quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Fé Salvadora

Um Dom De Deus


por

Robert Murray McCheyne


Tradução livre do Inglês

"Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus".

Efésios 2:8


A maioria dos homens tenta colocar Deus numa posição de débito com relação a sua salvação. Eles trabalham para serem salvos, ao invés de trabalharem por serem salvos. Eles vão "procurando estabelecer a sua própria justiça" (Rm. 10:3). Deste modo, pessoas mundanas procuram vida eterna - "Que faremos para realizar as obras de Deus?" (Jo. 6:28). Embora em palavras renunciem toda pretensão de qualquer mérito neles mesmos ou em suas obras, eles acalentam uma esperança secreta de serem recomendados a Deus por sua decência, sobriedade e performance religiosa. Deste modo, aqueles que tem uma pequena preocupação com suas almas, como o jovem rico, buscam a vida eterna - "Mestre, que farei eu de bom, para alcançar a vida eterna?" (Mt. 19:16). Seu maior desejo era parecer justo diante de Deus. Assim também, aqueles que experimentam uma inquietação mais profunda, freqüentemente vagueiam buscando perdão e paz. Talvez haja traços deste sentimento na pergunta ansiosa do pobre carcereiro - "Senhores, que devo fazer para que seja salvo?" (At. 16:30); e no grito lancinante do prostrado Saulo - "Senhor, que queres que eu faça?" (At.9:6). Certamente esta justiça própria é o pior e mais duradouro veneno do coração humano. A maioria dos homens, debaixo de convicção, se mostra relutante em abandonar a confiança que depositam em si mesmos. Eles não estão dispostos a tirar suas esperanças das suas "boas" obras. Eles se assustam com a idéia de estarem perdidos, a despeito de qualquer coisa que façam. Eles não gostam do perigo de jazer sem socorro e sem justificativa, aos pés da soberania de Deus. Quão solene estas palavras deveriam ser, para um pecador neste estado "Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus".


SALVAÇÃO É PELA GRAÇA:

Quando um homem escolhe uma maçã de uma árvore, ele geralmente escolhe a mais madura, a que parece ser melhor. Não é assim que Deus age na escolha das almas que Ele salva. Ele não salva aqueles que menos pecaram ou aqueles que estão mais dispostos a serem salvos; Ele freqüentemente escolhe os mais vis dentre os homens "para o louvor e glória da Sua graça" (Ef. 1:6). Isto é provado pelos exemplos dados na Bíblia. Por que Deus escolheu Manassés, que "queimou a seus filhos", "pôs imagem de escultura na casa de Deus" e encheu Jerusalém com o sangue de homens santos, enquanto muitos do seu povo iludido, que pecaram muito menos, pereceram? (2 Cr.33). Por que Deus salvou Zaqueu "maioral dos publicanos"? (Lc.19:110). Por que Jesus disse aos fariseus, "os publicanos e as meretrizes entram adiante de vós no reino de Deus." (Mt. 21:31)? Por que Jesus entrou nos portões perolados do paraíso com um pobre ladrão, que nunca tinha feito nada a não ser pecar, até seu último momento? (Lc.23:43 e Mt. 27:44). Por que Ele deixou o outro ladrão, que não era pior do que seu companheiro (ambos merecedores do inferno), cair em perdição, estando ao alcance dos braços do Salvador Todo-Poderoso? Todas estas coisas aconteceram a eles como exemplos, para nos mostrar que Deus salva de acordo com a Sua boa vontade, não por nossas "boas" obras, mas para mostrar sua adorável e livre graça.


A mesma coisa se prova pela experiência de todo filho de Deus. Somente aqueles que "provaram que o Senhor é gracioso", não sentem objeção no seu coração à declaração de um simples crente - "Se Deus não tivesse me escolhido antes de eu ter nascido, Ele nunca teria visto motivo para me escolher depois, pois não há nada em mim que atraia o amor de Deus". "Eis que até a lua não resplandece, e as estrelas não são puras aos Seus olhos. E quanto menos o homem, que é um verme, e o filho do homem, que é um vermezinho!" (Jó 25:5-6). Ele ama o que é puro, santo e perfeito; "mas eu sou carnal, vendido sob o pecado" (Rm 7:14). Tudo o que há em mim contribui para afastar a Deus. "Um Deus que se ira todos os dias contra o mau."(Sl 7:11). Ele estava irado comigo. A Sua natureza me causava aversão, pois eu estava debaixo do pecado de Adão. Fui formado em iniquidade; cada membro do meu corpo, cada faculdade da minha alma, era servo do pecado. Apesar disto, Ele veio sobre todas estas montanhas para minha alma. Eu disse, "Vieste aqui atormentar-nos antes do tempo?" (Mt 8:29). Eu não desejava conhecer Seus caminhos, mas Ele me fez desejar o dia do Seu poder. Glória, glória, glória ao Pai que me escolheu, ao Filho que morreu por mim e ao Espírito que me vivificou! A salvação é do Senhor e é totalmente por Sua graça.


SALVAÇAO É POR MEIO DA FE:

Quando David Brainerd estava sob convicção de pecado, a corrupção, existente no seu coração foi terrivelmente incomodada pelo fato de que a única condição para a salvação era a fé.


Deste mesmo texto, ele costumava falar - "Este é um duro discurso, quem pode suportá-lo?" Outra coisa que o mantinha na miséria era que - "eu não descobria o que era fé, ou o que era crer e vir a Cristo. Eu lia os chamados de Cristo aos cansados e sobrecarregados, mas não podia achar o caminho pelo qual eles são dirigidos a Ele". Esta é uma dificuldade que a maioria dos pecadores inquiridores, sente. É provável que satanás use isto, freqüentemente, como um dardo inflamado, para manter pobres pecadores longe de Cristo. O único modo de saber o que é a fé é experimentando-a. Em uma parte da Palavra, ela é descrita como "conhecimento": "E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste." (Jo. 17:3). Um verdadeiro conhecimento de Deus e de Cristo como Seu enviado, é fé salvadora. Eu tenho este conhecimento, ó minha alma? Eu nasci como um potro selvagem. Deus não estava em meus pensamentos. Não queria retê-lO no meu entendimento. Mas Deus se agradou em revelar Seu Filho em mim. Carne e sangue não podiam revelá-lO para mim, a não ser meu Pai que está no céu. Ele me abriu o caminho para salvação, de maneira que eu vi sua sabedoria, excelência e libertação; eu nada podia fazer, a não ser crer, e esta humilde confiança, é aquela fé que é dom de Deus.


Em outra parte das Escrituras, a fé é descrita como descoberta da beleza e excelência de Cristo: "Naquele dia o renovo do SENHOR será cheio de beleza e de glória; e o fruto da terra excelente e formoso para os que escaparem de Israel." (Is. 4:2). Uma descoberta real da glória do Senhor Jesus Cristo na alma, de forma correta e libertadora, é fé salvadora. O homem natural sabe o que é chegar a conhecer um semblante bonito, e o coração natural imediatamente arder em admiração. Ninguém, a não ser os crentes, sabem o que e descobrir a bonita face de Cristo que é "mais formoso do que os filhos dos homens"(Sl. 45:2), e ter o coração suprido com a alegria e a paz em crer. Já fiz esta descoberta? Eu posso dizer "Ao qual, não o havendo visto, amais; no qual, não o vendo agora, mas crendo, vos alegrais com gozo inefável e glorioso" (1Pe. 1:8)? Outrora não via nenhuma beleza em Jesus que me fizesse desejá-lo. Mas Ele saltou montanhas e montes. Ficou ao lado de nossa parede, olhou para dentro pela janela, se mostrou através da grade. Mostrou-me Suas mãos e Seus pés perfurados por pecadores. Mostrou-me que existe lugar sob Sua justiça. Mostrou Seu coração, que é o mesmo ontem, hoje e para sempre; e agora, eu só posso dizer que Ele é para mim belo e glorioso, excelente e gracioso. Se existisse dez mil maneiras diferentes de perdão, eu as ignoraria e correria para Ele. Ele é completamente gracioso. Isto, eu acredito, é fé salvadora, a qual é dom de Deus.

"Graça maravilhosa! (quão doce o som!)
Que salvou um miserável como eu.
Estava perdido, mas agora fui achado
Estava cego, mas agora vejo.
Foi graça que ensinou meu coração a temer,
E graça trouxe alívio aos meus medos;
Quão preciosa aquela graça pareceu
Na hora em que cri!
Através de muitos perigos, armadilhas e ciladas,
Eu finalmente vim;
Esta graça me trouxe em segurança até aqui
E me conduzirá ao lar".


quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Richard Baxter e a

Pregação Reformada

Edward Donnelly

Por que Richard Baxter? A teologia dele não era completamente sã. O desejo de Baxter promover a unidade da igreja às vezes o traía, ao ponto de tentar estabelecer consenso com aqueles que se encontravam distantes da fé bíblica. Embora Richard Baxter tenha sido um controvérsia lista hábil, ele confessou: “Sinto-me bastante inclinado a dirigir palavras de controvérsia em meus escritos e propenso a provocar a pessoa contra a qual eu escrevo”. Na “época clássica da literatura evangélica”, não existem outros modelos ou exemplos mais seguros de pregação?


A resposta se encontra no valor especial de Richard Baxter para a nossa necessidade atual. Na providência de Deus, estamos vendo um renovado interesse pela fé reformada e um conseqüente aumento do número de homens que têm sido impulsionados a pregar as doutrinas da graça. Mas qualquer novo progresso pode chegar a extremos; e sempre existe o perigo de um homem, no primeiro ímpeto de entusiasmo em favor daquilo que descobriu, se tornar, em seus esforços para ser completamente reformado, uma caricatura daquilo que ele admira. É exatamente nisso que Baxter pode ajudar-nos, pois, naquilo em que ele foi vigoroso, muitos são fracos em nossos dias. Consideraremos três características da pregação de Baxter que fala à nossa situação contemporânea.


1. A Pregação de Baxter era Caracterizada por Instrução Clara e Notável.


Ele acreditava que um pregador deve argumentar com seus ouvintes. “Devemos estar munidos com todo tipo de evidência, de modo que cheguemos com uma torrente ao entendimento de nossos ouvintes; e munidos com todos os argumentos e postulações, para que envergonhe mos as suas objeções vãs e vençamos todas elas, para que eles sejam forçados a renderem-se ao poder da verdade.” Ainda que Baxter estava bem consciente das trevas da mente não-regenerada, ele sempre se preocupou em esclarecer todos os mal-entendidos possíveis e em explicar aquilo que dizia. Os sermões de Baxter tinham uma estrutura lógica: primeiro, a “introdução” do texto bíblico; em seguida, a explicação das dificuldades; depois, “as aplicações” e a exortação. Mesmo estando em meio à mais comovente argumentação, Baxter recorreria ao auxílio da razão. Após implorar com grande ternura e poder, com o propósito de “fazer Cristo e a salvação resplandecerem”, Baxter terminava enumerando nove falsos fundamentos da certeza de salvação, seguidos pelos oito testes pelos quais seus ouvintes poderiam comprovar sua própria sinceridade. Um orador erudito consideraria um desperdício o não utilizar esse “impacto emocional”, mas Baxter se propunha em deixar que a verdade causasse seu próprio impacto; e ele pregava não primariamente para mover os homens, e sim para ensiná-los.



As verdades que ele proclamava eram fundamentais. “Durante todo o nosso ministério, temos de insistir principalmente sobre as verdades primordiais, as verdades mais seguras e as verdades mais necessárias; e temos de ser mais escassos e esparsos nas demais verdades. Há muitas outras coisas que são desejáveis de conhecermos; algumas, porém, têm de ser conhecidas, pois, de outro modo, o nosso povo ficará despreparado para sempre.” Isto é muitíssimo diferente da pregação que elabora um exame superficial de algumas passagens muito usadas ou, mais habitualmente, um exame de alguns versículos das Escrituras e da pregação que descarta qualquer outra coisa como algo que não “faz parte do evangelho”. Baxter fazia uma abordagem profunda e argumentava com um conhecimento íntimo do texto bíblico. Ele apresentava as verdades fundamentais em toda a plenitude de seu inter-relacionamento, bem como em toda a plenitude de sua aplicação. Todavia, ele acreditava que a pregação deve alcançar as necessidades das pessoas; que se comete um erro quando as grandes necessidades delas deixam de ser alcançadas; e que a “questão das necessidades” deveria estar sempre à frente.


As grandes verdades fundamentais eram ensinadas em linguagem simples, pois “não existe maneira melhor de fazermos uma boa causa prevalecer do que por meio de torná-la bastante clara”. Visto que o propósito do pregador é ensinar, ele tem de falar de maneira que seja entendido. Naqueles dias em que havia os provadores de sermões, Baxter era criticado pela clareza de sua linguagem e teve de lutar contra o orgulho de seu coração, que o pressionava a utilizar um estilo mais polido de linguagem. “Deus nos mandou ser tão claros quanto pudermos, a fim de que os ignorantes sejam instruídos... mas o orgulho permanece ao nosso lado e contradiz tudo, produzindo suas trivialidades e suas brincadeiras. Ele nos persuade a pintar a janela, para que a luz se torne menos brilhante.”


Isto certamente nos desafia, queridos irmãos. Nós temos como alvo o oferecer exposição argumentada da verdade para o nosso povo. No entanto, em nossa preparação, pro- curamos esclarecer qualquer dificuldade possível e fornecer argumentos que convencem as mentes de nossos ouvintes? Ou temos nos tornado negligentes por causa de sua aprovação sem críticas? Nos senti- mos tão receosos de ser rotulados como “fundamentalistas”, que gastamos maior parte de nosso tempo nos cantinhos menos conhecidos das Escrituras? É possível um homem adquirir a reputação de administrador de um restaurante para gourmets reformados, produzindo raridades teológicas que são obtidas em algum lugar — enquanto muitas das ovelhas famintas de seu rebanho olham para elas e não são alimentadas. É um erro trágico concentrar-se naquilo que “desejamos conhecer” e negligenciar aquilo que “temos de conhecer”. O nosso povo realmente entende as verdades centrais a respeito das alianças de Deus, da pessoa e obra de Cristo, do pecado, da regeneração, do arrependimento e da fé? Até que os fundamentos da fé dos membros de nossa igreja não estejam firmemente estabelecidos, faremos bem se atribuirmos menos ênfase sobre a imensa estrutura doutrinária das Escrituras. Pregamos em linguagem simples? Sem dúvida, procuramos evitar expressões super-acadêmicas. É verdade que muitos dos vocábulos poderosos das Escrituras nunca podem ser omitidos de nosso vocabulário. Sem dúvida, eles têm de ser explicados e, depois, incorporados à mente e à conversa de nossos ouvintes. Apesar disso, fazemos conscientemente todo o esforço necessário para evitar os chavões hipnóticos e paralisa- dores do pensamento, a fim de apresentarmos a verdade com uma roupagem nova e contemporânea? Baxter nos convida a realizarmos um ministério de pregação no qual os fundamentos da fé são apresentados com atratividade e clareza.


2. A Pregação de Richard Baxter era Caracterizada por um Ardente Apelo Evangelístico.


A grande realidade que moldava seu ministério era o fato de que todos comparecerão diante do tribunal de Cristo. Sua extrema fraqueza física aumentava sua consciência de que havia apenas um passo entre ele mesmo e a morte, que Baxter chamava de sua “vizinha”. Todos os deveres tinham de ser cumpridos, todos os sermões deveriam ser pregados à luz daquele grande Dia. “Todos os dias, eu sei e penso que está se aproximando a hora” — dizia Baxter. Sua congregação foi descrita como “um grupo de pecadores carnais, miseráveis e ignorantes, que tinham de ser transformados ou condenados. Parece que posso vê-los entrando na condenação final! Parece que eu os escuto clamando por socorro, pelo socorro mais urgente!”



Essa consciência da eternidade tornou Baxter um pregador emocional. “Se você deseja conhecer a arte de apelar, leia Richard Baxter”, disse Charles Spurgeon. Entretanto, a emotividade de Baxter não era indisciplinada; era motivada por uma compreensão da verdade, pois ele não tinha tempo para um “fervor simulado”.“Primeiramente, a luz; depois, o calor” — este era seu moto: em primeiro lugar, a exposição da verdade; em seguida, as pungentes palavras de apelo, resultantes da verdade. No final de seu livro “Uma Chamada ao Não-Convertido, Para que se Converta e Viva” (Nota do Editor: Leia “Convite para Viver”, resumido por John Blanchard e publicado pela Editora Fiel), Baxter apelou aos seus ouvintes com uma seriedade tão amável que podemos quase ver as lágrimas em sua face. “Meu coração está perturbado em pensar como deixarei vocês, para que eu não os deixe como os encontrei, até que acordem no inferno... Hoje, entre vocês sou um pedinte tão ardoroso, por causa da salvação da alma de vocês, como se estivesse pedindo algo para satisfazer minha própria necessidade e estivesse obrigado a vir como um mendigo às portas das casas de vocês. Portanto, se vocês pretendem me ouvir, ouçam-me agora. E, se vocês querem demonstrar piedade para comigo, suplico que nesse momento tenham piedade de vocês mesmos. Ó senhores, creiam: a morte e o julgamento, o céu e o inferno se tornam outra coisa quando nos aproximamos deles, diferentes daquilo que pensávamos quando deles estávamos distantes. Quando deles se aproximarem, vocês ouvirão a mensagem que lhes estou apresentando, com corações mais despertos e atenciosos.”


O assunto central da pregação de Baxter era um urgente convite para que o ouvinte recebesse a Cristo. Richard Baxter pregava esperando um veredicto; ele procurava “levar os pecadores a perceberem que tinham de ser, inevitavelmente, convertidos ou condenados”. As palavras finais de Baxter em seu livro “Desprezando a Cristo e a Salvação” são poderosas e pungentes: “Quando Deus remover de seus corpos aquelas almas descuidadas, e você, leitor, tiver de responder, em seu próprio nome, por todos os seus pecados; então, o que você não daria por um Salvador? Quando você perceber que o mundo o abandonou, que seus companheiros de pecado iludiram a si mesmos e a você e que todos os seus dias de felicidade se acabaram; então, o que você não daria por Cristo e pela salvação que você agora não considera ser uma coisa digna de se esforçar por ela? Você que não menospreza uma pequena enfermidade, uma necessidade ou a morte natural, não, nem mesmo uma dor de dente, mas lamenta como se estivesse arruinado; como você despreza a fúria do Senhor, que arderá contra aqueles que condenam a sua graça? Agora posso reconhecer qual será a sua determinação para os dias futuros. O que você tem a dizer? Você pretende continuar desprezando a Cristo e a salvação, como o tem feito até agora, e, apesar disso, ser o mesmo homem? Espero que não.”


O gume afiado estava sempre presente nas mensagens de Baxter — uma decisão tinha de ser tomada, um veredicto precisava ser dado, e uma oferta de misericórdia, aceitada ou rejeitada.


No entanto, isso está bem longe de corresponder ao decisionismo superficial. O pregador arminiano tem receio do que a mente pode dizer ao coração, depois que terminar o culto; por isso, ele tenta compelir os ouvintes a uma decisão da vontade, antes que pensamentos posteriores deles os afastem de Cristo. Baxter não somente se mostrava corajoso em lidar com os pensamentos posteriores, mas também contava com tais pensamentos, esperando que seus ouvintes refletiriam profundamente sobre aquilo que havia sido pregado. Assim, vemos Baxter plantando bombas-relógios nas mentes de seus ouvintes, aplicações que continuariam a falar, depois que a voz de Baxter silenciasse. “Não posso acompanhá-los até suas casas, para aplicar a Palavra às necessidades diárias de vocês. Oh! que eu possa transformar a consciência de vocês em um pregador, e que ela pregue para vocês mesmos, pois está sempre acompanhando-os! Da próxima vez que forem deitar-se ou dirigirem-se ao trabalho, sem haver orado, que a consciência de vocês grite bem alto: Você não se preocupa mais com Cristo e com a salvação de sua alma? Da próxima vez que se apressarem para a prática de um pecado conhecido, que a consciência de vocês clame: A salvação e Cristo não são mais dignos, para que você os despreze ou os arrisque por causa de suas concupiscências? Da próxima vez que vocês passarem o dia do Senhor em ociosidade ou esportes vãos, que a consciência lhes diga o que estão fazendo.” Baxter tomava cada um dos aspectos da vida e os arregimentava como um pregador, de modo que os pecadores ficassem cercados por um ambiente em que cada parte declarasse as reivindicações divinas.


Quer com justiça, quer não, em muitos lugares os pregadores reformados têm uma reputação de serem restritos e impessoais em suas mensagens. Isso pode ser uma reação contra os excessos de nossa época, contra o zelo sem discernimento, o calor sem a luz, a sã doutrina sem o bom senso. Não tem sido esta uma reação excessiva? Nós, que vemos Deus em todos os aspectos de nossa vida, poderíamos ser mais profundamente impressionados pela realidade das coisas eternas. Compreendendo a miséria da depravação humana e a maravilha da graça soberana, deveríamos nos sentir profundamente comovidos, quando essa verdade nos envolvesse. A evolução de nossa mente atrofiou de tal modo nosso coração, que nos leva a suspeitar das emoções autênticas? Hesitamos em pregar com insistência o evangelho aos homens, por medo de sermos considerados arminianos? Um pregador reformado pode considerar os cinco pontos do calvinismo como um campo minado pelo qual ele anda na ponta dos pés; e isto pode levá-lo a sentir-se tão temeroso de explodir em meio a uma expressão mal-utilizada, que ele não chega a almejar a conversão de seus ouvintes. O poder e o impacto de um sermão se perdem no emprego de milhares de termos qualificativos utilizados na mensagem. Nossa pregação será uma caricatura, se faltar um apelo sincero para que os homens recebam o Cristo todo-suficiente, que se oferece livremente a todos os que vierem a Ele. As verdades do calvinismo não são barreiras que têm de ser ultrapassadas, antes que o evangelho seja pregado; antes, elas são uma plataforma da qual pregamos com mais poder. É exatamente porque a graça é soberana e livre, que podemos proclamá-la com mais paixão; porque a redenção adquirida por Cristo é completa e certa, podemos recomendá-la com muito brilho; porque Deus, de acordo com sua própria vontade, escolheu alguns homens para a salvação, podemos pregar confiantemente. Se os pastores reformados têm de permanecer em harmonia com as Escrituras, temos de gravar esse elemento da pregação de Baxter.


3. A Pregação de Baxter era Acompanhada por Aconselhamento Pastoral Sistemático.


Ele não fazia qualquer divisão, como a que existe hoje, entre pregação e trabalho pastoral, pois ele entendeu o que Paulo quis dizer, quando recordou aos crentes de Éfeso, que lhes havia ensinado “publicamente e de casa em casa”. A tarefa do pastor é uma só — a mesma verdade comunicada ao mesmo povo, tendo o mesmo propósito: a glória de Deus, por meio da salvação ou da condenação. Talvez nisto Baxter se mostre mais útil aos pastores de nossos dias — em estabelecer uma forte ligação entre o púlpito e o pastorado.


Baxter esperava que conversões resultassem de sua pregação. Ele aconselhou seus colegas de ministério: “Se vocês não desejam ardentemente ver a conversão e a edificação de seus ouvintes, se não pregam nem estudam com esta esperança, provavelmente vocês não obterão muito sucesso”. Baxter dependia completamente do Senhor para obter sucesso em sua pregação; ele atacava com todo o vigor a abominável atitude de um pregador utilizar a soberania de Deus, em conceder ou não a salvação, como uma desculpa para a negligência. O pregador tem de desejar muito a conversão de seus ouvintes e encher-se de tristeza se eles não responderem ao convite do evangelho. “Sei que um pastor fiel pode consolar-se, quando lhe falta sucesso... mas o pastor que não empenha- se por ser bem sucedido em seu trabalho não pode ter qualquer consolo, porque não é um trabalhador fiel.”


Esse desejo intenso por resultados levou Baxter a visitar as casas de seus ouvintes e fazer a obra de catequização pessoal. Ele procurava descobrir quanto os seus ouvintes haviam entendido da pregação, que efeito a pregação tivera sobre eles e se haviam ou não recebido a oferta de misericórdia por meio do evangelho. A semente que ele havia plantado precisava de cultivo posterior? As ervas daninhas precisavam ser arrancadas daquele solo? Essas perguntas poderiam ser respondidas somente através da conversa pessoal. A princípio, Baxter esquivou-se da obra — “Muitos de nós temos uma vergonha tola que nos faz recuar em começar a obra com os ouvintes e conversar claramente com eles”. Mas, à medida que ele ganhou experiência, esse aconselhamento pastoral se tornou “a obra mais confortável, exceto a pregação pública, na qual eu já coloquei minhas mãos a realizarem”. Devemos ressaltar que foi a seriedade de Baxter como pregador que o tornou um pastor tão diligente. Sua visitação aos lares serviu-lhe de instrumento para explicar e aplicar posteriormente aquilo que havia dito no púlpito. Na verdade, ele descobriu que as pessoas não receberiam a sua pregação com a devida seriedade, a menos que ela fosse reforçada por uma abordagem pessoal e achegada.


Em uma passagem clássica de seu livro O Pastor Aprovado, Baxter disse: “Os seus ouvintes lhe darão oportunidade de pregar contra os pecados que eles cometem, assim como clamar do púlpito em favor da piedade, se você não os confrontar depois, ou em contato pessoal posterior for favorável ou demasiadamente amigável com eles... Eles consideram o púlpito como um palco, um lugar onde os pregadores têm de apresentar-se e realizar o seu papel; onde você tem a liberdade de falar, durante quase uma hora, sobre o que você escreveu em seu esboço; e o que você pregou eles não levam em



consideração, se não lhes mostrar, por falar-lhes face a face, que você estava pregando com seriedade e realmente pretendia dizer o que pregou em sua mensagem”. A obra pastoral de Baxter não somente reforçava o que ele havia pregado, mas também o ajudava a pregar com mais pungência e relevância no futuro. “Conversar uma hora ou mais com um pecador ignorante e obstinado lhe fornecerá, tão bem quanto uma hora de estudo no escritório, assuntos úteis a serem apresentados em seus sermões; pois você saberá sobre que assunto precisa insistir e quais objeções desses pecadores você terá de repelir.” Baxter conheceu o seu povo — a personalidade, os problemas, as tentações, a maneira de viver deles. Ele se assentava onde eles se assentavam; assim foi capacitado a pregar sermões elaborados para as necessidades particulares deles. Para um homem ser um verdadeiro pregador, ele tem de ser um verdadeiro pastor. Temos de reconhecer a centralidade da pregação, mas será que não utilizamos isso como desculpa para a covardia e a indiferença pastoral? O fato de que pregamos publicamente contra os pecados dos homens nos absolve da responsabilidade de confrontá-los, em seus lares, a respeito dos mesmos pecados? Somos chamados para ser estudantes diligentes, para trabalhar na Palavra, para estar em nosso lugar secreto. No entanto, o estudo pode se tornar um refúgio conveniente para fugirmos da realidade, e podemos facilmente por meio da leitura de mais um livro tranqüilizar nossa consciência no que diz respeito a uma visita não realizada. Muitos de nós temos descoberto, para nossa vergonha, que a coragem com que temos pregado pode evaporar-se durante o trajeto até à porta da casa da pessoa para a qual estamos nos dirigindo, a fim de visitá-la. Havendo trovejado, com ousadia, contra o pecado, nos encontramos procurando conciliar-nos, por meio de um sorriso e de um aperto de mãos, com aquelas mesmas pessoas cujas consciências estávamos procurando ferir; “estamos procurando ser amigos e nos alegrarmos com eles”; estamos preferindo que Deus fique irado com eles, ao invés de eles ficarem irados conosco.



Na tentativa de ressaltarmos a importância da pregação, é possível reagirmos de maneira errônea, por minimizarmos a obra pessoal. O aconselhamento pessoal não pode ser um substituto para a Palavra pregada, mas, como um instrumento de reforçar e aplicar a Palavra à consciência do indivíduo, o aconselhamento pastoral cumpre uma função singular. Além disso, serve também para nos tornar pregadores melhores, e não piores. Quando visitamos de casa em casa, a neblina de nosso estudo será desfeita e voltaremos a fim de preparar sermões de acordo com a vida e na linguagem do povo.


Este foi Richard Bartex de Kidderminster, um pregador que trabalhou muito para tornar clara a verdade de Deus, que falava com um coração ardente, enquanto apelava ao seu povo que se aproximasse de Cristo; um pastor que conhecia suas ovelhas por nome, que falava com elas pessoalmente a respeito das grandes preocupações de sua alma. Richard Baxter não é simplesmente uma curiosidade histórica, um fóssil para ser admirado; ele é um estímulo, uma reprovação, um encorajamento. Em suas Meditações Sobre a Morte, Baxter revela o coração do pregador: “Meu Senhor, não tenho nada a fazer neste mundo, exceto buscar-Te e servir-Te; não tenho nada a fazer com o coração e suas afeições, exceto amar-Te intimamente; não tenho nada a fazer com os lábios e com a caneta, exceto falar sobre Ti, a favor de Ti, e publicar a tua glória e a tua vontade”.

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fonte: Fé para Hoje

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Vox Dei: A Teologia Reformada da Pregação

Paulo R. B. Anglada*

A pregação, como uma forma distinta de comunicação da vontade de Deus revelada na sua Palavra, está em declínio. Em muitas igrejas ela tem sido substituída por um número cada vez maior de atividades.
Há 30 anos atrás, o Dr. Martyn Lloyd-Jones foi convidado a proferir uma série de conferências no Westminster Theological Seminary, em Filadélfia. Nessas palestras, publicadas em 1971 com o título Pregação e Pregadores, ele enfatizou que a pregação é a tarefa primordial da igreja e do ministro, e explicou que estava ressaltando isso "por causa da tendência, hoje, de depreciar a pregação em prol de várias outras formas de atividade."1 A situação não melhorou. John J. Timmerman observou, quase vinte anos depois, que "em muitas igrejas o sermão é uma ilha que diminui cada vez mais em um mar turbulento de atividades."2
Mesmo igrejas de tradição reformada parecem estar sucumbindo paulatina, mas progressivamente, a essa tendência, e o lugar da pregação no culto tem perdido importância. John Frame, teólogo de tradição reformada, publicou há dois anos o livro Culto em Espírito e em Verdade: Um Estudo Estimulante dos Princípios e Práticas do Culto Bíblico. No livro o autor nega, entre outras coisas, que a pregação seja função restrita dos ministros da Palavra, ou mesmo dos presbíteros em geral, considera a dramatização e o diálogo métodos legítimos de ensino no culto público, e não vê razão pela qual um culto público não possa ser inteiramente musical.3 David Engelsma, outro reformado conhecido, observa, entretanto, que com base na negação de qualquer distinção entre o culto público oficial e o culto familiar, John Frame faz uma interpretação tão ampla do princípio regulador reformado, que este acaba se tornando sem sentido.4
Muitas são as razões para o declínio contemporâneo da pregação. O surgimento de novos meios de comunicação e de novas mídias interativas, a aversão do homem pós-moderno pela verdade objetiva ou absoluta, a secularização da sociedade, o afastamento do cristianismo das Escrituras, e a própria corrupção da pregação, em muitos púlpitos degenerada em eloqüência de palavras, demonstração de sabedoria humana, elucubrações metafísicas, meio de entretenimento, ou embromação pastoral dominical, certamente são algumas delas.5 Uma das principais razões, entretanto, diz respeito à concepção moderna da pregação, muitas vezes encarada como atividade meramente humana e pouco relevante, cuja eficácia depende fundamentalmente das habilidades naturais ou capacidade do pregador.
Todas estas tendências, influências e concepções produziram resultados devastadores sobre a pregação nos meios evangélicos. Ela tornou-se como que um apêndice no culto público, e as conseqüências, sem dúvida, se têm feito sentir na vida da igreja. Na perspectiva reformada, o declínio do lugar da pregação no evangelicalismo moderno é uma constatação seríssima. Se a teologia reformada com relação à pregação reflete o ensino bíblico, então muito do estado presente da igreja cristã, se explica como resultado desse declínio da pregação. Meu propósito com este artigo é apresentar, resumidamente, o ensino reformado concernente à natureza, importância, eficácia e propósito da pregação.
I. a natureza da pregação
O conceito reformado de palavra de Deus é mais amplo do que aquele geralmente compreendido pela expressão. Ele inclui a palavra escrita: a Bíblia; a palavra encarnada: Cristo; a palavra simbolizada ou representada: os sacramentos do batismo e da ceia; e a palavra proclamada: a pregação.6 Na teologia reformada, portanto, a pregação da Palavra de Deus é palavra de Deus. Esta concepção de pregação é professada no primeiro capítulo da Segunda Confissão Helvética, de Bullinger, nos seguintes termos:
A Pregação da Palavra de Deus é palavra de Deus. Por isso, quando a Palavra de Deus é presentemente pregada na igreja por pregadores legitimamente chamados, cremos que a própria palavra de Deus é proclamada e recebida pelos féis; e que nenhuma outra palavra de Deus deve ser inventada nem esperada do céu...
Isto não significa identificação absoluta da palavra pregada com a palavra escrita. As Escrituras são definitivas e supremas, inerentemente normativas, enquanto que a autoridade da pregação é sempre delas derivada e a elas subordinada.7 Não significa também que a pregação seja inspirada ou inerrante. Os pregadores, por mais fiéis que sejam na exposição das Escrituras, não são preservados do erro como o foram os autores bíblicos. Muito menos significa que os ministros da Palavra sejam instrumentos de novas revelações do Espírito. O próprio documento reformado acima citado repudia essa idéia, ao afirmar que "nenhuma outra palavra de Deus deve ser inventada nem esperada do céu."
A pregação da Palavra de Deus é palavra de Deus, primeiro porque é na condição de porta-voz, de embaixador, de representante comissionado por Deus, que o pregador fala (2 Co 5.20). "A natureza da obra do pregador," observa Dabney, "é determinada pela palavra empregada para descrevê-la pelo Espírito Santo. O pregador é um arauto."8 A pregação é palavra de Deus porque é entregue em nome de Deus, e debaixo da sua autoridade. Em segundo lugar, a pregação é palavra de Deus em virtude do seu conteúdo. Parker observa que a pregação recebe seu status de palavra de Deus das Escrituras. A pregação "é palavra de Deus, porque transmite a mensagem bíblica, que é a mensagem ou Palavra de Deus."9 Enquanto a pregação refletir fielmente a Palavra de Deus, ela tem a mesma autoridade, e requer dos ouvintes a mesma obediência.10
Robert L. Dabney observa que o uso do termo arauto para descrever o ofício do pregador encerra duas implicações. Primeiro, que não lhe compete inventar sua mensagem, mas transmiti-la e explicá-la. Segundo, que o arauto
...não transmite a mensagem como mero instrumento sonoro, como uma trombeta ou tambor; ele é um meio inteligente de comunicação...; ele tem um cérebro, além de uma língua; e espera-se que ele entregue e explique de tal maneira a mente do seu senhor, que os ouvintes recebam, não apenas os sons mecânicos, mas o verdadeiro significado da mensagem."11
Pregação, definiu Phillips Brooks, é a comunicação da verdade de Deus através da personalidade do pregador.12 Assim como a palavra inspirada não deixa de ser divina, embora escrita por autores humanos em pleno uso de suas peculiaridades humanas, assim também a palavra pregada não deixa de ser de Deus por ser mediada pela personalidade do pregador.
Na verdade, mais do que mero instrumento de comunicação da vontade de Deus, a pregação, na concepção reformada, é um dos meios pelos quais Cristo se faz presente na igreja. Assim como a fé reformada crê na real presença espiritual de Cristo nos sacramentos, crê também na sua real presença espiritual na pregação, pela qual ele salva os eleitos e edifica e governa a igreja.13 Essa concepção, em certo sentido sacramental da pregação, considerada como que uma epifania de Cristo,14 é afirmada freqüentemente por Calvino nas Institutas e em seus comentários.15 Leith observa que, nas Institutas (4.14.26), Calvino cita Agostinho, o qual referia-se às palavras como sinais, porquanto na sua concepção, "na pregação, o Espírito Santo usa as palavras do pregador como ocasião para a presença de Deus em graça e em misericórdia," e, "nesse sentido, as palavras do sermão são comparáveis aos elementos dos sacramentos."16
A concepção reformada de pregação como vox Dei é compartilhada por Lutero. Comentando João 4.9-10, o reformador pergunta: "Quem está falando [na pregação]? O pastor? De modo nenhum! Vocês não ouvem o pastor. A voz é dele, é claro, mas as palavras que ele emprega são na realidade faladas pelo meu Deus."17 Condenando a tendência católica romana de transformar em sacramento tudo o que os apóstolos fizeram, Lutero afirma que se alguma dessas práticas tivesse que ser sacramentalizada, que a pregação o fosse.18
Foi Calvino, entretanto, quem elaborou mais detalhadamente a questão da natureza da pregação como "a voz de Deus."19 Em seu comentário de Isaías ele afirma que na pregação "a palavra sai da boca de Deus de tal maneira que ela de igual modo sai da boca de homens; pois Deus não fala abertamente do céu, mas emprega homens como seus instrumentos, a fim de que, pela agência deles, ele possa fazer conhecida a sua vontade."20 Comentando Gálatas 4.19, "até ser Cristo formado em vós," Calvino enfatiza a eficácia do ministério da Palavra, afirmando que porque Deus "...emprega ministros e a pregação como seus instrumentos para este propósito, lhe apraz atribuir a eles a obra que ele mesmo realiza, pelo poder do seu Espírito, em cooperação com os labores do homem."21 Para Calvino, a leitura e meditação privadas das Escrituras não substituem o culto público, pois "entre os muitos nobres dons com os quais Deus adornou a raça humana, um dos mais notáveis é que ele condescende consagrar bocas e línguas de homens para o seu serviço, fazendo com que a sua própria voz seja ouvida neles."22 Por isso, quem despreza a pregação despreza a Deus, porque ele não fala por novas revelações do céu, mas pela voz de seus ministros, a quem confiou a pregação da sua Palavra.23 Ao falar Deus aos homens por meio da pregação, Calvino identifica dois benefícios: "...por um lado, ele [Deus], por meio de um teste admirável, prova a nossa obediência, quando ouvimos seus ministros exatamente como ouviríamos a ele mesmo; enquanto que, por outro, ele leva em consideração a nossa fraqueza ao dirigir-se a nós de maneira humana, por meio de intérpretes, a fim de que possa atrair-nos a si mesmo, ao invés de afastar-nos por seu trovão."24
Os puritanos não pensavam de modo diferente. Eles viam o pregador da Palavra como um porta-voz de Deus.25 Eles afirmavam que "na fiel exposição da Palavra, Deus mesmo está pregando, e que se um homem está fazendo uma verdadeira exposição das Escrituras, Deus está falando, pois é a palavra de Deus, e não a palavra do homem."26 "Não pode haver dúvida de que para estes adoradores, a pregação da Palavra tornou-se um sacramento verbal.’’27 John Owen, por exemplo, escreveu que "Cristo nos chama a si... nas pregações do evangelho, pelas quais ele é evidentemente crucificado diante de nossos olhos" (Gl 3.1).28 Mencionando a mesma passagem bíblica, Paul Helm comenta que, na pregação, os Gálatas como que viram a Cristo com seus próprios olhos.29 Ele também observa que "os protestantes geralmente enfatizam que a graça conferida nos sacramentos não é de natureza diferente e, certamente, não superior àquela conferida na pregação fiel... assim como os sacramentos são emblemas visíveis da graça de Deus, assim também é a pregação fiel."30
II. a relevância da pregação
Em virtude dessa elevada concepção da pregação como vox Dei, a fé reformada atribui à proclamação pública da Palavra de Deus a maior importância. Na tradição reformada a pregação é considerada como o principal meio de graça, como a tarefa primordial da igreja e do ministro da Palavra, como o elemento central do culto, como marca genuína da verdadeira igreja e como o meio por excelência pelo qual é exercido o poder das chaves.
A. O Principal Meio de Graça
Na teologia reformada a pregação é um meio de graça. Ela e a ministração dos sacramentos são as ordenanças pelas quais o pacto da graça é administrado na nova dispensação.31
De fato, na concepção reformada, a pregação é o mais excelente meio pelo qual a graça de Deus é conferida aos homens,32 suplantando inclusive os sacramentos. Os sacramentos não são indispensáveis; a pregação é. Os sacramentos não têm sentido sem a pregação da Palavra, sendo-lhe subordinados.33 Os sacramentos servem apenas para edificar a igreja; a pregação, além disso, é o meio por excelência pelo qual a fé é suscitada; é o poder de Deus para a salvação.34 Os sacramentos são como que apêndices à pregação do evangelho.35 É assim que reformadores e puritanos interpretam as palavras de Paulo em 1 Coríntios 1.17: "Porque não me enviou Cristo para batizar, mas para pregar o evangelho." Para Calvino, os sacramentos não têm sentido sem a pregação do evangelho.36 Quando a ministração dos sacramentos é dissociada da pregação, eles tendem a ser considerados como práticas mágicas.37
A idéia puritana quanto à relevância da pregação não é diferente. Lloyd-Jones observou que "os puritanos asseveravam também que o sermão é mais importante que as ordenanças ou quaisquer cerimônias. Alegavam que ele é um ato de culto semelhante à eucaristia, e mais central no serviço da igreja. As ordenanças, diziam eles, selam a palavra pregada e, portanto, são subordinadas a ela."38 Comentando Efésios 4.11, Hodge explica o papel do pregador como canal da operação do Espírito como segue:
Assim como no corpo humano há certos canais por meio dos quais a influência vital flui da cabeça para os membros, os quais são necessários à sua comunicação, assim também há certos meios divinamente designados para a distribuição do Espírito Santo, de Cristo para os diversos membros do seu corpo. Quais canais de influência divina são esses, pelos quais a igreja é sustentada e impulsionada, é claramente indicado no verso 11, no qual o apóstolo diz: "Cristo deu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos." É, portanto, através do ministério da Palavra que a influência divina flui de Cristo, o cabeça, para todos os membros do seu corpo; de modo que onde o ministério falha, a influência divina falha. Isto não significa que os ministros, na qualidade de homens ou oficiais, sejam de tal modo canais do Espírito para os membros da igreja, que sem a intervenção ministerial deles, ninguém se torna participante do Espírito Santo. Significa, sim, que os ministros, na condição de despenseiros da verdade, são, portanto, os canais da comunicação divina. Pelos dons da revelação e inspiração, Cristo constituiu uns apóstolos e outros profetas para a comunicação e registro da sua verdade; e pela vocação interna do seu Espírito, ele constitui outros evangelistas e outros pastores, com vistas à sua constante proclamação e persuasão. E é somente (no que diz respeito aos adultos) em conexão com a verdade assim revelada e pregada, que o Espírito Santo é comunicado.39
Que graças são comunicadas por meio da pregação? A pregação é o meio pelo qual as pessoas adultas e capazes são externamente chamadas para a salvação.40 É a causa instrumental da fé e principal meio pelo qual a fé é aumentada e fortalecida, a igreja é edificada e o Reino de Deus é promovido no mundo.41 Pela pregação da Palavra a igreja é ensinada, convencida, reprovada, exortada e confortada.42
B. A Tarefa Primordial da Igreja e do Pregador
Na concepção reformada, a pregação é a tarefa primordial da igreja e do ministro da Palavra.43 Em suas mensagens e escritos, os reformadores condenam insistente e duramente o clero romano por negligenciar a pregação. Incapacitados para a tarefa, os sacerdotes católicos delegavam a função a outros,44 e dedicavam-se a atividades secundárias, ou mesmo à ociosidade e à luxúria. A superficialidade e leviandade com que as pessoas participavam da missa era, para Lutero, culpa dos bispos e sacerdotes, que não pregavam nem ensinavam as pessoas a ouvir a pregação.45 Ele considera que:
...não há praga mais cruel da ira de Deus do que quando ele envia fome [escassez] de ouvir sua Palavra, como diz Amós [8.11s], como também não existe maior graça do que quando envia sua Palavra, conforme o Salmo 107.20: "Enviou sua Palavra e os sarou, e os livrou de sua perdição." Também Cristo não foi enviado para outra tarefa do que para [pregar] a Palavra; também o apostolado, o episcopado e toda ordem clerical para outra coisa não foram chamados e instituídos do que para o ministério da Palavra.46
Para Lutero, "...quem não prega a Palavra, para o que foi chamado pela igreja, não é sacerdote de maneira alguma... quem não é anjo (mensageiro) do Senhor dos Exércitos ou quem é chamado para outra coisa que não para o angelato (por assim dizer), certamente não é sacerdote... Por isso também são chamados de pastores, porque devem apascentar, isto é, ensinar. O múnus do sacerdote é pregar. O ministério da Palavra faz o sacerdote e o bispo."47
Calvino também condena repetidas vezes os sacerdotes e bispos por não pregarem o evangelho.48 Comentando Atos 1.21-22, quando Barsabás e Matias são indicados para preencher a vaga de Judas no apostolado, como testemunhas da ressurreição de Cristo, Calvino conclui com isso que o ensino e a pregação são funções essenciais do ministério.49
A Forma de Governo Eclesiástico Presbiteriano relaciona, entre as atribuições do ministro da Palavra, juntamente com a oração e a administração dos sacramentos, "alimentar o rebanho pela pregação da Palavra, de acordo com a qual deve ensinar, convencer, reprovar, exortar e confortar."50
Esses documentos presbiterianos simplesmente refletem a concepção puritana. William Brad­shaw, autor de uma das obras mais antigas sobre os puritanos comenta que, para eles, "o mais elevado e supremo ofício e autoridade do pastor é pregar o evangelho solene e publicamente à congregação."51 Packer cita Owen para demonstrar que a pregação era, para os puritanos, "o principal dever de um pastor. De acordo com o exemplo dos apóstolos, eles devem livrar-se de todo impedimento a fim de que possam dedicar-se totalmente à Palavra e à oração."52 Jonathan Edwards considerava a pregação do evangelho o principal dever do ministro.53 Em uma carta, ele comentou:
Devemos ser fiéis em cada parte das nossas obras ministeriais, e nos empenhar para magnificar nosso ofício. De maneira particular, devemos atentar para a nossa pregação, a fim de que ela seja não apenas sã, mas instrutiva, temperada, espiritual, muito estimulante e perscrutadora; bem pertinente à época e tempos em que vivemos, labutando diligentemente para isso.54
Dentre as passagens bíblicas que fundamentam essa característica da pregação reformada, as seguintes podem ser mencionadas: com relação a Jesus, Lucas 12.14 e João 6.14-15; com relação aos apóstolos, Atos 6.1-7 e 1 Coríntios 1.17; com relação aos evangelistas, precursores do ministério permanente da pregação da Palavra, 1 Timóteo 5.15; e com relação aos ministros permanentes da Palavra, Romanos 10.13-17 e 2 Timóteo 4.1-4.
C. A Centralidade da Pregação no Culto
No culto medieval, a pregação era considerada, no máximo, como elemento preparatório para a ministração e recepção dos sacramentos. Na concepção reformado-puritana, "a leitura das Escrituras, com santo temor, a sã pregação da Palavra e a consciente atenção a ela em obediência a Deus com entendimento, fé e reverência...," são os principais elementos do culto a Deus na dispensação da graça.55 A Reforma restaurou a pregação à sua posição bíblica, conferindo a ela a centralidade no culto público.56
Na antiga dispensação, o elemento central do culto público era o sacrifício, uma pregação simbólica apontando para o sacrifício de Cristo. Na nova dispensação, havendo Cristo oferecido a si mesmo como o Cordeiro Pascal que tira o pecado do mundo, não há mais lugar para sacrifícios. A pregação da Palavra é a legítima substituta do sacrifício como atividade central do culto na dispensação da graça. O que o sacrifício proclamava de forma simbólica e pictórica na antiga dispensação, deve ser agora anunciado de forma oral, pela leitura e pregação da Palavra.
Com o propósito de restaurar a igreja em Genebra ao modelo bíblico, Calvino e outros redigiram as Ordenanças Eclesiásticas, um manual de governo eclesiástico e de culto. De acordo com as Ordenanças, a pregação da Palavra deveria ser o elemento essencial do culto público e a tarefa essencial e central do ministério pastoral.57 No seu prefácio aos sermões de Calvino sobre o Salmo 119, Boice observa:
Quando a Reforma Protestante aconteceu no século XVI e as verdades da Bíblia, que por longo tempo haviam sido obscurecidas pelas tradições da igreja medieval, novamente tornaram-se conhecidas, houve uma imediata elevação das Escrituras nos cultos protestantes. João Calvino, em particular, pôs isto em prática de modo pleno, ordenando que os altares (há muito o centro da missa latina) fossem removidos das igrejas e que o púlpito com uma Bíblia aberta sobre ele fosse colocado no centro do prédio.58
Lutero também "...considerava a pregação como a parte central do culto público e colocava a pregação da Palavra até mesmo acima da sua leitura."59 Timothy George descreve assim a contribuição de Lutero para a pregação:
Lutero recuperou a doutrina paulina da proclamação: a fé vem pelo ouvir, o ouvir pela palavra de Deus... (Rm 10.17). Lutero não inventou a pregação mas a elevou a um novo status dentro do culto cristão... O sermão era a melhor e mais necessária parte da missa. Lutero investiu-o de uma qualidade quase sacramental, tornando-o o núcleo da liturgia... O culto protestante centrava-se ao redor do púlpito e da Bíblia aberta, com o pregador encarando a congregação, e não em volta de um altar com o sacerdote realizando um ritual semi-secreto. O ofício da pregação era tão importante que até mesmo os membros banidos da igreja não deviam ser excluídos de seus benefícios.60
Quanto aos puritanos, eles "anelavam ver a pregação da Palavra de Deus tornar-se central no culto."61 O culto puritano culminava no sermão. Ryken observa que "os puritanos fizeram da leitura e exposição das Escrituras o evento principal do culto." A pratica puritana da "profetização" (prophesying), um tipo de escola de profetas em que ministros pregavam um após o outro, com vistas ao treinamento de pregadores menos experientes,62 "contribuiu mais do que qualquer outro meio para promover e estabelecer a nova religião na Inglaterra" na época.63
D. A Marca Essencial da Verdadeira Igreja
Porquanto na pregação Cristo fala e se faz presente, governando e ensinando a igreja, a fé reformada é unânime em considerar que a pregação da Palavra é uma das marcas da verdadeira igreja. Diversos símbolos de fé reformados, dentre os quais a Confissão Belga (artigo 29), a Confissão Escocesa de 1560 (artigo 18), a Confissão da Igreja Inglesa em Genebra de 1556 (artigos 26-28), a Confissão de Fé Francesa de 1559, e a Segunda Confissão Helvética de 1566 (capítulo 17) professam que a "pregação pura do evangelho," a "verdadeira pregação da Palavra de Deus," é uma das marcas pelas quais a verdadeira igreja de Cristo pode ser reconhecida neste mundo. Lutero escreveu que "unicamente Cristo é o cabeça da cristandade. Ele age através do evangelho pregado, do Batismo e da Ceia do Senhor, os quais, portanto, são também os sinais pelos quais a verdadeira igreja se identifica."64 Para Calvino, Satanás tenta destruir a igreja fazendo desaparecer a pregação pura.65 Conseqüentemente,
... os sinais pelos quais a igreja é reconhecida são a pregação da Palavra e a observância dos sacramentos, pois estes, onde quer que existam, produzem fruto e prosperam pela bênção de Deus. Eu não estou dizendo que onde quer que a Palavra seja pregada os frutos imediatamente apareçam; mas que, onde quer que seja recebida e habite por algum tempo, ela sempre manifesta sua eficácia. Mas isto quando a pregação do evangelho é ouvida com reverência, e os sacramentos não são negli­genciados...66
De fato, dentre as três marcas da verdadeira igreja geralmente reconhecidas (a pregação, a ministração dos sacramentos e o exercício da disciplina), a pregação é considerada a mais importante. Primeiro, porque inclui as outras duas: como vimos, na concepção reformada, os sacramentos não podem ser dissociados da Palavra, nem o exercício da disciplina. Segundo, porque é através da pregação verdadeira da Palavra que os eleitos são congregados e edificados. Berkhof, por exemplo, afirma que, "estritamente falando, pode-se dizer que a pregação verdadeira da Palavra e seu reconhecimento como o modelo da doutrina e da vida é a única marca da igreja. Sem ela não há igreja, e ela determina a reta administração dos sacramentos e o exercício fiel da disciplina eclesiástica."67
Herman Hoeksema, outro teólogo reformado, escreveu:
...podemos dizer que a única marca distintiva importante da verdadeira igreja é a pura pregação da Palavra de Deus. Onde a Palavra de Deus é pregada e ouvida, aí está a igreja de Deus. Onde esta Palavra não é pregada, aí a igreja não está presente. E onde esta Palavra é adulterada, a igreja deve arrepender-se ou morrerá.68
III. a eficácia da pregação
Embora tendo elevada concepção da pregação, a fé reformada não atribui à palavra pregada eficácia automática, mecânica ou mágica,69 e nem a associa primordialmente às habilidades e capacidades pessoais do pregador ou dos ouvintes. A eficácia da pregação, na teologia reformada, depende fundamentalmente da operação do Espírito Santo e da responsabilidade humana do pregador e dos ouvintes.
A. A Eficácia da Pregação e as Habilidades Pessoais do Pregador
Com base em 1 Coríntios 2.1-4 e 2 Coríntios 3.5, a fé reformada sustenta que a eficácia da pregação não depende, em primeiro lugar, da eloqüência, linguagem elaborada, gesticulação premeditada ou da capacidade intelectual do pregador. Um pregador pode ser eloqüente, pode gesticular bem, evidenciar grande capacidade intelectual e, no entanto, sua pregação pode ser completamente ineficaz. De fato, estas coisas podem tornar-se até em empecilho para a genuína promoção do reino de Deus. O ideal reformado-puritano da pregação inclui linguagem simples e gesticulação natural.
B. A Obra do Espírito Santo para a Eficácia da Pregação
No entendimento reformado, a eficácia da pregação depende principalmente da obra do Espírito,70 que ocorre em três instâncias: na preparação do sermão, na entrega da mensagem e na recepção da mensagem por oca­sião da pregação.
Com relação ao pregador, a eficácia da pregação depende da capacitação do Espírito para a tarefa (2 Co 3.5-6). É o Espírito Santo quem confere poder à pregação (1 Co 2.4-5 e 1 Ts 1.5). Calvino escreveu que "nenhum mortal está por si mesmo qualificado para a pregação do evangelho, a não ser que Deus o revista com o seu Espírito."71 Para ele, como observou seu biógrafo Thomas Smith, "as qualificações que habilitam qualquer homem para este elevado ofício [da pregação] só podem ser conferidas por Deus, através de Cristo, e pela operação eficaz do Espírito Santo."72
A eficácia da pregação depende da ação iluminadora do Espírito Santo na preparação do sermão e da unção do Espírito na entrega da mensagem. Na preparação, a escolha do texto ou do livro a ser exposto e a determinação da sua extensão; a compreensão do seu propósito, sentido, argumentação, significado e aplicação; e a elaboração da mensagem (redigida, em forma de esboço, ou apenas de idéias gerais); tudo depende especialmente da operação interna do Espírito Santo na mente e no coração do pregador. Se o Espírito Santo não assistir o pregador no seu labor exegético, o resultado do seu trabalho será insuficiente, por maior que seja o seu conhecimento e por mais diligente que seja no seu trabalho. Na entrega da mensagem, a eficácia varia na proporção da dependência do pregador da assistência do Espírito, e não da confiança no seu preparo ou habilidades naturais. Havendo se empenhado para compreender o texto e preparar a mensagem e suplicado pela iluminação do Espírito, no momento da pregação o pregador precisa confiar-se completamente à assistência do Espírito Santo, dando lugar a que ele intervenha na entrega da mensagem.
Com relação ao ouvinte, a eficácia da pregação depende, em última instância, da ação iluminadora interna do Espírito Santo na sua mente e coração. É ele quem abre o coração dos ouvintes para que compreendam a mensagem (At 16.14). É ele quem escreve a mensagem no coração dos ouvintes (2 Co 3.3). Somente ele faz resplandecer o evangelho no coração, "para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo" (2 Co 4.6). A pregação em si mesma, por mais verdadeira que seja, e por mais ungido que seja o pregador, é inútil. Não porque falte poder a ela. Mas, por causa da cegueira espiritual do homem natural, a palavra pregada só se torna eficaz pela operação interna imprescindível do Espírito Santo, "o Mestre interior," que a acompanha.73 Em contraste com a posição arminiana, a fé reformada enfatiza que "é Deus somente, na pessoa do Espírito Santo, quem pode tornar e torna eficaz a pregação.74 A depravação do coração humano não permite dissociar a palavra pregada da operação do Espírito.75
É este o ensino de Calvino sobre o assunto, e aqueles que o investigam raramente deixam de observar o fato.76 Para ele, "assim como a pregação é o instrumento da fé, assim também o Espírito Santo torna a pregação eficaz."77 Em seu comentário de Isaías, ele escreveu que "o Espírito está ligado à Palavra, porque, sem a eficácia do Espírito, a pregação do evangelho de nada adiantaria, mas permaneceria infrutífera."78 E em seu comentário do livro de Atos, ele deixa claro que depende do poder secreto do Espírito Santo que a pregação dos ministros do evangelho seja eficaz.79 A vocação eficaz, explica Calvino, consiste de um duplo chamado: externo, pela pregação da Palavra, e interno, pela iluminação do Espírito, que enraíza a palavra pregada.80 Em seu comentário de Miquéias, por exemplo, o reformador observa que "o governo peculiar de Deus existe no âmbito da igreja, onde pela Palavra e Espírito, ele dobra os corações dos homens à obediência, de modo que eles o seguem voluntária e livremente, sendo ensinados interna e externamente — internamente pela influência do Espírito, externamente pela pregação da Palavra."81 O fato de que o apóstolo Paulo chama a sua pregação em 2 Coríntios 3.8 de "ministério do Espírito," mostra a Calvino quão relacionados estão a pregação da Palavra e o Espírito.82 Para ele, "o Espírito exerce o seu ofício pela pregação do evangelho."83
A Confissão de Fé de Westminster afirma que é pelo ministério (da Palavra), tornado eficiente pela presença de Cristo e pelo seu Espírito, que os santos são congregados e aperfeiçoados nesta vida.84 O Catecismo Maior de Westminster reconhece que é o Espírito Santo quem torna a pregação da Palavra o meio especialmente eficaz para a salvação: "O Espírito de Deus torna a leitura, e espe­cialmente a pregação da Palavra, um meio eficaz para iluminar, convencer e humilhar os pecadores; para lhes tirar toda confiança em si mesmos e os atrair a Cristo; para os conformar à sua imagem e os sujeitar à sua vontade; para os fortalecer contra as tentações e corrupções; para os edificar na graça e estabelecer os seus corações em santidade e conforto mediante a fé para a salvação."85
C. A Responsabilidade do Pregador e dos Ouvintes para a Eficácia da Pregação
Como vimos, a fé reformada condiciona a eficácia da pregação primordialmente à obra do Espírito no pregador e nos ouvintes. Isso, entretanto, não ocorre em detrimento da responsabi­lidade humana de um e de outros. A eficácia da pregação depende também da fidelidade do pregador em não adulterar ou mercadejar a Palavra de Deus (2 Co 2.17 e 4.2) e do uso correto que fizer da Palavra, o qual, por sua vez, dependerá da sua fidelidade no preparo. Depende, ainda, da responsabilidade dos ouvintes em receberem com atenção, reverência, fé e obediência a palavra pregada (Rm 1.5; 15.26).
Os ministros da Palavra são descritos nas Escrituras como "presbíteros que se afadigam na Palavra e no ensino" (1 Tm 5.17), são exortados a manejarem bem a Palavra da verdade (2 Tm 2.15) e a não se tornarem negligentes na preparação para a tarefa (2 Tm 4.14). Da perseverança deles nestes deveres dependerá também a eficácia da pregação para a salvação dos ouvintes (v. 16).
Quanto aos ouvintes, são instados nas Escrituras a considerarem atentamente a Palavra e a não serem negligentes, mas operosos praticantes (Tg 1.25); a "acolherem com mansidão a palavra em vós implantada, a qual é poderosa para salvar as vossas almas" (Tg 1.21b); a tornarem-se "praticantes da Palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos" (Tg 1.22).
Reformadores e puritanos enfatizaram bastante a responsabilidade dos ouvintes para a eficácia da pregação. A teologia reformada da palavra pregada resultou em uma teologia reformada da palavra ouvida.86 Especialmente com relação à edificação dos crentes, esta responsabilidade inclui o devido preparo prévio para ouvir a pregação, a atitude correta ao ouvir a palavra pregada, e o uso apropriado posterior da mensagem ouvida. A preparação prévia requer oração, apetite e um espírito ensinável. Somente uma semana vivida pensando nas coisas do alto, onde Cristo vive, deixa o crente preparado para ouvir a pregação (Cl 3.1-2; 2 Co 4.18). A atitude ao ouvir exige reverência, atenção, humildade e fé (Hb 4.1-2), características daqueles que discernem a real natureza do culto e da pregação. O uso apropriado posterior inclui meditação, oração e prática da mensagem ouvida (Tg 1.21-25).87
Lutero escreveu que "incorre em grave pecado quem não ouve [a pregação do] evangelho e despreza semelhante tesouro..."88 Para Calvino, "a pregação é um ato corporativo da igreja toda." A congregação participa da pregação tão ativamente quanto participa da ceia.89 Por isso, ele insiste em que os ouvintes venham preparados para receber a mensagem.90 Ele enfatizou que a pregação da Palavra precisa ser ouvida "com grande reverência", "bastante atenção," e "sobriedade para o nosso proveito." Acima de tudo, disse ele, "precisamos orar continuamente para que o generoso e gracioso Senhor nos conceda seu Espírito, a fim de que por ele a semente da Palavra de Deus seja vivificada em nossos corações."91 Calvino menciona também a necessidade de humildade para receber a palavra pregada, mas observa que é o próprio Espírito Santo quem torna uma pessoa desejosa de ser ensinada pela Palavra.92 William Perkins, um dos pais do puritanismo inglês, escreveu que
...a responsabilidade daqueles que ouvem a pregação da Palavra de Deus, é submeterem-se a ela... O dever de vocês é ouvir a Palavra de Deus, pacientemente, submeter-se a ela, ser ensinados e instruídos, e mesmo ser perscrutados e repreendidos, e ter os seus pecados descobertos e as corrupções arrancadas.93
Whitefield pregou um sermão especificamente sobre o assunto, intitulado Instruções sobre Como Ouvir Sermões, baseado em Lucas 8.18, "Vede, pois, como ouvis."94 Eis suas instruções: 1) venha ouvir, não por curiosidade, mas motivado por um sincero desejo de conhecer e praticar seus deveres; 2) "não apenas prepare seu coração de antemão para ouvir, mas também atente diligentemente para as coisas que forem faladas da Palavra de Deus"; 3) não tenha prevenção contra o ministro a que Deus constituiu bispo (supervisor) e embaixador sobre você;95 4) aplique tudo o que ouvir ao seu próprio coração; 5) ore, antes, durante e depois do sermão, a fim de que Deus conceda poder ao pregador e habilite você a praticar a mensagem.
O Breve Catecismo de Westminster, na resposta à pergunta de número 90, "Como se deve ler e ouvir a Palavra a fim de que ela se torne eficaz para salvação?" resume assim a responsabilidade do ouvinte na pregação: "Para que a Palavra se torne eficaz para a salvação, devemos ouvi-la com diligência, preparação e oração, recebê-la com fé e amor, guardá-la em nossos corações e praticá-la em nossas vidas." Já o Catecismo Maior de Westminster, na resposta à pergunta de número 160, afirma:
Exige-se dos que ouvem a palavra pregada que atendam a ela com diligência, preparação e oração; que comparem com as Escrituras aquilo que ouvem; que recebam a verdade com fé, amor, mansidão e prontidão de espírito, como a palavra de Deus; que meditem nela e conversem a seu respeito uns com os outros; que a escondam nos seus corações e produzam os devidos frutos em suas vidas.
D. Conclusão
Estas considerações sobre a obra do Espírito e a responsabilidade humana para a eficácia da pregação não devem levar o leitor a pensar que a pregação da Palavra só se torna eficaz quando obtém resposta positiva dos ouvintes. A genuína pregação do evangelho nunca é vã. Os legítimos pregadores do evangelho são sempre conduzidos por Deus em triunfo, pois por meio deles se manifesta em todo lugar a fragrância do conhecimento de Deus. Eles são, diante de Deus, o bom perfume de Cristo, tanto nos que são salvos, como nos que se perdem. "Para com estes cheiro de morte para morte; para com aqueles aroma de vida para vida" (2 Co 2.14-16).96 Mesmo quando rejeitada, a eficácia da palavra pregada se manifesta tornando indesculpáveis os réprobos, os quais, afirma Calvino, são cegados e estupeficados ainda mais pela pregação da Palavra.97 Ou a pregação nos aproxima de Deus, ou nos coloca mais perto do inferno.98
IV. O propósito da pregação reformada
Em alguns círculos evangélicos em nossos dias, a pregação parece ter como propósito o entretenimento do auditório, a exacerbação das emoções, o bem-estar material e emocional dos ouvintes e a promoção do próprio pregador ou da sua denominação. Ricardo Gondim, pastor da Assembléia de Deus, reconhece que os púlpitos brasileiros "estão cada vez mais empobrecidos. Pastores animam seus auditórios com frases de efeito, contentam suas igrejas com mensagens superficiais..." Ele admite que necessitamos de uma nova Reforma no cristianismo, a qual deve começar pelo púlpito.99 Em outro artigo, o mesmo autor comenta que "há uma tendência de transformar a igreja em big business. Pior, big business do lazer espiritual." Ele continua: "Pastores e padres abandonaram sua vocação de portadores de boas novas. Assumiram novos papéis: animadores de auditório e levantadores de fundos. O púlpito transformou-se em mero palco. A igreja, simples platéia... Sermões podem ser facilmente confundidos com palestras de neurolingüística."100
O propósito da pregação reformada é completamente diferente. Ela tem objetivos claros e elevados com relação ao texto que está sendo pregado, com relação aos ouvintes e, especial­mente, com relação a Deus e ao seu reino neste mundo.
A. Com Relação ao Texto
Uma das qualidades mais marcantes da pregação reformada consiste na determinação de fazer do propósito do texto o propósito do sermão. Reformadores e puritanos compreenderam que cada passagem das Escrituras tem propósito(s) específico(s). Por isso, fizeram grande esforço para entender o texto, para discernir o seu propósito(s), para proclamar fielmente a mensagem bíblica e aplicá-la em consonância com o propósito divino. Lutero, por exemplo, afirma que "a principal tarefa do pregador é ensinar corretamente, procurar os pontos [doutrinas] principais e bases do seu texto, e instruir e ensinar de tal maneira os ouvintes que eles entendam corretamente [o texto]."101 Ele assim descreve o dever do pregador:
...ele deve saber ensinar e admoestar. Quando prega uma doutrina, deve, primeiramente, caracterizá-la. Em segundo lugar, deve defini-la, descrevê-la e explicá-la. Em terceiro lugar, deve apresentar passagens bíblicas que a comprovem e confirmem. Em quarto lugar, deve explicá-la e declará-la com exemplos. Em quinto lugar, deve adorná-la com comparações. E, finalmente, deve admoestar e despertar os preguiçosos, reprovar veementemente todos os desobedientes, todas as falsas doutrinas e seus autores...102
A pregação de Zuínglio é geralmente "direcionada ao propósito de libertar seus ouvintes do mundo de superstições e da falsa religião." E isto ele fez, na avaliação de Bullinger, "pela verdade divina e com ela, e não com frivolidades humanas."103 O labor exegético de Calvino a fim de compreender e transmitir o sentido real do texto bíblico em sua pregação é amplamente reconhecido. "Como pregador, Calvino tinha um ardente desejo, qual seja, de levar seus ouvintes a um entendimento preciso do que Deus está dizendo à congregação na passagem escolhida das Escrituras e o que aquilo significava para os diferentes tipos de pessoas que estavam ouvindo a pregação."104 Ele mesmo testifica que, quando assumia o púlpito, não era para expor ali seus sonhos e imaginações, mas para transmitir fielmente, sem nenhum acréscimo, o que havia recebido.105 Calvino descreve o propósito geral da pregação do seguinte modo:
Nisto consiste o poder supremo com o qual os pastores da igreja, seja qual for o nome pelo qual sejam chamados deveriam ser investidos: serem ousados na proclamação da Palavra de Deus, exortando toda virtude, glória, sabedoria e autoridade do mundo a se submeter e obedecer sua majestade; ordenar que todos, dos maiores aos menores confiem no seu poder [de Deus] para edificar a casa de Cristo e destruir a casa de Satanás; alimentar as ovelhas e expulsar os lobos; instruir e exortar os dóceis; acusar e subjugar os rebeldes e petulantes, ligar e desligar; em suma, queimar (to fire) e fulminar, mas tudo de acordo com a Palavra de Deus.106
O que Dargan escreveu com relação à pregação de Lutero, pode certamente ser generalizado como ilustrativo do propósito da pregação dos reformadores em geral: "O contexto é considerado, e o real sentido e intenção dos autores das Escrituras é buscado e respeitado."107
Packer menciona um comentário bastante elucidativo de um pregador puritano com relação à determinação reformado-puritana no sentido de discernir o propósito do texto e fazer dele o propósito da pregação:
Eu nunca preguei, a não ser que me sentisse convencido de haver descoberto a vontade de Deus com relação ao sentido da passagem. Meu propósito é extrair da Escritura o que ali está... Sou muito zeloso quanto a isso: nunca falar mais nem menos do que acredito ser a mente do Espírito na passagem que estou expondo.108
B. Com Relação aos Ouvintes
1. Alcançar e Converter o Coração
Reformadores e puritanos queriam, com a pregação, informar o intelecto, mover as afeições e motivar a vontade.109 Entretanto, o alvo estava além do intelecto, dos sentimentos e das emoções. Eles almejavam alcançar e converter o coração, o próprio centro da alma humana.110 E isto eles buscavam, não por meio de manipulação retórica da audiência, mas através da pregação fiel da Palavra de Deus.111
Em uma de suas obras, Lutero resume assim o propósito da pregação: "Estimular os pecadores a sentirem seus pecados e despertar neles o desejo pelo tesouro" do evangelho.112 Em outra obra, ele deplora o fato de que não poucos pregam a Cristo meramente com a intenção de comover os sentimentos humanos, ao invés de promover neles a fé em Cristo.113 Calvino escreveu que "o propósito pelo qual a Palavra de Deus é pregada é nos iluminar com o verdadeiro conhecimento de Deus, fazer com que nos voltemos para Deus, e nos reconciliar com ele."114
Para os pregadores puritanos, o sucesso da pregação não deve ser avaliado apenas pelo que acontece na igreja, mas pelo seu efeito nas vidas dos ouvintes que estão fora da mesma.115 O Catecismo Maio­r de Westminster exorta os ministros da Palavra a pregarem "...com sinceridade..., procurando converter, edificar e salvar as almas."116 A salvação da alma é o grande propósito da pregação reformada com relação àqueles que se encontram em estado de pecado.117
2. Mediar Encontros com Deus
Como o coração é alcançado e convertido? Quando pecadores têm um encontro verdadeiro com Deus mediado pela pregação do evangelho. Packer resume o propósito da pregação reformada como "mediar encontros com Deus." Para ele, a pregação de Lutero, Latimer, Knox, Baxter, Bunyan, Whitefield, Edwards, McCheyne, Spurgeon, Ryle, Lloyd-Jones, entre outros, não tencionava apenas informar os ouvintes, mas fazer com que a "pregação se tornasse o meio de encontro de Deus com seus ouvintes," pela exposição e aplicação das verdades das Escrituras.118 Para Lloyd-Jones, "o propósito primeiro e primordial da pregação não é somente fornecer informação mas produzir uma impressão...";119 é colocar os homens diante de Deus, propiciando um encontro verdadeiro com ele.120 Em suas próprias palavras, o propósito da pregação "é dar a homens e mulheres a sensação de Deus e da sua presença."121 Ao fazer essas afirmativas, Lloyd-Jones segue de perto a tradição puritana.122
3. Restaurar a Imagem de Deus no Homem
A conversão, entretanto, é apenas o começo. Na concepção reformada, o evangelho deve ser pregado com o objetivo de restaurar nos ouvintes a imagem de Deus corrompida na queda.
Calvino relaciona a restauração da imagem de Deus no ser humano com o ministério da Palavra. Para ele, a restauração da imago Dei no coração humano é obra do Espírito Santo de Deus por meio da pregação da Palavra.123 Ele interpreta o pedido de Paulo em 2 Tessalonicenses 3:1 no seguinte sentido: "Que sua pregação possa manifestar seu poder e eficácia para renovar o homem de conformidade com a imagem e semelhança de Deus."124 A "reforma" e "edificação" da vida dos ouvintes, segundo Calvino, é o propósito geral da pregação com relação à igreja.125
Os puritanos relacionavam igualmente o propósito da pregação com a restauração da imagem de Deus no homem. Peter Lewis, um estudioso do movimento puritano escreveu que para eles, "o fim principal da pregação... era a glorificação de Deus na restauração da sua imagem nas almas e vidas dos homens."126
Dennis Johnson, um autor reformado contemporâneo, assevera na mesma linha que a pregação não se exaure na evangelização e no ensino. Seu telos é a maturidade espiritual dos ouvintes. Ele afirma, com base em Romanos 8.29, Colossenses 3.10-11 e Efésios 4.24, que "o alvo da pregação não é plenamente alcançado senão quando um rebelde se torna filho de Deus. A pregação cristã, o evangelho apostólico, tem como seu propósito nada menos do que a conformidade completa de cada filho de Deus à perfeita imagem do Filho: Cristo."127
C. Com Relação a Deus
A restauração da imago Dei na alma e na vida do homem, não é, contudo, o propósito principal da pregação reformada. O propósito maior da pregação reformada consiste em promover o reino e a glória de Deus e destruir o reino de Satanás. Reformadores e puritanos anelavam com a pregação da Palavra, por um lado, avançar com a obra de Deus no mundo, libertando pecadores da escravidão de Satanás, e edificar os santos, instruindo-os a viver para a glória de Deus; e, por outro lado, desmascarar e lançar por terra a obra do diabo. Na proclamação do evangelho a glória de Deus resplandece na face de Cristo (2 Co 4.6), assim como a glória de Deus é proclamada na obra da criação (Sl 19).
Parker afirma que, para Calvino, "o propósito do pregador é direcionado antes de mais nada para Deus. Ele prega a fim de que Deus seja glorificado."128 Comentando 2 Corintios 2.15 ("somos para com Deus o bom perfume de Cristo"), Calvino afirma que "temos aqui uma passagem notável, porque nela somos ensinados que seja qual for o resultado da nossa pregação, ainda assim ela é agradável a Deus..., porque Deus é glorificado mesmo quando o evangelho resulta na ruína dos ímpios."129 Calvino afirma que os crentes da antiga dispensação "foram exortados a buscarem a face de Deus no santuário... (Sl 27.8; 100.2; 105.4) por nenhuma outra razão, senão porque o ensino da lei e as exortações dos profetas eram uma imagem viva de Deus, assim como Paulo afirma que na sua pregação a glória de Deus resplandece na face de Cristo (2 Co 4.6)."130
Benoît, um autor reformado francês, observa que "fazer da salvação o fim da religião significa, segundo Calvino, colocar o homem no centro e fazer de Deus um simples meio com vistas a um fim pessoal." Ele continua, afirmando que, para Calvino, "a salvação individual não é o propósito final da pregação do evangelho. Ela tem um propósito muito mais elevado: a manifestação da glória de Deus..."131 Para o Sínodo de Dort, também, nota Peter Jong, o propósito último da pregação "é a glória de Deus na salvação de pecadores."132
Na tradição puritana, o Catecismo Maio­r de Westminster exorta os ministros da Palavra a pregarem... "tendo por alvo a glória de Deus." 133 Joseph Pipa, estudioso da pregação puritana, afirma que "o grande propósito do sermão puritano era transformar a vida das pessoas e equipá-las para viver para a glória de Deus."134
Embora anelasse profundamente a conversão de almas para Cristo, Spurgeon não considerava esse o fim maior da pregação. Ele enfatiza insistentemente que a glória de Deus, sim, é o principal propósito da pregação. Ele escreveu que "nada deveria ser o alvo do pregador a não ser a glória de Deus através da pregação do evangelho da salvação."135 "Vocês e eu," disse ele em um de seus sermões, "somos constrangidos a pregar o evangelho, mesmo que nenhuma alma jamais seja convertida por ele; pois o grande propósito do evangelho é a glória de Deus, visto que Deus é glorificado mesmo naqueles que rejeitam o evangelho."136 "Preguem o evangelho tendo em vista unicamente a glória de Deus," adverte Spurgeon, "ou então, segurem suas línguas."137
V. conclusão
Em muitos círculos evangélicos contemporâneos e até mesmo entre reformados, o surgimento de novos meios de comunicação, a aversão do homem moderno por verdades objetivas, a secularização da sociedade, o afastamento do cristianismo das Escrituras, e especialmente a concepção moderna da pregação como uma atividade meramente humana, têm resultado em evidente declínio da pregação. Outras atividades têm tomado o seu lugar no culto, e a pregação têm sido relegada a um plano secundário no culto e na vida da igreja.
Na concepção reformada, entretanto, a pregação pública da Palavra de Deus é considerada não como palavra de homem, mas como vox Dei. Na proclamação solene da Palavra de Deus por arautos comissionados pelo próprio Deus, Cristo se faz presente, fala e governa a igreja. A fé reformada tem uma concepção quase que sacramental da pregação. Ela professa a real presença espiritual de Cristo na pregação, assim como na Ceia.
Em virtude dessa elevada concepção quanto à sua natureza, a teologia reformada atribui grande importância à pregação. Na teologia reformada, a pregação é imprescindível. É o principal meio de graça, a tarefa primordial da igreja e do ministro, o principal elemento de culto na dispensação da graça; constitui-se em marca essencial da verdadeira igreja, e meio pelo qual o reino de Deus é aberto ou fechado aos pecadores. Isto não significa que a fé reformada atribua eficácia automática à pregação. A eficácia da pregação também não está, primordialmente, nas habilidades pessoais do pregador ou dos ouvintes. Está, sim, na operação do Espírito Santo, tanto na preparação e entrega da mensagem, como na sua recepção. Os pregadores devem laborar na interpretação da Palavra, e transmiti-la fielmente. Os ouvintes, devem receber com atenção, reverência, fé e obediência a palavra pregada. Contudo, somente o Espírito Santo pode conferir eficácia à pregação, assistindo e capacitando o pregador, e iluminando e convencendo os ouvintes do pecado e da graça de Deus em Cristo. Não obstante, independentemente da resposta dos ouvintes, a genuína pregação do evangelho nunca é vã. O reino de Deus é promovido também na condenação dos réprobos.O propósito da pregação reformada consiste na fidelidade ao sentido, significado e propósito do texto; na conversão e restauração da imagem de Deus nos ouvintes; e na promoção do reino e da glória de Deus no mundo. Que a vox Dei seja ouvida em nossos púlpitos, para a conversão dos perdidos, para a restauração da imago Dei na alma e na vida dos ouvintes, com vistas à promoção do reino e da glória de Deus no mundo.
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* O autor é ministro presbiteriano, professor de Grego e Hermenêutica no Seminário Teológico Batista Equatorial e presidente da Associação Reformada Palavra da Verdade, na cidade de Belém. É mestre em Teologia pela Potchefstroom University for Christian Higher Education (África do Sul) e doutorando em Ministério no Westminster Theological Seminary, na Califórnia.
Obs.: Este artigo é parte de um dos capítulos da dissertação de Doutorado em Ministério que está sendo elaborada pelo autor com o tema: "Hermenêutica e Pregação: Manual de Hermenêutica Reformada para Pregadores."
1 D. Martyn Lloyd-Jones, Preaching and Preachers (Londres: Hodder and Stoughton, 1985 [1971]), 26.
2 John J. Timmerman, Through a Glass Lightly (Grand Rapids: Eerdmans, 1987). Citado em David J. Engelsma, "Preaching in Worship: Voice of God, Voice of Christ (1)," The Standard Bearer 74/8 (1998). Internet: http://www.prca.org/standard_bearer/1998jan15.html#PreachingInWorship; acessado em 05/09/98. Ver também Paul Helm, "Preaching and Grace," The Banner of Truth 117 (s/d), 8.
3 John M. Frame, Worship in Spirit and Truth: A Refreshing Study of the Principles and Practice of Biblical Worship (Presbyterian & Reformed, 1996), 91-94, 114. Ver a resenha dessa obra por T. J. Ralston, em Bibliotheca Sacra 155 (Jan-Mar 1998), 124-5.
4 Engelsma, "Preaching in Worship: Voice of God, Voice of Christ (1)."
5 No livro Pregação e Pregadores, Lloyd-Jones menciona algumas razões bem particulares para a presente depreciação da pregação, que também merecem ser consideradas, dentre as quais: os "pulpiteiros," os profissionais do púlpito do século passado e do início deste século, os quais davam valor exagerado à forma e ao estilo elaborado do sermão; a ênfase moderna em aconselhamento pessoal (hoje degenerado em clínicas pastorais de aconselhamento psicológico); e o ritualismo, que enfatiza formas elaboradas de culto, atribuindo-lhes certa conotação religiosa (ver Lloyd-Jones, Preaching and Preachers, 16-18 e 36-40).
6 Para um estudo da perspectiva reformada sobre a relação entre a palavra escrita, pregada e representada, ver o segundo capítulo de Pierre Ch. Marcel, El Bautismo: Sacramento del Pacto de Gracia (Rijswijk: Fundación Editorial de Literatura Reformada, 1968), 33-61.
7 T. H. L. Parker, Calvin’s Preaching (Edinburgh: T&T Clark, 1992), 23.
8 Ver Robert L. Dabney, Sacred Rhetoric: A Course of Lectures on Preaching (Edimburgo e Pensilvânia: Banner of Truth, 1979 [1870]), 36.
9 Parker, Calvin’s Preaching, 23.
10 Ver também Pierre Ch. Marcel, The Relevance of Preaching, trad. Rob Roy McGregor (Grand Rapids: Baker, 1977), 21-22, 30-31, 61-62; J. J. Van der Walt, "Prediking wat God van die Woord laat kom," em God aan die Woord, ed. Van der Walt (Potchefstroom: Departement Diakoniologie, Potchefstroom University for Christian Higher Education, 1985), 11; e David J. Engelsma, "Preaching in Worship: Voice of God, Voice of Christ (2)," The Standard Bearer 74/9 (1998).
11 Dabney, Sacred Rhetoric, 37-8.
12 Phillips Brooks, Eight Lectures on Preaching, reimp. da 5ª edição (Londres: SPCK, 1959), 5.
13 Ver John Calvin, Commentary on the Acts of the Apostles, trad. Christopher Fetherstone, ed. Henry Beveridge (Albany, Oregon: Ages, 1998), 25-26 e 238.
14 Como coloca Richard Stuaffer, em "Les Discours a la premiere personne dans les sermons de Calvin," em Regards Contemporains sur Jean Calvin (citado por Leith, "Calvin’s Doctrine of the Proclamation of the Word," 31).
15 Ver, por exemplo, Institutas 1.11.7, onde, combatendo o emprego de símbolos visíveis para representar a presença de Cristo no culto, Calvino afirma que é "...pela verdadeira pregação do Evangelho," e não por cruzes, que "Cristo é retratado como crucificado diante de nós." Ver também John Calvin, Commentary on the Prophet Isaiah, vol. 2, trad. William Pringle (Albany, Oregon: Ages, 1998), 331; e John Calvin, Commentary On the Prophet Jeremiah, vol. 2, trad. e ed. John Owen (Albany, Oregon: Ages, 1998), 403.
16 Ver Leith, "Calvin’s Doctrine of the Proclamation of the Word," 31. Leith cita as Institutas 4.1.6 e 4.14.9-19, para corroborar sua afirmativa. Verificar também a citação de T. H. L. Parker, comparando o sermão com a eucaristia (Peter Lewis, "Preaching from Calvin to Bunyan," Puritan/Westminster Conference [1985], 36).
17 Martin Luther, Luther’s Works, ed. Jaroslav Pelikan, trad. Martin H. Bertram, vol. 22, Sermons on the Gospel of St. John Chapters 1-4, American Edition (St. Louis: Concordia Publishing House, 1957), 528 (citado por Carl C. Fickenscher II, "The Contribution of the Reformation to Preaching," Concordia Theological Quarterly 58/4 [1994], 263).
18 Martinho Lutero, "Do Cativeiro Babilônico da Igreja: Um Prelúdio de Martinho Lutero," em Martinho Lutero: Obras Selecionadas, vol. 2, O Programa da Reforma: Escritos de 1520 (São Leopoldo e Porto Alegre: Sinodal/Concórdia, 1989), 399.
19 Calvin, Commentary on the Acts of the Apostles, 291.
20 John Calvin, Commentary On the Prophet Isaiah, vol. 2, 434 (ver pp. 50, 112, 341). Ver também Calvin, Commentary on the Acts of the Apostles, 291; John Calvin, Commentary on the Prophet Haggai (Albany, Oregon: Ages, 1998), 24; e John Calvin, Commentary on Matthew, Mark and Luke, vol. 1, trad. William Pringle (Albany, Oregon: Ages, 1997), 43.
21 John Calvin, Commentary on the Epistle to Galatians (Albany, Oregon: Ages, 1998), 116. Ver também Institutas 4.1.5; e John Calvin, Commentary On the Epistle to the Ephesians (Albany, Oregon: Ages, 1998), 47.
22 Institutas 4.1.5. Ver também Calvin, Commentary on the Prophet Haggai, 1.12, 25.
23 Calvin, Commentary on the Acts of the Apostles, 340.
24 Institutas 4.1.5. Ver John Calvin, Harmony of the Law, vol. 1., trad. Charles William Bingham (Albany, Oregon: Ages, 1998 ), 252.
25 James I. Packer, A Quest for Godliness: The Puritan Vision of the Christian Life (Wheaton, Illinois: Crossway Books, 1990), 284.
26 Ver Martin Lloyd-Jones, "A Pregação," em Os Puritanos: Suas Origens e Seus Sucessores, trad. Odayr Olivetti (São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1991), 385.
27 Leland Ryken, Santos no Mundo: Os Puritanos como Realmente Eram (São José dos Campos, São Paulo: Editora Fiel, 1992), 135.
28 John Owen, The Doctrine of Justification by Faith (Albany, Oregon: Ages, 1997), 78.
29 Helm, "Preaching and Grace," 10.
30 Ibid., 12. Ver também George Whitefield, "Sermon 38 — The Indwelling of the Spirit: The Common Privilege of All Believers," em George Whitefield 59 Sermons (Albany, Oregon: Ages, 1997), 569.
31 Catecismo Maior de Westminster, resposta 35. Ver também Confissão de Fé de Westminster, 7:6.
32 James I. Packer, "Mouthpiece for God: Preaching and the Bible," em Truth & Power: The Place of Scripture in the Christian Life (Wheaton, Illinois: Harold Shaw Publishers, 1996), 158.
33 Ver Martinho Lutero, "Um Sermão a respeito do Novo Testamento, isto é, a respeito da Santa Missa," em Martinho Lutero: Obras Selecionadas, vol. 2, O Programa da Reforma: Escritos de 1520 (São Leopoldo e Porto Alegre: Sinodal/Concórdia, 1989), 271.
34 Ver Institutas 4.14.14 e 4.17.39; Marcel, El Bautismo, 55-58; e "The Directory for the Publick Worship of God," 379.
35 Institutas 4.16.28.
36 Ibid., 4.14.5.
37 Calvin, Commentary on the Acts of the Apostles, 363.
38 Lloyd-Jones, "A Pregação," 385. Whitefield também menciona a pregação como meio de graça (ver George Whitefield, "Sermon 32: A Penitent Heart: The Best New Year’s Gift," em George Whitefield 59 Sermons (Albany, Oregon: Ages, 1997), 445.
39 Charles Hodge, An Exposition of Ephesians (Albany, Oregon: Ages, 1997), 167-68.
40 Confissão de Fé de Westminster, 10:3.
41 Ver Confissão de Fé de Westminster, 14:1 e 25:3, e "The Form of Presbyterial Church Government," em Westminster Confession of Faith (Glasgow: Free Presbyterian Publication, 1994), section 1.
42 "The Form of Presbyterial Church Government," section 3.
43 Packer, A Quest for Godliness, 281.
44 Especialmente a pregadores itinerantes, como os dominicanos e franciscanos.
45 Martinho Lutero, "Das Boas Obras," em Martinho Lutero: Obras Selecionadas, vol. 2, O Programa da Reforma: Escritos de 1520 (São Leopoldo e Porto Alegre: Sinodal/Concórdia, 1989), 97.
46 Martinho Lutero, "Tratado de Martinho Lutero sobre a Liberdade Cristã," em Martinho Lutero: Obras Selecionadas, vol. 2, O Programa da Reforma: Escritos de 1520 (São Leopoldo e Porto Alegre: Sinodal/Concórdia, 1989), 438.
47 Lutero, "Do Cativeiro Babilônico da Igreja," 415-16.
48 Institutas 4.5.13.
49 Calvin, Commentary on the Acts of the Apostles, 52.
50 Seção 3. Ver também "The Directory for the Publick Worship of God," 379.
51 Citado em Lloyd-Jones, "A Pregação," 382.
52 Packer, A Quest for Godliness, 282.
53 Ver Sereno E. Dwight, "Memoirs of Jonathan Edwards," em The Works of Jonathan Edwards, vol. 1 (Albany, Oregon: Ages, 1997), 86.
54 Dwight, "Memoirs of Jonathan Edwards," 293.
55 Confissão de Fé de Westminster, 21:5.
56 Ver Fickenscher, "The Contribution of the Reformation to Preaching," 263-64.
57 J. H. Merle d’Aubigné, History of the Reformation in the Time of Calvin (Albany, Oregon: Ages, 1998), vol. 7, 82.
58 James Montgomery Boice, prefácio a Sermons on Psalm 119, by John Calvin (Albany, Oregon: Ages, 1998), 7.
59 Clyde E. Fant, Jr. e William M. Pinson, Jr., 20 Centuries of Great Preaching: An Encyclopedia of Preaching (Waco, Texas: Word Books, 1971), vol. 2, 9.
60 Timothy George, Teologia dos Reformadores, trad. Gérson Dudus e Valéria Fontana (São Paulo: Vida Nova, 1994), 91-92
61 R. T. Kendall, "Puritans in the Pulpit and ‘Such as run to hear Preaching,’" Westminster/Puritan Conference (1990), 87.
62 Lloyd-Jones, "A Pregação," 138-139.
63 Kendall, "Puritans in the Pulpit," 87.
64 Martinho Lutero, "A Respeito do Papado em Roma contra o Celebérrimo Romanista de Leipzig," em Martinho Lutero: Obras Selecionadas, vol. 2, O Programa da Reforma: Escritos de 1520 (São Leopoldo e Porto Alegre: Sinodal/Concórdia, 1989), 199
65 Institutas 4.1.11.
66 Ibid., 4.1.10. Ver também John Calvin, "Prefatory Address," em Institutes of the Christian Religion (Albany, Oregon: Ages, 1996), 27.
67 Louis Berkhof, Teologia Sistematica, 3ª ed. espanhola (revisada), trad. Felipe Delgado Cortés (Grand Rapids: T.E.L.L., 1976), 689.
68 Herman Hoeksma, Reformed Dogmatics (Grand Rapids: Reformed Free Publishing Association, 1985), 620. O autor explica a razão dessa primazia na página seguinte.
69 Peter Y. De Jong, "Preaching and the Synod of Dort," The Banner of Truth 63 (s/d), 30.
70 Ver Dabney, Sacred Rhetoric, 36.
71 John Calvin, Commentary on Matthew, Mark, Luke, vol. 3 (Albany, Oregon: Ages, 1997), 296.
72 Thomas Smith, Calvin and His Enemies (Albany, Oregon: Ages, 1998), 47.
73 Ver Institutas 2.2.20.
74 De Jong, "Preaching and the Synod of Dort," 30.
75 Ibid., 27-28.
76 Ver, por exemplo, Parker, Calvin’s Preaching, 29, e Leith, "Calvin’s Doctrine of the Proclamation of the Word," 31-32.
77 John Calvin, Commentary On the Epistle to the Ephesians, 17.
78 John Calvin, Commentary On the Prophet Isaiah, vol. 2, 516. Ver John Calvin, Sermons on Psalm 119, 249.
79 John Calvin, Commentary on the Acts of the Apostles, 777.
80 William Wileman, John Calvin: His Life, Teaching and Influence (Albany, Oregon: Ages, 1998), 47. Ver John Calvin, Commentary on the Prophet Hosea (Albany, Oregon: Ages, 1998), 103; e John Calvin, Commentary on the Epistle of James (Albany, Oregon: Ages, 1998), 21.
81 John Calvin, Commentary on the Prophet Micah, trad. John Owen (Albany, Oregon: Ages, 1998), 97. Ver também John Calvin, Commentary on First Epistle to the Thessalonians (Albany, Oregon: Ages, 1998), 7-8.
82 Institutas 1.9.3.
83 John Calvin, The Commentaries on the Epistle of Paul the Apostle to the Hebrews, trad. John Owen (Albany, Oregon: Ages, 1996), 88.
84 Confissão de Fé de Westminster, 25:3.
85 Catecismo Maior, 155. Ver a pergunta e a resposta 89 do Breve Catecismo: "Como a Palavra se torna eficaz para a salvação? Resposta: O Espírito de Deus torna a leitura, especialmente a pregação da Palavra, meios eficazes para convencer e converter os pecadores, para os edificar em santidade e conforto, por meio da fé para a salvação."
86 Peter H. Lewis, The Genius of Puritanism (Morgan, Pensilvânia: Soli Deo Gloria Publications, 1996), 53.
87 Para este uso triplo (anterior, no momento e posterior) da palavra pregada, ver resumo de Joel Beek, do ensino de Thomas Watson no livro Heaven Taken by Storm (Joel R. Beek "Hearing the Word in a Puritan Way," Banner of Sovereign Grace 4/5 [1996], 120-21). Ver também Peter Lewis, "The Puritans in the Pew," em The Genius of Puritanism, 53-62.
88 Lutero, "Das Boas Obras," 128.
89 Parker, Calvin’s Preaching, 48.
90 Ibid., 49.
91 Ibid., 18.
92 Ibid., 51.
93 William Perkins, "The Calling of the Ministry," em The Art of Prophesying: With The Calling of the Ministry (Edimburgo e Carlisle, Pensilvânia: Banner of Truth, 1996), 118-119.
94 George Whitefield, "Sermon 28: Directions How to Hear Sermons," em George Whitefield 59 Sermons (Albany, Oregon: Ages, 1997), 385-393.
95 O ponto também é objeto da exortação de William Perkins: "Você não deve ficar com raiva e se rebelar, nem deve odiar o ministro, nem recorrer à crítica pessoal contra ele. Ao invés disso, submeta-se ao Evangelho, porque é a mensagem e ministério para a sua salvação (The Art of Prophesying, 119).
96 Ver John Calvin, Commentary on Matthew, Mark, Luke, vol. 4, 226.
97 Institutas 3.24.12.
98 John Preston, citado em Ryken, Santos no Mundo, 103.
99 Ricardo Gondim, "Como a Pena de um Destro Escritor," Ultimato 253 (1998), 50-51.
100 Ibid., "A Cultura Pop Chegou para Ficar?," Ultimato 257 (1999), 44-45.
101 Martin Luther, Table Talk (Albany, Oregon: Ages, 1997), 248.
102 Ibid., 202.
103 Ver Fant, Jr. e Pinson, Jr., 20 Centuries of Great Preaching, vol. 2, 87.
104 Allan Harman, "The Reformed Confessions and Our Preaching," The Banner of Truth 115, 24.
105 Fant, Jr. e Pinson, Jr., 20 Centuries of Great Preaching, vol. 2, 144.
106 Institutas 4.8.9.
107 Edwin Charles Dargan, A History of Preaching, vol. 1, From the Apostolic Fathers to the Great Reformers, A.D. 70-1572 (Grand Rapids: Michigan, 1974), 390.
108 Packer, A Quest for Godliness, 284.
109 Ver Iain Murray, "Some Thoughts on our Preaching," The Banner of Truth 140 (1975), 21; e Pipa, William Perkins on Preaching, part 2.
110 Lewis, "Preaching from Calvin to Bunyan," 49. Ver também Sinclair B. Ferguson, prefácio de Perkins, The Art of Prophesying, x.
111 Ryken, Santos no Mundo, 115.
112 Lutero, "Das Boas Obras," 128.
113 Martinho Lutero, "Tratado de Martinho Lutero sobre a Liberdade Cristã," em Martinho Lutero: Obras Selecionadas, vol. 2, O Programa da Reforma: Escritos de 1520 (São Leopoldo e Porto Alegre: Sinodal/Concórdia, 1989), 446.
114 John Calvin, Commentary on the Gospel According to John, trad. William Pringle (Albany, Oregon: Ages, 1968), 445.
115 Ryken, Santos no Mundo, 115-16.
116 Catecismo Maior de Westminster, resposta 159.
117 Ver John Cobin, "Spurgeon’s View of Preaching," The Banner of Truth 310 (1989), 23.
118 Packer, "Mouthpiece for God," 158-59.
119 Jung, "An Evaluation of the Principles and Methods of the Preaching of D. M. Lloyd-
Jones," 36.
120 Ibid.
121 Citado em Murray, "Dr. Lloyd-Jones on ‘Preaching and Preachers’," 18.
122 Ver também Lewis, "Preaching from Calvin to Bunyan," 45.
123 Ver John Calvin, Commentary On the Epistle to Philemon (Albany, Oregon: Ages, 1998), 8; Calvin, Commentary on the Epistle of James, 21; and Calvin, Sermons on the Deity of Christ, 208-209.
124 John Calvin, Commentary on the Second Epistle to the Thessalonians (Albany, Oregon: Ages, 1998), 37-8.
125 Parker, Calvin’s Preaching, 46-7.
126 Lewis, Genius of Puritanism, 48.
127 Dennis E. Johnson, "What’s a Young Preacher to Do? Toward Reconciling Rival Approaches to Reformed Preaching" (Apostila para cursos de homilética no Westminster Theological Seminary, na Califórnia), 24.
128 Parker, Calvin’s Preaching, 46.
129 John Calvin, Commentary on the Second Epistle to the Corinthians (Albany, Oregon: Ages, 1998), 61.
130 Institutas, 4.1.5.
131 Jean-Mare Berthoud, "La Formation des Pasteurs et la Prédication de Calvin," La Revue Réformée 201 (1998); Internet; http://www.asi.fr/cle/rr/98/bert.htm.
132 Jong, "Preaching and the Synod of Dort," 34.
133 Catecismo Maior de Westminster, resposta 159.
134 Joseph Pipa, "Sermão Puritano: Um Novo Modelo de Exposição," texto não publicado, 4.
135 Charles Spurgeon, "The Ministry Needed by the Churches and Measures for Providing it," The Sword and the Trowel 3 (1871), 58.
136 Charles Spurgeon, "Cheer For the Worker, and Hope For London," em Metropolitan Tabernacle Pulpit, vol. 26 (Albany, Oregon: Age, 1997), 796.
137 Charles Spurgeon, "The Rat-Catcher’s Idea," The Sword and the Trowel, vol. 7 (1983-84), 524.
ENGLISH ABSTRACT
This article is a historical research on some aspects of the Reformed theology of preaching. After calling attention to the decline of contemporary preaching and suggesting some reasons behind it, the author attempts to demonstrate that, as far as its nature is concerned, the preaching of the Word of God is vox Dei. Through the solemn proclamation of God’s Word by ministers commissioned by God himself, Christ is spiritually present (as he is in the sacraments), he speaks and governs his church. Due to its higher view concerning its nature, Reformed theology ascribes great importance to preaching. It is the main means of grace, the primary task of the church and of the minister, the central element of worship in this dispensation of grace, the essential mark of the church, and the instrument by which God’s kingdom is opened or closed to sinners. Concerning its efficacy, it does not depend so much on the personal abilities of the preacher or of the hearers, as it depends on the action of the Holy Spirit in the preparation, delivery and hearing of the message. Preachers must work hard to interpret the Word and deliver it faithfully. The hearers should receive the preached word with attention, reverence, faith and obedience. But the Holy Spirit alone can make it efficacious, assisting and enabling the preacher and illuminating and convincing the hearers. Nevertheless, genuine preaching is never in vain, for the kingdom of God is also promoted in the condemnation of the reprobates. The purpose of Reformed preaching consists in being faithful to the sense, significance and purpose of the biblical text; in the conversion of sinners and restoration of God’s image in the hearers; and in the promotion of the kingdom and glory of God in the world.