domingo, 15 de junho de 2008


Oração no Espírito

Silas Roberto

“com toda oração e súplica, orando em todo tempo no Espírito

e para isto vigiando com toda perseverança

e súplica por todos os santos”

Efésios 6:18


Muita confusão está relacionada ao sentido da frase “orar no Espírito”. Uma das interpretações mais comuns é a que eu chamo de Teoria mística. Segundo essa posição, orar no Espírito se dá quando o fazemos de maneira inaudível, isto é, quando não pronunciamos palavras, mas oramos na nossa mente. Essa oração, segundo seus defensores, é uma estratégia eficaz contra o diabo e demônios, visto que como eles não são oniscientes não podem saber o que estamos pedindo e assim não podem obstruir a resposta e que alcancemos a nossa benção. Entretanto, estou convicto que essa teoria não desfruta de apoio bíblico.

O que não é “orar no Espírito”:

  1. Se orar no Espírito fosse o mesmo que orar inaudivelmente ou com a mente como uma estratégia contra o nosso inimigo espiritual, porque é que o Senhor Jesus Cristo nunca ensinou isso? Não há nenhuma palavra do Senhor Jesus quanto a isso nos textos em que Ele ora ou trata da oração, nem mesmo quando seus discípulos pediram “ensina-nos a orar” (Lc.11:1).
  2. Se orar no Espírito fosse o mesmo que a orar inaudivelmente ou com a mente e se isso fosse uma estratégia eficaz na guerra espiritual, porque é que o apóstolo Paulo não o mencionou de maneira direta?
  3. Observe que o apóstolo diz: “com toda oração... orando em todo tempo no Espírito” – se orar no Espírito é orar inaudivelmente não poderia haver oração audível, visto que o apóstolo insiste que as orações sejam feitas “em todo tempo”.
  4. Os que defendem essa teoria nem percebem que reduzem o Espírito Santo de Deus à mente humana quando fazem tal afirmação. Ora, se orar inaudivelmente é o mesmo que orar no Espírito segue-se que a mente humana e o Espírito são uma e a mesma coisa.
  5. Os que defendem essa teoria também não percebem que reduzem a onisciência divina a uma mera percepção de pensamentos. Segundo defendem, quando um crente ora inaudivelmente os demônios não sabem o que se está orando, visto que não são oniscientes e isso se constitui numa estratégia eficaz na guerra espiritual. Primeiro é preciso dizer que em nenhum lugar tal coisa é claramente ensinada na Bíblia. Depois, ressalto que onisciência não pode ser reduzida meramente à leitura de pensamentos. A Bíblia inequivocamente ensina que Deus é onisciente, a Ele pertence não somente ler pensamentos, mas conhecer tudo o que existe de maneira exaustiva e em suas possíveis relações e conseqüências de modo que nada foge ao Seu conhecimento. Se onisciência for reduzida a ler pensamentos, então alguns computadores e máquinas auxiliares de diagnóstico médico são oniscientes, visto que algumas já conseguem decifrar pensamentos. E se uma máquina com inteligência artificial pode fazer isso, não duvido que seres espirituais com milênios de experiência no trato com a humanidade sejam incapazes de fazê-lo. Caio Fábio ressaltou que essa teologia é de “fundo de quintal” e que “somente Deus esquadrinha o “interior”, o coração humano. Mas esse esquadrinhar é mais profundo do que saber os pensamentos de uma pessoa. É mergulhar no que ela está pensando e no que habita o seu inconsciente mais profundo, onde nem a própria pessoa sabe chegar. Quando a Bíblia diz que somente Deus é onisciente, está dizendo que somente ele sabe tudo, sobre todos, sobre tudo, o tempo todo, a um só tempo. Só Deus pode isso. E só ele penetra no inconsciente mais profundo do homem, esquadrinha-lhe a psique. Todavia quando o pensamento já está no cérebro, não passa de energia em código, vamos dizer, “eletrônico”. Mais a frente diz que nossos “pensamentos, quando chegam ao cérebro, já são apenas sinais energéticos detectáveis até mesmo neuro-eletronicamente.” [ Síndrome de Lúcifer, pág. 29,30] Essa teoria ainda diminui a soberania divina, visto que para os seus defensores Deus é impedido de responder às orações dos santos por um ser criado. Por último, o que torna uma oração eficaz não é orar em silêncio, mas de acordo com a vontade de Deus e em nome de Jesus.

O que é “orar no Espírito”?

Ora, quanto ao sentido da frase “orando... no Espírito” podemos dizer com certeza que se refere a oração que é tanto sob a influência como com a graciosa assistência do Espírito Santo (Rm.8:26; Jd.v.20). Dr. Russell Shedd declarou que orar “no Espírito” significa “reconhecer a nossa infantilidade no que diz respeito à oração. “Não sabemos orar como convém”, confessa o apóstolo (Rm.8:26). Se buscarmos a Sua divina assistência, certamente Ele intercederá “por nós sobremaneira com gemidos inexprimíveis” (Rm.8:26)”. [O Mundo,a Carne e o Diabo, R. P. Shedd, pág120] John Stott comenta que “a oração é no Espírito, induzida e guiada por Ele, assim como a palavra de Deus é “a espada do Espírito” que Ele mesmo emprega... A oração cristã que prevalece é admiravelmente compreensível. Tem quatro universais, indicados pelo uso quádruplo da palavra “todo”. Devemos orar em todo o tempo (tanto regular quanto constantemente), com toda a oração e súplica (porque são necessárias muitas formas variadas), com toda a perseverança (porque precisamos, como bons soldados, ficar vigiando, nunca esmorecendo), fazendo suplicas por todos os santos (já que a unidade da nova sociedade de Deus, que tem sido a preocupação constante nesta carta, deve ser refletida em nossas orações). A maioria dos cristãos ora alguma vez, e com algum grau de perseverança, por alguns dentre o povo de Deus. Mas substituir alguns por todos em cada uma destas expressões seria introduzir-nos em uma nova dimensão de oração.” [A Mensagem de Efésios, pág.218] Charles Hodge declarou que “nenhum soldado entrando em combate ora só por si, mas também pelos seus companheiros. Eles constituem um exército, e o sucesso de um é o sucesso de todos”. “Irmãos, orai por nós”. 1 Ts 5:25.

Soli Deo Glória!