quinta-feira, 2 de outubro de 2008

UM SÓ PONTO A MENOS


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Silas Roberto Nogueira

O calvinismo pode ser apresentado de maneira abreviada em cinco pontos, no acróstico mnemônico:
T = Total Depravaty - Depravação Total
U = Unconditional Election – Eleição Incondicional
L = Limited Atonoment – Expiação Limitada
I = Irresistible Grace - Graça Irresistível
P = Perseverance of Saints – Perseverança dos Santos
No entanto, entre aqueles que se confessam calvinistas há os que negam um dos pontos, precisamente o terceiro, o “L”, a “Expiação Limitada”. Historicamente os calvinistas dos quatro pontos estão defendendo o que se convencionou chamar “amyraldismo”. Amyraldismo é o sistema criado pelo teólogo francês Moise Amyraut, ou Moisés Amyraldus, (1596-1664) que também recebe a nomenclatura de Universalismo Hipotético ou Pós-redencionismo.

Amyraut formou-se primeiro em Direito em Orleans, como queria seu pai, que também era advogado, e depois em Teologia em Saumur, onde mais tarde tornou-se professor, 1633. A Academia de Saumur foi criada em 1598 pelo sínodo nacional da Igreja Reformada Francesa e tornou-se a propagandista do ensino de Amyraut. Ele era um profundo estudioso de Calvino, do qual se achava um intérprete na tentativa de suavizar o calvinismo. Ele procurava uma posição intermediária entre o calvinismo e o arminianismo. Para isso ele introduziu uma modificação quanto a ordem lógica – não cronológica- dos decretos de Deus. O quadro abaixo demonstra a alteração proposta por Amyraut em comparação com duas posições calvinistas e o arminianismo:
Supra
lapsarianismo
Infra
lapsarianismo
Amyraldismo
Arminianismo
1. Eleger alguns, reprovar o restante.
1. Criar.
1. Criar.
1. Criar.
2. Criar.
2. Permitir a Queda.
2. Permitir a Queda.
2. Permitir a Queda.
3. Permitir
a Queda.
3. Eleger alguns, ignorar o restante.
3. Providenciar salvação suficiente para todos.
3. Providenciar salvação para todos.
4. Providenciar salvação para os eleitos.
4. Providenciar salvação para os eleitos.
4. Eleger alguns, ignorar o restante.
4. Chamado de todos à salvação.
5. Chamado do eleito à salvação.
5. Chamado do eleito à salvação.
5. Chamado do eleito à salvação.
5. Eleger aqueles que crêem.

Berkhof demonstra que Amyraut fez uma dupla distinção no decreto de Deus, distinguindo “entre um decreto universal e condicional, por um lado, e outro limitado e incondicional, por outro lado”. No primeiro, Deus decretou que proveria a salvação universal, pela mediação de Jesus Cristo, que seria oferecida a todos sob a condição de fé; e no último, Deus, vendo que por si mesmo nenhum homem jamais creria, escolheu alguns para a vida eterna e resolveu dar-lhes a necessária graça da fé e do arrependimento.” (História das Doutrinas Cristãs, pág. 138)

O que Amyraut esperava com esse esquema era que ele removeria as dificuldades concernentes ao alcance do sacrifício de Cristo, e também conciliaria as passagens bíblicas, que declaram a compaixão universal de Deus pelos pecadores, com a reprovação dos não eleitos. Por isso quando um amyraldista ou calvinista dos quatro pontos fala sobre a expiação costuma dizer o seguinte: "o sacrifício de Cristo é suficiente para todos, mas eficiente apenas para os eleitos". Esse jargão originou-se de um jogo de palavras no latimsufficienter pro omnibus, sed efficienter tantum por electis”, que segundo o Dr. Charles Hodge foi usada por alguns agostinianos, os quais ele não nomeou. O fato é que os teólogos de Dort (Cânone de Dort, cap. 2, artigos 3 e 6) usaram terminologia parecida, mas certamente o sentido era diferente daquele que os amyraldistas lhe atribuem. O Dr. Charles Hodge deixou claro que o sistema amyraldista falha visto que “é passível das objeções que penetram” tanto o calvinismo quanto o arminianismo. Visto que, diz ele, “não remove as dificuldades peculiares do agostinianismo, quando assevera a soberania de Deus na eleição. Além disso, deixa o caso dos pagãos fora de propósito. Eles, não tendo conhecimento de Cristo, não podiam valer-se desse decretum hypotheticum, e por isso seriam considerados como que omitidos por um decretum absolutum. (Teol. Sist., pág. 724)

O problema com a posição de Amyraut é que ela, quando comparada com as posições reformada e arminiana “está de acordo com a reformada, e difere da arminiana porque sustenta que a eleição depende unicamente da boa vontade soberana de Deus; difere, porém, da teoria reformada e concorda com a arminiana em sustentar que o decreto da redenção precede ao da eleição” (A. A. Hodge, em Esboços, pág. 313). Por isso teólogo presbiteriano Louis Berkhof chamou o arranjo amyraldista de dúbio e insatisfatório (Teol. Sist., pág. 395) e alguns o rotularam de “semi-calvinismo” ou “calvinismo inconsistente”, nas palavras de B. B. Warfield.

Contudo, não seria interessante que o próprio João Calvino fosse arrolado entre os “calvinistas inconsistentes”? Como já disse, Amyraut se julgava um intérprete dos ensinos de João Calvino no seu Universalismo Hipotético. O Dr. Strong , seguindo Amyraut, chegou a dizer que Calvino adotou a expiação geral ou ilimitada como fruto de uma “reflexão mais amadurecida”. (Teol. Sist., pág. 470). E Roger Olson declarou que é “discutível” se o próprio Calvino concordaria com todos os cinco pontos do calvinismo de Dort. (Hist. da Teol. Cristã, pág. 471 ) Assim, na opinião desses homens, Calvino era menos calvinista que seus discípulos. Entretanto é valido lembrar que Calvino não formulou a doutrina da expiação limitada de maneira tão clara e objetiva quanto alguns gostariam pelo simples fato de que a controvérsia sobre o assunto não ter ocorrido no seu tempo. Depois, Amyraut deixou escapar, segundo os estudiosos, que a estrutura teológica de Calvino tem como implicação a expiação particular, jamais um universalismo hipotético.

A posição de Amyraut sofreu forte oposição dos teólogos reformados ortodoxos, mesmo não estando totalemente fora do circulo calvinista. Por três vezes ele foi denunciado por heresia nos Sínodos de Alençon (1637), Charenton (1644-1645) e Loudun (1659), tendo sido apenas repreendido, foi absolvido. Contudo, em 1675 a Formula Consensus Helvética condenou o amyraldismo, por isso tem sido chamada Anti-Amyraldensis ou Anti-Saumuriensis. Mesmo assim, o amyraldismo tem contado com um bom número de competentes defensores no decorrer do tempo, entre eles o puritano Richard Baxter (1615-1691) e os teólogos batistas A. H. Strong e mais atualmente Millard J. Erickson. É bom lembrar que tanto Strong quanto Erickson se confessam calvinistas. No Brasil, entre os que defendem uma expiação uma expiação ilimitada, se destaca o presbiteriano Alfredo Borges Teixeira, autor de Dogmática Evangélica.


Contra a teoria amyraldista A. A. Hodge levanta as seguinte objeções:
1. “Não é compatível com o fato de que os propósitos de Deus constituem um só. Segundo essa teoria, Deus, num só ato determinou prepara as condições objetivas da salvação (redenção pelo sangue de Cristo) para todos, e conceder as condições subjetivas da salvação (graça eficaz) somente a alguns. Isso é realmente uma tentativa de reunir num só sistema o arminianismo e o calvinismo”.
2. “As Escrituras declaram que a finalidade para a que Cristo veio foi executar o propósito da eleição. Veio para dar a vida eterna a todos quantos o Pai Lhe desse – João 17:2,9; 10:15. Por conseguinte, a redenção não pode preceder à eleição”.
3. “A verdadeira doutrina da propiciação não é que Cristo veio para tornar possível a salvação, e sim para efetuá-la pata todos aqueles por quem Ele morreu. Para esses a propiciação alcança a remissão dos pecados, a fé, o arrependimento e todos os frutos do Espírito. Por isso, todos os que são remidos arrependem-se e crêem” (Esboços de Teologia, pág. 316)

E o teólogo R. L. Dabney aponta que “sob dois aspectos, tal esquema é insustentável. Se se abandonar a idéia de uma real sucessão de tempo entre as partes do decreto divino, como deve ser mesmo abandonada, então esse esquema é de todo ilusório por apresentar Deus a decretar o envio de Cristo para prover uma redenção que se oferece a todos, sob condição de fé, levado a assim fazer por Sua compaixão por todos em geral. Porque se Deus prevê a rejeição certa de todos no tempo, ao passo que propõe soberanamente recusar a alguns a graça que operaria neles a fé, este esquema de eleição realmente relaciona Cristo, no propósito divino, com os não eleitos, relação esta não mais íntima nem mais proveitosa do que o esquema calvinista mais rigoroso. Mas, em segundo lugar, e principalmente, apresenta Cristo não adquirindo para Seu povo a graça da vocação eficaz, pela qual são persuadidos e habilitados a abraçar a redenção. Todavia o desígnio de Deus, de conferi-la, apresenta-se sem nexo com Cristo e Sua aquisição, e subsequentemente, pela ordem, à Sua obra, e à previsão da rejeição dela pelos pecadores. Ao passo que as Escrituras informam que esse dom, com todas as outras graças da redenção, é nos concedido em Cristo, tendo sido comprado por Ele para Seu povo”. (Predestinação, Samuel Falcão, 150,151)

O que Amyraut fez foi construir uma ponte que só vai até a metade do caminho, quando precisamos mais do que isso. Charles H. Spurgeon diz que “uma salvação universal é como uma ponte de grande largura com somente metade de um arco; ela não cruza o rio: chega somente à metade do caminho; ela não pode assegurar a salvação a ninguém. Ora, eu prefiro colocar meus pés sobre uma ponte tão estreita como a de Hungesford, que chega até o fim, do que sobre uma ponte que é tão larga quanto o mundo, se ela não chegar até o fim, do outro lado do rio.” (Redenção Particular, pág. 28)

Primeiramente, ninguém deve duvidar da suficiência da expiação na morte de Cristo. No entanto, ao dizer que ela, a morte de Cristo, é suficiente estou ao mesmo tempo dizendo que ela é eficaz. Portanto o que é suficiente para todos é igualmente eficaz para todos. Em outras palavras, se Cristo morreu por todos, todos por quem Ele morreu devem ser salvos. Mas a declaração amyraldista (assim como o arminianismo) contradiz a lógica aqui e nega que a morte de Cristo que é suficiente para todos seja igualmente eficaz para todos, dizendo que é eficaz somente para os eleitos. Por isso não chega a ser universalismo em pleno sentido, mas apenas em sentido hipotético. Mas também não é calvinismo em sentido pleno, porque nega o que os calvinistas afirmam, então é chamado semi-calvinismo.

O fato é que não se pode desvincular suficiência de eficácia. Ora, a morte de Cristo não foi potencial, mas autêntica, vicária e substitutiva. O que se pode observar no fundo é que o amyraldismo rejeita de fato a convicção de que a morte de Cristo foi vicária e substitucionária. E aí reside o problema, submerso no que parece ser apenas um ponto a menos muito podem naufragar na trajetória de suas vidas cristãs.

É preciso lembrar que se negarmos a eficácia da morte de Cristo igualmente negamos a sua suficiência. Se Cristo morreu no lugar e pelos pecados de determinado homem e ele não é redimido, logo o sacrifício de Cristo não foi suficiente. O argumento dos amyraldistas é que a aceitação – eficácia - é garantida pela eleição, mas não notam que a eleição particulariza a suficiência.

A verdade é que todos nós cremos em alguma forma de expiação limitada, sejam calvinistas, semi-calvinistas ou arminianos. John White nos lembra que “se você não crê na doutrina reformada da “expiação limitada”, você crê em alguma forma de expiação limitada! Como pode ser isso? A menos que você seja um universalista (ou seja, crê que todas as pessoas serão salvas), então você crê que a expiação realizada por Cristo, se foi realizada em favor de todos os homens, é limitada em seus efeitos. Você crê que Cristo morreu em favor de alguém e, apesar disso, aquela pessoa pode ficar perdida por toda a eternidade. Você limita o poder e o efeito da expiação. Eu limito o escopo da expiação, enquanto afirmo que seu poder e efeito são ilimitados! Um escritor expressou isso muito bem, quando disse: “Não deve haver qualquer mal-entendido quanto a este assunto. O Arminiano limita a expiação assim como o faz o calvinista. Este limita a extensão quando afirma que ela não se aplica a todas as pessoas... o arminiano, por sua vez, limita o poder da expiação, pois ele afirma que ela não salva ninguém. O calvinista limita quantitativamente a expiação, mas não qualitativamente; o arminiano limita-a qualitativamente, mas não quantitativamente.” (Fé para Hoje, n. 17, 2003, pág17)

É só um ponto a menos, mas pode fazer a diferença entre crer em um Cristo que morreu para salvar os seus e fez isso perfeita e eficazmente, ou crer um Cristo que morreu com intenção de salvar a todos, mas não salvou ninguém. Por quem Cristo morreu? Pelos “muitos” que Ele comprou com seu sangue (Mt.26:28) e que “procedem de toda a tribo, língua, povo e nação” (Ap.5:9,10).
Soli Deo Glória.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Lutero sobre Pregação

Steven Key


A influência de Martinho Lutero sobre a pregação é digna de consideração. A Reforma aconteceu, afinal de contas, pela restauração da pregação fiel, com Lutero e os outros reformadores abrindo o caminho.

Embora seria um exagero dizer que a pregação tinha sido inteiramente perdida antes da Reforma, é verdade que haviam poucos pregadores fiéis na igreja, e a própria pregação certamente tinha caído em tempos difíceis. O elemento da proclamação, o "assim diz o Senhor" que é o cerne de toda pregação verdadeira, tinha sido quase perdido. Por essa razão, uma das mais importantes contribuições de Lutero à igreja foi sua ênfase sobre a pregação.

O próprio Lutero nos dá uma visão do que a pregação comumente envolvia em seus dias, ridicularizando e desprezando abertamente o que se passava então por pregação na igreja por parte de pastores infiéis. Os sermões eram superficiais, freqüentemente incluindo fábulas ou estórias, bem como uma mistura de filosofia pagã. Além do mais, esses "sermões" eram geralmente comunicados de uma forma vulgar ou cômica, para entreter o povo. Cristo era esquecido. As Escrituras eram negligenciadas.

"Ó, temos tido pregadores cegos por um longo tempo; eles têm sido totalmente cegos, e líderes de cegos, como o evangelho diz; deixaram o evangelho e seguiram suas próprias idéias, preferindo a obra de homens ao invés da obra de Deus."2

Nunca medindo palavras, Lutero falou duramente dos pregadores infiéis:

Esses são os pregadores preguiçosos e inúteis que não dizem aos príncipes e senhores seus pecados. Em alguns casos, nem notam os pecados. Eles deitam e roncam em seu ofício, e não fazem nada que pertença ao mesmo, exceto que, como porcos, ocupam o lugar onde bons pregadores deveriam estar.3

Contra essa corrupção da pregação, Lutero exigia fervorosamente uma pregação bíblica e expositiva. "Foi Lutero quem redescobriu tanto a forma como a substância dessa pregação… Para ele pregação era a verdadeira Palavra de Deus mesmo, e, como tal, ocupava a posição central da Igreja."4 De fato, a ênfase sobre pregar o evangelho se tornou uma das principais marcas das igrejas da Reforma e, como Lutero nunca cansou de apontar, deu propósito bem como autoridade à existência delas.

Pregação com Substância

Martinho Lutero entendia que a pregação fiel deve ter substância. Essa substância é a verdade do evangelho, a exposição fiel da Sagrada Escritura.

A. Skevington Wood resume a pregação de Lutero da seguinte forma:

A característica saliente da pregação de Lutero era seu conteúdo e referência bíblica. Ele estava preso à Palavra. Sua pregação nunca era meramente tópica. Ele nunca poderia transformar um texto num pretexto. "Eu me esforço para tratar um versículo, para agarrá-lo", ele explicou, "e assim instruir o povo de forma que possam dizer, ‘Era sobre isso o sermão.’" Sua pregação nunca foi um movimento dos homens para o texto; sempre foi um movimento do texto para os homens. O assunto nunca determinava o texto; o texto sempre determinava o assunto. Ele não tinha o hábito de abordar assuntos ou questões, mas doutrinas. Mas quando o fazia, ele invariavelmente seguia uma determinada passagem da Escritura, passo a passo. Ele considerava uma das principais qualificações do pregador ser familiarizado com a Palavra.5

Lutero ensinou claramente a centralidade da Palavra. Fé é nada mais que aderência à Palavra de Deus. É essa Palavra que destrói o pecador pela lei, e levanta o crente no evangelho.

Sua alta estima pela Palavra de Deus explica o porquê Lutero também tentava pregar sistematicamente por toda a Escritura, pregando séries de sermões tanto do Antigo quanto do Novo Testamento.

Por causa dessa ênfase bíblica sobre a primazia da Palavra e a centralidade da pregação, Lutero não tinha lugar para o falso misticismo que troca a Palavra de Deus pelos sentimentos internos. "Fora com os cismáticos que menosprezam a Palavra, enquanto sentam-se nos cantos aguardando a revelação do Espírito, mas à parte da voz da Palavra!"6

Deve ser observado nessa conexão que Lutero falava da pregação em termos de "a voz." Ele disse: "Observem: o princípio de todo conhecimento espiritual é essa voz de alguém clamando, como Paulo também diz, Romanos 10:14: 'Como crerão… sem um pregador?'"7

Pregação com Autoridade

Lutero ensinou claramente que a pregação que é fiel e verdadeira vem como a autoridade da "voz".

Esse pensamento refletia a alta visão de Lutero do ofício. O ministro é enviado por Deus e entrar no ofício de Deus. "Dessa forma, S. Paulo é confiante (2Co. 13:3) que está falando não sua própria palavra, mas a Palavra do Senhor Cristo. Assim nós, também, podemos dizer que ele a colocou em nossa boca."8

Essa verdade era importante para Lutero, também, em face de toda a oposição que obscurecia seu caminho. Era uma verdade que ele proclamava consistentemente.

Em seu tratamento do Salmo 2, falando do ofício de Cristo como Mestre que declara o decreto de Deus, Lutero explicou que o Espírito Santo assim nos ensina

que Deus faz tudo por meio do Filho. Pois quando o Filho prega a Lei, o Pai mesmo, que está no Filho ou é um com o Filho, prega. E quando pregamos sobre esse mesmo decreto, Cristo mesmo prega, como ele diz: ‘Quem vos ouve a vós, a mim me ouve’ (Lucas 10:16).9

O pregador, portanto, é o porta-voz de Deus, o instrumento através do qual Cristo e Deus pregam.

Nós, pastores e ouvintes, somos apenas alunos; há somente uma diferença, que Deus está falando a você por meio de mim. Esse é o poder glorioso da Palavra divina, através da qual Deus mesmo lida conosco e fala conosco, e na qual ouvimos o próprio Deus.10

Comentando sobre João 14:10, Lutero escreve: "Não somos nós que falamos; é o próprio Cristo e Deus. Por conseguinte, quando você ouve este sermão, está ouvindo Deus mesmo. Por outro lado, se despreza este sermão, está desprezando não nós, mas o próprio Deus."11

Pregação e a Obra do Espírito

Porque Cristo fala pela pregação do evangelho, a pregação é poderosa e eficaz na realização do propósito para o qual Deus a envia.

Assim, Lutero chama a atenção em seus escritos para o lugar do Espírito Santo na pregação. Cristo opera essa palavra poderosa por seu Espírito Santo. É através das palavras de pregadores que o Espírito Santo opera, convencendo o mundo do pecado e estabelecendo a fé dos eleitos de Deus por meio do chamado eficaz e irresistível.

O Espírito Santo de Cristo dá à pregação o seu poder. Cristo atrai os homens por meio da palavra somente, resgatando o seu povo do poder do pecado e da morte, e dando-lhes liberdade, justiça e vida,

Essa coisa grande e maravilhosa é realizada inteiramente por meio do ofício da pregação do Evangelho. Visto superficialmente, parece algo insignificante, sem qualquer poder, como qualquer discurso ou palavra de um homem comum. Mas quando tal pregação é ouvida, seu poder invisível e divino está em ação no coração dos homens por meio do Espírito Santo. Portanto, S. Paulo chama o Evangelho de "um poder para salvação de todos que têm fé" (Rm. 1:16).12

Claramente, os pregadores são apenas instrumentos nas mãos de Deus: "Que faremos? Podemos deplorar a cegueira e obstinação do povo, mas não podemos trazer uma mudança para melhor."13 Somente quando Cristo mesmo fala por seu Espírito Santo é que a pregação é poderosa para mudar e trazer salvação.

"Eu, nem qualquer outra pessoa pode pregar a Palavra adequadamente; o Espírito Santo somente deve expressá-la e pregá-la."14 Pois é o Espírito que opera obras pela palavra. Quando por meio da pregação externa da palavra e o testemunho interior do Espírito Santo a fé é criada, então o que é prometido no evangelho se torna eficaz para o crente.

"Conseqüentemente, ela é uma Palavra de poder e graça quando infunde o Espírito ao mesmo tempo em que fulmina os ouvidos. Mas se ela não infunde o Espírito, então aquele que ouve não difere de forma alguma daquele que é surdo."15

Ouvindo a Pregação

Lutero não ignorou o chamado de todos os que ouvem a pregação, para examinar essa pregação, a fim de ver se a mesma é fiel às Sagradas Escrituras. "Por conseguinte, essa é a pedra de toque pela qual toda doutrina deve ser julgada. Uma pessoa deve tomar cuidado e ver se essa é ou não a mesma doutrina que foi publicada em Sião por meio dos apóstolos." É tal pregação que é usada por Deus como a voz poderosa e salvífica de Cristo. "Pois essa somente, como tem sido dito, é a verdadeira doutrina, que concede aos homens um entendimento correto e adequado, conforto ao coração e salvação."16

Junto com essas linhas, Lutero enfrenta honestamente a questão de se Cristo fala ou não através de um pregador, simplesmente porque o mesmo ocupa o ofício.

Em primeiro lugar, devemos saber que aqueles que são enviados falam a Palavra de Deus somente se aderem ao seu ofício e o administram da forma como o receberam. Nesse caso, certamente estão falando a Palavra de Deus… Um embaixador ou emissário do rei cumpre seu dever quando permanece pela ordem e instrução do mestre. Se falha nisso, o rei decapitou-o.17

Quando um ministro, portanto, prega fielmente a palavra de Deus, Cristo se agrada em falar por meio dele por seu Espírito Santo; se não, então essas palavras aplicam-se ao pregador: "Acautelai-vos dos falsos profetas!" Não devemos falar nem ouvir nada, senão a palavra de Deus.

Por essa razão, o evangelho deve ser ouvido e pregado. A pregação não tem apenas substância, mas também um conteúdo bem específico. Lutero insiste: "A primeira mensagem do pregador é ensinar penitência, remover ofensas, proclamar a Lei, humilhar e aterrorizar os pecadores."18 Nosso pecado deve ser exposto pela pregação do evangelho. Concernente ao livro de Romanos, ele diz,

A soma e substância dessa carta é: rebaixar, erradicar e destruir toda sabedoria e justiça da carne … não importa quão enérgica e sinceramente elas possam ser praticadas, devemos implantar, estabelecer e engrandecer a realidade do pecado… Pois Deus não quer nos salvar por nós mesmos, mas por uma justiça externa que não se origina em nós, mas que nos vem dos céus."19

A necessidade de pregar a depravação do homem é encontrada no fato que a graça é dada aos humildes. Cristo não veio salvar os justos, mas trazer os pecadores ao arrependimento (Lucas 5:32). Assim, Lutero diz: "Não pode ser humilde aquele que não reconhece ser condenável, cujo pecado fede até os altos céus … O desejo pela graça se origina quando o reconhecimento pelo pecado aparece. Uma pessoa doente procura o médico quando reconhece a seriedade da sua enfermidade."20

E porque o povo de Deus tem uma luta contínua com sua carne pecaminosa, a pregação deve ser antitética. Ela deve ser pregação que não somente soa a trombeta de prata da salvação, mas que soa também a buzina que expõe e reprova o homem velho do pecado e chama ao arrependimento.

Como Lutero reconheceu e experimentou, requer-se coragem na pregação para servir como um embaixador de Cristo. Mas o pregador não pode deter-se em pregar meramente o pecado, pois então equivaleria a machucar e não ligar, ferir e não curar. "Portanto, devemos pregar também a palavra de graça e a promessa de perdão, pela qual a fé é ensinada e levantada."21

O foco de toda pregação deve ser Cristo. O único conteúdo de sua mensagem é sobre ele. "Essa é a essência de sua pregação: Eis o seu Deus! ‘Promova Deus somente, sua misericórdia e graça. Pregue somente a mim.'"22

Portanto, não menos que Calvino, Soli Deo Gloria era o moto de Lutero. A soberania de Deus ocupava um lugar proeminente em toda a pregação de Lutero, pois ele realmente pregava o evangelho. Chegou até ele também o grito da Reforma: "Deixem Deus ser Deus!" Em suas palavras: "O evangelho proclama nada mais que a salvação pela graça, dada ao homem sem quaisquer obras e méritos, seja quais forem. O homem natural não pode receber, ouvir e ver o evangelho. Nem podem os hipócritas, pois o evangelho joga fora as suas obras, declarando que eles não são nada, e não agradam a Deus."23

Somente Deus opera sua maravilhosa obra de graça ao nos salvar. Pois em Cristo somente descansa toda a nossa salvação. O evangelho é pregado com o propósito de consolar com graça aqueles que são contritos de coração.

Martinho Lutero também viu a importância da pregação à luz dos seus frutos positivos. Em oposição aos erros do legalismo, ele reconheceu que a vida cristã deve ser uma vida de gratidão a Deus e, portanto, um abraçar consciente do evangelho de uma salvação graciosa. Vidas gratas seguem-se à pregação fiel.

A abordagem de Lutero para com a pregação é uma que mais tarde seria delineada no Catecismo de Heidelberg. Esse é o caminho do conforto, operado pelo Espírito por meio da pregação.

"Assim, não são as pedras, a construção, e a grandiosa prata e ouro que tornam uma igreja bela e santa; é a Palavra de Deus e a pregação sã."24 E essa é a pregação na qual Deus é glorificado.

Tal pregação é a maior bênção de Deus para a sua igreja. "Portanto, que aqueles que têm a Palavra pura aprendam a recebê-la e dar graças ao Senhor por ela, e que busquem ao Senhor enquanto se pode achar."25 Que nós, os filhos da Reforma, possamos nos humilhar e agradecer a Deus pela pregação fiel. Deus certamente exigirá que prestemos conta de nossa pregação e do nosso escutar.

Fonte: David Engelsma (ed.), The Sixteenth-Century Reformation of the Church, pp. 88-95.

Artigo traduzido por Felipe Sabino

2Luther, "Sermon, Matt. 22:37-39," in Sermons I, ed. and trans. John W. Doberstein, in Luther’s Works, ed. Helmut T. Lehmann (Philadelphia: Muhlenberg Press, 1959), 51:107.

3Luther, "Psalm 82," in Selected Psalms II, ed. Jaroslav Pelikan, trans. C. M. Jacobs, in Luther’s Works, ed. Jaroslav Pelikan (St. Louis: Concordia Publishing House, 1956), 13:49.

4T. H. L. Parker, The Oracles of God: An Introduction to the Preaching of John Calvin (London: Lutterworth Press, 1947), 20.

5Wood, Captive to the Word, 89.

6Luther, "Isaiah 40," in Lectures on Isaiah 40-66, ed. Hilton C. Oswald, trans. Herbert J. A. Bouman, in Luther’s Works, ed. Jaroslav Pelikan (St. Louis: Concordia Publishing House, 1972), 17:8.

7Ibid.

8Luther, "Psalm 26," in Selected Psalms I, ed. Jaroslav Pelikan, trans. Lewis W. Spitz Jr., in Luther’s Works, ed. Jaroslav Pelikan (St. Louis: Concordia Publishing House, 1955), 12:186.

9Luther, "Psalm 2," in Selected Psalms I, in Luther’s Works, 12:43.

10Luther, "Sermon on John 6:37," in Sermons on the Gospel of St. John 6-8, ed. Jaroslav Pelikan, trans. Martin H. Bertram, in Luther’s Works, ed. Jaroslav Pelikan (St. Louis: Concordia Publishing House, 1959), 23:98.

11Luther, "Sermon on John 14:10," in Sermons on the Gospel of St. John 14-16, ed. Jaroslav Pelikan, trans. Martin H. Bertram, in Luther’s Works, ed. Jaroslav Pelikan (St. Louis: Concordia Publishing House, 1959), 24:66.

12Luther, "Psalm 110," in Selected Psalms II, in Luther’s Works, 13:291.

13Luther, "Lecture on Genesis 6:3," in Lectures on Genesis 6-14, ed. Jaroslav Pelikan, trans. George V. Schick, in Luther’s Works, ed. Jaroslav Pelikan (St. Louis: Concordia Publishing House, 1960), 2:17.

14Luther, "Sermon, Matt. 22:37-39," in Sermons I, in Luther’s Works, 51:111.

15Luther, "Lecture on Galatians 3:4," in Lectures on Galatians, ed. and trans. Jaroslav Pelikan, in Luther’s Works, ed. Jaroslav Pelikan (St. Louis: Concordia Publishing House, 1964), 27:249.

16Luther, "Psalm 110," in Selected Psalms II, in Luther’s Works, 13:271, 272.

17Luther, "Forty-seventh Sermon on the Gospel of St. John," in Sermons on the Gospel of St. John 1-4, ed. Jaroslav Pelikan, trans. Martin H. Bertram, in Luther’s Works, ed. Jaroslav Pelikan (St. Louis: Concordia Publishing House, 1957), 22:483.

18Luther, "Isaiah 57," in Lectures on Isaiah 40-66, in Luther’s Works, 17:277.

19Luther, "Lectures on Romans," trans. of Römerbriefvorlesung, in Luther’s Works, Weimar ed. (Philadelphia: Muhlenberg Press, 1959), 56:3, 4. Uma tradução diferente pode ser encontrada na edição americana de Luther’s Works, 25:135, 136.

20Luther, "Heidelberg Disputation, 1518", in Career of the Reformer I, ed. and trans. Harold J. Grimm, in Luther’s Works, ed. Helmut T. Lehmann (Philadelphia: Muhlenberg Press, 1957), 31:51.

21Luther, "The Freedom of a Christian, 1520," in Career of the Reformer I, in Luther’s Works, 31:364.

22Luther, "Isaiah 40," in Lectures on Isaiah 40-66, in Luther’s Works, 17:14.

23Luther, "Sermon, Matt. 22:37-39," in Sermons I, in Luther’s Works, 51:112.

24Luther, "Lecture on Genesis 13," in Lectures on Genesis 6-14, in Luther’s Works, 2:334.

25Luther, "Lecture on Genesis 6:3," in Lectures on Genesis 6-14, in Luther’s Works, 2:18.