domingo, 15 de fevereiro de 2009

DISPENSACIONALISMO PROGRESSIVO


Silas Roberto Nogueira
O Dispensacionalismo Progressivo é um movimento dentro do Dispensacionalismo, um sistema teológico e hermenêutico que surgiu em meados do século XIX com John Nelson Darby (1800-1882), um ex-clérigo anglicano que aderiu, e posteriormente tornou-se o líder do movimento dos “Irmãos” de Plymouth.
O Dispensacionalismo entende que a história está dividida em “dispensações” ou períodos de tempo nos quais a humanidade é colocada à prova quanto à obediência a alguma revelação da vontade divina. Segundo Dr. C. I. Scofield (1843-1921) as dispensações:
se distinguem nas Escrituras por uma mudança no método divino de tratar a humanidade, ou parte dela, no que se refere a estas duas grandes verdades – pecado e responsabilidade humana. Cada Dispensação pode ser considerada como uma prova para o homem natural e termina sempre em juízo, demonstrando assim o seu completo fracasso. Cinco dessas dispensações, ou períodos já se consumaram. Estamos vivendo na sexta, cujo término, segundo tudo faz crer, está para breve. A sétima ou última, ficará para o futuro – É o Milênio. [1]
Há certa discordância entre os dispensacionalistas quanto a quantas seriam as dispensações, seguindo o modelo proposto por Scofield, o mais popular, teremos:
1) Da Inocência – de Adão à sua expulsão do Éden
2) Da Consciência – da expulsão do Éden ao Dilúvio
3) Do Governo Humano- do Dilúvio à confusão de línguas
4) Da Promessa – de Abraão à escravidão no Egito
5) Da Lei – do Sinai à expulsão de Canaã
6) Da Graça – da morte de Cristo até o arrebatamento
7) Do Reino – da Segunda Vinda de Cristo até o Juízo Final.
Para o Dispensacionalismo essa periodização da história é essencial à correta interpretação da revelação divina dentro das diversas dispensações.
Quanto à hermenêutica, o Dispensacionalismo defende o literalismo estrito. Diz Charles Ryrie:
Os dispensacionalistas reclamam para si a posição de interpretação literal na hermenêutica.
E embora não asseverem exclusividade quanto ao método hermenêutico, dizem que são os únicos que o fazem de modo “consistente”, nas palavras de Ryrie:
É claro que a interpretação literal não é propriedade exclusiva dos dispensacionalistas. A maioria dos conservadores concorda com o que acabamos de dizer. Qual é, então, a diferença entre o uso deste princípio hermenêutico pelo dispensacionalista e pelo não dispensacionalista? O dispensacionalista diz usar o princípio norma de interpretação consistentemente em todo seu estudo da Bíblia. Ainda afirma que o não dispensacionalistas não o utiliza este princípio em tudo. Admite que o não dispensacionalista seja literalista em boa parte de sua interpretação bíblica, mas o acusa de alegorizar ou espiritualizar quando chega na interpretação da profecia. O dispensacionalista procura ser consistente na utilização deste princípio e acusa o não dispensacionalista de ser incoerente em seu uso do mesmo. [2]
A visão dispensacional da história aliada a uma hermenêutica literalista favorece, segundo o dispensacionalista, uma rígida distinção entre Israel e a Igreja [3]. Comenta Roy B. Zuck:
Aceitar os termos Israel e Igreja em sentido normal, literal equivale a conservar sua distinção. Israel sempre significa o Israel étnico, nunca se confundindo com o termo Igreja, nem as Escrituras jamais empregam Igreja em substituição ou como sinônimo de Israel. [4]
Assim, para o dispensacionalista, as promessas feitas a Abraão e sua descendência esperam cumprimento literal no Israel nacional. A Igreja não foi prevista no Velho Testamento, ela é um parêntese entre a sexagésima e a septuagésima semanas de Daniel, ela tem uma natureza distinta da de Israel e Deus tem um programa diferente para ela.
Outra das distinções dispensacionalistas é entre “reino de Deus” e “reino dos céus”. Para o dispensacionalista, o reino dos céus é judaico, messiânico e davídico, sua implantação foi suspensa pela rejeição de Israel e será realizado no milênio. Já o reino de Deus diz respeito à Igreja e é universal e inclui os que em todas as dispensações se submetem a Deus.
Entre as marcas distintivas do Dispensacionalismo esta a defesa de um arrebatamento secreto e pré-tribulacional. No Dispensacionalismo a segunda vinda de Cristo esta dividida em duas fases, a primeira é para a Igreja, e se dará de modo secreto e antes (pré) da tribulação. A segunda fase será visível e inconfundível, pois Cristo mesmo, acompanhado dos seus santos descerá no monte das Oliveiras sete anos após o arrebatamento, para salvar Israel das mãos dos seus inimigos e instaurar o Milênio.
Essa nova doutrina com sua ênfase escatológica captou a atenção do povo e tornou-se muito popular. Tanto Darby quanto seus discípulos, mas especialmente C. I. Scofield se esforçaram na divulgação do dispensacionalismo de modo que em poucos anos se tornou tão popular que em tempos mais recentes foi virtualmente confundido como “ortodoxia”. Dr. Millard J. Erickson diz que:
Por causa de a ascensão do dispensacionalismo ter sido aproximadamente paralela àquela do movimento fundamentalista, ficou sendo virtualmente a teologia oficial do fundamentalismo. Alguns comentaristas praticamente identificaram os dois. ... Alguns fizeram dele um teste de ortodoxia, considerando que uma pessoa que não sustenta todos os seus aspectos é alguém que nega a própria Escritura. Em muitos casos, trata-se de uma atitude mental total ou coletânea de atitudes. [5]
Dois outros fatores colaboraram para a difusão do Dispensacionalismo e para que fosse erroneamente tomado como um sinônimo para padrão de ortodoxia. O primeiro foi o fato de Cyrus I. Scofield ter juntado ao texto bíblico notas de rodapé que expunham tal ponto de vista. No passado havia poucas Bíblias com “auxílio” e nem todos podia adquirir um comentário bíblico, a Bíblia anotada por Scofield era um recurso indispensável, especialmente para os pregadores leigos. João Alves dos Santos cita William E. Cox, que diz que:
...se Scofield tivesse colocado suas anotações em um livro separado e não na própria Bíblia, certamente que seus livros estariam agora, como os de Darby, ajuntando pó nas estantes. Mas o fato de ter associado o seu nome ao de Paulo e ao de Pedro, pela audácia de colocar suas notas pessoais nas mesmas páginas sagradas que trazem os escritos daqueles autores inspirados, garante-lhe a imortalidade. E, conclui Cox, “na mente de alguns dos seguidores de Scofield, discordar dele é o mesmo que discordar de Paulo ou de Pedro”. [6]
O segundo fator da propagação do Dispensacionalismo está no fato de ser especial e estranhamente propagado pelo movimento pentecostal. Desde que o movimento pentecostal tem crescido, tem igualmente propagado o Dispensacionalismo. Muito embora o dispensacionalismo seja cessacionista ou antipentecostal o movimento pentecostal é, estranhamente, um dos seus maiores propagadores.
Mas é bom que se diga que o Dispensacionalismo não é monolítico. O movimento tem sofrido diversas mutações ao longo do tempo. Ethelbert W. Bullinger (1837-1913), por exemplo, levou o sistema às últimas consequências e deu origem ao “ultradispensacionalismo” ou bullingerismo. Segundo Charles Ryrie Bullinger:
em seu esquema dispensacional sétuplo Bullinger tinha duas dispensações entre Pentecostes e o final da era da igreja. Ele colocou os Evangelhos e o Livro de Atos debaixo da Lei e começava a dispensação da igreja com o ministério de Paulo após Atos 28:28. As Epístolas da prisão, portanto, Efésios, Filipenses e Colossenses – expunham a plenitude da revelação do mistério da era da igreja. Ele negava também que o batismo em água e a ceia do Senhor fossem para nossa época. [7]
E dentro mesmo do ultradispensacionalismo, dois grupos podem ser identificados, um deles mais extremado foi representado por Charles H. Welch (1880-1967), que achou três dispensações em Atos e por A. E. Knoch (1874-1965), que via quatro dispensações entre Cristo e o ministério de Paulo. O segundo grupo, mais moderado, estava ligado à Grace Gospel Fellowship e Berean Bible Society e teve como nomes mais conhecidos Cornelius R. Stam, J.C. O’Hair e C. F. Baker. Esse grupo defende a idéia de que a Igreja começou com o ministério de Paulo, não no Pentecostes, mas observam a ceia e o batismo.
Alguns ajustes também foram efetuados por aqueles que seguiram a proposta original de Darby. C. I. Scofield (1843-1921), por exemplo, em suas notas de rodapé que juntou ao texto bíblico [Scofield Reference Bible] não seguiu o modelo darbysta de dispensações. Scofield junto com Lewis S. Chafer (1871-1952), fundador do Seminário Teológico de Dallas, representam o chamado Dispensacionalismo “clássico”. Até a década de 60 os dispensacionalistas clássicos defendiam a tese de que o plano de Deus para com Israel era puramente terreno e para a igreja, puramente celestial, tinham dois modos de salvação [8] [obras no VT e fé no NT] e dois pactos. Nesse primeiro período os dispensacionalistas haviam enfatizado mais as próprias dispensações.
No entanto John F. Walvoord (1910-2002), Charles Ryrie, assim como J. Dwight Pentecost introduziram mais algumas modificações ou revisões, a partir de 1960. De modo geral, para eles Israel e a igreja se juntarão após o período milenial, haverá um só modo de salvação em ambos os Testamentos e um só Pacto. Alguns chamam este período de “neodispensacionalismo”. A ênfase mudou das dispensações, do primeiro período, para a defesa [justificação] de que o Dispensacionalismo é fruto de uma hermenêutica literal.
Na década de 80 um grupo de dentro do Dispensacionalismo começou a promover algumas mudanças mais significativas no movimento. Mas só em 1991 é que a nomenclatura “Dispensacionalismo Progressivo” passou a ser usada numa reunião do Grupo de Estudos Dispensacionais na Sociedade Teológica Evangélica de Atlanta, Geórgia. O teólogo aliancista Franklin Ferreira comenta:
As características mais significativas desta revisão do Dispensacionalismo são a ênfase sobre o caráter progressivo das dispensações e a presente inauguração das bênçãos escatológicas do reino messiânico, que culminará no milênio e no estado eterno. [9]
Os principais promotores dessa nova modalidade de Dispensacionalismo foram os professores Darrell L. Bock, Craig A. Blasing, ambos do Seminário Teológico de Dallas, e Robert Saucy, do Seminário Teológico Talbot. Pelo menos três obras expondo essa modalidade de Dispensacionalismo foram publicadas, Dispensationalism, Israel and the Church (1992), Progressive Dispensationalism (1993) ambos de Bock e Blaising e The Case for Progressive Dispensationalim (1993), por Robert Saucy. No Brasil, a Coleção Debates Teológicos, da editora Vida, tem dois livros que expõem esse ponto de vista, As Interpretações do Apocalipse, organizado por C. Marvin Pate e O Milênio, organizado por Darrel L. Bock.
Os dois últimos períodos do Dispensacionalismo têm em comum o fato de se introduzirem numerosas e significativas revisões ou ajustes ao sistema. No entanto, no terceiro período esse ajuste foi, digamos, muito mais radical e isso a ponto de colocá-lo para fora das fronteiras do Dispensacionalismo, pelo menos na opinião dos Dispensacionalistas clássicos ou normativos. Como diz Robert L. Thomas:
...o dispensacionalismo progressivo representa uma mudança significativa nos princípios interpretativos, de forma que o nome “dispensacionalismo” não se aplica a esse sistema. [10]
Esse ajuste, segundo se pensa, é por conta da aproximação entre teólogos dispensacionais com a teologia aliancista. Kenneth L. Gentry Jr. declara:
Como o dispensacionalista Feinberg observou há uma década, o dispensacionalismo está tomando o rumo mais aliancístico, permitindo uma maior continuidade entre os Testamentos. Como cristão pactual, aplaudo essa orientação. [11]
Dessa maneira o Dispensacionalismo Progressivo parece representar um meio termo entre a teologia das alianças [ou reformada] e o dispensacionalismo. Isso para Charles Ryrie, que faz coro com Robert L. Thomas, representa “um sistema novo” que não deve ser considerado mais dispensacionalismo [12].
Vejamos alguns pontos de convergência e divergência entre o Dispensacionalismo normativo e progressivo.
AS DISPENSAÇÕES
Tanto Dispensacionalistas normativos quanto progressivos entendem a história dividida em dispensações. Mas os dispensacionalistas progressivos, segundo Ryrie, entendem que há apenas quatro dispensações [13] claramente assinaladas na Bíblia diferente do Dispensacionalismo clássico ou normativo, que postulam pelo menos sete delas. A primeira dispensação é a Patriarcal, que vai da criação ao Sinai. A segunda, chamada Mosaica abrange o período que vai de Moisés ao Messias. A terceira inicia-se com a ascensão e deve durar até a segunda vinda de Cristo, é a dispensação da Igreja ou da Graça. A quarta é a Siônica que deve iniciar-se com o Milênio, sendo que o fim deste período áureo deve representar uma secção na dispensação que prosseguirá para a eternidade.
Além disso, os progressivos definem as dispensações de maneira diferente da dos normativos como demonstra Ryrie, citando Craig Blaising, um progressivo:
Não apenas como arranjos diferentes entre Deus e a humanidade, mas como arranjos sucessivos na revelação e realização progressiva da redenção. [14]
Em outras palavras, os progressivos entendem que as dispensações são interligadas, devem ser interpretadas numa perspectiva progressiva cujo princípio unificador é cristológico, ou seja, sua ênfase está em Cristo e no entendimento do reino messiânico como “já/ainda não” cumprido.
Charles Ryrie, um dispensacionalista normativo, objeta que não haja uma dispensação pré-Queda, visto que a tratativa de Deus com os nossos primeiros pais foi diferente. Depois, entende que uma dispensação que abarque todas as condições pré e pós Queda e ainda a aliança abraâmica parece um arranjo “artificial”. Estranha ainda que a segunda dispensação termine com a ascensão de Cristo e não com sua morte, para ele esse arranjo foi necessário porque segundo os progressivos, a ascensão inaugura o reinado do Messias no trono de Davi no céu. Por fim, observa que a quarta dispensação, subdividida em Milênio e eternidade, e isso significa que os progressivos entendem o milênio como um reino intermediário entre o reino davídico já inaugurado e a plenitude do reino de Deus sobre a nova terra e que a própria eternidade é uma dispensação, como alguns dispensacionalistas do passado. Assim, para Ryrie, os progressivos estão mais para o aliancismo que para dispensacionalismo e comenta que a:
colocação do Milênio e da Nova Terra juntos numa dispensação que engloba tudo, não é de admirar que um teólogo aliancista, Vern Poythress, tenha, conquanto reconheça que não fala por todos, concluído que “desde que somos capazes de tratar a questão da relativa distinção de Israel no milênio como um problema menor, não restam áreas substanciais de discórdia entre o dispensacionalismo progressivo e a teologia aliancista.[15]
Vê-se, pois, que Ryrie insiste em um distanciamento do Dispensacionalismo normativo por parte dos progressistas.
A HERMENÊUTICA LITERAL
Um dos principais distintivos do sistema dispensacional é a defesa de uma interpretação literal das Escrituras. Charles Ryrie diz que a interpretação literal das Escrituras não é propriedade exclusiva dos dispensacionalistas, mas ao mesmo tempo diz que o Dispensacionalismo normativo é o único que usa o método literal de modo “consistente”, como já mencionei pouco atrás. Isso define não só os outros pontos de vista, mas também o Dispensacionalismo Progressivo como “inconsistente” com a hermenêutica literal. De fato diz Charles Ryrie:
os dispensacionalistas progressivos estão claramente se distanciando da hermenêutica coerentemente literal do dispensacionalismo normativo.[16]
Os progressivos são acusados pelos normativos de defenderem uma hermenêutica “completar”. Robert L. Tohmas assinala:
Se seguir o caminho de seus primeiros defensores, uma abordagem dispensacionalista progressiva postulará tanto uma compreensão literal quanto adicional. Referida como “hermenêutica complementar” ou “método teológico gramático-histórico-literário”, essa abordagem permite ao intérprete pelo menos duas compreensões do texto: uma gramático-histórica e outra simbólica ou alegórica. [17]
Para Charles Ryrie tal método é para justificar da concepção “já/ainda não”:
A fim de dar uma base hermenêutica para determinadas interpretações dos progressistas (por exemplo, Cristo está agora sobre o trono de Davi no céu, e a não distinção entre Israel e a igreja) eles introduziram o que chamam de hermenêutica complementar. Com isso querem dizer que o Novo Testamento introduz mudanças e avanços; não apenas repete a revelação do Antigo Testamento. Ao fazer acréscimos complementares, porém, não coloca em risco as antigas promessas. A mudança não é à custa da promessa original. A primeira sentença de sua definição abre a porta para a sua visão “já, mas ainda não” do reino davídico. As últimas duas sentenças os mantêm não amilenistas. [18]
De fato, a chave hermenêutica do Dispensacionalismo progressivo é o entendimento da tensão do “já/ainda não”. Diz C. Marvin Pate diz que:
Para um dispensacionalista progressivo, a chave hermenêutica ao Apocalipse (e, quanto a esse assunto, o NT em geral) é a tensão escatológica do já/ainda não. [19]
Com isso os progressivos querem dizer que o reino de Deus foi inaugurado, mas não consumado. Entendem que o “já” é o reinado presente de Cristo no céu em cumprimento da aliança davídica [assim o trono de Davi e o trono celeste, onde o Senhor Jesus está à destra de Deus é uma e a mesma coisa] e o “ainda não” será o seu reinado futuro no Milênio.
A crítica dos normativos aos progressivos é que esse entendimento é fruto de uma hermenêutica não “consistentemente literal” e representa uma aproximação ao posicionamento aliancista. Renald E. Showers declara:
Tal perspectiva, em essência, é a mesma dos teólogos aliancistas que se denominam pré-milenistas históricos. No que diz respeito a isso, o Dispensacionalismo Progressivo dá um passo na direção da Teologia Aliancista, afastando-se do Dispensacionalismo tradicional (posição em que cremos), o qual afirma que nenhum aspecto do futuro Reino de Deus, predito no Antigo testamento, se encontra presente agora e não se manifestará até que Cristo volte á terra na Sua segunda vinda após a grande tribulação. [20]
De fato o conceito “já/ainda não” é partilhado por amilenistas e especialmente por pré-milenistas históricos [pós-tribulacionistas] e representa mesmo um distanciamento do Dispensacionalismo clássico ou normativo. No entanto, esse modo de entender o reino como “já/ainda não” não é inconsistente com uma hermenêutica literal e pré-milenista, pois ninguém melhor do que George Eldon Ladd, que era um pré-milenista histórico, demonstrou isso. Seja como for, o que parece é que esse arranjo do Dispensacionalismo Progressivo funcionou como um botão ejetor do movimento de origem.
DISTINÇÃO ISRAEL E IGREJA
O Dispensacionalismo normativo insiste numa distinção rígida entre Israel e Igreja, que para Ryrie indica se alguém é ou não um dispensacionalista, diz ele que:
Esta é provavelmente a prova teológica mais básica de uma pessoa ser ou não dispensacionalista, e sem dúvida é a mais prática e conclusiva. É inevitável que quem falha em distinguir Israel e a Igreja coerentemente não terá distinções dispensacionalistas; do contrário daquele que as distingue. [21]
Pois bem, o arranjo dispensacional progressivo, como já vimos, diminui consideravelmente essa distinção. Para os progressivos, judeus fiéis do Velho Testamento e a Igreja do Novo Testamento formam o povo de Deus. No entanto, Robert Saucy, um progressivo, deixa claro que:
essa unidade fundamental em relação a Deus mediante Cristo não remove a distinção de Israel como nação especial chamada por Deus... nem define todo o povo de Deus como sendo Israel, exigindo que a Igreja de alguma forma seja o “novo Israel”.[22]
Mas os Dispensacionalistas normativos insistem em que essa distinção é cada vez menos nítida, fruto da sua aproximação com a teologia aliancista.
O que colabora para diminuir ainda mais a distinção entre Israel e Igreja é que os progressivos também afirmam que o caráter de “mistério” da igreja (Ef.3:4-6) não significa que não tivesse sido revelado no VT, mas que apenas não tinha sido realizado, ao contrário do que afirmam os Dispensacionalistas normativos. No entanto, Robert Saucy, um progressivo, ressalta
embora concordemos com o não dispensacionalista que o ensino de Paulo sobre o mistério da Igreja na união de judeu e gentio em Cristo é um cumprimento das predições do Antigo Testamento, devemos nos apressar para acrescentar que esses cumprimentos não requerem que compreendamos todas as profecias relacionadas à salvação e ao reino messiânicos como sendo ali cumpridos.[23]
Esse modo de entender é resultado de uma posição mediadora entre o Dispensacionalismo normativo e os não dispensacionalistas, amilenistas e pré-milenistas históricos.
Ainda sobre a questão da igreja os progressivos não a vêem como um parêntese, como o Dispensacionalismo normativo. Ryrie diz que o “dispensacionalismo clássico usa as palavras “parêntese” ou “intervalo” para descrever a distinção da igreja em relação ao programa de Deus para Israel (conforme ensinando na profecia de Daniel das setenta semanas, Dn. 9:24-27).[24] Como os progressivos não vêem a igreja como um parêntese, entendem-na como imersa no conceito de reino, isto é, como uma inauguração do reino vindouro.
É verdade que os progressivos diminuem consideravelmente a distinção entre Israel e a Igreja a ponto de torná-la indiscernível e seguindo o raciocínio de Ryrie, não devem ser considerados a rigor como dispensacionalistas. Portanto, esse conceito dos progressivos novamente os lançou fora das fronteiras dispensacionais.
PRÉ-TRIBULACIONISMO E MILÊNIO
Dispensacionalistas normativos e progressivos ainda insistem numa segunda vinda de Cristo antes da grande tribulação e num reino milenar literal. Ryrie, no entanto, acusa os progressivos de não darem a devida atenção a esses aspectos da escatologia. Isso pode muito bem ser um reflexo do afastamento das bases do Dispensacionalismo normativo.
Embora Charles Ryrie faça um esforço hercúleo para defender um arrebatamento secreto e pré-tribulacional como fruto de uma interpretação literal das Escrituras, a fonte de tal ensino dispensacional é sabidamente extrabíblica. Tal coisa teve origem em um enunciado profético de uma jovem chamada Elizabeth McDonald, na igreja de Edward Irving, que Darby, que estava presente junto com outros líderes do movimento dos Irmãos, aceitou como a voz do Espírito e posteriormente o sistematizou. Esse fato é mencionado por Dr. Martyn Lloyd-Jones [25], Dr. G. E. Ladd [26], Dr. M. J. Erickson [27] entre outros respeitáveis teólogos.
Tal “novidade” quando introduzida no movimento dos Irmãos causou certa polêmica visto que sustentavam inicialmente uma perspectiva pós-tribulacional, isso levou a contendas que culminaram com a divisão do grupo.
O fato é que qualquer um que faça um estudo sério do assunto notará que não há nenhum apoio explícito das Escrituras a essa posição e terá dificuldades em mantê-la, a não ser é claro que insista em ignorar o testemunho bíblico e seguir na linha do dispensacionalismo, normativo ou progressivo.
Mas Ryrie tem razão, os progressivos não dão a devida atenção ao pré-tribulacionismo, diz ele:
Sem negar o arrebatamento pré-tribulação ou período literal de tribulação, os revisionistas não dão muita atenção a esses aspectos da escatologia. Blaising e Bock não tomam oportunidades óbvias de mencionar o arrebatamento e em um lugar (ao discutir 1 Ts.5) eles dizem apenas que o arrebatamento “parece que seria pré-tribulacional”.[28]
Na sua exposição do Apocalipse sob a ótica do dispensacionalismo progressivo, C. Marvin Pate não deixou lugar para um arrebatamento pré-tribulacional. [[29]] O mesmo aconteceu com Craig A. Blaising, outro progressivo, que ao tratar do Apocalipse, especialmente do Milênio, fez um arranjo que desprezou o arrebatamento secreto e pré-tribulacional, um fato notado por Kenneth L. Gentry Jr,um pós-milenista, que na sua réplica ao ensino progressivo assinalou:
Onde está o arrebatamento da igreja pré-milenar e pré-tribulacional nessa “estrutura básica”? Nada no Apocalipse – e especialmente na seção preferida de Blaising, os capítulos 19-20 – sugerem um arrebatamento. No melhor dos casos, ele é uma premissa omitida desde cedo no Apocalipse. [30]
Quanto ao milênio, os progressivos alinham-se como pré-milenistas, mas o seu milênio tem um sabor menos judaico que o do dispensacionalismo normativo. Bock declara:
Os progressistas vão um passo além dos pré-milenaristas históricos, argumentando que o reino milenar antecipa uma estrutura administrativa em que o Israel nacional assume, novamente um lugar central como o lar do Messias reinante, em meio às nações que também respondem ao Cristo. Os progressistas não discutem esse ponto de tal modo a negar a igualdade fundamental entre judeu e gentio diante dos benefícios da salvação. Assim, eles falam abertamente, como outros dispensacionalistas o fazem, de um futuro para Israel nacional entre as nações no milênio. É esse detalhe que torna dispensacional uma visão pré-milenarista. [31]
Outro ponto importante quanto ao milênio é que os progressistas não são tão apegados a duração do Milênio quanto os normativos.
É inegável que os dispensacionalistas clássicos consideram o Dispensacionalismo progressivo como um corpo estranho, e não o veem com bons olhos. Para os dispensacionalistas normativos, o Dispensacionalismo progressivo já demonstra ser mais que um desenvolvimento dentro do ensino do Dispensacionalismo normativo, isso porque eles consideram as suas mudanças radicais demais. Há um nítido afastamento do Dispensacionalismo normativo e Walter A. Elwell, fazendo uma avaliação positiva do novo movimento, pensa que:
esse dispensacionalismo mais novo parece tanto com o pré-milenismo não dispensacional [histórico] que temos de lutar para ver qualquer verdadeira diferença. [32]
Mas, muito embora os progressivos tenham aparentemente se livrado da arrogante alegação de sua consistente literalidade, ainda mantém, mesmo que tênue, a distinção Israel e Igreja. Além disso, sustentam ainda a famigerada e extrabíblica doutrina de um arrebatamento secreto e uma vinda pré-tribulacional. Quanto a isso, me ocorreu o interessante fato narrado por Harald Schaly  sobre Rowland Bingham, antigo editor do Evangelical Christian e da London Intermission:
Minha esposa pôs a funcionar nosso maquinismo investigativo, quando perguntou: ”Rowland, donde, na Bíblia, vem a idéia de um arrebatamento secreto? Eu tenho que ensinar minha classe de moças no domingo vindouro, sobre a segunda vinda de Cristo, e andei procurando alguma evidencia bíblica para isso”. E eu, sem hesitar, respondi: 1 Tess.4:14-17. Ela, porém, disse: “Eu acabei de ler isto, mas parece-me que aí é indicado que a volta de Cristo e o arrebatamento serão as coisas mais ruidosas, segundo diz a Bíblia, porque se fala em grande brado, voz de arcanjo e som de trombeta”. Eu tentei justificar, dizendo que Enoque é tipológico disso, por ter sido arrebatado ocultamente. A isto ela me deum um “knock-out” que me abateu: “Rowland, você sabe que não se pode basear uma doutrina só num caso tipológico”. Estando minha esposa inconformada, eu disse: “Todos os meus professores afirmaram que o grego faz diferença entre arrebatamento oculto da Igreja e a manifestação visível de Cristo ao mundo. A palavra epiphaneia sempre se refere ao retorno de Cristo com sua igreja, enquanto parousia sempre indica o arrebatamento”. Minha cara metade, porém, queria conferir este dois termos gregos, e eu tive que trazer minha Concordância de Young e procurar os textos bíblicos em que aparecia a palavra parousia, e isto fez estourar a teoria do arrebatamento secreto tão estrondosamente que me senti envergonhado de ingenuidade com que havia aceito as tais “autoridades”. [33]
E essa, sem dúvida alguma, pode ser a experiência de qualquer crente que se disponha a investigar o assunto.
Certamente o Dispensacionalismo progressivo deverá sofrer algumas reformulações ou ajustes, mas se continuar na atual trajetória dois caminhos estão à sua frente, amilenismo ou pré-milenismo histórico, mais provavelmente. Em qualquer uma dessas direções o Dispensacionalismo progressivo há de livrar-se do peso de sustentar, entre outras coisas, contra as Escrituras, a tese de uma segunda vinda secreta e pré-tribulacional.
Soli Deo Glória.
Notas:


[1] Manejando bem a Palavra da Verdade, C. I. Scofield, IBR, 1986, p. 18
[2] Dispensacionalismo, ajuda ou heresia, Charles C. Ryrie, ABECAR, 2004, pp.95, 97
[3] Idem, pp.49,50; cf. Dispensationalism Today, Chicago: Moody, 1965, p. 132.
[4] A Interpretação Bíblica, Roy B. Zuck, Vida Nova, 1994, p.276
[5] Opções Contemporâneas na Escatologia, M. J. Erickson, Vida Nova,1982, p.92
[6] O Dispensacionalismo e suas implicações doutrinárias, João A. dos Santos, disponível em http://militar.cristao.nom.br/estudosint.php?id=142, último acesso 2/8/2006.
[7] Idem, pp. 238,239.
[8] Hermenêutica Avançada, p. 119 – nota de rodapé n.11. Ryrie observa que a nota de rodapé da Scofield Reference Bible, que dava margem a uma idéia de dois modos de salvação foi “uma declaração descuidada de Scofield”, Dispensacionalismo, pp.127 (cf também nota 191 que diz que The New Scofield Reference Bible eliminou essa nota), 128.
[9] Teologia Sistemática, p. 1110
[10] As Interpretações do Apocalipse, Coleção Debates Teológicos, C. Marvin Pate, org., Vida, 2001, p. 186.
[11] O Milênio, Coleção de Debates Teológicos, Darrell L. Bock, org., 2005, Vida, p.201
[12] Dispensacionalismo, pp.196,197
[13] Idem, pp.201,202
[14] Idem, pp.37, 197
[15] Idem,p.203
[16] Idem, p.106
[17] As Interpretações do Apocalipse, p.188
[18] Dispensacionalismo, p.108
[19] As Interpretações do Apocalipse, p. 140
[20] Revista Notícias de Israel, outubro de 2006, p.6
[21] Dispensacionalismo, p.49
[22] Idem, p.159
[23] Idem, pp.160,161
[24] Idem, p.162
[25] As Grandes Doutrinas Bíblicas, Martyn Lloyd-Jones, Vol III, PES, 1999, pp.166,167
[26] The Blessed Hope, pp.36-41
[27] Opções Contemporâneas na Escatologia, M. J. Erickson, p.109
[28] Dispensacionalismo, p.217
[29] As Interpretações do Apocalipse, p.139 segs.
[30] O Milênio, p.212
[31] O Milênio, p. 255
[32] Dispensacionalismo, p.219
[33] O Pré-milenismo Dispensacionalista à luz do Amilenismo, Harald Schaly, JUERP, 1984, pp.64,65