quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

O Arminianismo Moderno
por
R. C. Sproul


O Sínodo de Dort não destruiu o movimento arminiano. Ele se espalhou por todo o continente e mais tarde para a América Colonial. Ele sobrevive até hoje e, atualmente, desfruta de uma forte restauração. Em 1989, Clark H. Pinnock publicou The Grace of God, the Will of Man, um livro designado para defender o arminianismo.

No seu próprio estudo, no qual narra sua peregrinação pessoal do calvinismo para o arminianismo, Pinnock observa:

“Uma mudança teológica está a caminho entre os evangéLicos como também entre outros cristãos para longe do determinismo no que diz respeito à regra e salvação de Deus e em direção a uma orientação mais favorável ao relacionamento pessoal dinâmico entre Deus, o mundo e as criaturas humanas de Deus. A tendência começou, creio, por causa de uma leitura nova e fiel da Bíblia em diálogo com a cultura moderna, que coloca a ênfase na autonomia, temporalidade e mudança histórica”

Pinnock recebe com prazer essa tendência e afirma que os grandes teólogos freqüentemente mudam de opinião. Ele cita Karl Barth como um exemplo, referindo-se a Barth como “indubitavelmente, o maior teólogo de nosso século”. Ao avaliar essa tendência atual na teologia evangélica, ele ainda menciona:

“Ao mesmo tempo, no entanto, os calvinistas continuam sendo as principais figuras da unificação evangélica, muito embora seu domínio tenha diminuído. Eles controlam razoavelmente o ensino da teologia nos grandes seminários evangélicos; possuem e operam as maiores editoras; e, em grande parte, conduzem o movimento da inerrância. Isso significa que eles são fortes onde importa -na área da liderança intelectual e da propriedade... Embora haja muitos pensadores arminianos na apologética, missiologia e na prática do ministério, há apenas alguns poucos teólogos evangélicos prontos para defenderem as opiniões não-agostinianas”.

Sou menos otimista do que Pinnock sobre o atual estado do evangelicalismo. Talvez nós dois avaliemos a situação de um ponto de vista preconceituoso, sofrendo da síndrome da “grama sempre mais verde”. Pinnock indica que um propósito do The Grace of God, the Will of Man é “oferecer uma voz mais alta à maioria silenciosa dos evangélicos arminianos”. Aqui ele afirma que a maioria dos evangélicos está se afastando da influência que o pensamento agostiniano teve sobre eles. Ele diz:

“É difícil encontrar um teólogo calvinista que deseje defender a teologia reformada que inclua as visões tanto de Calvino quanto de Lutero em todos os seus particulares rigorosos, agora que Gordon H. Clark não está mais entre nós e John Gerstner se aposentou. Poucos têm estômago para tolerar a teologia calvinista em sua pureza lógica”.

O Dr. Gestner morreu após essas palavras terem sido escritas, assim talvez precisemos da lâmpada de Diógenes para encontrar teólogos calvinistas que defendam tanto Lutero quanto Calvino com vigor. No entanto, as noticias do fim do calvinismo são um pouco exageradas uma vez que ainda existem muitos com estômago teológico de ferro.
Na sua própria peregrinação, Pinnock chegou a questionar a consciência e presciência de Deus. Ele entende a relação essencial entre esses atributos divinos e as doutrinas da eleição e livre-arbítrio. Ele escreve:

"Finalmente, tive de repensar a onisciência divina e, relutantemente, perguntar se devemos pensar nela corno uma presciência exaustiva de tudo o que irá acontecer, como a maioria dos arminianos pensa. Descobri que não poderia livrar-me da intuição de que uma onisciência total como essa, necessariamente significaria que tudo o que iremos escolher no futuro já teria sido soletrado no registro de conhecimento divino e, conseqüentemente, a crença de que temos escolhas verdadeiramente significantes a fazer pareceria ser um erro. Conhecia o argumento calvinista de que a presciência completa era equivalente à predestinação porque implica imobilidade de todas as coisas desde a “eternidade passada”, e não poderia me livrar da sua força lógica."

É importante notar que a nova visão de Pinnock sobre a presciência de Deus vai além da visão da maioria dos arminianos, como ele indica. Ela parece ir muito além das visões sustentadas no conceito do meio-conhecimento desenvolvido pelo jesuíta espanhol Luis Molina. Esse conceito é habilmente explicado por William Lane Craig em The Grace of God, the Will of Man, e também desenvolvido de forma clara por Alvin Plantinga. Pinnock tenta escapar da “lógica” da presciência completa na teologia reformada clássica. Ele diz:

Por essa razão, tive de me perguntar se era biblicamente possível sustentar que Deus conhece tudo o que pode ser conhecido, exceto a escolha livre que não seria algo que pudesse ser conhecido até mesmo por Deus porque ainda não está resolvida na realidade.... Deus pode predizer bastante do que iremos escolher fazer mas não tudo porque alguma coisa permanece escondida no mistério da liberdade humana....
...Naturalmente a Bíblia louva a Deus por seu conhecimento detalhado do que irá acontecer e o que ele mesmo irá fazer... O Deus da Bíblia revela uma abertura para o futuro que a visão tradicional da onisciência simplesmente não pode acomodar....
...Precisamos de um teísmo do “livre-arbítrio”, uma doutrina de Deus que anda no caminho intermediário entre o teísmo clássico, que exagera a transcendência de Deus do mundo, e o teismo do sistema, que reivindica a imanência radical.

Essa declaração expressa algo do pensamento seminal de Pinnock, desenvolvido de forma mais completa no volume posterior The Openness of God. O que é digno de nota aqui é que Pinnock claramente percebe que está desafiando não meramente o calvinismo clássico mas também o próprio teísmo clássico. Ele procura reconstruir a teologia em algum lugar entre o teísmo clássico e a teologia do processo. Ele a chama de “teísmo do livre-arbítrio” porque a força condutora por trás dessa nova doutrina de Deus é a preocupação em manter a visão arminiana do livre-arbítrio humano. No The Openness of God, Pinnock reitera sua crítica da doutrina da onisciência no teísmo clássico e também levanta questões sobre outras doutrinas do teísmo clássico como as da imutabilidade e da onipotência.

Na superfície, essa reconstrução da doutrina de Deus parece carregar uma etiqueta de alto preço se alcançar a abertura que Pinnock deseja. No nível prático, admiramos como Deus pode saber qualquer coisa sobre o futuro exceto o que ele pessoalmente pretende fazer (intenções que são, elas mesmas, abertas às mudanças enquanto ele reage às decisões futuras dos homens). Se a História não é afetada de modo algum pelas decisões dos homens e se o conhecimento de Deus não inclui as futuras decisões humanas, como Deus pode conhecer tudo sobre o futuro da história do mundo? Como podemos encontrar qualquer conforto no futuro que Deus prometeu para seu povo se esse destino futuro jaz nas mãos dos homens? A âncora de nossa alma foi arrastada do seu ancoradouro. Não temos razão para confiar em nenhuma promessa que Deus fez sobre o futuro. Não apenas os melhores planos traçados dos ratos e homens se perdem mas também que se perdem, semelhantemente, os melhores planos traçados do Criador dos ratos e dos homens.
Essa fascinação com a abertura de Deus é um ataque não apenas ao calvinismo ou mesmo ao teísmo clássico, mas ao próprio Cristianismo.

Fonte: R.C. Sproul, Sola Gratia, A controvérsia sobre o livre arbítrio na história, Editora Cultura Cristã.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008



CONFISSÃO DE FÉ BATISTA DE NEW HAMPSHIRE
1833



CONTEÚDO

1. Das Escrituras
2. Do Verdadeiro Deus
3. Da Queda do Homem
4. Do Caminho da Salvação
5. Da Justificação
6. Da Natureza Livre da Salvação
7. Da Graça na Regeneração
8. Do Arrependimento e da Fé
9. Do Propósito da Graça de Deus
10. Da Santificação
11. Da Perseverança dos Santos
12. Da Harmonia da lei e do Evangelho
13. De uma Igreja Evangélica
14. Do Batismo e da Ceia do Senhor
15. Do Sábado Cristão
16. Do Governo Civil
17. Do Justo e do Ímpio
18. Do Mundo Vindouro


"Entre as principais confissões de fé Batistas, destacam-se: a Primeira Confissão de Londres (1644 – Inglaterra), a Segunda Confissão de Londres (1689 – Inglaterra), a Confissão de Fé New Hampshire (1833 - Estados Unidos) e a Declaração de Mensagem e Fé Batistas (1925 - Estados Unidos).

A Confissão de Fé de New Hampshire foi redigida pelo Rev. John Newton Brown (1803 - 1868), no Estado de New Hampshire, por volta de 1833, e publicada por uma comissão da Convenção Batista daquele Estado. Ela foi adotada pela mesma Convenção, chegando a influenciar outras confissões, sendo uma das mais largamente aceitas e amplamente usadas declarações de fé Batista nos Estados Unidos, especialmente nos estados do norte e do oeste. Trata-se de uma declaração clara e concisa da fé denominada Batista, em harmonia com as doutrinas de confissões mais antigas, porém expressa em forma mais moderada. Ela é relativamente breve quando comparada com outras confissões, contendo 18 artigos. De um modo geral, sua tendência é calvinista moderada...

Com a chegada dos missionários americanos no final do Século XIX ao Brasil, a Confissão de Fé de New Hampshire tornou-se a confissão dos Batistas brasileiros, passando a ser conhecida como Declaração de Fé das Igrejas Batistas do Brasil". Em 1983 a Convenção Batista Brasileira nomeou uma comissão para elaborar uma declaração de fé dos batistas brasileiros. Em 1985 a comissão apresentou a nova Declaração de Fé da Convenção Batista Brasileira, substituindo a Confissão de Fé de New Hampshire.

DECLARAÇÃO DE FÉ



1. Das Escrituras


Cremos que a Bíblia Sagrada foi escrita por homens divinamente inspirados, e é um perfeito tesouro de instrução celestial; que tem Deus como seu autor, salvação como seu fim, e verdade sem qualquer mistura de erro como seu conteúdo; que ela revela os princípios pelos quais Deus nos julgará; e por isso é, e continuará sendo até o fim do mundo, o verdadeiro centro da união cristã, e o supremo padrão pelo qual toda conduta, credos, e opiniões humanas devem ser julgados.


2. Do Verdadeiro Deus


Cremos que há um, e somente um, Deus vivo e verdadeiro, um Espírito infinito, inteligente, cujo nome é YAHVEH, o Criador e Supremo Governador do céu e da terra, inexprimivelmente glorioso em santidade, e digno de toda honra, confiança, e amor possíveis; que na unidade da divindade há três Pessoas, o Pai, o Filho, e o Espírito Santo; iguais em toda a perfeição divina, e executando distintos e harmoniosos ofícios na grande obra da redenção.


3. Da Queda do Homem


Cremos que o homem foi criado em santidade, sob a lei de seu Criador; mas por transgressão voluntária caiu daquele santo e feliz estado; em conseqüência do que todos os homens são agora pecadores, não por constrangimento, mas por escolha; sendo por natureza completamente destituídos daquela santidade requerida pela Lei de Deus, inegavelmente inclinado para o mal, e por isso sob justa condenação à ruína eterna, sem defesa ou desculpa.


4. Do Caminho da Salvação


Cremos que a salvação de pecadores é totalmente de graça, através do ofício mediador do Filho de Deus; que pelo decreto do Pai, livremente tomou sobre si nossa natureza, mas sem pecado; honrou a Lei Divina pela sua obediência pessoal; que tendo ressuscitado da morte, Ele está agora entronizado no céu; e unindo em sua maravilhosa pessoa as mais ternas simpatias com divinas perfeições, Ele é de todos os modos qualificado para ser um salvador adequado, compassivo e todo-suficiente.


5. Da Justificação


Cremos que a grande bênção evangélica que Cristo assegura a tantos quantos crêem nele é a justificação; que a justificação inclui o perdão de pecado, e a promessa de vida eterna sobre os princípios da justiça; que ela é aplicada, não em consideração de quaisquer obras de justiça que nós temos feito, mas exclusivamente através da fé no sangue do Redentor; em virtude do que sua perfeita justiça é livremente imputada a nós por Deus mediante a fé; que leva-nos para um estado da mais abençoada paz e favor com Deus, e nos assegura as bênçãos necessárias para o tempo e a eternidade.


6. Da Natureza Livre da Salvação


Cremos que as bênçãos da salvação são colocadas à disposição de todos pelo evangelho; que é o dever imediato de todos aceitá-las por uma fé cordial, penitente e obediente; e que nada impede a salvação do maior pecador na terra exceto sua própria depravação inerente e rejeição voluntária do evangelho; que a rejeição envolve-o em uma condenação agravada.


7. Da Graça na Regeneração


Cremos que, a fim de serem salvos, os pecadores devem ser regenerados, ou nascidos de novo; que a regeneração consiste em dar uma disposição santa à mente; que ela é efetuada de uma maneira acima da nossa compreensão pelo poder do Espírito Santo, em conexão com a verdade divina, de maneira a assegurar nossa obediência voluntária ao evangelho; e que sua evidência apropriada aparece nos santos frutos do arrependimento, fé e novidade de vida.


8. Do Arrependimento e da Fé


Cremos que o arrependimento e a fé são deveres sagrados, e também graças inseparáveis, operadas em nossas almas pelo Espírito regenerador de Deus; pelo que sendo profundamente convencidos de nossa culpa, perigo e incapacidade, e do caminho da salvação por Cristo, nós retornamos para Deus com contrição, confissão e súplica por misericórdia não fingidas; ao mesmo tempo recebendo genuinamente o Senhor Jesus Cristo como nosso profeta, sacerdote e Rei, e confiando nele somente como único e todo-suficiente salvador.


9. Do Propósito da Graça de Deus


Cremos que a eleição é eterno propósito de Deus, segundo o qual Ele graciosamente regenera, santifica e salva pecadores; que sendo perfeitamente consistente com a livre agência do homem, abrange todos os meios em conexão com o fim; que é uma demonstração gloriosíssima da bondade soberana de Deus, sendo infinitamente livre, sábia, santa, e imutável; que ela exclui completamente a vanglória, e promove humildade, amor, oração, louvor, confiança em Deus, e ativa imitação de sua livre misericórdia; que ela encoraja o uso dos meios no mais alto grau; que ela pode ser percebida pelos seus efeitos em todo aquele que verdadeiramente crê no evangelho; que é o alicerce da segurança cristã; e que verificá-la com respeito a nós mesmos demanda e merece a máxima diligência.


10. Da Santificação


Cremos que a santificação é o processo pelo qual, segundo a vontade de Deus, nós somos feitos participantes de sua santidade; que ela é uma obra progressiva; que é iniciada na regeneração; e que é efetivada nos corações dos crentes pela presença e poder do Espírito Santo, o Selador e Consolador, no uso contínuo dos meios decretados - especialmente a Palavra de Deus, o auto-exame, a abnegação, a vigilância, e a oração.


11. Da Perseverança dos Santos


Cremos que são crentes legítimos aqueles que resistem até o fim; que seus perseverantes vínculos com Cristo é o grande marco que distingui-os dos professos superficiais; que uma especial providência zela por seu bem-estar; e eles são guardados pelo poder de Deus através da fé para a salvação.


12. Da Harmonia da lei e do Evangelho


Cremos que a Lei de Deus é a regra eterna e imutável de seu governo moral; que ela é santa, justa, e boa; e que a incapacidade que as Escrituras atribuem aos homens caídos de cumprir seus preceitos provém inteiramente de seu amor ao pecado; livrá-los disso, e restaurá-los através de um mediador à obediência não fingida à santa Lei, é um grande fim do evangelho, e dos meios de graça associados com o estabelecimento da Igreja visível.


13. De uma Igreja Evangélica


Cremos que uma Igreja visível de Cristo é uma congregação de crentes batizados, associados pelo pacto na fé e comunhão do evangelho; observando as ordenanças de Cristo; governados por suas Leis, e exercitando os dons, direitos, e privilégios investidos neles pela sua Palavra; que seus únicos oficiais bíblicos são bispos, ou pastores, e diáconos, cujas qualificações, reivindicações, e deveres são definidos nas epístolas a Timóteo e Tito.


14. Do Batismo e da Ceia do Senhor


Cremos que o Batismo cristão é a imersão de um crente em água, em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; para anunciar, em um solene e belo símbolo, nossa fé no Salvador crucificado, sepultado e ressurreto, com seu efeito em nossa morte para o pecado e ressurreição para uma nova vida; que é pré-requisito aos privilégios de uma relação eclesiástica; e à Ceia do Senhor, na qual os membros da Igreja, pelo uso sagrado do pão e do vinho, devem comemorar juntos a morte de Cristo por amor; precedido sempre por solene auto-exame.


15. Do Sábado Cristão


Cremos que o primeiro dia da semana é o dia do Senhor, ou o sábado cristão; e deve ser mantido sagrado para propósitos religiosos, pela abstenção de todo o labor secular e recreações pecaminosas; pela observância devota de todos os meios de graça, tanto privado quanto público; e pela preparação para aquele repouso que restará para o Povo de Deus.


16. Do Governo Civil


Cremos que o governo civil é de nomeação divina para os interesses e boa ordem da sociedade humana; e que devemos interceder pelos magistrados, conscienciosamente honrá-los e obedecê-los; exceto apenas nas coisas opostas à vontade de nosso Senhor Jesus Cristo, que é o único Senhor da consciência, e o príncipe dos Reis da Terra.


17. Do Justo e do Ímpio


Cremos que há uma diferença radical e essencial entre o justo e o ímpio; que apenas tantos quantos por meio da fé são justificados em nome do Senhor Jesus, e santificados pelo Espírito do nosso Deus, são verdadeiramente justos em Sua avaliação; enquanto todos quantos continuam em impenitência e incredulidade são, aos Seus olhos, ímpios, e sob a maldição; e esta distinção mantém-se entre os homens tanto na morte como depois dela.


18. Do Mundo Vindouro


Cremos que o fim do mundo está se aproximando; que no último dia Cristo descerá do céu, e ressuscitará os mortos da sepultura para retribuição final; que uma solene separação então tomará lugar; que o ímpio será condenado à punição, e o justo ao júbilo infindáveis; e que este julgamento fixará para sempre o estado final dos homens no céu ou no inferno, sobre os princípios da justiça.

Confissões Batistas
Levando em consideração a intenção de postar algumas Confissões de Fé Batistas, o texto a seguir "Confissões de Fé na História Batista" de autoria de Franklin Ferreira, é extremamente útil e deverá servir como uma introdução ao assunto.

"Desde o começo o cristianismo confessou sua fé de forma lógica e objetiva, através de credos e confissões, e isto se refletiu na aceitação do Credo Apostólico (390), do Credo Niceno (352) e do Credo de Atanásio (670). Esta expressão vem do latim credo , “creio”. As funções destes credos, desde o princípio, foram oferecer ao candidato ao batismo um modo claro de expor sua fé; um roteiro para instrução na doutrina cristã; compreensão correta das Escrituras e teste de ortodoxia para os pastores; uso na adoração cristã, geralmente depois da leitura das Escrituras, como uma afirmação da fé congregacional. Com a Reforma Protestante, houve uma verdadeira explosão de confissões, designações de uma declaração formal da fé cristã. O valor de uma confissão é permanente, e reside no fato de que um documento confessional estimula a clareza de crença e a franqueza no debate teológico. O próprio Novo Testamento contém trechos de confissões formais de fé (Rm 6.17; I Co 1.21; 11.2; 15.1-8; Gl 6.6; II Ts 2.13; 3.6; I Tm 3.16; Tt 1.9; II Jo 9-10), e estes precedentes bíblicos são um forte apoio para o uso contínuo das confissões. A relação destes documentos com a Escritura é resumida pela Fórmula de Concórdia (1580): “Não são juizes como o é a Sagrada Escritura, porém apenas testemunho e exposição da fé, que mostram como em cada tempo a Sagrada Escritura foi entendida e explicada na igreja de Deus”, e todos os credos, confissões e “outros escritos dos antigos ou dos novos mestres” da igreja, “não devem ser equiparados à Escritura Sagrada, porém todos lhe devem ser completamente subordinados.”

Há uma tendência entre alguns batistas a rejeitarem qualquer formulação doutrinária mais elaborada. Mas os batistas sempre afirmaram sua fé, ao longo da história da Igreja, com confissões. W.J. McGlothlin ( Baptist Confession of Faith, American Baptist Society, 1911, 368 p.) menciona as seguintes: entre os Batistas Gerais (Arminianos) ingleses foram coletadas sete confissões de fé, além do “Credo Ortodoxo” (1677), e três outras sem título; os Batistas Particulares (Calvinistas) contribuíram com quatro confissões de fé, inclusive a “Segunda Confissão de Londres” (1677) e outras quatro confissões escritas por pastores, para suas igrejas. Entre os americanos, são mencionadas duas, entre elas, a “Confissão de Filadélfia” (1742). Haviam mais três, de grupos alemães, franceses e suíços. John Smyth, o iniciador do movimento batista na Inglaterra escreveu os “20 Artigos” (1609), os “38 Artigos” (1610) e, por fim, os “100 Artigos” (1612). Outros grandes batistas que produziram individualmente confissões de fé foram John Clarke, John Bunyan, Benjamin Keach, John Gill e C.H. Spurgeon. William L. Lumpkin ( Baptist Confession of Faith , Philadelphia: The Judson Press, 1959, 420 p.) menciona 39 confissões de fé e 12 outros textos. Nos Estados Unidos, as confissões batistas mais usadas e respeitadas são a “Confissão de Filadélfia” (1742), a “Confissão de New Hampshire” (1833) e a “Fé e Mensagem Batista” (1925). No Brasil, a “Confissão de New Hampshire” foi usada pela Convenção Batista Brasileira de 1920 até 1986, quando foi substituída pela “Declaração Doutrinária”.

Elas, unanimemente, têm uma forte teologia trinitariana e cristológica, e trazem o testemunho batista distintivo da natureza da igreja visível. Apesar de algumas significativas diferenças teológicas, e trazer, evidentemente, um testemunho que em alguns casos está condicionado pelo tempo e cultura, há um espantoso núcleo comum entre a grande maioria destas confissões. Um apelo à suficiência e supremacia das Sagradas Escrituras, uma afirmação da total corrupção da natureza humana, um claro testemunho de que a morte de Cristo na cruz é o único meio de expiação para o pecado do homem, a vital doutrina da justificação pela fé, a necessidade da conversão do coração como uma nova criação operada Espírito Santo e a ligação inseparável entre verdadeira fé e santidade pessoal. Ao afirmarem estas doutrinas, os antigos batistas claramente se colocaram no centro do cristianismo ortodoxo, juntamente com os Pais da Igreja, com os Reformadores, os Puritanos ingleses e os evangelistas do Grande Avivamento ocorrido na Inglaterra e Estados Unidos, afirmando aquilo que no passado, Richard Baxter, e no presente C. S. Lewis, chamaram de “essência” do cristianismo. Se queremos um despertamento que reforme os evangélicos no Brasil, que transforme a decadente sociedade pós-moderna, marcada por relativismo, individualismo e misticismo, precisamos confessar e expor firmemente estas doutrinas em nosso tempo! Como em épocas passadas, elas ainda conservam seu poder! "