quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

O Arminianismo Moderno
por
R. C. Sproul


O Sínodo de Dort não destruiu o movimento arminiano. Ele se espalhou por todo o continente e mais tarde para a América Colonial. Ele sobrevive até hoje e, atualmente, desfruta de uma forte restauração. Em 1989, Clark H. Pinnock publicou The Grace of God, the Will of Man, um livro designado para defender o arminianismo.

No seu próprio estudo, no qual narra sua peregrinação pessoal do calvinismo para o arminianismo, Pinnock observa:

“Uma mudança teológica está a caminho entre os evangéLicos como também entre outros cristãos para longe do determinismo no que diz respeito à regra e salvação de Deus e em direção a uma orientação mais favorável ao relacionamento pessoal dinâmico entre Deus, o mundo e as criaturas humanas de Deus. A tendência começou, creio, por causa de uma leitura nova e fiel da Bíblia em diálogo com a cultura moderna, que coloca a ênfase na autonomia, temporalidade e mudança histórica”

Pinnock recebe com prazer essa tendência e afirma que os grandes teólogos freqüentemente mudam de opinião. Ele cita Karl Barth como um exemplo, referindo-se a Barth como “indubitavelmente, o maior teólogo de nosso século”. Ao avaliar essa tendência atual na teologia evangélica, ele ainda menciona:

“Ao mesmo tempo, no entanto, os calvinistas continuam sendo as principais figuras da unificação evangélica, muito embora seu domínio tenha diminuído. Eles controlam razoavelmente o ensino da teologia nos grandes seminários evangélicos; possuem e operam as maiores editoras; e, em grande parte, conduzem o movimento da inerrância. Isso significa que eles são fortes onde importa -na área da liderança intelectual e da propriedade... Embora haja muitos pensadores arminianos na apologética, missiologia e na prática do ministério, há apenas alguns poucos teólogos evangélicos prontos para defenderem as opiniões não-agostinianas”.

Sou menos otimista do que Pinnock sobre o atual estado do evangelicalismo. Talvez nós dois avaliemos a situação de um ponto de vista preconceituoso, sofrendo da síndrome da “grama sempre mais verde”. Pinnock indica que um propósito do The Grace of God, the Will of Man é “oferecer uma voz mais alta à maioria silenciosa dos evangélicos arminianos”. Aqui ele afirma que a maioria dos evangélicos está se afastando da influência que o pensamento agostiniano teve sobre eles. Ele diz:

“É difícil encontrar um teólogo calvinista que deseje defender a teologia reformada que inclua as visões tanto de Calvino quanto de Lutero em todos os seus particulares rigorosos, agora que Gordon H. Clark não está mais entre nós e John Gerstner se aposentou. Poucos têm estômago para tolerar a teologia calvinista em sua pureza lógica”.

O Dr. Gestner morreu após essas palavras terem sido escritas, assim talvez precisemos da lâmpada de Diógenes para encontrar teólogos calvinistas que defendam tanto Lutero quanto Calvino com vigor. No entanto, as noticias do fim do calvinismo são um pouco exageradas uma vez que ainda existem muitos com estômago teológico de ferro.
Na sua própria peregrinação, Pinnock chegou a questionar a consciência e presciência de Deus. Ele entende a relação essencial entre esses atributos divinos e as doutrinas da eleição e livre-arbítrio. Ele escreve:

"Finalmente, tive de repensar a onisciência divina e, relutantemente, perguntar se devemos pensar nela corno uma presciência exaustiva de tudo o que irá acontecer, como a maioria dos arminianos pensa. Descobri que não poderia livrar-me da intuição de que uma onisciência total como essa, necessariamente significaria que tudo o que iremos escolher no futuro já teria sido soletrado no registro de conhecimento divino e, conseqüentemente, a crença de que temos escolhas verdadeiramente significantes a fazer pareceria ser um erro. Conhecia o argumento calvinista de que a presciência completa era equivalente à predestinação porque implica imobilidade de todas as coisas desde a “eternidade passada”, e não poderia me livrar da sua força lógica."

É importante notar que a nova visão de Pinnock sobre a presciência de Deus vai além da visão da maioria dos arminianos, como ele indica. Ela parece ir muito além das visões sustentadas no conceito do meio-conhecimento desenvolvido pelo jesuíta espanhol Luis Molina. Esse conceito é habilmente explicado por William Lane Craig em The Grace of God, the Will of Man, e também desenvolvido de forma clara por Alvin Plantinga. Pinnock tenta escapar da “lógica” da presciência completa na teologia reformada clássica. Ele diz:

Por essa razão, tive de me perguntar se era biblicamente possível sustentar que Deus conhece tudo o que pode ser conhecido, exceto a escolha livre que não seria algo que pudesse ser conhecido até mesmo por Deus porque ainda não está resolvida na realidade.... Deus pode predizer bastante do que iremos escolher fazer mas não tudo porque alguma coisa permanece escondida no mistério da liberdade humana....
...Naturalmente a Bíblia louva a Deus por seu conhecimento detalhado do que irá acontecer e o que ele mesmo irá fazer... O Deus da Bíblia revela uma abertura para o futuro que a visão tradicional da onisciência simplesmente não pode acomodar....
...Precisamos de um teísmo do “livre-arbítrio”, uma doutrina de Deus que anda no caminho intermediário entre o teísmo clássico, que exagera a transcendência de Deus do mundo, e o teismo do sistema, que reivindica a imanência radical.

Essa declaração expressa algo do pensamento seminal de Pinnock, desenvolvido de forma mais completa no volume posterior The Openness of God. O que é digno de nota aqui é que Pinnock claramente percebe que está desafiando não meramente o calvinismo clássico mas também o próprio teísmo clássico. Ele procura reconstruir a teologia em algum lugar entre o teísmo clássico e a teologia do processo. Ele a chama de “teísmo do livre-arbítrio” porque a força condutora por trás dessa nova doutrina de Deus é a preocupação em manter a visão arminiana do livre-arbítrio humano. No The Openness of God, Pinnock reitera sua crítica da doutrina da onisciência no teísmo clássico e também levanta questões sobre outras doutrinas do teísmo clássico como as da imutabilidade e da onipotência.

Na superfície, essa reconstrução da doutrina de Deus parece carregar uma etiqueta de alto preço se alcançar a abertura que Pinnock deseja. No nível prático, admiramos como Deus pode saber qualquer coisa sobre o futuro exceto o que ele pessoalmente pretende fazer (intenções que são, elas mesmas, abertas às mudanças enquanto ele reage às decisões futuras dos homens). Se a História não é afetada de modo algum pelas decisões dos homens e se o conhecimento de Deus não inclui as futuras decisões humanas, como Deus pode conhecer tudo sobre o futuro da história do mundo? Como podemos encontrar qualquer conforto no futuro que Deus prometeu para seu povo se esse destino futuro jaz nas mãos dos homens? A âncora de nossa alma foi arrastada do seu ancoradouro. Não temos razão para confiar em nenhuma promessa que Deus fez sobre o futuro. Não apenas os melhores planos traçados dos ratos e homens se perdem mas também que se perdem, semelhantemente, os melhores planos traçados do Criador dos ratos e dos homens.
Essa fascinação com a abertura de Deus é um ataque não apenas ao calvinismo ou mesmo ao teísmo clássico, mas ao próprio Cristianismo.

Fonte: R.C. Sproul, Sola Gratia, A controvérsia sobre o livre arbítrio na história, Editora Cultura Cristã.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008



CONFISSÃO DE FÉ BATISTA DE NEW HAMPSHIRE
1833



CONTEÚDO

1. Das Escrituras
2. Do Verdadeiro Deus
3. Da Queda do Homem
4. Do Caminho da Salvação
5. Da Justificação
6. Da Natureza Livre da Salvação
7. Da Graça na Regeneração
8. Do Arrependimento e da Fé
9. Do Propósito da Graça de Deus
10. Da Santificação
11. Da Perseverança dos Santos
12. Da Harmonia da lei e do Evangelho
13. De uma Igreja Evangélica
14. Do Batismo e da Ceia do Senhor
15. Do Sábado Cristão
16. Do Governo Civil
17. Do Justo e do Ímpio
18. Do Mundo Vindouro


"Entre as principais confissões de fé Batistas, destacam-se: a Primeira Confissão de Londres (1644 – Inglaterra), a Segunda Confissão de Londres (1689 – Inglaterra), a Confissão de Fé New Hampshire (1833 - Estados Unidos) e a Declaração de Mensagem e Fé Batistas (1925 - Estados Unidos).

A Confissão de Fé de New Hampshire foi redigida pelo Rev. John Newton Brown (1803 - 1868), no Estado de New Hampshire, por volta de 1833, e publicada por uma comissão da Convenção Batista daquele Estado. Ela foi adotada pela mesma Convenção, chegando a influenciar outras confissões, sendo uma das mais largamente aceitas e amplamente usadas declarações de fé Batista nos Estados Unidos, especialmente nos estados do norte e do oeste. Trata-se de uma declaração clara e concisa da fé denominada Batista, em harmonia com as doutrinas de confissões mais antigas, porém expressa em forma mais moderada. Ela é relativamente breve quando comparada com outras confissões, contendo 18 artigos. De um modo geral, sua tendência é calvinista moderada...

Com a chegada dos missionários americanos no final do Século XIX ao Brasil, a Confissão de Fé de New Hampshire tornou-se a confissão dos Batistas brasileiros, passando a ser conhecida como Declaração de Fé das Igrejas Batistas do Brasil". Em 1983 a Convenção Batista Brasileira nomeou uma comissão para elaborar uma declaração de fé dos batistas brasileiros. Em 1985 a comissão apresentou a nova Declaração de Fé da Convenção Batista Brasileira, substituindo a Confissão de Fé de New Hampshire.

DECLARAÇÃO DE FÉ



1. Das Escrituras


Cremos que a Bíblia Sagrada foi escrita por homens divinamente inspirados, e é um perfeito tesouro de instrução celestial; que tem Deus como seu autor, salvação como seu fim, e verdade sem qualquer mistura de erro como seu conteúdo; que ela revela os princípios pelos quais Deus nos julgará; e por isso é, e continuará sendo até o fim do mundo, o verdadeiro centro da união cristã, e o supremo padrão pelo qual toda conduta, credos, e opiniões humanas devem ser julgados.


2. Do Verdadeiro Deus


Cremos que há um, e somente um, Deus vivo e verdadeiro, um Espírito infinito, inteligente, cujo nome é YAHVEH, o Criador e Supremo Governador do céu e da terra, inexprimivelmente glorioso em santidade, e digno de toda honra, confiança, e amor possíveis; que na unidade da divindade há três Pessoas, o Pai, o Filho, e o Espírito Santo; iguais em toda a perfeição divina, e executando distintos e harmoniosos ofícios na grande obra da redenção.


3. Da Queda do Homem


Cremos que o homem foi criado em santidade, sob a lei de seu Criador; mas por transgressão voluntária caiu daquele santo e feliz estado; em conseqüência do que todos os homens são agora pecadores, não por constrangimento, mas por escolha; sendo por natureza completamente destituídos daquela santidade requerida pela Lei de Deus, inegavelmente inclinado para o mal, e por isso sob justa condenação à ruína eterna, sem defesa ou desculpa.


4. Do Caminho da Salvação


Cremos que a salvação de pecadores é totalmente de graça, através do ofício mediador do Filho de Deus; que pelo decreto do Pai, livremente tomou sobre si nossa natureza, mas sem pecado; honrou a Lei Divina pela sua obediência pessoal; que tendo ressuscitado da morte, Ele está agora entronizado no céu; e unindo em sua maravilhosa pessoa as mais ternas simpatias com divinas perfeições, Ele é de todos os modos qualificado para ser um salvador adequado, compassivo e todo-suficiente.


5. Da Justificação


Cremos que a grande bênção evangélica que Cristo assegura a tantos quantos crêem nele é a justificação; que a justificação inclui o perdão de pecado, e a promessa de vida eterna sobre os princípios da justiça; que ela é aplicada, não em consideração de quaisquer obras de justiça que nós temos feito, mas exclusivamente através da fé no sangue do Redentor; em virtude do que sua perfeita justiça é livremente imputada a nós por Deus mediante a fé; que leva-nos para um estado da mais abençoada paz e favor com Deus, e nos assegura as bênçãos necessárias para o tempo e a eternidade.


6. Da Natureza Livre da Salvação


Cremos que as bênçãos da salvação são colocadas à disposição de todos pelo evangelho; que é o dever imediato de todos aceitá-las por uma fé cordial, penitente e obediente; e que nada impede a salvação do maior pecador na terra exceto sua própria depravação inerente e rejeição voluntária do evangelho; que a rejeição envolve-o em uma condenação agravada.


7. Da Graça na Regeneração


Cremos que, a fim de serem salvos, os pecadores devem ser regenerados, ou nascidos de novo; que a regeneração consiste em dar uma disposição santa à mente; que ela é efetuada de uma maneira acima da nossa compreensão pelo poder do Espírito Santo, em conexão com a verdade divina, de maneira a assegurar nossa obediência voluntária ao evangelho; e que sua evidência apropriada aparece nos santos frutos do arrependimento, fé e novidade de vida.


8. Do Arrependimento e da Fé


Cremos que o arrependimento e a fé são deveres sagrados, e também graças inseparáveis, operadas em nossas almas pelo Espírito regenerador de Deus; pelo que sendo profundamente convencidos de nossa culpa, perigo e incapacidade, e do caminho da salvação por Cristo, nós retornamos para Deus com contrição, confissão e súplica por misericórdia não fingidas; ao mesmo tempo recebendo genuinamente o Senhor Jesus Cristo como nosso profeta, sacerdote e Rei, e confiando nele somente como único e todo-suficiente salvador.


9. Do Propósito da Graça de Deus


Cremos que a eleição é eterno propósito de Deus, segundo o qual Ele graciosamente regenera, santifica e salva pecadores; que sendo perfeitamente consistente com a livre agência do homem, abrange todos os meios em conexão com o fim; que é uma demonstração gloriosíssima da bondade soberana de Deus, sendo infinitamente livre, sábia, santa, e imutável; que ela exclui completamente a vanglória, e promove humildade, amor, oração, louvor, confiança em Deus, e ativa imitação de sua livre misericórdia; que ela encoraja o uso dos meios no mais alto grau; que ela pode ser percebida pelos seus efeitos em todo aquele que verdadeiramente crê no evangelho; que é o alicerce da segurança cristã; e que verificá-la com respeito a nós mesmos demanda e merece a máxima diligência.


10. Da Santificação


Cremos que a santificação é o processo pelo qual, segundo a vontade de Deus, nós somos feitos participantes de sua santidade; que ela é uma obra progressiva; que é iniciada na regeneração; e que é efetivada nos corações dos crentes pela presença e poder do Espírito Santo, o Selador e Consolador, no uso contínuo dos meios decretados - especialmente a Palavra de Deus, o auto-exame, a abnegação, a vigilância, e a oração.


11. Da Perseverança dos Santos


Cremos que são crentes legítimos aqueles que resistem até o fim; que seus perseverantes vínculos com Cristo é o grande marco que distingui-os dos professos superficiais; que uma especial providência zela por seu bem-estar; e eles são guardados pelo poder de Deus através da fé para a salvação.


12. Da Harmonia da lei e do Evangelho


Cremos que a Lei de Deus é a regra eterna e imutável de seu governo moral; que ela é santa, justa, e boa; e que a incapacidade que as Escrituras atribuem aos homens caídos de cumprir seus preceitos provém inteiramente de seu amor ao pecado; livrá-los disso, e restaurá-los através de um mediador à obediência não fingida à santa Lei, é um grande fim do evangelho, e dos meios de graça associados com o estabelecimento da Igreja visível.


13. De uma Igreja Evangélica


Cremos que uma Igreja visível de Cristo é uma congregação de crentes batizados, associados pelo pacto na fé e comunhão do evangelho; observando as ordenanças de Cristo; governados por suas Leis, e exercitando os dons, direitos, e privilégios investidos neles pela sua Palavra; que seus únicos oficiais bíblicos são bispos, ou pastores, e diáconos, cujas qualificações, reivindicações, e deveres são definidos nas epístolas a Timóteo e Tito.


14. Do Batismo e da Ceia do Senhor


Cremos que o Batismo cristão é a imersão de um crente em água, em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; para anunciar, em um solene e belo símbolo, nossa fé no Salvador crucificado, sepultado e ressurreto, com seu efeito em nossa morte para o pecado e ressurreição para uma nova vida; que é pré-requisito aos privilégios de uma relação eclesiástica; e à Ceia do Senhor, na qual os membros da Igreja, pelo uso sagrado do pão e do vinho, devem comemorar juntos a morte de Cristo por amor; precedido sempre por solene auto-exame.


15. Do Sábado Cristão


Cremos que o primeiro dia da semana é o dia do Senhor, ou o sábado cristão; e deve ser mantido sagrado para propósitos religiosos, pela abstenção de todo o labor secular e recreações pecaminosas; pela observância devota de todos os meios de graça, tanto privado quanto público; e pela preparação para aquele repouso que restará para o Povo de Deus.


16. Do Governo Civil


Cremos que o governo civil é de nomeação divina para os interesses e boa ordem da sociedade humana; e que devemos interceder pelos magistrados, conscienciosamente honrá-los e obedecê-los; exceto apenas nas coisas opostas à vontade de nosso Senhor Jesus Cristo, que é o único Senhor da consciência, e o príncipe dos Reis da Terra.


17. Do Justo e do Ímpio


Cremos que há uma diferença radical e essencial entre o justo e o ímpio; que apenas tantos quantos por meio da fé são justificados em nome do Senhor Jesus, e santificados pelo Espírito do nosso Deus, são verdadeiramente justos em Sua avaliação; enquanto todos quantos continuam em impenitência e incredulidade são, aos Seus olhos, ímpios, e sob a maldição; e esta distinção mantém-se entre os homens tanto na morte como depois dela.


18. Do Mundo Vindouro


Cremos que o fim do mundo está se aproximando; que no último dia Cristo descerá do céu, e ressuscitará os mortos da sepultura para retribuição final; que uma solene separação então tomará lugar; que o ímpio será condenado à punição, e o justo ao júbilo infindáveis; e que este julgamento fixará para sempre o estado final dos homens no céu ou no inferno, sobre os princípios da justiça.

Confissões Batistas
Levando em consideração a intenção de postar algumas Confissões de Fé Batistas, o texto a seguir "Confissões de Fé na História Batista" de autoria de Franklin Ferreira, é extremamente útil e deverá servir como uma introdução ao assunto.

"Desde o começo o cristianismo confessou sua fé de forma lógica e objetiva, através de credos e confissões, e isto se refletiu na aceitação do Credo Apostólico (390), do Credo Niceno (352) e do Credo de Atanásio (670). Esta expressão vem do latim credo , “creio”. As funções destes credos, desde o princípio, foram oferecer ao candidato ao batismo um modo claro de expor sua fé; um roteiro para instrução na doutrina cristã; compreensão correta das Escrituras e teste de ortodoxia para os pastores; uso na adoração cristã, geralmente depois da leitura das Escrituras, como uma afirmação da fé congregacional. Com a Reforma Protestante, houve uma verdadeira explosão de confissões, designações de uma declaração formal da fé cristã. O valor de uma confissão é permanente, e reside no fato de que um documento confessional estimula a clareza de crença e a franqueza no debate teológico. O próprio Novo Testamento contém trechos de confissões formais de fé (Rm 6.17; I Co 1.21; 11.2; 15.1-8; Gl 6.6; II Ts 2.13; 3.6; I Tm 3.16; Tt 1.9; II Jo 9-10), e estes precedentes bíblicos são um forte apoio para o uso contínuo das confissões. A relação destes documentos com a Escritura é resumida pela Fórmula de Concórdia (1580): “Não são juizes como o é a Sagrada Escritura, porém apenas testemunho e exposição da fé, que mostram como em cada tempo a Sagrada Escritura foi entendida e explicada na igreja de Deus”, e todos os credos, confissões e “outros escritos dos antigos ou dos novos mestres” da igreja, “não devem ser equiparados à Escritura Sagrada, porém todos lhe devem ser completamente subordinados.”

Há uma tendência entre alguns batistas a rejeitarem qualquer formulação doutrinária mais elaborada. Mas os batistas sempre afirmaram sua fé, ao longo da história da Igreja, com confissões. W.J. McGlothlin ( Baptist Confession of Faith, American Baptist Society, 1911, 368 p.) menciona as seguintes: entre os Batistas Gerais (Arminianos) ingleses foram coletadas sete confissões de fé, além do “Credo Ortodoxo” (1677), e três outras sem título; os Batistas Particulares (Calvinistas) contribuíram com quatro confissões de fé, inclusive a “Segunda Confissão de Londres” (1677) e outras quatro confissões escritas por pastores, para suas igrejas. Entre os americanos, são mencionadas duas, entre elas, a “Confissão de Filadélfia” (1742). Haviam mais três, de grupos alemães, franceses e suíços. John Smyth, o iniciador do movimento batista na Inglaterra escreveu os “20 Artigos” (1609), os “38 Artigos” (1610) e, por fim, os “100 Artigos” (1612). Outros grandes batistas que produziram individualmente confissões de fé foram John Clarke, John Bunyan, Benjamin Keach, John Gill e C.H. Spurgeon. William L. Lumpkin ( Baptist Confession of Faith , Philadelphia: The Judson Press, 1959, 420 p.) menciona 39 confissões de fé e 12 outros textos. Nos Estados Unidos, as confissões batistas mais usadas e respeitadas são a “Confissão de Filadélfia” (1742), a “Confissão de New Hampshire” (1833) e a “Fé e Mensagem Batista” (1925). No Brasil, a “Confissão de New Hampshire” foi usada pela Convenção Batista Brasileira de 1920 até 1986, quando foi substituída pela “Declaração Doutrinária”.

Elas, unanimemente, têm uma forte teologia trinitariana e cristológica, e trazem o testemunho batista distintivo da natureza da igreja visível. Apesar de algumas significativas diferenças teológicas, e trazer, evidentemente, um testemunho que em alguns casos está condicionado pelo tempo e cultura, há um espantoso núcleo comum entre a grande maioria destas confissões. Um apelo à suficiência e supremacia das Sagradas Escrituras, uma afirmação da total corrupção da natureza humana, um claro testemunho de que a morte de Cristo na cruz é o único meio de expiação para o pecado do homem, a vital doutrina da justificação pela fé, a necessidade da conversão do coração como uma nova criação operada Espírito Santo e a ligação inseparável entre verdadeira fé e santidade pessoal. Ao afirmarem estas doutrinas, os antigos batistas claramente se colocaram no centro do cristianismo ortodoxo, juntamente com os Pais da Igreja, com os Reformadores, os Puritanos ingleses e os evangelistas do Grande Avivamento ocorrido na Inglaterra e Estados Unidos, afirmando aquilo que no passado, Richard Baxter, e no presente C. S. Lewis, chamaram de “essência” do cristianismo. Se queremos um despertamento que reforme os evangélicos no Brasil, que transforme a decadente sociedade pós-moderna, marcada por relativismo, individualismo e misticismo, precisamos confessar e expor firmemente estas doutrinas em nosso tempo! Como em épocas passadas, elas ainda conservam seu poder! "

sábado, 19 de janeiro de 2008

35 Razões Para Não Pecar

por

Jim Elliff




1 - Porque um pequeno pecado leva a mais pecados.

2 - Porque o meu pecado evoca a disciplina de Deus.

3 - Porque o tempo gasto no pecado é desperdiçado para sempre.

4 - Porque o meu pecado nunca agrada a Deus; pelo contrário, sempre O entristece.

5 - Porque o meu pecado coloca um fardo imenso sobre os meus lideres espirituais.

6 - Porque, no devido tempo, o meu pecado produz tristeza em meu coração.

7 - Porque estou fazendo o que não devo fazer.

8 - Porque o meu pecado sempre me torna menor do que eu poderia ser.

9 - Porque os outros, incluindo a minha família, sofrem conseqüências por causa do meu pecado.

10 - Porque o meu pecado entristece os santos.

11 - Porque o meu pecado causa regozijo nos inimigos de Deus.

12 - Porque o meu pecado me engana, fazendo-me acreditar que ganhei, quando, na realidade, eu perdi.

13 - Porque o pecado pode impedir que eu me qualifique para a liderança espiritual.

14 - Porque os supostos benefícios de meu pecado nunca superam as conseqüências da desobediência.

15 - Porque me arrepender do meu pecado é um processo doloroso, mas eu tenho de arrepender-me.

16 - Porque o pecado é um prazer momentâneo em troca de uma perda eterna.

17 - Porque o meu pecado pode influenciar outros a pecar.

18 - Porque o meu pecado pode impedir que outros conheçam a Cristo.

19 - Porque o pecado menospreza a cruz, sobre a qual Cristo morreu com o objetivo específico de remover o meu pecado.

20 - Porque é impossível pecar e seguir o Espírito Santo, ao mesmo tempo.

21 - Porque Deus escolheu não ouvir as orações daqueles que cedem ao pecado.

22 - Porque o pecado rouba a minha reputação e destrói o meu testemunho.

23 - Porque outros, mais sinceros do que eu, são prejudicados por causa do meu pecado.

24 - Porque todos os habitantes do céu e do inferno testemunharão sobre a tolice deste pecado.

25 - Porque a culpa e o pecado podem afligir minha mente e causar danos ao meu corpo.

26 - Porque o pecado misturado com a adoração torna insípidas as coisas de Deus.

27 - Porque o sofrer por causa do pecado não tem alegria nem recompensa, ao passo que sofrer por causa da justiça tem ambas as coisas.

28 - Porque o meu pecado constitui adultério com o mundo.

29 - Porque, embora perdoado, eu contemplarei novamente o pecado no Tribunal do Juízo, onde a perda e o ganho das recompensas eternas serão aplicados.

30 - Porque eu nunca sei por antecipação quão severa poderá ser a disciplina para o meu pecado.

31 - Porque o meu pecado pode indicar que ainda estou na condição de uma pessoa perdida.

32 - Porque pecar significa não amar a Cristo.

33 - Porque minha indisposição em rejeitar este pecado lhe dá autoridade sobre mim, mais do que estou disposto a acreditar.

34 - Porque o pecado glorifica a Deus somente quando Ele o julga e o transforma em uma coisa útil; nunca porque o pecado é digno em si mesmo.

35 - Porque eu prometi a Deus que Ele seria o Senhor de minha vida.


Renuncie seus direitos
Rejeite o pecado
Renove sua mente
Confie em Deus
______________

Fonte: www.monergismo.com/

domingo, 13 de janeiro de 2008

5 Pontos
da
Confissão de Fé Batista de 1689




DO HOMEM E SUA CONDIÇÃO
Este primeiro ponto refere-se ao Capítulo 6 da Confissão: “A queda do Homem; o Pecado e sua punição”, artigos 2,3 e 4. Comumente se define a condição do homem como de “Total Depravação”, isso não quer dizer que ele não seja capaz de fazer o bem de modo absoluto, mas que é totalmente inabilitado para o bem espiritual.

2. Por esse pecado [o primeiro pecado], nossos primeiros pais decaíram de sua condição original de retidão e comunhão com Deus. No pecado deles nós também pecamos, e por isso a morte veio sobre todos; [3] todos se tornaram mortos no pecado [4] e totalmente corrompidos, em todas as faculdades e partes do corpo e da alma.[5]

[3] Romanos 3:23.
[4] Romanos 5:12-21.
[5] Tito 1:15; Gênesis 6:5; Jeremias 17:9; Romanos 3:10-19.

3. Sendo eles os ancestrais e, pelo desígnio de Deus, os representantes de toda humanidade, a culpa do pecado foi imputada a toda a sua posteridade, e a corrupção natural passou a todos os seus descendentes, [6] por nascimento, visto que todos são concebidos em pecado. [7] E são por sua natureza filhos da ira, [8] escravos do pecado e passíveis de morte; [9] e todos estão sujeitos às misérias espirituais, temporais e eternais, amenos que o Senhor Jesus os liberte [10]


[6] Romanos 5:12-19; I Coríntios 15:21-22,45,49.
[7] Salmo 51:5; Jó 14:4.
[8] Efésios 2:3.
[9] Romanos 6:20; Romanos 5:12.
[10] Hebreus 2:14-15; I Tessalonicenses 1:10.


4. Da corrupção natural procedem todas as atuais transgressões, [11] porque ela nos torna completamente indispostos, incapacitados e contrários a todo bem, e totalmente inclinados para todo o mal. [12]


[11] Tiago 1:14-15; Mateus 15:19.
[12] Romanos 8:7; Colossenses 1:21.

DA SOLUÇÃO DIVINA
Este segundo ponto refere-se ao Capítulo 3 da Confissão: “Do Decreto de Deus”, art.5. Este segundo ponto é definido como “Eleição Incondicional”, uma conseqüência natural, lógica e bíblica da doutrina da depravação total. Se o homem está morto em seus delitos e pecados, segue-se que a solução para essa condição está fora dele, no caso, em Deus.



5. Dentre a humanidade, aqueles que são predestinados para a vida, Deus os escolheu em Cristo para glória eterna; e isto de acordo com o seu propósito eterno e imutável, pelo conselho secreto e pelo beneplácito da sua vontade, antes da fundação do mundo, apenas por sua livre graça e amor, [11] nada havendo em suas criaturas que servisse como causa ou condição para essa escolha. [12]


[11] Efésios 1:4,9,11; Romanos 8:30; II Timóteo 1:9; I Tessalonicenses 5:9.
[12] Romanos 9:13,16; Efésios 2:5,12.


6. Deus não apenas designou os eleitos para glória, de acordo com o propósito eterno e espontâneo da sua vontade, mas também preordenou todos os meios pelos quais o seu propósito será efetivado. [13] Por isso os eleitos, achando-se caídos em Adão, são redimidos em Cristo [14] e chamados eficazmente para a fé nEle, pela ação do Espírito Santo, e no seu devido tempo; e são justificados, adotados, santificados [15] e guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para salvação. [16 ]
Ninguém mais é redimido por Cristo, chamado eficazmente, justificado, adotado, santificado e salvo, senão unicamente os eleitos. [17]


[13] I Pedro 1:2; II Tessalonicenses 2:13.
[14] I Tessalonicenses 5:9-10.
[15] Romanos 8:30; II Tessalonicenses 2:13.
[16] I Pedro 1:5.
[17 ]João 10:26; João 17:9; João
6:64.

DA EXPIAÇÃO EFICAZ POR CRISTO
Esse terceiro ponto refere-se ao Capítulo 8: “Cristo, o Mediador”, artigos 4,5,6 e 8. Costuma-se definir esse ponto como “Expiação Particular” cujo significado básico é que Cristo morreu especificamente por aqueles que nEle crêem, isto é, os eleitos.

4. Esse ofício o Senhor Jesus assumiu de muitíssima boa vontade [21] e cumpriu perfeitamente; foi para isso que nasceu sob a lei. [22] Ele suportou o castigo que a nós era devido, que nós deveríamos ter recebido e sofrido. [23] E foi feito pecado e maldição, por nossa causa, [24] suportando as tristezas mais aflitivas em sua alma, e os sofrimentos mais dolorosos em seu corpo. [25] Foi crucificado e morreu; e, embora tenha estado sob o poder da morte, seu corpo não viu corrupção. [26] Ao terceiro dia Ele se levantou dentre os mortos,27 com o mesmo corpo em que havia sofrido, [28] e com o qual ascendeu ao céu. [29] Ele está assentado à direita de seu Pai, como intercessor, [30] e voltará para julgar homens e anjos, no fim do mundo. [31]


[21] Salmo 40:7-8; Hebreus 10:5-10; João 10:18.
[22] Gálatas 4:4; Mateus 3:15.
[23] Gálatas 3:13; Isaías 53:6; I Pedro 3:18.
[24] II Coríntios 5:21.
[25] Mateus 26:37-38; Lucas 22:44; Mateus 27:46.
[26] Atos 13:37.
[27] I Coríntios 15:3-4.
[28] João 20:25,27.
[29] Marcos 16:19; Atos 1:9-11.
[30] Romanos 8:34; Hebreus 9:24.
[31] Atos 10:42; Romanos 14:9-10; Atos 1:11; II Pedro 2:4.



5. Por sua obediência perfeita, e pelo sacrifício que fez de si mesmo (que Ele, pelo Espírito Santo, ofereceu a Deus uma única vez), o Senhor Jesus satisfez plenamente a justiça de Deus,[32] obteve a reconciliação e adquiriu uma herança eterna no reino dos céus, para todos quantos foram dados a Ele pelo Pai.[33]


[32] Hebreus 9:14; Hebreus 10:14; Romanos 3:25-26.
[33] João 17:2; Hebreus 9:15.


6. O preço da redenção não foi pago por Cristo senão após a sua encarnação. No entanto, a virtude, a eficácia e os benefícios da redenção foram sucessivamente comunicados aos eleitos, em todas as eras, desde o começo do mundo, nas – e através das – promessas, tipos e sacrifícios em que Cristo foi revelado, e que o apontavam como o descendente da mulher, aquele que iria esmagar a cabeça da serpente; [34] e como o Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo, [35] o mesmo ontem, hoje e para sempre. [36]


[34] I Coríntios 10:4; Hebreus 4:2; I Pedro 1:10-11.
[35] Apocalipse 13:8.
[36] Hebreus 13:8.


8. Cristo certamente aplica e comunica eficazmente a redenção eterna, para todos quantos Ele a obteve: fazendo intercessão por eles; [38] unindo-os a si mesmo por seu Espírito; revelando-lhes o mistério da salvação, na Palavra e pela Palavra; persuadindo-os a crer e obedecer;[39] governando os corações deles por seu Espírito e sua Palavra; [40] e vencendo todos os inimigos deles, por seu poder e sabedoria infindos, [41] de modo tal e por caminhos que são os mais harmoniosos com a sua maravilhosa e insondável providência; e tudo por sua graça livre e soberana, sem a precondição de neles ter sido vista de antemão uma busca pela redenção. [42]


[38] João 6:37; João 10:15-16; João 17:9; Romanos 5:10.
[39] João 17:6; Efésios 1:9; I João 5:20.
[40] Romanos 8:9,14.
[41] Salmo 110:1; I Coríntios 15:25-26.
[42] João 3:8; Efésios 1:8
.

DA PODEROSA GRAÇA DE DEUS
O quarto ponto refere-se ao Capítulo 10 da Confissão: “A Chamada Eficaz”, artigos 1 e 2. Geralmente se denomina “Graça Irresistível”, que não implica em violência a vontade humana, mas simplesmente que não pode ser frustrada.

1. Aqueles a quem Deus predestinou para a vida, Ele se agrada em chamar eficazmente, [1] no tempo aceitável e por Ele mesmo determinado; por meio de sua Palavra e de seu Espírito; do estado natural de pecado e morte, para a graça e a salvação por Jesus Cristo. [2]
Isso Deus faz iluminando-lhes a mente de maneira espiritual e salvadora, para que compreendam as coisas de Deus; [3] tirando-lhes o coração de pedra e dando-lhes um coração de carne; [4] renovando-lhes a vontade e, pela sua onipotência, predispondo-os para o bem e trazendo-os irresistivelmente para Jesus Cristo. [5] No entanto, eles vêm a Cristo espontânea e livremente, porque a graça de Deus lhes dispõe o coração para isso. [6]


[1] Romanos 8:30; Romanos 11:7; Efésios 1:10-11; II Tessalonicenses 2:13-14.
[2] Efésios 2:1-6.
[3] Atos 26:18; Efésios 1:17-18.
[4] Ezequiel 36:26.
[5] Deuteronômio 30:6; Ex.36:27; Efésios 1:19.
[6] Salmo 110:3; Cantares de Salomão 1:4.


2. A chamada eficaz é resultante da graça especial e gratuita, de Deus, e não de algo que de antemão seja visto no homem; e nem de poder algum ou ação da criatura cooperando com a graça especial de Deus. [7] Por estar morta em pecados e transgressões, a criatura mantém-se totalmente passiva, até que, na chamada eficaz, ela seja vivificada e renovada pelo Espírito Santo. [8] A pessoa, então, é habilitada a responder a essa chamada e a abraçar a graça que ela comunica e oferece. Para isso é necessário um poder que de modo nenhum é menor do que aquele que ressuscitou a Cristo dentre os mortos. [9]


[7] II Timóteo 1:9; Efésios 2:8.
[8] I Coríntios 2:14; Efésios 2:5; João 5:25.
[9] Efésios 1:19-20.


DA SALVAÇÃO ETERNA
O quinto ponto refere-se ao Capítulo 17 da Confissão: “A Perseverança dos Santos” que significa que os que os salvos não podem perder a salvação.

1.Os que Deus aceitou no Amado, aqueles que foram chamados eficazmente e santificados por seu Espírito, e receberam a fé preciosa (que é dos seus eleitos), esses não podem decair totalmente nem definitivamente do estado de graça. Antes, hão de perseverar até o fim e ser eternamente salvos, tendo em vista que os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis, e Ele continuamente gera e nutre neles a fé, o arrependimento, o amor, a alegria, a esperança e todas as graças que conduzem à imortalidade. [1] Ainda que muitas tormentas e dilúvios se levantem e se dêem contra eles, jamais poderão desarraigá-los da pedra fundamental em que estão firmados, pela fé.
Não obstante, a visão perceptível da luz e do amor de Deus pode, para eles, cobrir-se de nuvens e ficar obscurecida, [2] por algum tempo, por causa da incredulidade e das tentações de Satanás. Mesmo assim, Deus continua sendo o mesmo, [3] e eles serão guardados pelo poder de Deus, com toda certeza, até a salvação final, quando entrarão no gozo da possessão que lhes foi comprada; pois eles estão gravados nas palmas das mãos de seu Senhor, e os seus nomes estão escritos no Livro da Vida, desde toda eternidade.


[1] João 10:28-29; Filipenses 1:6; II Timóteo 2:19; I João 2:19.
[2] Salmo 89:31-32; I Coríntios 11:32.
[3] Malaquias 3:6.


2. Esta perseverança não depende de um livre-arbítrio da parte dos santos; mas, sim, decorre da imutabilidade do decreto da eleição, [4] fluindo do amor gratuito e inalterável de Deus Pai, sobre a eficácia do mérito e da intercessão de Jesus Cristo; da união com Ele; [5] do juramento de Deus; [6] da habitação de seu Espírito e da semente de Deus dentro neles; [7] da natureza do pacto da graça. [8] De tudo isso decorrem também a certeza e a infalibilidade da perseverança dos santos.


[4] Romanos 8:30; Romanos 9:11,16.
[5] Romanos 5:9-10; João 14:19.
[6] Hebreus 6:17-18.
[7] I João 3:9.
[8] Jeremias 32:40.


3. Levados pela tentação de Satanás e do mundo, pela prevalência da corrupção que ainda permanece dentro deles, ou pela negligência aos meios para a sua própria preservação, os santos podem incorrer em tristes pecados, e continuar em tais pecados, por algum tempo. [9]
Desse modo, eles caem em desagrado perante Deus e entristecem o seu Santo Espírito; [10] vêem-se privados de bênçãos e confortos; [11] têm os seus corações endurecidos e ferida a consciência; [12] ofendem e escandalizam outras pessoas; e fazem vir sobre si mesmos os juízos de Deus, ainda neste mundo. [13]
Não obstante, eles renovarão o seu arrependimento, e serão preservados através da fé em Cristo Jesus, até o fim. [14]


[9] Mateus 26:70,72,74.
[10] Isaías 64:5,9; Efésios 4:30.
[11] Salmo 51:10,12.
[12] Salmo 32:3-4.
[13] II Samuel 12:14.

[14] Lucas 22
:
32,61-62.




Palavras de Charles H. Spurgeon ao publicar a Confissão:




Não estejais envergonhados de vossa fé; lembrai-vos de que ela é o antigo evangelho dos mártires, dos confessores, dos reformadores e dos santos. Acima de tudo vivei em Cristo Jesus e caminhai nEle, dando ouvidos a nenhum ensinamento senão aquele manifestamente aprovado por Ele e de propriedade do Espírito Santo. Apegai-vos com firmeza à Palavra de Deus, que aqui está, mapeada para vós.


Silas Roberto
Soli Deo Glória!

Recomendo a leitura de:
Os Cinco Pontos do Calvinismo, W. J. Seaton, PES
TULIP, D. E. Spencer, CEP
Fé para Hoje, Fiel

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

John Wycliffe
“O amor de Cristo nos constrange”

por

Pr. Franklin Ferreira




Uma igreja em declínio

Durante o século XV houve algumas tentativas de reforma da igreja, mas esta reforma não era dirigida contra as questões doutrinárias, mas mais contra a vida religiosa na prática, em particular contra os abusos presentes na igreja medieval. Ao mesmo tempo, houve outro movimento de reforma muito mais radical, que não se contentava em atacar questões referentes à vida e aos costumes, mas queria corrigir também as doutrinas da igreja, ajustando-as à mensagem do evangelho. Entre os que seguiram este caminho, os que mais se destacaram foram John Wycliffe e Jan Huss (1370-1415). Wycliffe viveu durante a época do “cativeiro babilônico” do papado (quando o papado foi estabelecido em Avignon, na França), e no início do “Grande Cisma” (que começou em 1378, quando dois papas rivais tentaram exercer autoridade sobre a igreja). Estes homens prepararam o caminho para a reforma protestante do século XVI.

A época em que Wycliffe viveu era caracterizada pela incerteza e pressões comuns à nossa época. A “peste negra” varreu a Inglaterra e a Europa e, em alguns lugares, um terço da população foi morta. O que ficou conhecido como a “Guerra dos Cem Anos” entre a Inglaterra e a França minou energias e recursos. A igreja possuía mais de um terço das terras da Inglaterra. O clero era normalmente inculto e imoral. Altos cargos na igreja eram comprados ou dados como favores políticos. Aos ingleses desagradava enviar dinheiro para um papa em Avignon, que estava sob influência do inimigo da Inglaterra, o rei da França. O controle dos salários relegava os pobres a uma existência marginalizada e conduziu à violenta Revolta dos Camponeses na Inglaterra, em 1381.


Um erudito cristão

Sabemos muito pouco da juventude de John Wycliffe, que nasceu em cerca de 1328, em uma rica família inglesa, em Hipswell, no Condado de Yorkshire. Parece que ele teve uma infância típica em uma pequena aldeia da Inglaterra, e uma juventude dedicada quase exclusivamente ao estudo. Ele começou sua vida acadêmica aos treze anos, indo estudar na Universidade de Oxford, no Balliol College. A Universidade de Oxford tinha alcançado grande reconhecimento, tendo sido considerada por muitos como a principal universidade na Europa. Tristemente, naquela época, em lugar de estudar as Escrituras, os homens gastavam o tempo estudando filósofos como Tomás de Aquino (c. 1224-1274) e John Duns Scotus (1265-1308). Porém havido um homem realmente cristão que era professor no Balliol College. O nome dele era Tomás de Bradwardine (falecido em 1349). Ele estava terminando sua carreira aproximadamente ao mesmo tempo em que Wycliffe estava começando a sua. Bradwardine estava pronto aceitar o que Deus tinha revelado em sua Palavra. Ele viu o caminho que outros perderam. Ele ensinou a verdade do Evangelho que Deus salva os homens de seus pecados por meio de sua livre graça. Luz começou a raiar na Europa por causa deste grande homem.

Wycliffe continuou seus estudos, financiando-os de uma forma duvidosa, mas de modo muito comum em sua época – aceitou um ofício pastoral e o salário atribuído a ele, mas sem cumprir suas obrigações. Isto possibilitou continuar sua carreira acadêmica em Oxford, recebendo seu doutorado em 1372, quando se tornou um dos mais brilhantes teólogos e filósofos de sua época.

Wycliffe saiu da universidade em 1371, para se colocar a serviço da coroa, ajudado pelo poderoso John de Gaunt, o Duque de Lancaster, filho de Eduardo III. Gaunt foi o governante de fato da Inglaterra, entre 1377 a 1381, depois da morte do pai, enquanto Ricardo II não tinha idade suficiente para reinar. Na época, havia tensões entre o trono inglês e o papado romano, particularmente com referência a certos impostos que o papado estava exigindo da Inglaterra. Wycliffe saiu em defesa da coroa, atacando a teoria que dizia que o poder temporal (estatal) se origina do espiritual (eclesiástico). Ele participou também de uma embaixada em 1375, em Bruges, na Bélgica, em que discutiu com os legados do papa os pontos em debate. Parece que sua lógica inflexível, aliado a sua falta de senso da realidade política, tornava-o pouco apto para o serviço diplomático, e por isto ele não voltou a ser enviado em missões semelhantes. A partir de então ele foi usado principalmente como um polemista demolidor, que o estado inglês empregava contra seus inimigos da igreja.

Este debate em que se envolveu, somada ao escândalo do “Grande Cisma”, o conduziu a posições cada vez mais ousadas, atacando não apenas o papa e os poderosos senhores da igreja, mas também os poderosos do estado. Em seu entendimento, assim como o poder espiritual tinha seus limites, o temporal também os tinha. Ele também argumentou que apenas o governante piedoso pode exercer a autoridade corretamente, e que governantes ímpios não tem autoridade legítima – sejam eles nobres, reis ou papas. Por causa disto, os nobres que antes o apoiavam foram se separando dele, deixando-o cada vez mais só.


Um crítico da Igreja

Wycliffe então voltou para a Universidade de Oxford, onde tinha muitos seguidores e admiradores. Mas também ali o cerco se fechava. Ele tem sido chamado de a “estrela da manhã da Reforma”, porque audaciosamente questionou a autoridade papal, criticou a venda de indulgências (a qual supostamente libertava as pessoas do castigo do purgatório), falou abertamente contra a hierarquia eclesiástica e negou a realidade da transubstanciação – a igreja romana dizia que a substância do pão e do vinho é mudada em corpo e sangue de Jesus Cristo durante a missa. Ele entendia que a substância dos elementos era indestrutível e que Cristo estava apenas espiritualmente presente no sacramento. Em suas palavras, “quando vemos a hóstia não devemos crer que ela própria é o corpo de Cristo, mas que o corpo de Cristo está sacramentalmente escondido nela... A nós cristãos é permitido negar que o pão que consagramos é idêntico ao corpo de Cristo, embora seja ele um sinal eficiente dele... [Aqueles que identificam] falham em distinguir entre a figura e a coisa figurada e em considerar o significado figurativo... O receber espiritual do corpo de Cristo consiste não num receber corpóreo, no mastigar ou tocar da hóstia consagrada, mas no alimentar da alma de fé frutífera conforme a qual nosso espírito é alimentado no Senhor... Porque nada é mais horrível do que a necessidade de comer a carne materialmente e o beber o sangue materialmente de um homem amado [Jesus Cristo] tão claramente” (A Eucaristia 1:2, 11; 7:58; 1:15). Se adotada, a posição de Wycliffe significaria que o sacerdote não mais reteria a salvação de alguém por ter em suas mãos o corpo e o sangue de Cristo na comunhão. A posição de Wycliffe não é totalmente clara, e tem sido reclamada tanto pelos seguidores de Martinho Lutero como pelos de João Calvino.

Seus ataques contra os monges (as ordens monásticas eram comprometidas com a pobreza, mas toda a sua considerável riqueza era mantida de forma injusta, não lhes pertencendo de forma legítima), que tinham começado anos antes, lhe valeram muitos inimigos. Em 1377, o papa Gregório XI condenou John Wycliffe por seus ensinamentos e pediu que a Universidade de Oxford o demitisse. Por instigação do arcebispo de Canterbury, Simon de Sudbury, o reitor da universidade convocou uma assembléia para discutir os ensinos de Wycliffe sobre a ceia, e esta assembléia o condenou por estreita margem de votos, em 1380. Mesmo assim, muitos em Oxford ainda o defendiam, e as autoridades não se atreviam a tomar atitudes contra ele. Durante vários meses ele esteve preso em sua casa, privado da liberdade, mas com permissão para continuar escrevendo seus livros, cada vez mais agressivos. Em 1381, a Revolta dos Camponeses na Inglaterra forçou a igreja e os nobres a cooperarem entre si na restauração da lei e da ordem. Embora Wycliffe não estivesse envolvido na rebelião, aqueles que se opunham a ele alegavam que a revolta fora resultado de seus ensinos. Aproveitando-se da situação, os líderes da igreja inglesa forçaram seus seguidores a saírem de Oxford.


Tradutor das Escrituras

Por causa das pressões de um velho inimigo, William Courtenay, que era bispo de Londres, Wycliffe se retirou para a igreja paroquial de Lutterworth, perto de Rugby, em 1382. Com o passar dos anos, ele foi dando cada vez mais ênfase na autoridade das Escrituras, em detrimento da autoridade do papa e das tradições eclesiásticas. Ele entendia que as Escrituras pertencem à igreja, e por isto devem ser interpretadas dentro dela e por ela. Para ele, as Escrituras contém tudo que é necessário para a salvação, sem qualquer necessidade de tradições adicionais.

Além disto, ele acreditava que o melhor caminho para prevalecer em sua luta contra a autoridade abusiva da igreja católica era tornar a Bíblia acessível às pessoas em sua própria língua. Desse modo, poderiam ler por si mesmas acerca da forma como cada uma poderia ter um relacionamento pessoal com Deus através de Jesus Cristo – independente de qualquer autoridade eclesiástica. Como ele disse: “As palavras de Deus darão aos homens nova vida mais do que as outras palavras lidas por mero prazer. Oh, maravilhoso poder da Divina Semente que vence homens fortes e armados, amacia os corações duros e renova e transforma em homens piedosos aqueles que tinham sido brutalizados pelos pecados, e se afastaram infinitamente de Deus. Obviamente tal miraculoso poder nunca poderia ser operado pelo trabalho de um sacerdote, se o Espírito da Vida, e a Eterna Palavra, acima de qualquer outra coisa, não operassem”. Em 1382, atacou a autoridade do papa, dizendo num livro que Cristo e não o papa era o chefe da igreja. Afirmou que a Escritura e não a igreja era a autoridade única para o crente e que a igreja romana deveria se modelar segundo o padrão da igreja do Novo Testamento.

Em Lutterworth, Wycliffe e alguns de seus antigos alunos, completaram a tradução do Novo Testamento por volta de 1380 e o Antigo Testamento em 1382. Enquanto Wycliffe concentrava seus esforços no Novo Testamento, um de seus amigos, Nicolau de Hereford, trabalhava sob sua supervisão na tradução do Antigo Testamento. Wycliffe e seus companheiros, por não conhecerem o hebraico e o grego originais, traduziram o texto do latim para o inglês – usando a tradução latina de Jerônimo, escrita à mão a mais de 100 anos. Um dos amigos mais chegados de Wycliffe, John Purvey (c. 1353-1428), continuou a obra de Wycliffe, lançando, em 1388, uma revisão de sua tradução. Purvey era um erudito, e seu trabalho foi muito bem recebido por sua geração e pelas que se seguiram. Menos de um século depois, a edição revista de Purvey havia substituído a Bíblia inicial de Wycliffe. Eles foram os primeiros ingleses a traduzir toda a Bíblia do latim para o inglês.

Outros de seus escritos, além dos seus trabalhos sobre os problemas da Igreja e do Estado, incluíam tratados de lógica e metafísica e numerosos livros e sermões teológicos. Em um sermão intitulado “O amor de Jesus” ele expressa de forma comovente seu amor por Cristo, que o constrangeu a se lançar à obra de reforma da igreja: “A não ser que um homem seja primeiro purificado por provações e tristezas, ele não pode alcançar a doçura do amor de Deus. Oh, tu amor eterno, inflama minha mente para que eu ame a Deus, que incendeie tudo, menos o Seu chamado. Oh, bom Jesus! Quem mais poderia me dar o que sinto de Ti. Agora, Tu deves ser sentido, e não visto. Entra nos mais íntimos recessos da minha alma; entra no meu coração e enche-o completamente com Tua claríssima doçura; faze com que minha mente beba profundamente do forte vinho do Teu doce amor; pois somente Tua presença é para mim consolo ou conforto, e só Tua ausência me deixa entristecido. Oh, Tu, Santo Espírito, que sopras onde queres, entra em mim, atrai-me a Ti, para que eu possa desprezar e ter em nada em meu coração todas as coisas deste mundo. Inflama o meu coração com o Teu amor que para sempre arderá sobre o Teu altar. Vem, eu te imploro, doce e verdadeira alegria; vem doçura tão desejável; vem meu amado, que és todo o meu conforto”. Esse amor deveria ser uma força impulsora para todos os cristãos hoje.


Precursor da Reforma

E foi também por este amor que, em pouco tempo, o país se viu invadido pelos “lolardos”, ou “pregadores pobres”. Vários dos seus discípulos se dedicaram a divulgar suas doutrinas entre o povo, ainda durante a vida do mestre de Oxford. As doutrinas dos “lolardos” eram claras: A Bíblia deveria ser colocada à disposição do povo em seu próprio idioma. As distinções entre o clero e os leigos, com base no rito de ordenação eram contrárias às Escrituras. Clérigos injustos deveriam ser desobedecidos. A principal função dos ministros de Deus deveria ser pregar, e eles deveriam ser proibidos de ocupar cargos públicos, pois “ninguém pode servir a dois senhores”. Além disto o celibato de sacerdotes e monges era uma abominação que produzia imoralidade, aberrações sexuais, abortos e infanticídios. O culto às imagens, as peregrinações, as orações em favor dos mortos e a doutrina da transubstanciação eram pura magia e superstição.

Os “lolardos” incluíam estudantes da Universidade de Oxford, pequenos proprietários e muitos pobres das áreas rurais e urbanas. A igreja romana, através de uma declaração apoiada pelo Parlamento, em 1401, passou a perseguir e castigar com a pena de morte a pregação dos “lolardos”. Alguns estudiosos acham que esta perseguição foi eficaz na destruição do movimento até o fim do século XV. Outros argumentam que a influência deste grupo foi preservada em certos lugares e inspiraram a Reforma no século XVI. Mas a influência de Wycliffe foi muito mais forte na Europa continental. O casamento de Ricardo II, da Inglaterra, com Anne da Boêmia, firmou vínculos espirituais com a Boêmia (atual República Tcheca). Pela influência da rainha, os trabalhos de Wycliffe foram levados para a Boêmia, onde Jan Huss foi grandemente influenciado por eles. Suas idéias foram levadas para este país através de estudantes tchecos que estudavam na Universidade de Oxford (entre eles, Jerônimo de Praga), lançando os fundamentos dos ensinos de Huss. Através de sua influência na Boêmia, Wycliffe realmente foi um precursor da Reforma protestante.

Wycliffe continuou escrevendo até sua morte, no Natal de 1384, em conseqüência de um derrame cerebral. Já que faleceu estando em comunhão com a igreja, protegido da fúria da igreja por seus amigos ligados à nobreza, ele foi enterrado em terreno consagrado. Mas sua influência continuou tão forte que os ensinos de Wycliffe foram formalmente condenados, no concílio de Constança (1414-1418), trinta anos mais tarde. Ordens foram dadas para que seus escritos fossem destruídos, desenterraram seus ossos, queimaram-nos e lançaram suas cinzas no rio Swift. De qualquer maneira, as autoridades pensaram que, ao queimar seus restos mortais, eles poderiam apagar sua memória. Mas tais ações não poderiam parar a fome pela Palavra de Deus e pela verdade.

Como disse o historiador Thomas Fuller: “Eles queimara seus ossos até às cinzas / e as lançaram na correnteza, / um riacho próximo que corria velozmente. / Assim o riacho levou as cinzas para o Avon, / o Avon para o Severn; o Severn para os mares estreitos; / e eles para o oceano. E assim as cinzas de Wycliffe são o emblema da sua doutrina / que agora está espalhada para o mundo todo”. Uma grande organização evangélica missionária, fundada em 1942, recebeu seu nome, e, em cooperação com outros ministérios semelhantes, os tradutores da “Associação Wycliffe para Tradução da Bíblia” (Wycliffe Bible Translators) almejam traduzir a Bíblia para cada uma das 2.500 línguas restantes sobre a Terra que não têm as Sagradas Escrituras.


O autor: Franklin Ferreira (Bacharel em Teologia, Mestre em Teologia, Bacharelando em Educação e Doutorando em Teologia) é professor de teologia sistemática no Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, no Rio de Janeiro, e na Escola de Pastores, em Niterói.


fonte: http://www.monergismo.com/


Abraham Kuyper
por
John Hendrik





O dr. Abraham Kuyper nasceu em Maassluis, na Holanda, em 29 de Outubro de 1837. Seus pais eram o Rev. Jan Hendrik e Heriette Huber Kuyper. Em Maassluis, e em Middelburg, onde seu pai foi chamado em 1849, freqüentou a escola. Seus professores, nos é dito, tomaram-no a princípio como um menino lento no entendimento. Eles devem ter mudado sua opinião quando, com a precoce idade de doze anos, estava habilitado a entrar no Ginásio em Middelburg. No tempo oportuno foi matriculado na Universidade de Leyden, na qual foi graduado com a mais alta honra. Foi também aqui que obteve seu Doutorado em Teologia Sagrada em 1863, quando estava com cerca de vinte e seis anos de idade.
Um ano mais tarde, começou seu ministério em Beesd; foi então chamado para Utrecht, e dali, em 1870, para Amsterdam. Em 1872, tornou-se Editor Chefe do De Standaard (O Estandarte), um jornal diário, e o órgão oficial do partido Anti-Revolucionário, que na política representa o contingente protestante da nação holandesa. Pouco depois ele assumiu a função de editor do De Heraut (O Arauto), um jornal semanal distintivamente cristão, publicado às sextas-feiras. Por mais de quarenta e cinco anos, ocupou ambas exigentes posições com extraordinário poder e vigor.
Em 1874, foi eleito membro da Casa Baixa do Parlamento, [1] função que exerceu até 1877. Em 1880, fundou a Universidade Livre de Amsterdam, a qual tomava a Bíblia como a base incondicional sobre a qual deveria ser erguida toda a estrutura do conhecimento humano em cada departamento da vida.
Então seguiram-se vinte anos de árduo labor, na Universidade e fora dela, quando alguns de seus maiores tratados foram escritos, cobrindo um período que pode bem ser considerado como tendo exercido uma influência muito importante na história eclesiástica e política de seu país. Foi por seu labor quase sobre-humano, não menos do que por sua força e nobreza de caráter, que deixou “pegadas nas areias do tempo” com tal indelével clareza que em 1907, quando de seu 70 º aniversário foi realizada uma celebração nacional, sendo dito: “A história da Holanda na igreja, no Estado, na imprensa, na escola e nas ciências dos últimos quarenta anos, não pode ser escrita sem a menção de seu nome em quase todas as páginas, pois durante este período a biografia do dr. Kuyper é, numa extensão considerável, a história da Holanda.”
Em 1898, ele visitou os Estados Unidos da América, onde proferiu as “Palestras Stone” no Seminário Teológico de Princeton. Foi então que a Universidade de Princeton conferiu a ele o Doutorado em Direito (São estas palestras que estão contidas nas páginas deste presente volume.).
Após seu retorno à Holanda, ele reassumiu seu trabalho como líder do partido Anti-Revolucionário, até que, em 1901, foi convocado pela Rainha Wilhelmina para formar um Ministério. Serviu como primeiro-ministro até 1905. A seguir, gastou mais de um ano em viagem, um relato descritivo da qual apareceu numa obra de dois volumes, Om de Oude Wereld-Zee (Ao Redor do Velho Mar Mundial), da qual toda edição foi vendida antes de ser impressa.

Foto tirada na data da posse como primeiro-ministro

Depois disto, o dr. Kuyper residiu em Haia como Ministro de Estado, na opinião pública a figura mais importante na terra, e em alguns aspectos sem igual no mundo. Aos 75 anos de idade, começou uma série de artigos semanais na coluna do De Heraut: “Van de Voleinding” (Do fim do Mundo), 306 artigos ao todo. A série levou seis anos para ser completada. De Maasbode , uma publicação Católica Romana dos Países Baixos, refere-se a esta obra como, “a mais excepcional e sem rival em toda literatura sobre o assunto.” Referências ao fim do mundo são delineadas através de todos os livros da Bíblia, cuidadosamente expostas, enquanto o Apocalipse de João é tratado seção por seção. Quando estava com 82 anos, o velho dr. Kuyper estava traçando planos para outra grande obra sobre O Messias , mas o fim veio em 8 de Novembro de 1920.
Durante todos estes anos sua obra foi multiforme a um grau estarrecedor. Como tem sido dito: “Nenhum departamento do conhecimento humano era estranho a ele.” E quer o tomemos como estudante, pastor ou pregador; como lingüista, teólogo ou professor universitário; como líder de partido, organizador ou estadista; como filósofo, cientista, publicista, crítico ou filantropo – há sempre “algo incompreensível nos poderosos labores deste lutador incansável; sempre algo tão incompreensível quanto o gênio sempre é.” Mesmo aqueles que discordaram dele, e foram muitos, o honraram como “um oponente de dez cabeças e umas cem mãos.” Aqueles que compartilharam sua visão e seus ideais o apreciaram e o amaram “como um dom de Deus para nossa época.”
Qual era o segredo deste poder quase sobre-humano?
Em 1897, no 25º aniversário de sua função como editor do De Standaard , o dr. Kuyper disse: “Um desejo tem sido a paixão predominante de minha vida. Uma grande motivação tem agido como uma espora sobre minha mente e alma. E antes que seja tarde, devo procurar cumprir este sagrado dever que é posto sobre mim, pois o fôlego de vida pode me faltar. O dever é este: Que apesar de toda oposição terrena, as santas ordenanças de Deus serão estabelecidas novamente no lar, na escola e no Estado para o bem do povo; para esculpir, por assim dizer, na consciência da nação as ordenanças do Senhor, para que a Bíblia e a Criação dêem testemunho, até a nação novamente render homenagens a Deus.”
Poucos homens tiveram um ideal como este diante de si. Poucos homens foram tão obedientes às exigências de um tal propósito de vida como ele, pois literalmente deu seu próprio corpo, alma e espírito a este alto chamado. Ele procurava administrar bem seu tempo. Cada hora do dia e da noite tinha sua própria tarefa. Seus escritos contam mais de duzentas obras, muitas das quais de três e quatro volumes cada, e cobrem uma série extraordinária de assuntos.
Como homem, apreciava singularmente uma palavra ou ato de bondade por parte dos outros. O escritor desta nota fala aqui de uma experiência pessoal. O dr. Kuyper conhecia algo da santa arte de amar. Orgulhava-se de ser um homem do povo. É lembrado por muitos com admiração e gratidão, que embora pressionado por seus labores multifários, [2] nunca recusou audiência a qualquer um que viesse a ele para conselho ou ajuda.
O dr. Kuyper nunca reivindicou originalidade. Sua vida e labores não podem ser explicados somente por ele mesmo. Nos restringiremos aqui às correntes ocultas mais profundas de sua vida espiritual, como o segredo de seu poder fenomenal.
Nos seus primeiros anos, a vida religiosa em seu país estava em decadência. “A vida eclesiástica estava fria e formal. A religião estava quase morta. Não havia Bíblia nas escolas. Não havia vida na nação.”
Mas não eram raros os sinais de coisas melhores por vir. Já em 1830, Groen van Prinsterer, um membro do Parlamento começou a protestar contra o espírito dos tempos. “Isto produziu um reavivamento da proclamação do evangelho – que por natureza todos os homens são pecadores necessitando do sangue expiador de Cristo. Isto foi encarado como grande ofensa por muitos. Não demorou muito até que os evangélicos não fossem mais tolerados. Não era a irreligião que era procurada, mas uma religião que agradasse a cada um, inclusive os judeus.”
Por isso, quando o assunto deste esboço estava com um estudante universitário, não era de se estranhar que ele não sentisse inclinação para o ministério do evangelho. Ele disse que não tinha simpatia por uma igreja que espezinhou sua própria honra; nem por uma religião que era apresentada por uma igreja como essa. Ele acompanhou a corrente moderna, e entusiasticamente tomou parte em aplaudir o professor Rauwenhoff, que abertamente negou a ressurreição corporal de Jesus.
Uma série de experiências, contudo, produziu profunda impressão sobre o jovem erudito.
A Universidade de Groningen ofereceu um prêmio para o melhor ensaio sobre João de Lasco, o grande reformador polonês. Por recomendação de seus professores, Kuyper resolveu tornar-se um dos competidores. Imagine seu desapontamento quando após uma cuidadosa pesquisa em todas as grandes bibliotecas de seu país e nas de toda Europa não conseguiu o material necessário para o trabalho. Como último recurso, o dr. de Vries, um dos professores em Leyden, que tinha adquirido um profundo interesse pelo promissor jovem erudito, recomendou-lhe visitar seu pai em Haarlem (do dr. de Vries), visto que era um excelente estudante de História e tinha uma extensa biblioteca. Ele foi e ouviu o venerável pregador dizer que olharia em seus livros, mas que não tinha lembrança de jamais ter visto uma das obras de Lasco em sua coleção. Uma semana depois Kuyper retornou para a entrevista. Deixe-o contar por si mesmo a experiência daquela hora:
“Como eu posso fazer vocês participarem de meus sentimentos quando, sendo admitido ao venerável pregador, eu o ouvi dizer-me do modo mais simples, enquanto apontava para uma rica coleção de duodécimos [3] empilhados sobre uma mesa ao lado: ‘Isto é o que eu encontrei.' Eu mal pude acreditar em meus olhos. Tendo pesquisado em vão todas as bibliotecas na Holanda; tendo cuidadosamente examinado os catálogos das grandes bibliotecas em toda a Europa; tendo lido muitas vezes nas antologias e nos registros de livros raros nos quais os títulos das obras de Lasco estavam simplesmente copiados, sem as próprias obras jamais terem sido vistas; que suas obras, se ainda existe alguma, são extremamente raras; que a maioria delas, é quase certo, está perdida; que com uma possível exceção de duas ou três, ninguém as têm tido nas mãos por mais de duzentos anos – e então, como por um milagre, ser colocado face a face com a mais rica coleção Lasciana que poderia ser encontrada em qualquer biblioteca na Europa. Encontrar este tesouro, que era o ‘ser ou não ser' de meu estimado ensaio com um homem que tinha sido recomendado por um amigo fiel, mas que ainda não sabia que o tinha em sua posse e que a apenas uma semana atrás simplesmente mal se lembrava do nome Lasco – com toda sinceridade, quem em sua própria experiência deve ter tido uma surpresa como esta, conhecer o que significa ver um milagre divino confortá-lo em seu caminho.”
Seria desnecessário dizer que ele ganhou o prêmio. Mas a experiência fez mais – “ela o fez lembrar de Deus.” Ela lançou uma dúvida sobre seu racionalismo. Ele não poderia mais negar que havia algo como “o dedo de Deus.”
Outra experiência veio a ele por ocasião da leitura da famosa novela inglesa, O Herdeiro de Redcliffe, de Charlotte Yonge. Ele devorou o livro. E este deu-lhe uma impressão sobre a vida da igreja na Inglaterra, tal como estava faltando, quase completamente, à igreja na Holanda naquele tempo. Isto o colocou em contato com o profundo significado dos sacramentos, com o caráter impressionante da adoração litúrgica e com o que ele usou mais tarde para falar como “O Livro Anotado de Oração.” Mas, além e acima disso, ele sentiu em sua própria alma um reconhecimento irresistível da realidade de cada experiência espiritual pela qual o herói do livro, Filipe de Norville, passou. A total autocondenação do homem quebrantado de coração, de fato sua completa auto-aversão, o brilhante jovem estudante aplicou a si mesmo; isso tornou-se para ele um poder de Deus para a salvação.
Ponderando sobre essa experiência ele escreve: “O que minha alma passou naquele momento, somente vim a entender plenamente mais tarde; mas todavia naquela hora, não, naquele próprio momento, aprendi a desprezar o que anteriormente admirava, e a procurar o que anteriormente rejeitava. Vamos parar por aqui. Vocês conhecem o caráter permanente da impressão de uma experiência como esta; o que a alma encontra num conflito como este pertence àquele algo eterno, que apresenta-se para a alma anos mais tarde, forte e claramente definido, como se tivesse acontecido ontem.”
Mas, abaixo de Deus, foi o povo rural de sua primeira paróquia o instrumento para guiá-lo àquela plenitude de vida espiritual para a qual suas primeiras experiências apontavam. À medida que ministrava-lhes, admiravam seus talentos; e logo aprenderam a amá-lo pelo que era; mas colocaram-se sinceramente em oração conjunta e individual por sua inteira conversão a Cristo. “E,” como Kuyper escreve mais tarde, “sua fiel lealdade tornou-se uma bênção para meu coração, a ascensão da estrela da manhã da minha vida. Eu tinha sido tocado, mas não tinha ainda encontrado a Palavra de reconciliação. Em sua linguagem simples, trouxeram-me isto de forma absoluta, a única coisa na qual minha alma pode repousar. Eu descobri que as Santas Escrituras não somente fazem-nos encontrar a justificação pela fé, mas também mostram o fundamento de toda vida humana, as santas ordenanças que devem governar toda existência humana na Sociedade e no Estado.”
Assim começou sua vida cristã. Na cruz ele fez a grande rendição de si mesmo ao seu Salvador e ao seu serviço. “Dar testemunho de Cristo” tornou-se a paixão de sua vida: que Cristo é Rei em cada departamento da vida e a atividade humana era a diretriz que ele manteve soando em todos os seus escritos, discursos e labores. Quer como teólogo ou como estadista, como um líder na política, como presidente do sindicato cristão, como promotor da educação cristã, tudo foi feito com a ardente convicção de que: “Cristo governa não simplesmente pela tradição do que ele outrora foi, falou, fez e suportou; mas por um poder vivo que ainda agora, assentado como ele está à mão direita de Deus, exerce sobre terras e nações, gerações, famílias e indivíduos.”
Assim, o encontro de alguns livros perdidos, a leitura de uma novela, o ensino de um povo inculto, são as experiências que explicam, em parte, a grande obra do dr. Kuyper.
Quanto mais uma pessoa conhece o vasto escopo do variado labor desse grande homem, tanto mais profundamente impressionado fica com o extraordinário significado da produção devocional e mística de sua caneta. Profunda erudição teológica, grande habilidade política, perspicácia intelectual extraordinária em qualquer linha em geral não é tido ser compatível com a fé simples como de uma criança, discernimento místico e doçura de alma. Mas, nas palavras de um crítico de sua obra-prima devocional, Estar Perto de Deus , “Este livro de meditações refuta a idéia de que um teólogo profundo não pode ser um cristão afetuoso.” O próprio autor conta a história: “A comunhão de estar perto de Deus deve tornar-se realidade, na realização plena e vigorosa de nossa vida. Deve penetrar e dar cor a nossos sentimentos, nossas percepções, nossas sensações, nossos pensamentos, nossa imaginação, nossa vontade, nosso agir, nosso falar. Não deve colocar-se como um fator estranho em nossa vida, mas deve ser a paixão que inspira por toda existência.”
Na busca desse ideal, o dr. Kuyper gastou tempo para adicionar ao seu grande trabalho a produção de meditações devocionais toda semana. Ele escreveu mais de duas mil delas. São de um caráter inteiramente único. É dito sobre elas que formam uma literatura por si mesmas, e estão em sintonia com as melhores obras dos místicos holandeses, tais como Johannes Ruysbroek, Cornelius Jansinius, e Thomas de Kempis.
Com vigor quase imbatível, o dr. Kuyper continuou seu labor até bem perto do fim. Assistindo aos seus últimos momentos de vida, um amigo e colega perguntou-lhe: “Eu direi ao povo que Deus tem sido seu Refúgio e Fortaleza até o fim?” Embora fraco, a resposta veio imediatamente num distinto sussurro: “Sim, totalmente.”
NOTAS:
[1] - NT – Equivalente a nossa Câmara de Deputados.
[2] - NT – De muitos aspectos, variado.
[3] - NT – Refere-se ao tamanho das páginas usadas na publicação de um livro no período da Reforma. Uma página dividida em doze partes.

Fonte: Extraído da introdução do excelente livro “Calvinismo”, de Abraham Kuyper, publicado no Brasil pela Editora Cultura Cristã.