sexta-feira, 15 de maio de 2009

A Principal Necessidade do Pecador

D. M. Lloyd-Jones

“Cria em mim um coração puro, ó Deus.”

— Salmo 51:10

Gostaria de lembrar-lhes novamente que estou chamando sua atenção para este Salmo, não apenas porque ele é a grande declaração clássica sobre a doutrina do arrependimento, mas pelo fato que, ao mesmo tempo, ele nos lembra, de uma maneira muito clara e incisiva, de alguns dos passos e estágios através dos quais qualquer indivíduo tem que passar a fim de tornar-se um verdadeiro cristão. Há certas coisas que são essenciais à posição cristã. Não peço desculpas por fazer tal afirmação. Penso que uma das grandes tragédias da atualidade é que uma noção de incerteza tem entrado na concepção da pessoa comum quanto ao que constitui um cristão. Não há dificuldade no Novo Testamento em descobrir o que faz de alguém um cristão. Certas pessoas foram chamadas cristãs por uma razão muito específica, e isso era uma coisa tão definida que, às vezes, ser cristão tornou-se algo perigoso. Não há dúvida ou incerteza no Novo Testamento, e houve outros tempos na história da Igreja quando a posição do cristão era perfeitamente clara e definida. A firmo que uma das maiores tragédias do século vinte é que um conceito frouxo quanto ao que constitui o cristianismo, e o que torna um homem em cristão, tem penetrado no nosso conceito. Não precisamos estar preocupados por ora acerca das causas disso. Sabemos que, em última análise, isso pode ser ligado à tentativa de negar a autoridade única deste Livro (a Bíblia) e à substituição da revelação divina pelas idéias humanas.


Aqui neste Salmo, de forma muito definida, estão reunidas para nós algumas destas coisas essenciais que são sempre parte da textura da verdadeira experiência cristã. Digo novamente, a não ser que estejamos cientes destas coisas em nós mesmos, de alguma forma ou extensão, não temos direito de aplicar o termo “cristão” a nós mesmos. Aqui temos, a um e ao mesmo tempo, uma exposição aterrorizante da necessidade da espécie humana perdida no pecado, e a provisão que foi feita para nós no evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Não se encontra isso de forma plena neste Salmo, mas há nele uma introdução de maneira extraordinária. Aqui está expresso em embrião o que temos em plenitude maior no Novo Testamento. Estamos olhando para este Salmo deste modo porque a natureza do homem sem Cristo está exposta aqui de forma muito clara e marcante. Deixem-me resumir o ponto a que temos chegado em nossos estudos prévios deste Salmo. Há certos passos necessários antes que alguém se torne cristão, e o primeiro é que o homem precisa parar e pensar. Afirmo que é impossível ser cristão sem reflexão. Reconheço que há muitas pessoas que acham que um homem é cristão justamente porque ele não pensa e que aqueles que estão sem Cristo têm o monopólio do pensamento. Todavia, a Bíblia toda afirma que um homem não pode tornar-se cristão até que ele pense. E acerca do que ele deve pensar? Deve pensar acerca de si mesmo. Davi havia cometido um pecado terrível, um crime terrível. Ele foi culpado de homicídio, de adultério, e ainda se comportava como se não tivesse feito absolutamente nada. E teve que ser confrontado pelo profeta Natã, que mostrou-lhe o que havia feito e obrigou-o a encarar a si mesmo. Foi então que ele percebeu exatamente o que havia feito. Esse é sempre o primeiro passo. Se você é uma pessoa que não tem se detido e olhado a si mesmo, seja o que for a verdade sobre você, posso lhe dizer que ainda não é um cristão. É impossível ser cristão sem encarar a si mesmo e olhar para a sua própria vida. O mundo se esforça para impedir-nos de fazer isso. Com seus prazeres organizados e todas as suas atrações sugestivas, ele faz de tudo para impedir as pessoas de se deterem, pensarem e encararem-se a si mesmas e suas próprias vidas. Mas aquele que é cristão já ultrapassou tudo isso. Ele tem parado e olhado, tem examinado, reconhecido certas coisas acerca de si mesmo, e feito uma confissão definida. Você encontrará isso no primeiro versículo deste Salmo.


Então, o segundo passo é que um homem que se torna cristão é alguém que percebe sua total incapacidade. Ele reconhece sua necessidade de misericórdia e de perdão. É aquele que diz: “Tem misericórdia de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; segundo a multidão das tuas misericórdias, apaga as minhas transgressões”. Ele é alguém que tem visto que não pode livrar-se do sentimento de culpa, não pode encontrar paz e descanso para seu coração e mente como resultado de qualquer coisa que faça. Em desespero ele volta para Deus, o Deus que ele tem ofendido, e diz a si mesmo: “Minha única esperança está em Deus. O único que pode me dar paz é Aquele que mais tenho ofendido”. Então ele se lança sobre o amor, compaixão e misericórdia incom­parável desse Deus único.


Portanto, o ponto ao qual temos chegado é que o homem que não percebe que necessita de perdão não é cristão. Podem chamá-lo de um homem moral, se quiserem, podem chamá-lo de uma pessoa ética, podem chamá-lo de qualquer coisa que quiserem. Eu não nego que ele possa ser todas essas coisas; porém afirmo literalmente que um homem não pode ser cristão até que reconheça que é um pecador e necessita do perdão, misericórdia e compaixão de Deus, e clama por eles. Isto é uma daquelas coisas essenciais, sem as quais ninguém tem o direito de usar o grande e exaltado nome de cristão. Contudo, observem que Davi não parou aí. Ele foi além disso. E quero enfatizar que todo verdadeiro cristão invariavelmente deve sentir sempre a necessidade de ir além desse ponto. A primeira coisa é que um homem se torna consciente da necessidade do perdão. Tenho certeza que todos nós sabemos algo acerca de uma consciência acusadora e atormentadora — do sentimento que temos errado e que queremos ficar livres daquele sentimento de culpa, a qual nos traz infelicidade. Queremos sentir descanso e paz. Esta é a primeira coisa que o pecador convicto pelo Espírito Santo sempre sente. O homem que se detém, encara a si mesmo e percebe o que tem feito é alguém que está infeliz, e quer ficar livre desse estado de infelicidade. Todavia, o verdadeiro cristão não pára por aqui. O próximo passo é ver e odiar aquela terrível coisa dentro de nós que sempre nos torna propensos ao pecado.


Observem estes passos no caso do rei Davi. Em primeiro lugar, ele estava desatento. Então, ele estava preso, viu sua transgressão, iniqüidade e pecado. A seguir, o sentimento de culpa e o desejo de se ver livre dele e o clamor: “Tem misericórdia de mim, ó Deus”. Mas ele não parou nisso. Seguiu adiante e disse: “A coisa terrível é essa, que eu fui capaz daquele adultério e homicídio”. Essa é a verdadeira essência da posição cristã. O cristão nunca pára meramente no desejo de ser perdoado; ele sempre acusa e examina a si mesmo com tal dimensão que se torna mais inquieto e preocupado acerca daquilo que está dentro dele, e que o torna capaz de tal ação do que a ação em si. O perdão não é mais para ele a grande questão; é aquilo que está dentro dele que sempre o coloca na posição de carente de perdão. Espero que eu esteja tratando disso de forma clara. Receio de que é um evangelismo muito superficial aquele que pára no perdão como se isso fosse o único problema. Não, não; há alguma coisa mais terrível que a necessidade de perdão, é que há algo em mim que me coloca na posição de que eu necessite dele. É a posição que Davi alcançou, e isso é a coisa que ele expressou tão pungentemente no versículo dez: “Cria em mim um coração puro, ó Deus”. “Esse é o meu real problema,” ele parecia dizer, “é meu coração que está errado.”E aí ele está clamando a Deus — “Deus, cria em mim um coração puro”. Isso é algo que está sempre presente em todo verdadeiro cristão. Ele reconhece sua necessidade de uma nova natureza, ele reconhece a necessidade de um novo nascimento — de regeneração. O verdadeiro cristão é alguém que reconhece que não basta ser perdoado e decidir viver uma vida melhor; ele percebe que precisa ser criado de novo. A não ser que Deus faça alguma coisa no íntimo do seu ser ele está totalmente perdido. Ele reconhece que necessita nascer de novo, ou seja, ser criado novamente.


Ora, esse é o assunto para o qual estou chamando sua atenção neste terceiro estudo. É um grande assunto, um assunto sobre o qual muitos volumes têm sido escritos, e obviamente não posso tratá-lo exaustivamente aqui. No entanto, vou mostrar-lhes a doutrina da regeneração como é ensinada no Salmo 51. Ele não nos fala todas as coisas a respeito desta doutrina. Estou simplesmente me limitando à exposição dela dado aqui por Davi em sua agonia e em sua oração. Entretanto, deixem-me dizer de passagem que nada, parece-me, é tão estranho como a maneira que o homem, por natureza, sempre rejeita esta doutrina da regeneração. Às vezes eu penso que não há nada que demonstre tanto a profundidade do pecado no coração humano como essa rejeição da doutrina do novo nascimento. Leiam o Novo Testamento e constatarão que muitos rejeitaram esta doutrina naqueles dias. Quando nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo falou sobre isso, sempre foi perseguido. Certas pessoas não gostavam dEle porque mencionava isso. Quando Ele começava a expor a profundidade da iniqüidade no coração humano e falava acerca de um novo nascimento, elas invariavelmente não O compreendiam. Elas não gostavam de ouvir isso naquela época, e desde então sempre tem sido assim. Quando João Wesley foi verdadeiramente convertido, ele retornou à sua universidade em Oxford e pregou um sermão sobre esse assunto; e foi odiado por isso. Aquelas respeitáveis pessoas religiosas lá em Oxford não gostaram desta doutrina, e eles tornaram impossível a ele continuar pregando ali. O homem natural, o coração humano natural, não regenerado, rejeita esta grande e maravilhosa doutrina bíblica do novo nascimento e regeneração. E isso é igualmente verdadeiro hoje. As pessoas se assentam e ouvem um discurso ou sermão sobre o que é chamado de paternidade de Deus, ou a fraternidade do homem, e nunca rejeitam isso. Quando elas são exortadas a viver uma vida melhor, nunca fazem absolutamente nenhuma objeção. Elas dizem que isso é perfeitamente correto, e mesmo que sejam repreendidas por não viverem uma vida melhor, elas dizem que isso é perfeitamente verdade, totalmente justo e que poderiam melhorar. Mas se um pregador se levanta perante o homem natural e diz: “Você precisa nascer de novo — você precisa receber uma nova vida de Deus,” ele questiona: “Que doutrina estranha é essa?” Lembro-me muito bem de uma ocasião em que pregava no centro da Inglaterra numa comunidade agrícola, e tive o prazer de ser hospedado por um fazendeiro e sua esposa. Lembro-me que à noite, no jantar, a esposa do fazendeiro começou a falar de outra esposa de fazendeiro e disse alguma coisa assim: “Sim, ela é uma linda mulher, a mais excelente esposa de fazendeiro, e uma pessoa muito religiosa; mas, sabe, ela fica falando sobre nascer de novo”. Essa boa mulher sentiu, de uma forma ou de outra, que havia algum tipo de defeito no caráter dessa outra pessoa. Era correto o fato dela ser religiosa, mas falar sobre uma nova vida e nascer de novo era algo que ela não poderia aceitar de forma alguma, algo que obviamente ela considerou quase como uma aberração mental.


Pois bem, essa é uma atitude muito comum. Há no coração humano, por natureza, uma objeção enraizada para com a doutrina do novo nascimento. Qual é a causa disso? Não há qualquer dificuldade em descobrir a resposta a essa pergunta. Quando sou confrontado por essa doutrina, concluo que estou num estado totalmente mal e numa condição tal, que nada menos que o novo nascimento poderá me endireitar. E por natureza eu não gosto dessa sugestão. O homem natural está preparado para admitir que ele não é cem por cento um santo; entretanto se você disser que ele que está absoluta­mente corrompido, e que não apenas carece ser cem por cento santo, mas se ele não nascer de novo então não pode ter esperança, ele ficará ressentido e perguntará: “O que você está sugerindo?” Ele sentirá que você o está insultando. O homem, como resultado do pecado e da Queda, certamente não perdeu sua capacidade para tirar uma dedução correta das afirmações que são feitas; e essa é precisamente a implicação da doutrina do novo nascimento. Vocês se lembram como nosso Senhor colocou isso a Nicodemos, quando ele O procurou naquela noite. Nicodemos disse: “Mestre, eu O tenho observado, observado Seus milagres, e O tenho ouvido, e isso é evidência para mim que o Senhor é um Mestre vindo da parte de Deus, porque nenhum homem pode fazer estes milagres se Deus não estiver com ele”. Então nosso Senhor interrompeu-o e disse: “Se um homem não nascer de novo, ele não pode ver o reino de Deus” (João 3:3). Vocês se lembram do diálogo que se seguiu. Claramente, no pensamento de Nicodemos havia alguma coisa como isto: “Eu O tenho observado e ouvido, e tenho chegado à conclusão que o Senhor tem alguma coisa que eu preciso. Eu sou um mestre em Israel, tenho um bom conhecimento, mas estou bem certo que o Senhor possui algo mais que eu. O que tenho de fazer para me tornar como o Senhor?” Nosso Senhor lhe disse: “Não é uma questão de acrescentar algo ao que você já tem; você precisa nascer de novo, você tem que voltar diretamente ao fundamento — não é adição, e sim, regeneração”. Mas nós não gostamos disso, não gostamos por natureza, de uma doutrina que afirma que estamos sem esperança, que somos tão pecaminosos, tão corrompidos, que não podemos ser aperfeiçoados, visto que devemos ser literalmente criados novamente.


Permitam-me colocar isto de outra maneira. Rejeitamos a doutrina do novo nascimento porque é a doutrina que nos fala muito claramente, por implicação, que realmente não podemos corrigir a nós mesmos. Eis aí novamente outra coisa que a natureza do homem sempre rejeita. Esse é o motivo pelo qual ele nunca rejeita um apelo que é feito para viver uma vida melhor. Ele gosta muito mais disso, pois, em certo sentido, isso o parabeniza. Se eu dissesse: “Esse é o tipo de vida que você tem a obrigação de viver, apelo a você a fazer isso”, todos nós por natureza iríamos gostar disso, porque eu estaria sugerindo que nós somos capazes de fazer assim. Sempre gostamos de uma doutrina que sugere que possuímos capacidade. O que o homem natural não gosta é de uma doutrina que lhe diz que não pode fazer coisa alguma; que todos os seus esforços e tentativas não o levarão a parte nenhuma; que ele pode jejuar, suar e orar, mas se sentirá tão inútil como se sentiu Martinho Lutero. Ele era um monge que jejuava e orava em sua cela, que tinha ido a Roma numa peregrinação, e havia feito tudo que um homem poderia fazer para salvar-se, mas estava tão distante no fim como no começo. E impossível! Mas o homem por natureza não gosta disso, e essa é a razão pela qual todos nós lutamos contra essa doutrina do novo nascimento, que logo de início nos ensina que não podemos fazer coisa alguma, a não ser esperar em Deus e pedir-Lhe que faça algo por nós.


Ou deixem-me colocar isso ainda de outra forma. Essas são as explicações óbvias da oposição à doutrina, mas a causa real do problema pode ser encontrado num nível mais profundo. Por que eu deveria fazer objeção quando me dizem que o evangelho afirma que sou tão corrompido e que devo nascer de novo? Por que deveria fazer objeção quando me dizem que todos os meus esforços e tentativas não são adequados? Certamente esta é a resposta: isto se deve ao meu fracasso em reconhecer que estou face a face com Deus. Estamos tão acostumados a olhar a nós mesmos e comparar-nos com os outros. Todos nós estamos competindo uns com os outros. Observem as profissões, olhem os homens de negócio; todos eles estão desafiando uns aos outros. Os homens dizem que você só pode progredir neste mundo se se esforçar — essa é a idéia geral da vida que temos por natureza, e podemos satisfazer uns aos outros e aos padrões humanos até certo ponto. Mas no que diz respeito ao assunto que estamos considerando, não estamos preocupados com o homem; estamos face a face com Deus. Davi já havia expressado isso no sexto versículo: “Eis que te comprazes na verdade no íntimo”. Se percebermos por um momento que estamos preocupados com Deus e não com o homem, rapidamente iremos perceber quão perdidos e desamparados estamos nós.


A outra explicação, é claro, é a nossa falha em perceber a verdade acerca de nós mesmos. Davi expressou isso no quinto versículo: “Eu nasci na iniqüidade, e em pecado me concebeu minha mãe”. Um homem que já percebeu isso sobre si mesmo não rejeita um evangelho que diz a ele que deve nascer de novo. O homem que faz oposição ao evangelho é aquele que pensa que, no geral, ele é muito bom, e que uma mancha negra ocasional pode ser removida facilmente. O homem que reconhece que foi formado na iniqüidade e que em pecado sua mãe o concebeu, quando dizem que ele está corrompido e que deve nascer de novo, declara: “Eu concordo plenamente. Sei que meu coração está nessa condição corrupta”.


Eis aí, então, as razões e explicações da objeção à doutrina. É, no entanto, também verdadeiro dizer que é uma doutrina humilhante. Vamos admitir que nenhum homem, por natureza, gosta de ser informado que precisa nascer de novo. E verdade quanto a todos nós. Nosso problema principal é o orgulho, nossa auto-satisfação, nossa auto-estima e nossa autoconfiança. O evangelho chega e acerta um “soco mortal” em nosso eu, e nós não gostamos disso. As pessoas nunca gostaram disso e ainda não gostam. É uma doutrina desconfortável e humilhante, todavia é essa a verdadeira essência da posição cristã. Tudo é colocado de forma perfeita nestes dois versículos: “Eis que te comprazes na verdade no íntimo... Cria em mim um coração puro, ó Deus” (versículos 6 e l0).


Por que devemos nascer de novo? Eis a questão. O que torna o novo nascimento uma necessidade absoluta se queremos verdadeiramente ser um cristão? A primeira resposta é esta: a infidelidade e a insinceridade da nossa natureza. Davi admitiu isso com estas palavras: “Eis que te comprazes na verdade (ou sinceridade) no íntimo”. Esse é o problema. Vocês percebem os passos que Davi deu. Ele examinou a si mesmo, reconheceu seus pecados, as coisas que praticou. Então deu mais um passo e disse: “Há alguma coisa podre dentro de mim, em meu coração, e em certo sentido não posso fazer nada a esse respeito, porque tenho visto que não posso confiar em mim mesmo. Careço de sinceridade nas profundezas da minha verdadeira natureza e ser”. Que confissão terrível para um homem fazer acerca de si mesmo! E mais, é algo que todo cristão necessariamente deve fazer. Jeremias colocou isso nestas palavras: “O coração é enganoso mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto” (Jeremias 17:9). Um grande servo de Deus colocou isso num hino com estas palavras:

Eu não ouso confiar na mais doce disposição.

Amigo, você confia em si mesmo? Se confia é porque não conhece a si mesmo. Você ainda não descobriu as contradições, as distorções e a perversão em seu próprio coração? Você não chegou a ver a insinceridade que está bem no centro? Todos nós somos hipócritas, todos nós somos simuladores, todos nós aparentamos ser aquilo que não somos. Estaria eu exagerando ou estaria afirmando a pura verdade? Estaríamos felizes se nossas imaginações e pensamentos secretos fossem passados numa tela para que todos pudessem ver? Não, estes versículos são perfeitamente verdadeiros, e naquele estado e condição estamos totalmente sem esperança pelo fato de estarmos preocupados com Deus. Podemos fingir uns aos outros, podemos dizer que estamos arrependidos a fim de sermos perdoados, todavia não é isso o que realmente está em nossos corações, contudo a outra pessoa não percebe. Queremos sair de uma dificuldade, queremos evitar o sofrimento, então dizemos que estamos arrependidos. Mas quando estamos tratando com Deus, tudo isso é totalmente inútil. “Estou face a face contigo, ó Deus”, disse Davi, “e Tu desejas a verdade e sinceridade no íntimo. Não posso fugir de Ti.” “A palavra de Deus”, diz o autor da Epístola aos Hebreus, “é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração” e “todas as coisas estão descobertas e patentes aos olhos daquele a quem temos de prestar contas” (Hebreus 4:12,13). Ah, se você está simplesmente interessado em ficar livre do sentimento de culpa e infelicidade e nada mais, digo-lhe que ainda não está na verdadeira posição cristã. O cristão vai além disso: ele percebe essa necessidade fundamental de uma sinceridade no íntimo. Ele se vê através dos olhos de Deus. Ele sabe que está sendo lido como um livro aberto, e não importa o que outras pessoas possam ver nele e possam pensar dele, ele sabe que Deus está lendo os pensamentos e intenções do seu coração e todas as coisas acerca dele que estão no recôndito de sua vida. Ele sabe que sua nudez está visível aos olhos do Deus todo-poderoso.


Além disso, reconheço que não posso tornar a mim mesmo sincero. Eu até resolvo a ser sincero, contudo percebo que ainda estou brincando comigo mesmo, engano a mim mesmo. Mantenho em dia meu livro-caixa com as contas dos lucros e perdas, e sou bem-sucedido em equilibrar minhas contas. Estou sempre de bem comigo mesmo, sou um “expert”, para usar uma palavra moderna, em racionalizar a mim mesmo e minhas ações. Posso explicar a mim mesmo o que faço, e tudo que pratico está certo aos meus olhos, embora condene nos outros. Isso é o que percebo em mim mesmo. Não sou honesto e sincero nas profundezas da minha vida — mas “Tu te comprazes na verdade no íntimo”. E, embora tenha me esforçado, estou ciente dessa desonestidade fundamental, essa insinceridade profunda que está no centro de tudo, e clamo a Deus para que Ele faça alguma coisa acerca disso. Vejo aí a necessidade do novo nascimento. Os pensamentos e intenções do meu coração são de vital importância. Percebo que aqui (no meu coração) estou num domínio que não posso controlar, então recorro a Deus e à Sua onipotência.


A segunda necessidade do novo nascimento pode ser colocada desta forma: é devido à minha ignorância e falta de sabedoria. Leiam novamente o versículo 6: “Eis que te comprazes na verdade no íntimo; e no recôndito me fazes conhecer a sabedoria”. Oh como Davi conhecia seu próprio coração tão perfeitamente! Observem as etapas que um homem atravessa. Primeiramente tenho andado negligentemente. Sou então despertado e conscientizado. Ah, sim, eu digo, não deveria ter feito isso. Por conseguinte, passo a perguntar o que me levou a fazer isso e indago: como pode isso ser endireitado? Sou tão insincero, não posso fazer nada. O que posso fazer, então? Não sei o que fazer, estou desesperado, tenho que admitir. O que preciso fazer?


“Bem”, disse Davi, “o que eu necessito, acima de qualquer outra coisa, é de sabedoria, preciso de luz e iluminação. Confesso francamente que à medida que tento manejar meu próprio caso, deparo-me com uma situação insolúvel. Não consigo me corrigir. Preciso de alguma luz externa.” Todo cristão sabe acerca do que eu estou falando. Você chega àquele ponto de desespero no qual pergunta: “Bem, o que eu posso fazer? Não posso confiar em meus próprios pensamentos e idéias. Preciso de auxílio que venha de fora. Preciso de luz focalizada sobre mim”. Isso é o que estes versículos significam. Davi está clamando por sabedoria no íntimo. Noutras palavras, nenhum homem é um verdadeiro cristão até que reconheça que conhecimento humano, sabedoria humana e entendimento não são suficientes; até que ele chegue a ver como Pascal, um dos maiores filósofos de todos os tempos, que o supremo empreendimento da razão é conduzir um homem a enxergar os limites da razão e fazê-lo clamar por revelação. Eu preciso de sabedoria, necessito de luz. Necessito de luz sobre o meu próprio coração. Sou um mau terapeuta de mim mesmo, pois reconheço que não sou honesto comigo mesmo. Eu não encaro as coisas corretamente, sempre quero defender a mim mesmo; então não posso tratar a mim mesmo. Necessito de luz sobre mim vinda de fora. Necessito de mais sabedoria com respeito à minha verdadeira condição. Preciso de luz acerca da santidade, como viver uma vida santa. Eu preciso de luz sobre Deus, preciso da sabedoria que não posso prover a mim mesmo. Procuro, mas não a encontro. Leio biografias dos grandes homens do mundo que não são cristãos e percebo que eles têm fracassado na vida. Eles não puderam encontrar felicidade; eu também não consigo encontrá-la. O que posso fazer? Devo pedi-la a Deus. Amigo, você tem clamado por sabedoria, e tem buscado conhecimento? Se você chegou a esse ponto, então já está no caminho certo para a salvação. Tem você chegado ao ponto de dizer: “Eu não consigo pensar mais nada, tenho pensado até simplesmente não poder mais pensar. O que posso fazer? O Deus, lança luz sobre a minha condição!” Se você fizer essa oração, alcançará a luz. O homem que clama por essa revelação e iluminação divina nunca fará isso em vão. No íntimo, eu preciso de sabedoria; creio que Deus pode supri-la.


Mas então, vejam, Davi dá o próximo passo. Ele agora reconhece, como resultado dessa sabedoria que Deus lhe deu, que necessita de um coração puro, que necessita de uma nova natureza. Eu não preciso deter-me nisso. Há uma passagem no sétimo capítulo do Evangelho de Marcos que realmente põe tudo isso de forma perfeita (Marcos 7:14-23). “Vejam”, disse nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo àquelas pessoas: “não culpem suas circunstâncias, condições e vizinhança pelo que vocês são. Não é aquilo que entra no homem que o macula, é o que sai. Vocês estão dando atenção à lavagem das mãos e do vasilhame e coisas semelhantes a essas; vocês estão culpando sua difícil posição, as coisas que estão ao redor e sobre vocês. Vocês dizem: “Estamos neste mundo corrupto e isso requer todo o nosso tempo para tentar manter-nos limpos”. “Não”, disse Cristo, “esse não é o problema; o problema está em seus próprios corações. Não é o que entra no homem que o macula, é o que sai dele; é de dentro do coração que procedem os pensamentos maus, homicídios, prostituição, adultérios e todas as coisas más que ele cobiçar.” Agora, todos nós sabemos que isso é o que de algum modo ou forma é verdadeiro a respeito de cada um de nós. O problema está em nós. Observem vocês como finalmente Davi chegou a essa conclusão; ele confrontou a si mesmo e disse: “Eu sou um assassino, sou um adúltero, sou uma pessoa horrível, tenho sido responsável pela morte de uma pessoa inocente — ah, a terrível questão que me confronta é esta: o que foi que me fez cometer aquilo? Foi Bate-Seba ou outras pessoas? Não, é alguma coisa suja e corrosiva em mim, em meu coração, que me faz cobiçar. O problema não está no que eu vejo. E o que está dentro de mim que me faz ver as coisas como as vejo. Sou eu mesmo — “Cria em mim um coração puro, ó Deus”. Amigo, você tem chegado a essa conclusão sobre si mesmo? Você tem visto todos os seus problemas e dificuldades procederem dessa causa central? Isso, eu afirmo, é algo que acontece a todo verdadeiro cristão. ”Eu nasci na iniqüidade; e em pecado me concebeu minha mãe.” O problema com o homem não é que ele faz certas coisas que não deveria fazer; é que ele sempre tem um coração propenso a fazê-las. São essas coisas dentro de nós que nos faz cobiçar; embora nossa consciência nos avise que não deveríamos fazê-las, ainda assim nós as fazemos. Essa é a maldição, esta coisa no coração. Precisamos de um coração limpo.


No entanto, Davi vai além: ele reconhece que jamais poderá produzir isso. Sabe perfeitamente que todas as resoluções no mundo não podem mudar o coração. Elas podem apenas controlar algumas ações do homem até certo ponto. Há um certo valor na idéia de resoluções para o Ano Novo; até onde elas puderem fazer de você um homem melhor. Você pode controlar suas ações até certo ponto, mas quando tenta purificar seu coração, eu lhe asseguro que quanto mais você tentar, mais negro ele ficará. Leia sobre a vida dos santos e descubra como aqueles homens maravilhosos que tentaram purificar seus corações maus sempre descobriram uma impureza crescente, e no final descobriram que era totalmente inútil. Foi por isso que Davi clamou com estas palavras: “Cria em mim” — somente Deus pode me dar um coração puro, somente Deus pode me dar uma nova natureza. “Minha única esperança”, disse Davi, “é que Ele que criou o mundo do nada e fez o homem do pó da terra e soprou nele o fôlego de vida, criará dentro em mim um coração puro e me dará uma nova natureza.” Esse é o brado do Velho Testamento. Davi viu isso em sua essência, viu que aquilo era sua fundamental necessidade. E a necessidade fundamental de todo homem é uma operação de Deus no centro da vida. Oh, você sabe, meu amigo, que essa é a verdadeira essência do evangelho do Novo Testamento e sua maravilhosa mensagem? Por que o Senhor Jesus Cristo veio a este mundo? Por que Ele viveu, e morreu aquela morte de cruz e ressuscitou? Para que aconteceu tudo aquilo? Porventura foi só para que você e eu pudéssemos ser perdoados e continuássemos no pecado, e então nos arrependêssemos — tendo passado do pecado para o arrependimento e do arrependimento para o pecado — e finalmente pudéssemos ir para o céu, sendo poupados da punição do inferno e suas terríveis conseqüências? Esse é um pensamento blasfemo! Ele fez tudo isso, como Paulo escreveu a Tito, para que ele pudesse “...purificar para si mesmo um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras” (Tito 2:14). Não, a gloriosa mensagem do evangelho não é somente que eu sou perdoado. Graças a Deus, estou perdoado; a primeira afirmação é que meus pecados estão apagados como uma espessa nuvem — Deus me perdoou. Mas eu não estou satisfeito com isso. Não quero continuar pecando. Quero atacar este problema central. Quero viver uma vida que seja digna. Quero ficar livre desta coisa dentro em mim que me faz pecar e me faz desejar o pecado. E essa é a resposta do evangelho — esta maravilhosa doutrina do novo nascimento e a nova criação, sendo nascido de novo, tornando-me um co-participante da natureza divina. O Filho de Deus desceu à terra e tomou sobre si a natureza humana a fim de que pudesse começar uma nova humanidade, uma nova raça de pessoas para formar um novo reino. E o que Ele faz é isto: àqueles que vêm a Ele e reconhecem que necessitam de uma natureza pura dentro de si mesmos, Ele dá Sua própria natureza. “Se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2 Coríntios 5:17). Eu ficaria muito triste se alguém pensasse que o evangelho diz aos homens: “Sim, Deus é amor, e porque Deus é amor, Ele perdoa você em Jesus Cristo. Muito bem, por causa disso, vira-se uma nova folha e se começa a viver uma nova vida”. Isso seria para mim uma negação do evangelho. Não, o evangelho não simplesmente perdoa você e insta com você a voltar e viver uma vida melhor. Ele te dá uma nova vida. Ele propõe fazer-nos filhos de Deus, e nos tornar co-participantes da natureza divina. Sua mensagem é que Deus vem habitar em nós. Como Paulo escreve: “...vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim” (Gálatas 2:20). Você não está entregue a si mesmo, você não está sendo enviado novamente à tarefa de tentar melhorar a si mesmo. Deus dá a você uma nova vida, um novo começo, um novo princípio. Você se torna um novo homem, e se verá num novo mundo, com um novo poder e uma nova esperança.


“Cria em mim um coração puro, ó Deus.” Qualquer homem, eu afirmo, que fizer essa oração com sinceridade será sempre atendido. “Vocês precisam nascer do novo”, disse Jesus Cristo; e um homem que reconhece isso e submete-se a Cristo é nascido de novo. Ele tem uma nova vida, a vida de Deus nele; a questão central é ser purificado por Deus, e esse homem encontra dentro de si mesmo uma nova perspectiva, um novo poder, uma nova esperança, uma nova pessoa.

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Extraído do livro: O Clamor de um Desviado, Ed. PES

quinta-feira, 14 de maio de 2009

ESTATIZAÇÃO DA TEOLOGIA

Dr. Rodrigo R. Pedroso

O senador Marcelo Crivella não esconde a sua simpatia pelo Estado totalitário. No dia 28 de março de 2007, por exemplo, conforme notícia divulgada pela Agência Senado, Crivella subiu à tribuna parlamentar para dizer que o Evangelho “é a cartilha mais comunista que existe”. Evidentemente, a afirmação é falsa em relação ao Evangelho, mas revela muito a respeito da mentalidade e dos ideais políticos do sr. Crivella, que faz parte da liderança de uma controvertida seita religiosa que usa a Bíblia para defender a legalização do aborto.

E dando vazão aos seus ideais coletivistas, o sr. Crivella apresentou no Senado um projeto de lei para colocar sob o controle do Estado o exercício da teologia no Brasil. Trata-se do projeto de lei n. 114/2005, que pretende fazer da teologia uma profissão regulamentada pelo Estado.

Em primeiro lugar, não existe nenhum motivo de interesse público a exigir ou recomendar a regulamentação do exercício da profissão de teólogo. Aliás, se temos algo demais no Brasil são profissões regulamentadas, com seus respectivos conselhos profissionais a coletar taxas. É evidente que, para determinadas profissões, que envolvem a integridade física ou os direitos fundamentais da pessoa humana, é necessário algum tipo de regulamentação. Porém, a proliferação de profissões regulamentadas restringe a liberdade de exercício profissional, que é bem comum de todos. Por tratar-se de uma restrição à liberdade das pessoas, a instituição de novas profissões regulamentadas deve ser cuidadosamente ponderada.

De acordo com o projeto do senador Crivella, o exercício da profissão de teólogo dependerá de diploma (salvo o caso dos que, na data da promulgação da lei, tenham exercido por pelo menos cinco anos a profissão de teólogo). Por aí já vemos que o projeto crivelliano não respeita o direito adquirido (art. 5º, XXVI, CF), pois quem, na data da promulgação da lei, tiver exercido, por exemplo, pelo período de quatro anos e meio, as atividades que a proposta considera “privativas” da profissão de teólogo, terá cassado o seu direito de as continuar exercendo.

Além disso, conforme o art. 4º do projeto de Crivella, “o exercício da profissão de teólogo requer prévio registro no órgão competente”. Isso significa que a qualidade de teólogo, que até hoje dependeu do reconhecimento espontâneo do saber alheio pelo público, passará a depender de uma carteirinha expedida pela burocracia estatal. Ou seja, de acordo com o projeto crivelliano, o Estado assumirá a competência para dizer quem é e quem não é teólogo. E, ademais, pretende o projeto subordinar os teólogos do Brasil inteiro a um Conselho Nacional de Teologia, proposta semelhante ao malogrado Conselho Nacional de Jornalismo, a respeito do qual se suspeitava tratar-se de uma tentativa do governo de restringir a liberdade da imprensa. Ao subordinar o exercício da teologia ao controle estatal, o projeto do senador Crivella atribui ao Estado competência numa matéria em que este não possui jurisdição, qual seja, a religião e a consciência dos indivíduos.

Efetivamente, o Estado brasileiro não tem jurisdição sobre matéria religiosa (art. 19, I, CF). E o exercício da teologia está essencialmente vinculado à religião. A teologia católica, por exemplo, é em larguíssima medida discrepante em relação às teologias judaica ou islâmica. Um teólogo católico e outro protestante, apesar de serem ambos cristãos, não partirão dos mesmos postulados no exercício de sua atividade intelectual. Como uniformizar essa diversidade sob um único Conselho Nacional de Teologia? Essa é uma das razões por que o valor e a qualificação do teólogo devem ser aferidos pela autoridade espiritual, e não pelo poder temporal do Estado.

Ao regulamentar a profissão de teólogo, o Estado adentrará em seara alheia, imiscuir-se-á num campo que não lhe pertence. Tal intromissão representará violação da liberdade religiosa, garantida pelo art. 5º, VI, da Constituição Federal. E, na medida em que a teologia é uma disciplina do intelecto e uma ciência, representará igualmente uma infração da liberdade intelectual e científica, que a Constituição declara ser livre não apenas de censura, como também de licença (art. 5º, IX). E licença para o exercício da teologia é exatamente o que o nefasto projeto do senador Crivella pretende impor aos brasileiros, ao arrepio das normas constitucionais. Urge, portanto, que todos nos levantemos contra esse projeto que ameaça nossas sagradas liberdades.

*Rodrigo R. Pedroso é advogado graduado pela USP, especialista em direito constitucional e biodireito, mestrando em filosofia ética e política, membro da Comissão de Defesa da República e da Democracia da OAB/SP e foi o representante do Brasil nos dois Seminários de Peritos em Biodireito promovidos pelo CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano).

Fonte: Católica Net

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