sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

John Wycliffe
“O amor de Cristo nos constrange”

por

Pr. Franklin Ferreira




Uma igreja em declínio

Durante o século XV houve algumas tentativas de reforma da igreja, mas esta reforma não era dirigida contra as questões doutrinárias, mas mais contra a vida religiosa na prática, em particular contra os abusos presentes na igreja medieval. Ao mesmo tempo, houve outro movimento de reforma muito mais radical, que não se contentava em atacar questões referentes à vida e aos costumes, mas queria corrigir também as doutrinas da igreja, ajustando-as à mensagem do evangelho. Entre os que seguiram este caminho, os que mais se destacaram foram John Wycliffe e Jan Huss (1370-1415). Wycliffe viveu durante a época do “cativeiro babilônico” do papado (quando o papado foi estabelecido em Avignon, na França), e no início do “Grande Cisma” (que começou em 1378, quando dois papas rivais tentaram exercer autoridade sobre a igreja). Estes homens prepararam o caminho para a reforma protestante do século XVI.

A época em que Wycliffe viveu era caracterizada pela incerteza e pressões comuns à nossa época. A “peste negra” varreu a Inglaterra e a Europa e, em alguns lugares, um terço da população foi morta. O que ficou conhecido como a “Guerra dos Cem Anos” entre a Inglaterra e a França minou energias e recursos. A igreja possuía mais de um terço das terras da Inglaterra. O clero era normalmente inculto e imoral. Altos cargos na igreja eram comprados ou dados como favores políticos. Aos ingleses desagradava enviar dinheiro para um papa em Avignon, que estava sob influência do inimigo da Inglaterra, o rei da França. O controle dos salários relegava os pobres a uma existência marginalizada e conduziu à violenta Revolta dos Camponeses na Inglaterra, em 1381.


Um erudito cristão

Sabemos muito pouco da juventude de John Wycliffe, que nasceu em cerca de 1328, em uma rica família inglesa, em Hipswell, no Condado de Yorkshire. Parece que ele teve uma infância típica em uma pequena aldeia da Inglaterra, e uma juventude dedicada quase exclusivamente ao estudo. Ele começou sua vida acadêmica aos treze anos, indo estudar na Universidade de Oxford, no Balliol College. A Universidade de Oxford tinha alcançado grande reconhecimento, tendo sido considerada por muitos como a principal universidade na Europa. Tristemente, naquela época, em lugar de estudar as Escrituras, os homens gastavam o tempo estudando filósofos como Tomás de Aquino (c. 1224-1274) e John Duns Scotus (1265-1308). Porém havido um homem realmente cristão que era professor no Balliol College. O nome dele era Tomás de Bradwardine (falecido em 1349). Ele estava terminando sua carreira aproximadamente ao mesmo tempo em que Wycliffe estava começando a sua. Bradwardine estava pronto aceitar o que Deus tinha revelado em sua Palavra. Ele viu o caminho que outros perderam. Ele ensinou a verdade do Evangelho que Deus salva os homens de seus pecados por meio de sua livre graça. Luz começou a raiar na Europa por causa deste grande homem.

Wycliffe continuou seus estudos, financiando-os de uma forma duvidosa, mas de modo muito comum em sua época – aceitou um ofício pastoral e o salário atribuído a ele, mas sem cumprir suas obrigações. Isto possibilitou continuar sua carreira acadêmica em Oxford, recebendo seu doutorado em 1372, quando se tornou um dos mais brilhantes teólogos e filósofos de sua época.

Wycliffe saiu da universidade em 1371, para se colocar a serviço da coroa, ajudado pelo poderoso John de Gaunt, o Duque de Lancaster, filho de Eduardo III. Gaunt foi o governante de fato da Inglaterra, entre 1377 a 1381, depois da morte do pai, enquanto Ricardo II não tinha idade suficiente para reinar. Na época, havia tensões entre o trono inglês e o papado romano, particularmente com referência a certos impostos que o papado estava exigindo da Inglaterra. Wycliffe saiu em defesa da coroa, atacando a teoria que dizia que o poder temporal (estatal) se origina do espiritual (eclesiástico). Ele participou também de uma embaixada em 1375, em Bruges, na Bélgica, em que discutiu com os legados do papa os pontos em debate. Parece que sua lógica inflexível, aliado a sua falta de senso da realidade política, tornava-o pouco apto para o serviço diplomático, e por isto ele não voltou a ser enviado em missões semelhantes. A partir de então ele foi usado principalmente como um polemista demolidor, que o estado inglês empregava contra seus inimigos da igreja.

Este debate em que se envolveu, somada ao escândalo do “Grande Cisma”, o conduziu a posições cada vez mais ousadas, atacando não apenas o papa e os poderosos senhores da igreja, mas também os poderosos do estado. Em seu entendimento, assim como o poder espiritual tinha seus limites, o temporal também os tinha. Ele também argumentou que apenas o governante piedoso pode exercer a autoridade corretamente, e que governantes ímpios não tem autoridade legítima – sejam eles nobres, reis ou papas. Por causa disto, os nobres que antes o apoiavam foram se separando dele, deixando-o cada vez mais só.


Um crítico da Igreja

Wycliffe então voltou para a Universidade de Oxford, onde tinha muitos seguidores e admiradores. Mas também ali o cerco se fechava. Ele tem sido chamado de a “estrela da manhã da Reforma”, porque audaciosamente questionou a autoridade papal, criticou a venda de indulgências (a qual supostamente libertava as pessoas do castigo do purgatório), falou abertamente contra a hierarquia eclesiástica e negou a realidade da transubstanciação – a igreja romana dizia que a substância do pão e do vinho é mudada em corpo e sangue de Jesus Cristo durante a missa. Ele entendia que a substância dos elementos era indestrutível e que Cristo estava apenas espiritualmente presente no sacramento. Em suas palavras, “quando vemos a hóstia não devemos crer que ela própria é o corpo de Cristo, mas que o corpo de Cristo está sacramentalmente escondido nela... A nós cristãos é permitido negar que o pão que consagramos é idêntico ao corpo de Cristo, embora seja ele um sinal eficiente dele... [Aqueles que identificam] falham em distinguir entre a figura e a coisa figurada e em considerar o significado figurativo... O receber espiritual do corpo de Cristo consiste não num receber corpóreo, no mastigar ou tocar da hóstia consagrada, mas no alimentar da alma de fé frutífera conforme a qual nosso espírito é alimentado no Senhor... Porque nada é mais horrível do que a necessidade de comer a carne materialmente e o beber o sangue materialmente de um homem amado [Jesus Cristo] tão claramente” (A Eucaristia 1:2, 11; 7:58; 1:15). Se adotada, a posição de Wycliffe significaria que o sacerdote não mais reteria a salvação de alguém por ter em suas mãos o corpo e o sangue de Cristo na comunhão. A posição de Wycliffe não é totalmente clara, e tem sido reclamada tanto pelos seguidores de Martinho Lutero como pelos de João Calvino.

Seus ataques contra os monges (as ordens monásticas eram comprometidas com a pobreza, mas toda a sua considerável riqueza era mantida de forma injusta, não lhes pertencendo de forma legítima), que tinham começado anos antes, lhe valeram muitos inimigos. Em 1377, o papa Gregório XI condenou John Wycliffe por seus ensinamentos e pediu que a Universidade de Oxford o demitisse. Por instigação do arcebispo de Canterbury, Simon de Sudbury, o reitor da universidade convocou uma assembléia para discutir os ensinos de Wycliffe sobre a ceia, e esta assembléia o condenou por estreita margem de votos, em 1380. Mesmo assim, muitos em Oxford ainda o defendiam, e as autoridades não se atreviam a tomar atitudes contra ele. Durante vários meses ele esteve preso em sua casa, privado da liberdade, mas com permissão para continuar escrevendo seus livros, cada vez mais agressivos. Em 1381, a Revolta dos Camponeses na Inglaterra forçou a igreja e os nobres a cooperarem entre si na restauração da lei e da ordem. Embora Wycliffe não estivesse envolvido na rebelião, aqueles que se opunham a ele alegavam que a revolta fora resultado de seus ensinos. Aproveitando-se da situação, os líderes da igreja inglesa forçaram seus seguidores a saírem de Oxford.


Tradutor das Escrituras

Por causa das pressões de um velho inimigo, William Courtenay, que era bispo de Londres, Wycliffe se retirou para a igreja paroquial de Lutterworth, perto de Rugby, em 1382. Com o passar dos anos, ele foi dando cada vez mais ênfase na autoridade das Escrituras, em detrimento da autoridade do papa e das tradições eclesiásticas. Ele entendia que as Escrituras pertencem à igreja, e por isto devem ser interpretadas dentro dela e por ela. Para ele, as Escrituras contém tudo que é necessário para a salvação, sem qualquer necessidade de tradições adicionais.

Além disto, ele acreditava que o melhor caminho para prevalecer em sua luta contra a autoridade abusiva da igreja católica era tornar a Bíblia acessível às pessoas em sua própria língua. Desse modo, poderiam ler por si mesmas acerca da forma como cada uma poderia ter um relacionamento pessoal com Deus através de Jesus Cristo – independente de qualquer autoridade eclesiástica. Como ele disse: “As palavras de Deus darão aos homens nova vida mais do que as outras palavras lidas por mero prazer. Oh, maravilhoso poder da Divina Semente que vence homens fortes e armados, amacia os corações duros e renova e transforma em homens piedosos aqueles que tinham sido brutalizados pelos pecados, e se afastaram infinitamente de Deus. Obviamente tal miraculoso poder nunca poderia ser operado pelo trabalho de um sacerdote, se o Espírito da Vida, e a Eterna Palavra, acima de qualquer outra coisa, não operassem”. Em 1382, atacou a autoridade do papa, dizendo num livro que Cristo e não o papa era o chefe da igreja. Afirmou que a Escritura e não a igreja era a autoridade única para o crente e que a igreja romana deveria se modelar segundo o padrão da igreja do Novo Testamento.

Em Lutterworth, Wycliffe e alguns de seus antigos alunos, completaram a tradução do Novo Testamento por volta de 1380 e o Antigo Testamento em 1382. Enquanto Wycliffe concentrava seus esforços no Novo Testamento, um de seus amigos, Nicolau de Hereford, trabalhava sob sua supervisão na tradução do Antigo Testamento. Wycliffe e seus companheiros, por não conhecerem o hebraico e o grego originais, traduziram o texto do latim para o inglês – usando a tradução latina de Jerônimo, escrita à mão a mais de 100 anos. Um dos amigos mais chegados de Wycliffe, John Purvey (c. 1353-1428), continuou a obra de Wycliffe, lançando, em 1388, uma revisão de sua tradução. Purvey era um erudito, e seu trabalho foi muito bem recebido por sua geração e pelas que se seguiram. Menos de um século depois, a edição revista de Purvey havia substituído a Bíblia inicial de Wycliffe. Eles foram os primeiros ingleses a traduzir toda a Bíblia do latim para o inglês.

Outros de seus escritos, além dos seus trabalhos sobre os problemas da Igreja e do Estado, incluíam tratados de lógica e metafísica e numerosos livros e sermões teológicos. Em um sermão intitulado “O amor de Jesus” ele expressa de forma comovente seu amor por Cristo, que o constrangeu a se lançar à obra de reforma da igreja: “A não ser que um homem seja primeiro purificado por provações e tristezas, ele não pode alcançar a doçura do amor de Deus. Oh, tu amor eterno, inflama minha mente para que eu ame a Deus, que incendeie tudo, menos o Seu chamado. Oh, bom Jesus! Quem mais poderia me dar o que sinto de Ti. Agora, Tu deves ser sentido, e não visto. Entra nos mais íntimos recessos da minha alma; entra no meu coração e enche-o completamente com Tua claríssima doçura; faze com que minha mente beba profundamente do forte vinho do Teu doce amor; pois somente Tua presença é para mim consolo ou conforto, e só Tua ausência me deixa entristecido. Oh, Tu, Santo Espírito, que sopras onde queres, entra em mim, atrai-me a Ti, para que eu possa desprezar e ter em nada em meu coração todas as coisas deste mundo. Inflama o meu coração com o Teu amor que para sempre arderá sobre o Teu altar. Vem, eu te imploro, doce e verdadeira alegria; vem doçura tão desejável; vem meu amado, que és todo o meu conforto”. Esse amor deveria ser uma força impulsora para todos os cristãos hoje.


Precursor da Reforma

E foi também por este amor que, em pouco tempo, o país se viu invadido pelos “lolardos”, ou “pregadores pobres”. Vários dos seus discípulos se dedicaram a divulgar suas doutrinas entre o povo, ainda durante a vida do mestre de Oxford. As doutrinas dos “lolardos” eram claras: A Bíblia deveria ser colocada à disposição do povo em seu próprio idioma. As distinções entre o clero e os leigos, com base no rito de ordenação eram contrárias às Escrituras. Clérigos injustos deveriam ser desobedecidos. A principal função dos ministros de Deus deveria ser pregar, e eles deveriam ser proibidos de ocupar cargos públicos, pois “ninguém pode servir a dois senhores”. Além disto o celibato de sacerdotes e monges era uma abominação que produzia imoralidade, aberrações sexuais, abortos e infanticídios. O culto às imagens, as peregrinações, as orações em favor dos mortos e a doutrina da transubstanciação eram pura magia e superstição.

Os “lolardos” incluíam estudantes da Universidade de Oxford, pequenos proprietários e muitos pobres das áreas rurais e urbanas. A igreja romana, através de uma declaração apoiada pelo Parlamento, em 1401, passou a perseguir e castigar com a pena de morte a pregação dos “lolardos”. Alguns estudiosos acham que esta perseguição foi eficaz na destruição do movimento até o fim do século XV. Outros argumentam que a influência deste grupo foi preservada em certos lugares e inspiraram a Reforma no século XVI. Mas a influência de Wycliffe foi muito mais forte na Europa continental. O casamento de Ricardo II, da Inglaterra, com Anne da Boêmia, firmou vínculos espirituais com a Boêmia (atual República Tcheca). Pela influência da rainha, os trabalhos de Wycliffe foram levados para a Boêmia, onde Jan Huss foi grandemente influenciado por eles. Suas idéias foram levadas para este país através de estudantes tchecos que estudavam na Universidade de Oxford (entre eles, Jerônimo de Praga), lançando os fundamentos dos ensinos de Huss. Através de sua influência na Boêmia, Wycliffe realmente foi um precursor da Reforma protestante.

Wycliffe continuou escrevendo até sua morte, no Natal de 1384, em conseqüência de um derrame cerebral. Já que faleceu estando em comunhão com a igreja, protegido da fúria da igreja por seus amigos ligados à nobreza, ele foi enterrado em terreno consagrado. Mas sua influência continuou tão forte que os ensinos de Wycliffe foram formalmente condenados, no concílio de Constança (1414-1418), trinta anos mais tarde. Ordens foram dadas para que seus escritos fossem destruídos, desenterraram seus ossos, queimaram-nos e lançaram suas cinzas no rio Swift. De qualquer maneira, as autoridades pensaram que, ao queimar seus restos mortais, eles poderiam apagar sua memória. Mas tais ações não poderiam parar a fome pela Palavra de Deus e pela verdade.

Como disse o historiador Thomas Fuller: “Eles queimara seus ossos até às cinzas / e as lançaram na correnteza, / um riacho próximo que corria velozmente. / Assim o riacho levou as cinzas para o Avon, / o Avon para o Severn; o Severn para os mares estreitos; / e eles para o oceano. E assim as cinzas de Wycliffe são o emblema da sua doutrina / que agora está espalhada para o mundo todo”. Uma grande organização evangélica missionária, fundada em 1942, recebeu seu nome, e, em cooperação com outros ministérios semelhantes, os tradutores da “Associação Wycliffe para Tradução da Bíblia” (Wycliffe Bible Translators) almejam traduzir a Bíblia para cada uma das 2.500 línguas restantes sobre a Terra que não têm as Sagradas Escrituras.


O autor: Franklin Ferreira (Bacharel em Teologia, Mestre em Teologia, Bacharelando em Educação e Doutorando em Teologia) é professor de teologia sistemática no Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, no Rio de Janeiro, e na Escola de Pastores, em Niterói.


fonte: http://www.monergismo.com/


Abraham Kuyper
por
John Hendrik





O dr. Abraham Kuyper nasceu em Maassluis, na Holanda, em 29 de Outubro de 1837. Seus pais eram o Rev. Jan Hendrik e Heriette Huber Kuyper. Em Maassluis, e em Middelburg, onde seu pai foi chamado em 1849, freqüentou a escola. Seus professores, nos é dito, tomaram-no a princípio como um menino lento no entendimento. Eles devem ter mudado sua opinião quando, com a precoce idade de doze anos, estava habilitado a entrar no Ginásio em Middelburg. No tempo oportuno foi matriculado na Universidade de Leyden, na qual foi graduado com a mais alta honra. Foi também aqui que obteve seu Doutorado em Teologia Sagrada em 1863, quando estava com cerca de vinte e seis anos de idade.
Um ano mais tarde, começou seu ministério em Beesd; foi então chamado para Utrecht, e dali, em 1870, para Amsterdam. Em 1872, tornou-se Editor Chefe do De Standaard (O Estandarte), um jornal diário, e o órgão oficial do partido Anti-Revolucionário, que na política representa o contingente protestante da nação holandesa. Pouco depois ele assumiu a função de editor do De Heraut (O Arauto), um jornal semanal distintivamente cristão, publicado às sextas-feiras. Por mais de quarenta e cinco anos, ocupou ambas exigentes posições com extraordinário poder e vigor.
Em 1874, foi eleito membro da Casa Baixa do Parlamento, [1] função que exerceu até 1877. Em 1880, fundou a Universidade Livre de Amsterdam, a qual tomava a Bíblia como a base incondicional sobre a qual deveria ser erguida toda a estrutura do conhecimento humano em cada departamento da vida.
Então seguiram-se vinte anos de árduo labor, na Universidade e fora dela, quando alguns de seus maiores tratados foram escritos, cobrindo um período que pode bem ser considerado como tendo exercido uma influência muito importante na história eclesiástica e política de seu país. Foi por seu labor quase sobre-humano, não menos do que por sua força e nobreza de caráter, que deixou “pegadas nas areias do tempo” com tal indelével clareza que em 1907, quando de seu 70 º aniversário foi realizada uma celebração nacional, sendo dito: “A história da Holanda na igreja, no Estado, na imprensa, na escola e nas ciências dos últimos quarenta anos, não pode ser escrita sem a menção de seu nome em quase todas as páginas, pois durante este período a biografia do dr. Kuyper é, numa extensão considerável, a história da Holanda.”
Em 1898, ele visitou os Estados Unidos da América, onde proferiu as “Palestras Stone” no Seminário Teológico de Princeton. Foi então que a Universidade de Princeton conferiu a ele o Doutorado em Direito (São estas palestras que estão contidas nas páginas deste presente volume.).
Após seu retorno à Holanda, ele reassumiu seu trabalho como líder do partido Anti-Revolucionário, até que, em 1901, foi convocado pela Rainha Wilhelmina para formar um Ministério. Serviu como primeiro-ministro até 1905. A seguir, gastou mais de um ano em viagem, um relato descritivo da qual apareceu numa obra de dois volumes, Om de Oude Wereld-Zee (Ao Redor do Velho Mar Mundial), da qual toda edição foi vendida antes de ser impressa.

Foto tirada na data da posse como primeiro-ministro

Depois disto, o dr. Kuyper residiu em Haia como Ministro de Estado, na opinião pública a figura mais importante na terra, e em alguns aspectos sem igual no mundo. Aos 75 anos de idade, começou uma série de artigos semanais na coluna do De Heraut: “Van de Voleinding” (Do fim do Mundo), 306 artigos ao todo. A série levou seis anos para ser completada. De Maasbode , uma publicação Católica Romana dos Países Baixos, refere-se a esta obra como, “a mais excepcional e sem rival em toda literatura sobre o assunto.” Referências ao fim do mundo são delineadas através de todos os livros da Bíblia, cuidadosamente expostas, enquanto o Apocalipse de João é tratado seção por seção. Quando estava com 82 anos, o velho dr. Kuyper estava traçando planos para outra grande obra sobre O Messias , mas o fim veio em 8 de Novembro de 1920.
Durante todos estes anos sua obra foi multiforme a um grau estarrecedor. Como tem sido dito: “Nenhum departamento do conhecimento humano era estranho a ele.” E quer o tomemos como estudante, pastor ou pregador; como lingüista, teólogo ou professor universitário; como líder de partido, organizador ou estadista; como filósofo, cientista, publicista, crítico ou filantropo – há sempre “algo incompreensível nos poderosos labores deste lutador incansável; sempre algo tão incompreensível quanto o gênio sempre é.” Mesmo aqueles que discordaram dele, e foram muitos, o honraram como “um oponente de dez cabeças e umas cem mãos.” Aqueles que compartilharam sua visão e seus ideais o apreciaram e o amaram “como um dom de Deus para nossa época.”
Qual era o segredo deste poder quase sobre-humano?
Em 1897, no 25º aniversário de sua função como editor do De Standaard , o dr. Kuyper disse: “Um desejo tem sido a paixão predominante de minha vida. Uma grande motivação tem agido como uma espora sobre minha mente e alma. E antes que seja tarde, devo procurar cumprir este sagrado dever que é posto sobre mim, pois o fôlego de vida pode me faltar. O dever é este: Que apesar de toda oposição terrena, as santas ordenanças de Deus serão estabelecidas novamente no lar, na escola e no Estado para o bem do povo; para esculpir, por assim dizer, na consciência da nação as ordenanças do Senhor, para que a Bíblia e a Criação dêem testemunho, até a nação novamente render homenagens a Deus.”
Poucos homens tiveram um ideal como este diante de si. Poucos homens foram tão obedientes às exigências de um tal propósito de vida como ele, pois literalmente deu seu próprio corpo, alma e espírito a este alto chamado. Ele procurava administrar bem seu tempo. Cada hora do dia e da noite tinha sua própria tarefa. Seus escritos contam mais de duzentas obras, muitas das quais de três e quatro volumes cada, e cobrem uma série extraordinária de assuntos.
Como homem, apreciava singularmente uma palavra ou ato de bondade por parte dos outros. O escritor desta nota fala aqui de uma experiência pessoal. O dr. Kuyper conhecia algo da santa arte de amar. Orgulhava-se de ser um homem do povo. É lembrado por muitos com admiração e gratidão, que embora pressionado por seus labores multifários, [2] nunca recusou audiência a qualquer um que viesse a ele para conselho ou ajuda.
O dr. Kuyper nunca reivindicou originalidade. Sua vida e labores não podem ser explicados somente por ele mesmo. Nos restringiremos aqui às correntes ocultas mais profundas de sua vida espiritual, como o segredo de seu poder fenomenal.
Nos seus primeiros anos, a vida religiosa em seu país estava em decadência. “A vida eclesiástica estava fria e formal. A religião estava quase morta. Não havia Bíblia nas escolas. Não havia vida na nação.”
Mas não eram raros os sinais de coisas melhores por vir. Já em 1830, Groen van Prinsterer, um membro do Parlamento começou a protestar contra o espírito dos tempos. “Isto produziu um reavivamento da proclamação do evangelho – que por natureza todos os homens são pecadores necessitando do sangue expiador de Cristo. Isto foi encarado como grande ofensa por muitos. Não demorou muito até que os evangélicos não fossem mais tolerados. Não era a irreligião que era procurada, mas uma religião que agradasse a cada um, inclusive os judeus.”
Por isso, quando o assunto deste esboço estava com um estudante universitário, não era de se estranhar que ele não sentisse inclinação para o ministério do evangelho. Ele disse que não tinha simpatia por uma igreja que espezinhou sua própria honra; nem por uma religião que era apresentada por uma igreja como essa. Ele acompanhou a corrente moderna, e entusiasticamente tomou parte em aplaudir o professor Rauwenhoff, que abertamente negou a ressurreição corporal de Jesus.
Uma série de experiências, contudo, produziu profunda impressão sobre o jovem erudito.
A Universidade de Groningen ofereceu um prêmio para o melhor ensaio sobre João de Lasco, o grande reformador polonês. Por recomendação de seus professores, Kuyper resolveu tornar-se um dos competidores. Imagine seu desapontamento quando após uma cuidadosa pesquisa em todas as grandes bibliotecas de seu país e nas de toda Europa não conseguiu o material necessário para o trabalho. Como último recurso, o dr. de Vries, um dos professores em Leyden, que tinha adquirido um profundo interesse pelo promissor jovem erudito, recomendou-lhe visitar seu pai em Haarlem (do dr. de Vries), visto que era um excelente estudante de História e tinha uma extensa biblioteca. Ele foi e ouviu o venerável pregador dizer que olharia em seus livros, mas que não tinha lembrança de jamais ter visto uma das obras de Lasco em sua coleção. Uma semana depois Kuyper retornou para a entrevista. Deixe-o contar por si mesmo a experiência daquela hora:
“Como eu posso fazer vocês participarem de meus sentimentos quando, sendo admitido ao venerável pregador, eu o ouvi dizer-me do modo mais simples, enquanto apontava para uma rica coleção de duodécimos [3] empilhados sobre uma mesa ao lado: ‘Isto é o que eu encontrei.' Eu mal pude acreditar em meus olhos. Tendo pesquisado em vão todas as bibliotecas na Holanda; tendo cuidadosamente examinado os catálogos das grandes bibliotecas em toda a Europa; tendo lido muitas vezes nas antologias e nos registros de livros raros nos quais os títulos das obras de Lasco estavam simplesmente copiados, sem as próprias obras jamais terem sido vistas; que suas obras, se ainda existe alguma, são extremamente raras; que a maioria delas, é quase certo, está perdida; que com uma possível exceção de duas ou três, ninguém as têm tido nas mãos por mais de duzentos anos – e então, como por um milagre, ser colocado face a face com a mais rica coleção Lasciana que poderia ser encontrada em qualquer biblioteca na Europa. Encontrar este tesouro, que era o ‘ser ou não ser' de meu estimado ensaio com um homem que tinha sido recomendado por um amigo fiel, mas que ainda não sabia que o tinha em sua posse e que a apenas uma semana atrás simplesmente mal se lembrava do nome Lasco – com toda sinceridade, quem em sua própria experiência deve ter tido uma surpresa como esta, conhecer o que significa ver um milagre divino confortá-lo em seu caminho.”
Seria desnecessário dizer que ele ganhou o prêmio. Mas a experiência fez mais – “ela o fez lembrar de Deus.” Ela lançou uma dúvida sobre seu racionalismo. Ele não poderia mais negar que havia algo como “o dedo de Deus.”
Outra experiência veio a ele por ocasião da leitura da famosa novela inglesa, O Herdeiro de Redcliffe, de Charlotte Yonge. Ele devorou o livro. E este deu-lhe uma impressão sobre a vida da igreja na Inglaterra, tal como estava faltando, quase completamente, à igreja na Holanda naquele tempo. Isto o colocou em contato com o profundo significado dos sacramentos, com o caráter impressionante da adoração litúrgica e com o que ele usou mais tarde para falar como “O Livro Anotado de Oração.” Mas, além e acima disso, ele sentiu em sua própria alma um reconhecimento irresistível da realidade de cada experiência espiritual pela qual o herói do livro, Filipe de Norville, passou. A total autocondenação do homem quebrantado de coração, de fato sua completa auto-aversão, o brilhante jovem estudante aplicou a si mesmo; isso tornou-se para ele um poder de Deus para a salvação.
Ponderando sobre essa experiência ele escreve: “O que minha alma passou naquele momento, somente vim a entender plenamente mais tarde; mas todavia naquela hora, não, naquele próprio momento, aprendi a desprezar o que anteriormente admirava, e a procurar o que anteriormente rejeitava. Vamos parar por aqui. Vocês conhecem o caráter permanente da impressão de uma experiência como esta; o que a alma encontra num conflito como este pertence àquele algo eterno, que apresenta-se para a alma anos mais tarde, forte e claramente definido, como se tivesse acontecido ontem.”
Mas, abaixo de Deus, foi o povo rural de sua primeira paróquia o instrumento para guiá-lo àquela plenitude de vida espiritual para a qual suas primeiras experiências apontavam. À medida que ministrava-lhes, admiravam seus talentos; e logo aprenderam a amá-lo pelo que era; mas colocaram-se sinceramente em oração conjunta e individual por sua inteira conversão a Cristo. “E,” como Kuyper escreve mais tarde, “sua fiel lealdade tornou-se uma bênção para meu coração, a ascensão da estrela da manhã da minha vida. Eu tinha sido tocado, mas não tinha ainda encontrado a Palavra de reconciliação. Em sua linguagem simples, trouxeram-me isto de forma absoluta, a única coisa na qual minha alma pode repousar. Eu descobri que as Santas Escrituras não somente fazem-nos encontrar a justificação pela fé, mas também mostram o fundamento de toda vida humana, as santas ordenanças que devem governar toda existência humana na Sociedade e no Estado.”
Assim começou sua vida cristã. Na cruz ele fez a grande rendição de si mesmo ao seu Salvador e ao seu serviço. “Dar testemunho de Cristo” tornou-se a paixão de sua vida: que Cristo é Rei em cada departamento da vida e a atividade humana era a diretriz que ele manteve soando em todos os seus escritos, discursos e labores. Quer como teólogo ou como estadista, como um líder na política, como presidente do sindicato cristão, como promotor da educação cristã, tudo foi feito com a ardente convicção de que: “Cristo governa não simplesmente pela tradição do que ele outrora foi, falou, fez e suportou; mas por um poder vivo que ainda agora, assentado como ele está à mão direita de Deus, exerce sobre terras e nações, gerações, famílias e indivíduos.”
Assim, o encontro de alguns livros perdidos, a leitura de uma novela, o ensino de um povo inculto, são as experiências que explicam, em parte, a grande obra do dr. Kuyper.
Quanto mais uma pessoa conhece o vasto escopo do variado labor desse grande homem, tanto mais profundamente impressionado fica com o extraordinário significado da produção devocional e mística de sua caneta. Profunda erudição teológica, grande habilidade política, perspicácia intelectual extraordinária em qualquer linha em geral não é tido ser compatível com a fé simples como de uma criança, discernimento místico e doçura de alma. Mas, nas palavras de um crítico de sua obra-prima devocional, Estar Perto de Deus , “Este livro de meditações refuta a idéia de que um teólogo profundo não pode ser um cristão afetuoso.” O próprio autor conta a história: “A comunhão de estar perto de Deus deve tornar-se realidade, na realização plena e vigorosa de nossa vida. Deve penetrar e dar cor a nossos sentimentos, nossas percepções, nossas sensações, nossos pensamentos, nossa imaginação, nossa vontade, nosso agir, nosso falar. Não deve colocar-se como um fator estranho em nossa vida, mas deve ser a paixão que inspira por toda existência.”
Na busca desse ideal, o dr. Kuyper gastou tempo para adicionar ao seu grande trabalho a produção de meditações devocionais toda semana. Ele escreveu mais de duas mil delas. São de um caráter inteiramente único. É dito sobre elas que formam uma literatura por si mesmas, e estão em sintonia com as melhores obras dos místicos holandeses, tais como Johannes Ruysbroek, Cornelius Jansinius, e Thomas de Kempis.
Com vigor quase imbatível, o dr. Kuyper continuou seu labor até bem perto do fim. Assistindo aos seus últimos momentos de vida, um amigo e colega perguntou-lhe: “Eu direi ao povo que Deus tem sido seu Refúgio e Fortaleza até o fim?” Embora fraco, a resposta veio imediatamente num distinto sussurro: “Sim, totalmente.”
NOTAS:
[1] - NT – Equivalente a nossa Câmara de Deputados.
[2] - NT – De muitos aspectos, variado.
[3] - NT – Refere-se ao tamanho das páginas usadas na publicação de um livro no período da Reforma. Uma página dividida em doze partes.

Fonte: Extraído da introdução do excelente livro “Calvinismo”, de Abraham Kuyper, publicado no Brasil pela Editora Cultura Cristã.