemos fazer, pois ele é um dom dado por Deus. Elas estão ainda tentando tornar a si mesmas cristãs, e enquanto fizerem isso, jamais conhecerão a alegria da salvação. Deixem-me explicá-lo mais uma vez. É simplesmente isto — e como é simples! Todos nós temos pecado contra Deus. Nunca poderemos livrar-nos da nossa culpabilidade, nunca poderemos remover a mancha. Meu passado permanece e eu não posso apagá-lo; eu falho no presente e falharei no futuro. Como então eu poderia encontrar-me com Deus e ser perdoado? Ah, a resposta para tudo isso é que eu posso recebê-lo como uma dádiva imediata, que tudo têm sido realizado em Cristo, que Cristo morreu pelo meu pecado, e devido Deus ter tratado com o pecado ali, Ele me oferece este dom gratuitamente. Aí está a essência desta questão. Não precisam esperar por coisa alguma: é um dom que tem que ser recebido, assim como você está e onde estiver neste momento.

Lamentavelmente, há muitas pessoas que não reconhecem isso. Elas dizem: “Eu devo me tornar um homem melhor antes de poder dizer que sou cristão”. Isso é negar toda a doutrina do perdão. A doutrina é que em simplicidade pura e completa tudo é dado por Deus, num momento, imediatamente. Ele não pede nada de nós, exceto submissão. Espero que ninguém esteja vivendo sem a alegria da salvação, pelo fato de não reconhecer que ela é dada gratuitamente por Deus a qualquer momento. Deus não pede que você faça alguma coisa. Ele pede que você a receba agora, que você creia em Sua palavra. Oh, que tragédia, o fato das pessoas estarem privando a si mesmas dessa alegria, por esse motivo!

Deixem-me dar um exemplo disso. O problema todo com Lutero era esse. Lutero estava tentando tornar-se cristão, e era infeliz, como qualquer homem é quando tenta fazer de si mesmo um cristão, porque é coisa impossível. E então, a abençoada verdade, que essas riquezas de Deus em Cristo são dadas livremente e tudo o que ele tinha a fazer era recebê-las pela fé, foi-lhe revelada. Esse é também o caso de todos os outros santos na história da Igreja.

Uma terceira razão que explica porque muitos não têm essa alegria da salvação é o simples fato que eles gastam tanto tempo olhando para si mesmos, em vez de olharem para o Senhor. Eles erguem para si mesmos um padrão de perfeição. Lembro-me do triste caso de um homem muito piedoso que eu conheci. Ele tinha duas filhas que eram excelentes mulheres. Ambas já tinham alcançado a meia-idade quando eu as conheci. Elas viviam, em certo sentido, para as coisas de Deus, e mesmo assim, nenhuma delas ainda havia se tornado membro de uma igreja cristã, ou mesmo participado da Ceia do Senhor. Com respeito às suas vidas e conduta, vocês certamente não poderiam conhecer pessoas melhores, contudo, elas nunca haviam se tornado membros de igreja e jamais participaram do pão e do vinho. Por quê? Elas diziam que não sentiam que eram boas o suficiente. Qual era o problema com elas? Elas estavam olhando para si mesmas em vez de olharem para a consumada e perfeita obra de Cristo. Vocês olham para si mesmos e, é claro, serão miseráveis, porque no íntimo há trevas e escuridão. O melhor santo quando olha para si mesmo se torna infeliz; ele vê coisas que não deveriam estar ali, e se nós gastarmos todo o nosso tempo olhando para nós mesmos, permaneceremos na miséria, e perderemos a alegria. Auto-avaliação é coisa boa, mas introspecção é ruim. Vamos mostrar a diferença entre essas duas coisas. Podemos examinar a nós mesmos à luz das Escrituras, e se fizermos isso, estaremos sendo conduzidos a Cristo. Mas com a introspecção, um homem olha para si mesmo e continua fazendo assim, e se recusa a ser feliz até que possa se livrar das imperfeições que ainda estão ali. Oh, como é trágico o fato de ficarmos gastando nossas vidas olhando para nós mesmos em vez de olharmos para Aquele que pode nos fazer livres!

Acaso não é uma coisa maravilhosa que essa alegria é totalmente possível para criaturas como nós? Não haveria algo quase ousado sobre esta oração de Davi? “Restitui-me a alegria da tua salvação”, disse o adúltero e assassino, o mentiroso, o homem que é responsável por tantos problemas — “restitui-me a alegria da tua salvação”. Como pode um homem como esse ainda ser feliz? Seria possível? Sou grato a Deus porque isso é possível, e é o motivo pelo qual prego este evangelho a vocês. Isso é a glória desta salvação maravilhosa. Ele pode dar essa alegria a um homem que tem descido tão fundo, e pode elevá-lo para as alturas da alegria e satisfação. E faz desta forma: ele pode tornar o pior pecador alegre e feliz pelo fato de dar-lhe uma certeza de perdão e absolvição. O único que pode dar perdão é Deus, e, graças a Deus, Ele o faz! E Deus não apenas perdoa, Ele pode fazer-me ciente de que tem me perdoado. Saber isso é perder aquela sensação miserável de culpa e frustração. Ninguém mais pode fazer isso, mas Deus pode. Então, embora eu tenha afundado na mais baixa profundeza do pecado e degradação, Ele pode fazer-me regozijar em Sua grande salvação.

Por conseguinte, Ele me concede isso dando-me uma nova natureza e um senso de um novo início, um novo começo. Nenhum homem pode ser realmente feliz e satisfeito, se ele sente que vai gastar o resto de sua vida exatamente como era antes, porque ele argumenta da seguinte forma: “Eu estou arrependido pelo que fiz, mas sei que vou fazer a mesma coisa novamente. Oh, desventurado homem que eu sou, em que miserável existência eu me encontro!” Todavia aqui é uma oferta de uma nova natureza, um novo início, um novo começo. Esse é o evangelho de Jesus Cristo. Ele propõe nos criar de novo, fazer de nós novos homens com a natureza divina dentro de nós, e assim temos um novo começo de vida. Não apenas isso, mas isso por sua vez faz um homem sentir que libertação é realmente possível. “Eu preciso de Ti todas as horas,” diz o cristão. “Fiques Tu bem junto a mim.” Por quê? “Tentações perdem o seu poder, quando Tu estás por perto.” Eu começo a sentir que Ele está comigo; e Ele é mais poderoso que o maligno. Ele venceu o diabo e pode me capacitar a fazer o mesmo.

Outra maneira pela qual Ele me capacita a alegrar-me e regozijar-me é que o próprio Deus me capacita a esquecer minha miséria e desventura. Essa é uma das coisas mais maravilhosas de todas. Vejam vocês, aqui está um homem como Davi, e ele tem feito todas essas coisas. Ora, se um homem como esse começa a olhar para si mesmo, ele cairá nas profundezas do desespero; mas quando Deus nos faz olhar para Cristo, Ele nos faz olhar para Seu amor, compaixão e misericórdia. Ao fazermos isso, ficamos livres de nós mesmos, esquecemos de nós mesmos — é o único caminho que eu conheço para alguém esquecer de si mesmo. O caminho para ser feliz, conforme o evangelho, é olhar para o Senhor Jesus Cristo. Observem que o Filho de Deus desceu do céu para este mundo, a fim de morrer pelos nossos pecados. Vejam-nO, pela fé, lá na glória, olhando para vocês, desejando derramar Sua grande luz, poder e força sobre as suas vidas. E quando vocês refletirem sobre Seu amor e compaixão, esquecerão de si mesmos e do pecado, e começarão a regozijar-se e a louvar ao Senhor. Vocês terão a alegria de Sua grande salvação. Assim é que acontece. Porventura vocês conhecem a alegria da salvação vindo de Deus? Vocês sabem o que é regozijar-se no Senhor, ser contentes em Cristo?

A segunda característica do cristão é sempre esta: uma profunda desconfiança de si e uma dependência do poder de Deus. Ouçam a Davi. Ele já tinha dito: “Cria em mim um coração puro... e renova em mim um espírito reto”. A Versão Revisada coloca da seguinte maneira: “Renova um espírito stedfast (inabalável) dentro em mim”. Observem vocês que ele era consciente de sua própria impureza. Davi pôde muito bem ter sentido assim. Ele foi um homem que havia experimentado a bênção de Deus, e tinha conhecimento da alegria do Senhor; e mesmo assim tinha caído nesses terríveis pecados. Então ele clamou por essa renovação dentro dele e por esse espírito inabalável. Eu ouso dizer que todo cristão sabe o que isso significa. Um cristão não é um homem que confia em si mesmo. Ele é o único que reconhece sua própria debilidade. Precisa ser um cristão para ver a grande negritude do seu coração e a fragilidade de sua própria natureza. Há um tipo de cristão, eu lamento dizer, que se comporta como se pudesse fazer todas as coisas. Ele teve uma experiência de conversão, e agora está pronto para encarar o inferno, o diabo e qualquer coisa. Pobre sujeito, ele não irá muito longe antes de perder esse senso de confiança. “Aquele, pois, que pensa estar em pé,” disse o apóstolo Paulo a tais pessoas, “veja que não caia” (1 Coríntios 10:12). Não, o cristão é um homem que reconhece sua própria fragilidade, e ele teme isso. Então ele ora por um espírito estável, um espírito inabalável. Ele quer ser um homem invulnerável.

O que mais? Aqui está a próxima coisa — “Restitui-me a alegria da tua salvação; e sustém-me.” “Sustém-me — eu não posso sustentar a mim mesmo”, ele disse. “Sustenta-me, eu sou frágil e fraco, e o mundo é sombrio e pecaminoso. Estou cercado pela tentação, insinuações e sugestões de pecado. Tenho medo de cair; sustém-me Senhor.” Esse é o cristão — um homem que reconhece que se Deus não o sustentar, ele certamente cairá.

E a última coisa que ele expressa aqui é: “Restitui-me a alegria da tua salvação; e sustém-me”, diz a Versão Autorizada, “com teu espírito livre.” É convencionado que essa é uma tradução errada; é melhor desta forma : “sustém-me com um espírito voluntário”. Noutras palavras, ele está orando por isto: “Eu peço que Tu me enchas com um espírito voluntário, para que eu esteja sempre disposto a fazer o que Tu pedires de mim. Quero estar disposto para andar no caminho dos Teus mandamentos, então restitui-me essa alegria da Tua salvação e sustém-me com um espírito reto e voluntário”. E é claro que o cristão sabe que tudo isso só é possível de uma maneira — a maneira que Davi já havia expressado nas palavras: “Não me lances fora da tua presença, e não retires de mim o teu Espírito Santo”. Esse era o maior medo que ele tinha, que Deus, por causa do seu pecado, pudesse voltar as costas para ele. “Não faça isso”, clamou Davi; “não me lances da tua presença, não retires de mim o teu Espírito Santo.” Noutras palavras, o cristão reconhece que, como ele precisa de uma firmeza na vida, precisa de ser apoiado, precisa desse espírito voluntário, há uma única resposta, e essa resposta é o dom do Espírito Santo. E, graças a Deus, essa é a resposta do evangelho no Novo Testamento. Deus coloca Seu Espírito em nós; e o Espírito de Deus pode fazer-nos firmes, Ele pode nos sustentar, pode nos dar essa disposição, essa prontidão para andarmos no caminho dos mandamentos de Deus. A confiança do cristão nunca está nele mesmo; ela está no poder do Espírito Santo que Deus em Cristo, e através de Cristo, dá a ele.

A última coisa que devo mencionar é esta. A última característica do cristão é que ele agora deseja viver para a glória de Deus, e está desejoso para que todos os outros façam o mesmo. Ouçam Davi nos versículos 13-15: “Então ensinarei aos transgressores os teus caminhos, e os pecadores a ti se converterão. Livra-me dos crimes de sangue, ó Deus, Deus da minha salvação, e a minha língua louvará altamente a tua justiça. Abre, Senhor, os meus lábios, e a minha boca entoará o teu louvor”. Eu não preciso me deter nisso. Qualquer homem que reconhece que Deus em Sua graça tem perdoado seu pecado, apagado as suas transgressões, lavado e purificado seu coração; qualquer homem que sabe quão vil ele tem sido, e quão maravilhosas são essa graça e vida de Deus — e qualquer homem que realmente reconheceu e experimentou isso deve necessariamente sentir que há somente uma coisa a ser feita nesta vida e neste mundo — viver para a glória de Deus. Se um homem não sente isso, ele é desprezível. Se eu me levanto aqui e afirmo que creio que Deus enviou Seu Filho unigênito para aquela cruz hedionda no Calvário para morrer por meus pecados, que Deus tem me amado de tal maneira que fez isso por mim — se afirmo isso e não quero viver para a honra e glória de Deus, estou afirmando que sou o maior ingrato e miserável que o mundo já viu. Não há necessidade de argumentarmos acerca dessas coisas. Amigo, se alguém faz uma boa ação para você, você tem um senso de gratidão para com ele, e pergunta: “Haveria alguma coisa que eu possa fazer por você? Se você tiver qualquer problema, deixe-me saber. Sinto que lhe devo tanto, deixe-me fazer o que posso por você”. E aqui está o Deus santo que nos tem perdoado de nossos pecados imundos até mesmo ao custo do sangue derramado de Seu próprio Filho! Não deveria haver necessidade de apelar aos homens para serem santos; deveria ser suficiente dizer-lhes o que Deus tem feito e então deixar isso ao seu senso de honra.

“Ó Deus”, disse Davi, “restitui-me a alegria da tua salvação; e sustém-me com teu espírito livre. Então”, inevitavelmente, “ensinarei aos transgressores os teus caminhos, e os pecadores a ti se converterão.” Eu gastarei meu tempo, ele disse, entoando o Teu louvor, ministrando para Tua glória. Eu persuadirei outros a virem a Ti; olharei para eles com um olhar diferente. Eu os verei como tenho visto a mim mesmo, perdendo a maior e a mais maravilhosa coisa na vida, e direi a eles: “Venham a Deus, encarem o pecado de vocês, creiam nEle, e vocês terão esta maravilhosa alegria, esta sustentação, esta força e tudo que necessitarem”. “Então” — e é esse “então”, eu digo, que é inevitável em todo verdadeiro cristão. Um cristão, noutras palavras, é um homem que reconhece a verdade sobre si mesmo, e que já recebeu tanto de Deus que quer ver todos desfrutando bênçãos semelhantes. É como um homem que pode ter sofrido por anos de alguma doença ou indisposição dolorosa, que buscou todos os médicos de seu próprio país e de outros países e não encontrou cura, e finalmente, depois de muitas tentativas, encontra o alívio e livramento. O que esse homem desejaria fazer? Ele quereria que todos os outros que estão sofrendo da mesma enfermidade saibam acerca de sua cura. Ele sente que está em débito com eles. Ele vê um caso similar e diz: “Você tem experimentado isso? Ele operou maravilhas em mim. Oxalá você tentasse isso e ficasse como eu estou!” E é exatamente isso o que ocorre com um verdadeiro cristão. O homem que é cristão está triste por aqueles que estão vivendo em pecado. Ele lamenta por este mundo infeliz tentando encontrar alegria e nunca a encontrando, tentando beber água de uma cisterna rompida e nunca encontrando satisfação. Ele vê homens chegando perto da morte, do fim da vida, próximo do julgamento e da perdição eterna, e ele se sente triste por causa deles. Percebe que eles estão cegados por satanás, perdendo a coisa mais gloriosa de todas, e quer que eles saibam disso. Assim, tendo passado por essa experiência, ele faz o máximo para que outros possam tê-la também.

Portanto, olhamos juntos para algumas das caracter­ísticas do cristão. Meu amigo, eu já disse, e afirmo novamente, a questão mais importante no mundo é simplesmente esta: você é um cristão? Você conhece algo dessa alegria? Você conhece algo dessa suprema confiança no poder do Espírito Santo? Você sente que tem alguma coisa que gostaria que outros também tivessem? Esses são alguns dos testes mais simples. Se você tem essa bênção, que Deus continue abençoando-o. Se não a possui, se sente que essas simples questões têm condenado você, e sente que realmente não é um cristão, então tudo que eu tenho a dizer é: vá e confesse isso a Deus. Não perca tempo. Diga a Ele que você tem enganado a si mesmo, que reconhece que não é um cristão. Diga a Ele que você quer ser cristão, peça a Ele que pelo Seu Espírito Santo ilumine você. É tão simples quanto isso — confesse seu pecado, reconheça sua transgressão e peça a Ele por esse perdão em Cristo; e você irá recebê-lo. Então agradeça a Deus, e vá falar a respeito dEle a outros que estão em trevas e na mesma miséria. Amém.

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Este sermão é parte integrante do livro "O Clamor de um Desviado", uma série de sermões no Salmo 51 entregues nos cultos vespertinos aos domingos na Capela de Westminster ,em outubro de 1949. Foi a primeira série de sermões do "Doutor" (como era carinhosamente chamado) no Velho Testamento.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

William Guthrie (1620-1665)


Silas Roberto Nogueira


Adaptado do livro Meet the Puritans por Joel R. Beeke, que a PES publicará em breve sob o titulo “Paixão pela Pureza”, que contém cento e cinquenta breves biografias dos mais proeminentes puritanos, uma análise de suas obras e

as que ainda estão disponíveis.








Pedimos as orações dos leitores

pela saúde do tradutor desta

e de tantas outras obras,

o Pr. Odayr Olivetti.





William Guthrie nasceu em 1620, filho James Guthrie, Laird de Pitforthy, Angus. Era o mais velho de cinco irmãos, dos quais três se tornaram ministros do evangelho.



William Guthrie estudou na Universidade de St. Andrews, recebendo o grau de Mestre em Artes em 1638. Na mesma instituição estudou teologia tendo como professor Samuel Rutherford, que Deus usou para levá-lo à salvação bem como para o ministério.




Consciente do seu chamado ao ministério, William cedeu os direitos de sua herança a um irmão mais novo a fim de poder dedicar-se ao ministtério sem cuidados terrenos. Em 1642, William recebeu, pelo presbitério de St. Andrews, uma licença para pregar. Em 1644 foi ordenado como ministro em Fenwick, uma paróquia de Ayshire.




As condições da paróquia eram terríveis. Imperava a ignorância, as pessoas não temiam a Deus e muitos aldeães se recusavam a comparecer aos cultos ou mesmo realizar cultos em família. Mesmo assim, William serviu diligente e zelosamente como pastor naquele lugar.



Sob os vinte anos de seu ministério em Fenwick, a cidade recebeu um novo derramamento do Espírito Santo. A nova igreja chegou a estar repleta, centenas de pessoas renasceram e cresceram na graça e no conhecimento de Cristo Jesus. George Hutcheson, que assistia William Guthrie na celebração da Ceia do Senhor, disse que, se houve uma igreja de santos na face da terra, foi em Fenwick.



Guthrie casou-se com Agnes Campbell, um ano depois de estar estabelecido em Fenwick. Pouco tempo depois do seu casamento foi convocado para servir como capelão do exército escocês, durante a Guerra Civil.



O trabalho de Guthrie era marcado pelo zelo e coragem. Em certa ocasião, quando alguns soldados que não estavam devidamente habilitados a participarem da Ceia do Senhor se acercaram da mesa para tomarem parte na Ceia, Guthrie falou-lhes com tão amorosa seriedade que eles imediatamente voltaram a seus lugares.



Em 1649, Guthrie foi designado para compor uma comissão que deveria visitar a universidade de Glasgow. Mais tarde tornou-se um dos examinadores encarregados de aprovar ministros e preletores antes que eles assumissem posições eclesiásticas.



Em 1658 Guthrie publicou alguns dos seus sermões sob o título The Christian’s Great Interest (O grande interesse do cristão). John Owen, afamado puritano, ficou muito impressionado com esses escritos e disse a Guthrie que seu pequeno livro continha mais teologia do que todos os que ele, Owen, havia escrito.



Em 1644, o arcebispo de Glasgow, que estivera embaraçado com a recusa de Guthrie a submeter-se ao episcopado e com inveja das multidões que iam aos cultos nos quais ele pregava, privou-o do seu ministério.



O último sermão de Guthrie antes de ser preso, estava baseado em Oséias 13.9 levou toda a congregação às lágrimas. Ao meio-dia os soldados chegaram, e ele disse a um deles: “O Senhor perdoe o seu apoio a esta ação”. O soldado respondeu: “Espero nunca cometer maior falta” e Guthrie respondeu: “um pequeno pecado pode condenar nossa alma”.



William Guthrie faleceu em 10 de outubro de 1665, com a idade de quarenta e cinco anos, deixou vivas a sua mulher e duas filhas, quatro dos seus filhos o precederam na morte.



Em 1854 um memorial foi erguido para Guthrie em Fenwick e em 2005 uma placa foi colocada na Catedral de Brechin pela Scottish Covenanter Memorials Association.



Embora muitos escritos de Guthrie tenham sido confiscados e destruídos, uma coleção de dezessete dos seus sermões foi impressa em 1779 e depois em 1880. O livro The Christian’s Great Interest é um clássico sobre a certeza da fé e ainda está disponível, sendo reimpresso mais de oitenta vezes e traduzido para diversas línguas.



Em português uma versão resumida deste livro foi preparada por Roger Devenish foi publicada pela PES (Publicações Evangélicas Selecionadas) com o título “As Raízes de Uma Fé Autêntica”. O livro foi dividido em duas seções. A primeira parte busca responder a pergunta: “Que é um Cristão?” e oferece diversos testes bíblicos para uma pessoa saber se é cristã ou não. A segunda parte fala como podemos alcançar um interesse salvífico em Cristo, isto é, “Como se tornar cristão”. O desejo de Guthrie ao escrever era o de "persuadir pessoas a crerem que todas essas coisas são verdadeiras, de modo que se apressem em ir à Cristo, que vem, Ele mesmo, para julgar o mundo quanto a suas atitudes para com essas verdades".



Este é um livro maravilhoso para os que estão buscando certeza espiritual, embora em uma versão resumida e simplificada. Thomas Chalmers afirmou “o melhor livro que já li”. John Owen (1616-1683) [ veja post "O Princípe dos Puritanos"] disse "creio que o autor foi um dos maiores teólogos que já escreveu; sempre o tenho comigo. Escrevi muitos livretos mas há mais teologia neste livro que em todos os meus".


Soli Deo Gloria.